OS PENSADORES
“GIORDANO BRUNO
SOBRE O INFINITO “O UNIVERSO
“EOS MUNDOS O ENSAIADOR
TOMMASO CAMPANELLA
A CIDADE DO SOL
EDITOR: VICTOR CIVITA
Títulos originais: De "Infinito, Universo e Mondi H Saggiatore Civitas Solis
1.º edição — maio 1973
e — Copyright desta edição, 1973, Abril S.A. Cultural e Industrial, São Paulo. Direitos exclusivos da Abril S.A. Cultural e Industrial, São Paulo, sobre as traduções: Sobre o Infinito, O Universo e os Mundos (com a Epístola Preambular) e O Ensaiador:
Tradução publicada sob licença de Edições de Ouro, São Paulo: A Cidade do Sol.
SUMARIO
SOBRE O INFINITO, O UNIVERSO E OS MUNDOS ...ccccc... E EpÍSTOLA PREAMBULAR ......ccc. SRA PANE E 9 DIALOGO PRIMEIRO ...i...cccc.. RR RE 2 DIÁLOGO SEGUNDO? vein pride ces RARA ar Sa PER Re Ra DER 39 DIALOGO TERCEIROS ps ans DS e Rd ARA RS a Rn Rr A 49 DISLOCO QUAREOS Mia adora ao Sr ao o pat SR RR Tn 67 DIALOCO QUINTO DA ana sner a E here RE o caça 79
ENS AA CR pa ro ei Dj O Gen PC A a DE Ra E ds DAR 99
ACIDADE DOSOL E eso: O SR RR Ro qu 4 Mo Dre 239 DIALOGO ENTRE O GRAO-MESTRE DOS HOSPITALARIOS E UM ALMI- RANTE GENOVES ....... AURA a A 6 RARE 241 I — A CIDADE DO SOL E A DOUTRINA POLÍTICA ....ccciccc Bio II — SOBRE A COMUNIDADE DOS BENS EXTERNOS ........ccc.. 279
GIORDANO BRUNO
SOBRE O INFINITO O UNIVERSO E OS MUNDOS
Tradução de HELDA BARRACO e NESTOR DEOLA (Epístola Preambular )
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EPÍSTOLA PREAMBULAR
PARA O ILUSTRÍSSIMO SENHOR MICHEL DE CASTELNAU
Senhor de Mauvissiêre, Concressault e Joinville, Cavaleiro da Ordem do Rei Cristianíssimo, Conselheiro do seu Conselho privado, Capitão de cinquenta homens de armas, e Embaixador junto a Sereníssima Rainha da Inglaterra.
Se eu, ilustríssimo Cavaleiro, manejasse um arado, apascentasse um rebanho, culti- vasse uma horta, remendasse uma veste, ninguém me daria atenção, poucos me observa- riam, raras pessoas me censurariam e eu poderia facilmente agradar a todos. Mas, por ser eu delineador do campo da natureza, por estar preocupado com o alimento da alma, interessado pela cultura do espírito e dedicado à atividade do intelecto, eis que os visados me ameaçam, os observados me assaltam, os atingidos me mordem, os desmascarados me, devoram. E não é só um, não são poucos, são muitos, são quase todos. Se quiserdes saber por que isto acontece, digo-vos que o motivo ê que tudo me desagrada, detesto o vulgo, a multidão não me contenta. Somente uma coisa me fascina: aquela em virtude da qual me sinto livre na sujeição, contente no sofrimento, rico na indigência e vivo na morte. Aquela em virtude da qual não invejo os que são servos na liberdade, sofrem no prazer, são pobres nas riquezas e mortos em vida, porque trazem no próprio corpo os gri- lhões que os prendem, no espírito o inferno que os oprime, na alma o erro que os debilita, na mente o letargo que os mata. Não hã, por isso, magnanimidade que os liberte nem ionganimidade que os eleve, nem esplendor que os abrilhante, nem ciência que os avive. | Daí sucede que não arredo o pé do árduo caminho, como se estivesse cansado. Nem, por indolência, cruzo os braços diante da obra que se me apresenta. Nem, qual desesperado, volto as costas ao inimigo que se me opõe. Nem, como desnorteado, desvio os olhos do divino objeto. No entanto, sinto-me geralmente apontado como um sofista, que mais se preocupa em parecer sutil do que em ser verídico. Um ambicioso, que mais se esforça por suscitar nova e falsa seita do que consolidar a antiga e verdadeira. Um trapaceiro, que persegue avidamente o resplendor da glória, projetando as trevas dos erros. Um espírito inquieto que subverte os. edifícios da boa disciplina, tornando-se maquinador de perversidades. Oxalá, Senhor, os santos numes afastem para bem longe de mim todos aqueles que injustamente me odeiam. Que sempre me seja propício o meu Deus. Oxalá me sejam favoráveis todos os governantes do nosso mundo. Oxalá os astros
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me tratem tal como a semente o faz ao campo e o campo à semente, de forma que apare- ça ao mundo algum fruto útil e glorioso do meu trabalho, por despertar o espírito e abrir o sentimento àqueles que estão privados de luz. Pois, em verdade, eu não me entrego a fantasias, e, se erro, não creio errar intencionalmente; falando e escrevendo, não disputo pelo simples amor da vitória em si mesma (porque eu considero inimigas de Deus, abje- tas e sem motivo de honra todas as reputações e vitórias, quando não fundamentadas na verdade), mas por amor da verdadeira sabedoria e por dedicação à verdadeira contem- plação eu me afadigo, me sacrifico, me atormento. Eis o que irão comprovar os argumen- tos demonstrativos, baseados em raciocínios válidos que procedem de um juízo reto, informado por imagens não falsas, as quais, como verdadeiras embaixatrizes, despren- dem-se das coisas da natureza e se tornam presentes àqueles que as procuram, patentes âqueles que as contemplam, claras para os que as assimilam, certas para todos aqueles que as compreendem. Eis, pois, que agora vos apresento a minha especulação acerca do infinito, do universo e dos mundos inumeráveis.
Argumento do Primeiro Diálogo
Encontrareis, portanto, no primeiro diálogo:
Primeiro, a inconstância dos sentidos demonstra que eles não são princípio de certe- za e não a determinam senão por certa comparação e conferência de um objeto sensível com outro e de uma sensação com outra. Daí se infere que a verdade é relativa nos diver- sos sujeitos.
Segundo, inicia-se a demonstrar a infinidade do universo, e se apresenta o primeiro argumento, tirado do fato de não saberem onde termina o mundo aqueles que por obra da fantasia querem lhe fabricar muralhas.
Terceiro, o seguinte argumento se depreende do fato de ser inconveniente afirmar ' que o mundo é finito e que existe em si mesmo, porque isto convém unicamente ao ilimi- tado. A seguir, tira-se o terceiro argumento da inconveniência e impossibilidade de ima- ginar o mundo como existindo em nenhum lugar, pois de qualquer modo se concluiria daí pela sua inexistência, atendendo que todas as coisas, sejam elas corpóreas ou incor- póreas, corpórea ou incorporeamente, significam lugar.
Quarto, este argumento decorre de uma demonstração ou questão muito premente, que fazem os epicuristas:
Depois, se se aceitar que todo o espaço é finito e se alguém chegar correndo aos últi- mos bordos e daí lançar um volátil dardo, achas que, arremessado com toda a força, se dirigirá aonde foi atirado, voando ao longe, ou te parece que alguma coisa o poderá impedir ou deter?
Efetivamente, quer haja um obstáculo que o impeça de atingir o ponto aonde foi arremessado, aí parando, quer prossiga a carreira, o que é certo é que não partiu do extremo limite."
Quinto, a definição de lugar, proposta por Aristóteles, não convém ao primeiro, maior e mais comum dos lugares. Nem vale tomar a superficie próxima e imediata ao
! Lucrécio, Da Natureza, I, 968-73,977-79. (N. do T.)
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conteúdo, e outras leviandades que fazem do lugar uma coisa matemática e não física. Admito que-entre a superfície do continente e do conteúdo, que nela se move, sempre é necessário que haja espaço interposto, ao qual convém, antes de tudo, ser lugar. E se qui- sermos tomar do espaço apenas a sua superfície, é preciso que se vá procurar no infinito um lugar finito.
Sexto, não se pode fugir ao vácuo supondo o mundo finito, se o vácuo é aquilo em que nada existe.
Sétimo, assim como o espaço em que está este mundo seria o vácuo se aí não se encontrasse este mundo, assim também onde não está este mundo se supõe o vácuo. Por- tanto, fora do mundo este espaço não é diferente daquele; logo, a aptidão que este possui aquele também possui. Por conseguinte, possui também o ato, porque nenhuma aptidão é eterna sem ato e por isso tem eternamente o ato unido, ou melhor, ela própria é ato, dado que no eterno não são diferentes o ser e o poder ser.
Oitavo, nenhum dos sentidos nega o infinito, visto que não o podemos negar, pelo fato de não compreendermos o infinito com os sentidos; mas, como os sentidos são compreendidos por ele e a razão vem confirmá-lo, somos obrigados a admiti-lo. Aliás, se considerarmos mais atentamente, os próprios sentidos o põem infinito, porque sempre vemos uma coisa compreendida por outra e jamais percebemos, nem com os sentidos externos nem com os sentidos internos, uma coisa não compreendida por outra, ou algo parecido:
Finalmente, pelo que se passa à nossa vista, cada objeto parece limitar outro objeto: o ar limita as colinas, os montes limitam o ar, e a terra o mar, e, por seu turno, o mar ter- mina todas as terras; mas, na verdade, nada há, para além do todo, que lhe sirva de limite.
Efetivamente, por todo o lado, abre-se as coisas, em toda direção, um espaço sem limites.
Portanto, pelo que vemos é necessário afirmar o infinito, porque nenhuma coisa nos ocorre que não seja terminada por outra, e não temos experiência de nenhuma que seja terminada por si mesma.
Nono, não se pode negar o espaço infinito senão com as palavras, como o fazem os obstinados, tendo considerado que o resto do espaço onde não há mundo e que se chama vácuo, ou também se imagina como o nada, não se pode entender sem uma aptidão para conter [outro mundo] não menor do que este que já contém.
Décimo, assim como é bom que exista este mundo, é igualmente bom que exista cada um de infinitos outrós.
Décimo primeiro, a bondade deste mundo não é comunicável a outro mundo que possa existir, assim como o meu ser não é comunicável ao ser deste ou daquele.
Décimo segundo, nem a razão nem os sentidos consentem que, como se admite um indivíduo infinito, sumamente simples e concentrado, não se deva admitir um indivíduo corpóreo-e explícito.
Décimo terceiro, este espaço do mundo, que nos parece tão grande, não é parte nem é todo em relação ao infinito, não podendo ser sujeito de uma operação infinita, em face da qual é um não-ser tudo aquilo que a nossa insuficiência pode compreender. E se res- ponde a certa objeção, que nós não postulamos o infinito em virtude da dignidade do
2 Lucrécio, Da Natureza, I, 998-1001, 1006-1007. (N. do T.)
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espaço, mas sim em virtude da diEnidae das naturezas; pois a razão que justifica a exis- tência disto justifica também a de tudo aquilo que possa existir, cuja potência não é atua- da pelo ser deste, como a potência do ser de Elpino não é atuada pelo ato do ser de Fracastório.
Décimo quarto, se a potência infinita ativa realiza o ser corpóreo e dimensional, este deve necessariamente ser infinito; doutro modo, altera-se essencialmente a naturezá e a dignidade de quem pode fazer e de quem pode ser feito.
Décimo quinto, este universo, tal como é vulgarmente concebido, não se pode dizer que compreende a perfeição de todas as coisas, senão como eu compreendo a perfeição de todos os meus membros, e cada globo tudo aquilo que está nele. Em outras palavras, é rico todo aquele a quem não falta nada daquilo que tem.
Décimo sexto, de qualquer modo, o eficiente infinito seria deficiente sem o efeito, e não podemos entender que tal efeito seja apenas ele próprio. Acresce que por isto, se assim for ou se é, nada se tira daquilo que deve existir no que é verdadeiramente efeito, onde os teólogos cnamam de ação ad extra (para fora) e transitória, distinta da ação ima- nente; porque, assim, é conveniente que sejam infinitas tanto uma como a outra.
Décimo sétimo, afirmando, segundo o nosso ponto de vista, que o mundo é ilimita- do, consegue-se a paz do intelecto; mas, defendendo a posição contrária, surgem sempre inumeráveis dificuldades e inconvenientes. Além disso, faz-se'a réplica ao que foi apre- sentado no segundo e no terceiro itens [deste diálogo].
Décimo oitavo, se o mundo é esférico, terá forma e limite, e o limite que está para | além deste ser que possui forma e limite (ainda que agrade a alguém chamá-lo de nada) também possuirá forma, de sorte que o seu côncavo esteja junto ao convexo deste mundo, porque, onde começa aquele nada pelo menos ali existe uma concavidade indis- tinta da superficie convexa deste mundo.
Décimo nono, acrescenta-se alguma coisa ao que já foi dito no segundo.
Vigésimo, faz-se uma réplica ao que foi discutido no décimo.
Na segunda parte deste diálogo, o que ficou demonstrado quanto à potência passiva do universo se demonstra também para a potência ativa do eficiente, com várias razões a mais: a primeira delas conclui-se do fato de a divina potência não dever ficar ociosa, tanto mais pondo o efeito fora da própria substância (se é que se admite existir alguma coisa fora desta); e do fato de não ser menos ociosa e invejosa produzindo efeito finito, do que não produzindo nada. A segunda razão se tira da prática, pois no caso contrário se suprime a razão da bondade e da grandeza divinas. E desta nossa proposição não deri- : va inconveniente algum contra qualquer lei ou ensinamento da teologia. A terceira é muito semelhante à décima segunda da primeira parte, e se torna a apresentar a diferença entre o todo infinito e o totalmente infinito. A quarta mostra que, não só por não querer, mas também por não poder, a onipotência é censurada por ter feito o mundo finito e por ser um agente infinito em relação a um sujeito finito.
A guinta razão induz que se lo agente infinito] não faz o mundo infinito, não pode absolutamente fazê-lo; e, se não tem poder para o fazer infinito, não pode ter vigor para o conservar no infinito, e que, se é finito segundo uma razão, vem a ser finito segundo . todas as razões, pois nele cada modo é coisa, e toda coisa e modo são uma e a mesma coisa. A sexta é convertível na décima da primeira parte. E se aduz a causa pela qual os teólogos defendem o contrário, não sem uma razão plausível, e se fala da amizade entre estes doutos e os doutos filósofos.
A sétima razão propõe O argumento que distingue a potência ativa das diversas ações e resolve tais dificuldades. Demonstra-se, além disso, a potência intensiva e exten-
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sivamente infinita com uma profundidade jamais atingida pela comunidade dos teólogos. Pela oitava prova-se que o movimento dos mundos infinitos não é originado por motor extrínseco, mas pela própria alma deles, e como, apesar de tudo isto, existe um motor infinito.
A nona razão demonstra como o movimento intensivamente infinito se verifica em cada um dos mundos. Ao que se deve acrescentar que do fato de um móvel se mover e ser movido, simultaneamente, resulta que pode ser visto em cada ponto do círculo que faz em torno do próprio centro. Mas teremos outras oportunidades para responder a esta objeção, quando for lícito apresentar a doutrina mais conhecida.
Argumento do Segundo Diálogo
O segundo diálogo segue as mesmas conclusões. Em primeiro lugar, apresenta qua- tro razões, a primeira das quais se baseia no fato de todos os atributos da divindade serem como cada um. A segunda provém do fato de que a nossa imaginação não deve poder se estender mais do que a ação divina. A terceira, da absoluta identidade entre o intelecto e a ação divina, que não entende o infinito menos do que o finito. A quarta prova que, se a qualidade corpórea, isto é, a qualidade que nos é sensível, tem potência infinita ativa, o que não acontecerá com a que existe em toda a potência ativa e passiva
“absoluta?
Segundo, demonstra-se que uma coisa corpórea. não pode ser limitada por uma coisa incorpórea, mas pelo vácuo ou pelo pléno. E, de qualquer modo, fora do mundo existe o espaço, que, afinal, não é mais do que a matéria e a própria potência passiva, onde a não invejosa e não ociosa potência ativa deve se transformar em ato. Também se demonstra a inconsistência do argumento de Aristóteles acerca da impossibilidade de coexistência das dimensões.
Terceiro, ensina-se a diferença que existe entre o mundo é o universo, pois quem diz o universo infinito e uno faz necessariamente distinção entre estes dois nomes.
Quarto, apresentam-se as razões contrárias, pelas quais se julga o universo finito. Aqui Elpino menciona todas as sentenças de Aristóteles e Filóteo as vai examinando. Algumas são tiradas da natureza dos corpos simples, outras da natureza dos corpos compostos. Demonstra-se. ainda a inconsistência de seis argumentos inferidos da defini- ção dos movimentos, que não podem ser perpétuos, e de outras proposições semelhantes, que não apresentam fundamento algum, como se verifica pelos nossos raciocínios. Estes farão ver mais naturalmente a razão das diferenças e termo do movimento, e, quanto o permitem a ocasião e o lugar, mostram o conhecimento mais real acerca do impulso grave e leve. Porque por esses raciocínios demonstramos como o corpo infinito não é grave nem leve e como o corpo finito pode ou não sofrer tais alterações. E daí se torna ainda mais evidente a inconsistência dos argumentos de Aristóteles que, para atacar as posições daqueles que consideram o mundo infinito, pressupõe o meio e a circunferência, pretendendo que a terra ocupe o centro no finito ou no infinito.
Em conclusão, não existe argumento grande ou pequeno, que tenha induzido esse filósofo a destruir a infinidade do mundo, tanto no primeiro livro Do Céu e Mundo,
como no terceiro Da Auscultação Física, acerca do qual não se discorre mais do que o suficiente.
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Argumento do Terceiro Diálogo
No terceiro diálogo nega-se, em primeiro lugar, aquela fantasia tola sobre a forma, as esferas e os diversos céus, e se afirma ser único o céu, que é um espaço geral que abar- ca os infinitos mundos, se bem que não neguemos serem muitos, antes, infinitos os céus, tomando esta palavra em outra acepção. Pois, como esta terra possui o seu céu, que é a sua região, na qual se move e a qual percorre, assim cada uma de todas as outras inume- ráveis terras. A seguir declara-se como foi que se imaginaram tais e tantos móveis defe- rentes, formados de tal modo que apresentem duas superfícies externas e uma cavidade interna. E outras receitas e medicamentos que provocam náuseas e horror aos próprios que os ordenam e executam, e aos míseros que os ingerem.
Segundo, adverte-se que o movimento geral e o dos assim chamados excêntricos € de quantos se possam referir a tal firmamento são todos fantásticos. Que, realmente, dependem de um movimento que a terra faz com o seu centro, pela eclíptica, e outras quatro espécies de movimento que executa em torno do centro da própria massa. Donde se conclui que o movimento próprio de cada estrela se toma da diferença que, subjetiva- mente, se pode verificar nela, como móvel que se move por si próprio no campo do espa- ço. Esta consideração nos faz compreender que todas as argumentações acerca do móvel e do movimento infinito são vãs e fundadas sobre a ignorância a respeito do movimento deste nosso globo.
Terceiro, afirma-se que não existe estrela que não se mova como esta e as outras que, por nos serem vizinhas, nos fazem conhecer sensivelmente as diferenças locais dos seus movimentos. Mas que é diferente o modo de se moverem os sóis, que são corpos onde predomina o fogo, do modo de se moverem as terras, onde a água predomina. E finalmente se demonstra de onde provém a luz difundida pelas RC das quais algu- mas brilham por si próprias e outras por influência alheia.
Quarto, mostra-se de que maneira os corpos extremamente distantes do Sol podem igualmente, como aqueles que estão mais próximos, participar do calor, refutando-se a sentença atribuída a Epicuro, segundo a qual pretende que um sol seja bastante para o universo infinito. Apresenta-se a verdadeira diferença entre os astros que cintilam e os. que não cintilam.
Quinto, examina-se a afirmação de Nicolau de Cusa a respeito da matéria e da possibilidade de os mundos serem habitados e a respeito da razão da luz.
Sexto, embora existam corpos por si luminosos e quentes, nem por isso o sol brilha para o sol, nem a terra brilha para a terra, nem a água para a própria água, mas a luz provém sempre do astro oposto, como vemos sensivelmente todo o mar resplandecente, quando nos encontramos em lugares elevados, como nos montes. E estando nós no mar ou no próprio campo, não os vemos resplandecer senão quando, a pouca distância, a luz do sol ou da lua se lhes opõe.
Sétimo, discorre-se acerca da inconsistência das quinta-essências. E se deciara que todos os corpos sensíveis não são diferentes e não são constituídos por outros próximos e primeiros princípios que não sejam estes; e que não se movem de outro modo, tanto em linha reta quanto em círculo. Tudo será tratado com razões mais acomodadas ao senso comum, enquanto Fracastório se acomoda à capacidade intelectual de Búrquio. Torna-se também evidente que não existe aqui acidente que não se pressuponha lá, como não há
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coisa que lá se veja daqui, a qual, se bem considerarmos, não se veja aqui, de lá. Consegiientemente, a bela ordem e hierarquia da natureza é um sonho ingênuo e um gra- cejo de velhas decrépitas.
Oitavo, prova-se que, embora seja-verdadeira a distinção dos elementos, não existe de modo algum essa ordem sensível e inteligível dos elementos, como vulgarmente se supõe. E, segundo o próprio Aristóteles, os quatro elementos são na mesma proporção partes ou mernbros deste globo, se não quisermos assegurar que a água excede os outros. De onde, com justeza, os astros são chamados ora de água, ora de fogo, tanto pelos verdadeiros filósofos naturalistas como pelos divinos profetas e poetas, que não contam fábulas nem falam por metáforas, deixando aos pretensos filósofos essas fábulas e pueri- lidades. Assim se compreende serem os mundos estes corpos heterogêneos, estes animais, estes grandes globos, em que a terra não é mais grave do que os outros elementos e em que todas as partículas se movem, mudando de lugar e disposição, do mesmo modo-que o sangue e outros humores, espíritos e partículas que em nós e noutros pequenos animais fluem, refluem, influem e efluem. A este propósito se evoca uma comparação pela qual se verifica que a terra, pelo impulso para o centro da sua massa, não se torna mais pesa- da do que outro corpo simples que concorra para esta composição. E que a terra, por si, não é grave, nem sobe nem desce. Que a água é que produz a união, a densidade, a espes- sura € a gravidade.
Nono, -da inconsistência da famosa ordem dos elementos se infere a razão dos cor- pos sensíveis compostos, os quais, como tantos animais e mundos, existem no espaçoso campo que é o ar, O céu, o vácuo. Aqui se encontram todos os mundos que não con- têm menos animais e habitantes do que este mundo possa conter, atendendo que não pos- suem menor eficiência nem outra natureza.
Décimo; dépôis que se viu como costumam disputar os pertinazmente facciosos e “ignorantes, de intenção perversa, torna-se bem manifesto por que modo, na maior parte das vezes, costumam concluir as disputas. Conquanto alguns sejam tão circunspectos que, sem se alterarem nada, com um sorrisinho de escárnio, uma risota, certa malícia afetadamente modesta, naquilo que não querem provar com razões que nem eles próprios seriam capazes de compreender, pretendem, com estes artificiós de desdenhos corteses, não só encobrir a própria ignorância, que se torna evidente em todas as suas manifesta- ções, mas também lançá-la sobre o seu antagonista. Porque eles não vêm disputar para encontrar ou procurar a verdade, mas para conquistar uma vitória, e parecerem mais sá- bios e incansáveis defensores da opinião contrária. E, assim, tais pessoas devem ser evi- tadas por quem não tiver uma boa couraça de paciência.
Argumento do Quarto Diálogo
No diálogo seguinte, primeiro, repete-se o que outras vezes foi dito, como são infini- tos os mundos, como cada um deles se move e como é formado.
«Segundo, do mesmo modo como se refutaram, no segundo diálogo, os argumentos que opinam contra a massa infinita ou grandeza do universo, depois que no primeiro, com muitas razões, determinou-se o ilimitado efeito do imenso vigor e potência, no pre- sente, depois de ter-se afirmado no terceiro diálogo, a multidão infinita de mundos, destroem-se as muitas razões de Aristóteles contra aquela, se bem que a palavra mundo tenha significados diferentes em Aristóteles, Demócrito, Epicuro e outros.
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Quanto ao movimento natural e violento, e respectivos argumentos apresentados por ele, entende Aristóteles que uma terra deveria se mover para a outra. Ao rebater essa argumentação, primeiro enunciam-se fundamentos de não pouca importância para des- cobrir os verdadeiros princípios da filosofia natural; segundo, declara-se que, embora a superfície de uma terra fosse contígua à outra, não aconteceria que as partes de uma se pudessem mover para a outra, entendendo-se aqui as partes heterogêneas ou desseme- lhantes, não os átomos e os corpos simples. De onde se aprende a examinar melhor a natureza do grave e do leve.
Terceiro, por que motivo estes grandes corpos têm sido colocados a tanta distância pela natureza, e não estão mais próximos uns dos outros, de maneira que se pudesse pas- sar de um para o outro. E, por fim, quem observar profundamente verá a razão por que não devem existir mundos na circunferência do éter, ou próximos do vácuo, onde não existem potência, eficiência e ato, porque de um lado eles não poderiam receber vida e luz.
Quarto, como a distância local pode mudar ou não a natureza do corpo. E por que acontece que uma pedra, colocada eqgiidistante de duas terras, ou permanecerá imóvel, ou determinará mover-se para uma de preferência à outra.
Quinto, quanto se engana Aristóteles naquilo que entende por impulso de gravidade ou leveza de um corpo em relação a outro, embora distantes. E donde procede o desejo de as coisas quererem se conservar no estado presente, apesar de ignóbil, desejo este que é causa de fuga e de perseguição.
Sexto, que o movimento retilíneo não convém à terra ou a outros corpos principais, nem lhes pode ser natural, mas o é das partes destes corpos que para eles se movem dos vários e diferentes locais do espaço, sempre que não estejam muito afastados.
Sétimo, os cometas permitem provar não ser verdade que o grave, conquanto longínguo, tenha impulso ou movimento para o seu continente. Tal suposição decorre não dos verdadeiros princípios físicos mas das hipóteses filosóficas de Aristóteles, que forma e estrutura os cometas com partes que são vapores e exalações da terra.
Oitavo, a propósito de um outro argumento, demonstra-se como os corpos simples, que são da mesma espécie nos outros mundos inumeráveis, se movem da mesma manei- ra. E como a: diversidade do número implica a diversidade de lugares, e cada parte possui o seu centro e se relaciona com o meio comum do todo, mas este meio não deve ser pro- curado no universo. PA:
Nono, se estabelece que os corpos e suas partes não têm uma posição determinada em cima ou embaixo, a não ser enquanto a discussão se desenvolve aqui ou acolá.
Décimo, como o movimento é infinito e como o móvel tende para o infinito e para inumeráveis composições. E nem por isso deriva daí uma gravidade ou leveza com velo- cidade infinita. Que o movimento das partes próximas não pode ser infinito, enquanto elas conservam o próprio ser. Que o impulso das partes para o seu continente não pode existir senão dentro da região deste.
Argumento do Quinto Diálogo
No princípio do quinto diálogo se apresenta uma personagem dotada de inteligência mais feliz que, embora nutrida pela doutrina contrária, por ter capacidade de julgar sbbre o que viu e ouviu, pode distinguir as diferenças entre uma e outra, e facilmente reconhece
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o erro e se corrige. Aponta-se quem são os que admiram Aristóteles como um milagre da natureza, porquanto aqueles que o exaltam compreendem-no muito mal e são pouco inte- ligentes. Por isso devemos ter dó de tais indivíduos e fugir de suas discussões, porque, com eles, só temos a perder [nosso esforço e nosso tempo).
Aqui Albertino, novo interlocutor, apresenta doze argumentos em que se encerra toda a convicção contrária à pluralidade e multidão dos mundos. O primeiro parte da idéia de que fora do mundo não há lugar, nem tempo, nem vácuo, nem corpo simples nem composto. O segundo, da unidade do motor. O terceiro, dos lugares dos corpos mó- veis. O quarto, da distância dos horizontes ao centro. O quinto, da contigiidade de mais mundos orbiculares. O sexto, dos espaços triangulares que [tais mundos) causam com seu contato. O sétimo, do infinito em ato, que não existe, e de um determinado número que não é mais lógico do que o outro. Desta razão nós podemos não só legitimamente, mas com grande vantagem, inferir que o número não deve ser limitado, mas infinito. O oitavo, da limitação das coisas naturais, e da potência passiva das coisas, que não corresponde à eficácia divina e à potência ativa. Mas aqui se deve considerar que é sobremaneira inconveniente que o primeiro e altíssimo seja semelhante a um que tem capacidade de tocar harpa mas não toca, por defeito da harpa; ou seja, um que pode fazer mas não faz, pois aquilo que pode fazer não pode ser feito por ele. Isto encerra uma contradição mais que evidente, a qual não pode ser desconhecida, exceto pelos que não conhecem nada. O nono, da bondade civil, que consiste na conversação. O décimo pre- tende provar que, pela contigúidade de um mundo com o outro, o movimento de um im- pede o movimento do outro. O décimo primeiro, se este mundo é completo e perfeito, não há necessidade que se lhe junte outro, ou se lhe juntem outros.
Estes são os motivos e as dúvidas, cuja solução encerra tanta doutrina, que bastam para descobrir os íntimos e radicais erros da filosofia vulgar, bem como a importância e a oportunidade da nossa. Eis aqui a razão por que não devemos temer que coisa alguma diflua, que nenhum elemento particular se disperse ou caia em verdadeira inanição, ou se espalhe no vácuo, que o desmembre no aniquilamento. Eis a razão do revezar-se das mutações do todo, pelas quais não há mal de que não se consiga sair, nem bem no qual não se incorra, enquanto pelo espaço infinito, devido à perpétua mutação, toda a subs- tância permanece una e sem alterações. Se estivermos atentos a essa contemplação, ne- nhum acidente estranho nos afastará por dor ou temor, nem nenhuma fortuna nos distrai- rà por prazer ou esperança, pelo que conseguiremos a verdadeira via para a verdadeira moralidade, seremos magnânimos, desprezando aquilo que só pensamentos infantis apre- ciam. Certamente nos tornaremos maiores do que aqueles que o vulgo cego adora, por- que seremos os sinceros contempladores da história da natureza, que está escrita em nós mesmos, e metódicos executores das leis divinas, que estão esculpidas no centro do nosso coração. Saberemos que não é diferente voar daqui para o céu ou do céu para cá, não é diferente subir daqui para lá ou de lá para cá, nem é diferente descer de um para o outro limite. Nós não somos mais circunferenciais em relação a eles do que eles em relação a nós. Eles não estão mais no centro em relação a nós do que nós em relação a eles, nem de outro modo pisamos a estrela, e estamos compreendidos pelo céu do que eles estão.
Eis-nos, portanto, isentos de inveja, eis-nos livres da ânsia fútil e do estulto cuidado de almejar, como se estivesse muito distante, aquele bem que possuímos junto e à volta de nós. Eis-nos mais livres do grande receio de que eles caiam em cima de nós, do que esperançados de cairmos sobre eles, porque o mesmo-ar infinito que sustenta este globo sustenta aqueles também; assim, este animal se movimenta livremente pelo seu espaço e
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ocupa a sua região, como cada um dos outros ocupa a dele. Oh! Quantas coisas mais não nos será permitido meditar e compreender, uma vez que tivermos considerado e compreendido tudo isto! Daí, por meio desta ciência, obteremos certamente o bem que, pelas outras, em vão se procura.
Esta é aquela filosofia que desperta os sentidos, satisfaz ao espírito, enaltece a inteli- gência e reconduz o homem à verdadeira felicidade que ele pode ter como homem, e que é relativa à sua natureza, porque o liberta da constante preocupação com os prazeres e do cego sentimento das dores, fazendo-o desfrutar a existência no presente, e temer menos ao esperar o futuro. Porque a providência, ou de fato ou por acaso, dispõe das vicissitudes do nosso ser particular e não quer nem permite que saibamos de um mais do que ignoramos do outro, tornando-nos duvidosos e perplexos à primeira vista e ao pri- meiro contato: Mas enquanto consideramos mais profundamente o ser e a substância daquilo em- que somos imutáveis, ficaremos cientes de que não existe a morte, não só para nós como também para qualquer substância, enquanto nada diminui substancial- mente, mas tudo, deslizando pelo espaço infinito, muda de aparência. E porque estamos todos sujeitos a um ótimo eficiente, não devemos crer, julgar e esperar outra coisa senão que, como tudo vem do bom, assim tudo é bom, pelo bom e para o bom; do bem, pelo bem e para o bem. O contrário disto aparece unicamente áquele que só percebe o estado presente, como a beleza de um edifício não se manifesta ao que olha apenas uma parte mínima dele, como uma pedra, um pedaço de cimento, uma meia parede, mas principal- mente ao que pode ver o conjunto e que tem capacidade para fazer comparações entre as partes. Não temamos que tudo o que está acumulado neste mundo, pela veemência de qualquer espírito errante, ou pelo desprezo de qualquer Júpiter fulminador, se disperse fora deste tâmulo ou cúpula do céu, ou se sacuda e se esparrame como um pó para fora deste manto estrelado, e que a natureza das coisas possa vir a ser destruída na sua subs- tância, da mesma maneira como se desfaz o ar que percebemos estar encerrado na concavidade de uma bolha. Porque conhecemos um mundo em que uma coisa sucede sempre a outra coisa, sem que exista uma força última, profunda, pela qual, como da mão do artífice, irreparavelmente se converta em nada. Não existem fins, termos, mar- gens, muralhas que nos defraudem e roubem a infinita abundância das coisas. Daí ser fecunda a terra e o seu mar; daí ser perpétua a chama do Sol, subministrando eterna- mente alimento aos fogos vorazes e humores aos mares empobrecidos, porque do infinito sempre renasce nova abundância de matéria. De maneira que Demócrito e Epicuro compreenderam melhor, ao pretenderem que tudo se renova e se recompõe infinitamente, do que aqueles que se esforçam por salvar a eterna constância do universo, a fim de que o mesmo número suceda sempre ao mesmo número e as mesmas partes da matéria sem- pre se transformem nas mesmas partes.
Providenciai agora, senhores astrólogos, com a ajuda dos físicos vossos imitadores, para que vossos círculos descrevam as fantasiadas nove esferas móveis, nas quais encar- cerais o vosso cérebro, de maneira que me pareceis como tantos papagaios engaiolados, enquanto vos vejo saltitar para cá e para lá, cabriolando e dando voltas entre aqueles cir- culos. Sabemos que um tão grande imperador não possui trono tão mesquinho, tão mise- ro sólio, tão angusto tribunal, uma corte tão pouco numerosa, um simulacro tão pequeno e insignificante, que possa ser dado à luz por um fantasma, destruído por um sonho, restabelecido por uma mania, disperso por uma quimera, diminuído por uma desventura, arrebatado por um engano, restituído por um pensamento; que com um sopro se encha e com um sorvo se esvazie. Mas é um retrato grandioso, admirável imagem, excelsa figu-
ra, altíssimo vestígio, representante infinito do infinito representado e espetáculo conve- Le
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niente à excelência e eminência de quem não pode ser percebido, nem abarcado, nem apreendido. Assim se enaltece a excelência de Deus, se manifesta a grandeza de seu império. Ele não é glorificado em um só, mas em inumeráveis sóis; não numa terra, num mundo, mas num milhão, quero dizer, em infinitos. De sorte que não é va esta faculdade do intelecto, que sempre quer e pode juntar espaço a espaço, massa a massa, unidade a unidade, número a número, por meio-da ciência que nos liberta das cadeias de um angus- tíssimo império, para nos promover à liberdade de um império augustíssimo, que nos arranca da pressuposta pobreza e estreiteza para nos dar as inumeráveis riquezas de tanto espaço, de tão digno campo, de tantos mundos cultos, evitando que o círculo do horizonte, falso à vista na terra e imaginado pela fantasia no éter espaçoso, encarcere o nosso espírito sob a guarda de um Plutão e à mercê de um Júpiter.
Sejamos livres da tutela de um tão rico possessor e, ao mesmo tempo, tão parco, sórdido e avaro doador, e do sustento de tão fecunda e generosa mas depois tão mesqui- nha e mísera natureza.
Muitos outros são os dignos e honrados frutos que se recolhem destas árvores, ou- tras as messes preciosas e desejáveis que se podem colher desta semente espalhada. Mas, para não incitar mais a cega inveja dos nossos adversários, não vamos relembrar aqui todos esses frutos, desejando, no entanto, que os compreendam pelo seu próprio juízo aqueles que podem compreender e julgar. Por si mesmos poderão construir facilmente, sobre estes alicerces, o edifício inteiro da nossa filosofia, cujos membros reduziremos à tão almejada perfeição, se assim agradar a quem nos governa e move e se não for inter- rompida a empresa iniciada, a fim de que tudo o que está semeado nos diálogos Acerca da Causa, do Princípio e da Unidade para alguns germine, para outros cresça, para ou- tros amadureça, e graças a uma abundante colheita enriqueça a outros e os satisfaça tanto quanto possível. E, depois de havermos limpado o campo, extirpando-lhe todas as pragas, o joio e demais ervas daninhas, poderemos abastecer o celeiro de estudiosas inteligências com o melhor trigo que possa produzir o terreno da nossa cultura.
Entretanto, embora eu tenha a certeza de que não há necessidade de o recomendar a vós, não deixarei, contudo, por fazer parte da minha obrigação, de procurar que vos seja verdadeiramente recomendado aquele que não tendes mantido entre vossos familia- res como um homem de quem tendes necessidade, mas como uma pessoa que tem neces- sidade de vós, por tantas e tais razões que bem conheceis. Considerando que, por terdes junto de vós tantos que vos servem, não sois diferente dos plebeus, tesoureiros e merca- dores, mas por terdes alguém digno de ser, de alguma forma, engrandecido, defendido e ajudado, sois, como sempre o demonstrastes e fostes, semelhante aos príncipes magnâni- mos, heróis e deuses, que criaram pessoas como vós para a defesa dos seus amigos. E agora tomo a liberdade de vos lembrar o que sei que não é necessário recordar-vos: que, afinal, não podeis ser tão estimado pelo mundo e recompensado. por Deus, por serdes amado e respeitado pelos príncipes da terra, por maiores que sejam, quanto o sereis por amar, defender e conservar um daqueles. Porque não há coisa que vos possam fazer aqueles que vos são superiores pela fortuna, muitos dos quais excedeis em virtude, que venha a durar mais do que as vossas paredes e tapeçarias. Mas vós podeis fazer a outrem coisa que mereça ser escrita no livro da eternidade, tanto naquele que se vê na terra como naquele que nós pensamos existir no céu; atendendo que, quanto recebeis dos outros é testemunho da virtude deles, ao passo que o muito que fazeis a outrem é sinal e expresso indício de vossa virtude. Adeus.
&
Rave
de
DIÁLOGO PRIMEIRO
Interlocutores ELPINO, FILOTEO, FRACASTORIO, BURQUIO
| ELPINO — Como é possível que o universo seja infinito?
FiLOTEO — Como é possível que o universo seja finito?
ELPINO — Acham vocês que seja possível demonstrar esta infinitude?
FILOTEO — Acham vocês que seja possível demonstrar esta finitude?
Erpino — Que dilatação é esta?
Firotreo — Que limites são estes?
FRACASTORIO — Ad rem, ad rem, si iuvat (ao assunto, ao assunto, se lhe apraz); tempo demais vocês nos têm deixado em suspenso.
Burquio — Cheguem rápido a alguma conclusão, Filóteo, porque me agradará muito escutar esta fábula ou fantasia.
FracastTORIO — Modestius (calma !), Búrquio: o que você dirá se a verdade, enfim, o convencer? ]
BuRQUIO — Mesmo que isto seja verdade, eu não quero acreditar; porque este infinito não pode ser compreendido pelo meu raciocínio, nem digerido pelo meu estômago, em- bora eu deseje que seja assim como afirma Filóteo, porque, se por desgraça acontecesse de eu cair fora deste meu mundo, sempre encontraria outro país.
ELPINO — Com certeza, Filóteo, se nós quisermos colocar os sentidos como juiz ou dar- lhes a função que lhes é própria, isto é, ser o veículo originário de toda a informação, acharemos então muito dificil encontrar um meio para concluir aquilo que você afirma, de preferência ao contrário. Agora, se for de seu agrado, comecem a me fazer entender algo.
FiLoTEO — Não são os sentidos que percebem o infinito; não é pelos sentidos que chega- mos a esta conclusão, porque o infinito não pode ser objeto dos sentidos. Por isso aquele que procura esclarecer tudo isto através dos sentidos se parece com aquele que procura enxergar com os olhos a substância e a essência; e aquele que as negasse, por não serem sensíveis ou visíveis, negaria a própria substância e o próprio ser. Mas deve haver cautela em recorrer ao testemunho dos sentidos, os quais admitimos só no campo das coisas sensíveis, mesmo aceitando-os com certa suspeita, se não emitirem um julgamento de acordo com a razão. É conveniente para o intelecto julgar e dar razão das coisas ausen- tes e divididas por espaço de tempo e de lugar. Nisto temos suficiente testemunho no
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campo dos sentidos pelo fato de não poderem nos contradizer e, ainda mais, por torna- rem evidente e confessarem sua incapacidade e insuficiência na aparência da finitude causada pelos limites de seu horizonte, tornando evidente como são inconstantes. Ora, se conhecemos por experiência que eles nos enganam com respeito à superfície do globo no qual nos encontramos, muito mais devemos suspeitar deles quando querem referir-se ao côncavo céu estrelado. ELpINO — Para que então servem os sentidos? Digam-no.
FmoTeo — Servem somente para excitar a razão, para tomar conhecimento, indicar e dar testemunho parcial, não para testemunhar sobre tudo, nem para julgar, nem para condenar. Porque nunca, mesmo perfeitos, são isentos de alguma perturbação. Por isso a verdade, em pequena parte, brota desse fraco princípio que são os sentidos, mas não re- side neles.
ELpiNo — Onde então?
Frrotreo — No objeto sensível como num espelho, na razão como argumentação e dis- curso, no intelecto como princípio e conclusão, na mente como forma própria e viva. ELPINO — Vamos, então, apresentem seus raciocínios.
FiLoOTEO — Assim farei. Se o mundo é finito e fora do mundo está o nada, pergunto a vocês: onde se encontra o mundo? Onde o universo? Aristóteles responde: em si mesmo. O convexo do primeiro céu é lugar universal; sendo ele o que tudo contém, não é contido por outro, porque o lugar não é nada a não ser superfície e extremidade de um corpo continente; do que se deduz que tudo o que não possui corpo continental não possui lugar. Mas o que você quer dizer, Aristóteles, atirando que “o lugar está em si mesmo”? O que você quer concluir com a afirmação “coisa existente fora do mundo”? Se você afirma que não existe nada; o céu, o mundo, por certo, não existem em lugar algum. FracastTORIO — Nullibi erit mundus. Omne erit in nihilo."
FiLoreo — O mundo será alguma coisa que não se encontra. Se você afirma, Aristóteles (porque tenho certeza de que você quer dizer alguma coisa para fugir ao vácuo e ao nada), que fora do mundo há um ente intelectual e divino, de sorte que Deus venha a ser lugar de todas as coisas, você mesmo se encontrará em muita dificuldade para fazer entender como uma coisa incorpórea, inteligível e sem dimensões possa ser o lugar duma coisa dimensionada. Porque, se você afirma que contêm como uma forma e da mesma maneira como a alma contém o corpo, você não responde à questão do estar fora nem à pergunta daquilo que se encontra além e fora do universo. E se você quer explicar dizen- do que onde está e onde não existe coisa alguma tampouco existe lugar, nem o além nem o extra, não me satisfará; porque são palavras e desculpas que não se podem realmente pensar. Com efeito, é absolutamente impossível que com qualquer juízo ou fantasia (mesmo que se encontrassem outros juízos e fantasias) você possa levar-me a afirmar, com real intenção, que exista tal superficie, tal limite, tal extremidade além da qual não exista nem corpo nem vácuo; mesmo que ali estivesse Deus, porque a divindade não tem por função encher o vácuo, e, por consegiência, não tem, de modo algum, a função de terminar o corpo; porque tudo o que se diz terminar ou é forma exterior ou é corpo conti- nente. E de qualquer forma que você o quisesse afirmar, você estaria prejudicando a dig- nidade da natureza divina e universal.
Burquio — Certamente seria necessário dizer a ele que se alguém estendesse a mão
* Portanto, o mundo não estará em lugar algum. O todo estará no nada. (N. do E.)
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além daquele convexo, ela não estaria num lugar, nem em parte alguma, e conseqguen- temente não existiria.
FILOTEO — Acrescento a isto que não há raciocínio que não considere esta afirmação peripatética como uma contradição implícita. Aristóteles definiu o lugar não como corpo continente, nem como espaço determinado, mas como uma superficie do corpo conti- nente; além disso, o primeiro, O principal, o máximo lugar é aquele ao qual menos con- vém — de fato não convém absolutamente — tal definição. Estou falando da superfície convexa do primeiro céu, que é superfície dum corpo, e de tal corpo que somente contém mas não é contido. Ora, para transformar aquela superficie em lugar não se exige que seja de corpo contido mas sim de corpo continente. Se for superfície de corpo continente e não é acrescentada e continuada pelo corpo contido, é um lugar que não possui loca- ção, considerando que ao primeiro céu não convém ser lugar senão por sua superficie côncava, que toca a convexa do segundo. Eis então explicado por que aquela definição é inútil, confusa e contrária a si mesma. E chegamos a tal confusão pelo inconveniente de haver posto o nada além do céu.
ELpiNO — Os peripatéticos dirão que o primeiro céu é corpo continente para a superfície côncava, e não para a convexa e, segundo aquela, ele é lugar.
FRACASTORIO — Eu acrescento, então, que existe superfície de corpo continente que não é lugar.
FrLroteo — Afinal, para chegar diretamente ao âmago da questão parece-me ridículo afirmar que além do céu não exista nada, e que o céu exista por si mesmo, localizado por acidente, e seja lugar por sea isto é, com respeito às suas partes. E qualquer que seja a interpretação dada a seu “por acidente”, não se pode evitar de fazer de um dois, porque sempre é uma coisa o continente e Cia o contido; e assim é de tal forma que, segundo elé próprio, o continente é incorpóreo e o contido é corpo; o continente é imóvel eo contido móvel; o continente é matemático e o contido físico. Então, qualquer que seja aquela superfície, continuarei perguntando: o que existe além dela? Se responderem que é o nada, à isto chamarei de vácuo, inane; e um tal vácuo, um tal inane que não possui forma nem qualquer termo ulterior, limitado, porém, do lado de cá. E isto é mais difícil imaginar do que pensar o universo como um ser infinito e imenso. Porque não podemos fugir ao vazio se quisermos admitir o universo como finito. Vamos ver agora se convém que exista tal espaço no qual não está nada. Neste espaço infinito se encontra este uni- verso (seja por acaso, ou por necessidade, ou por providência, por enquanto não me preocupo). O que me pergunto é se este espaço que contém o mundo seja mais apto a conter um mundo que outro espaço, existente mais além.
FRACASTORIO — Por certo, parece-me que não; porquanto, onde não existe nada não existe diferença alguma; onde não existe diferença não há diferentes aptidões; e provavel- mente não existe "aptidão alguma onde não existe coisa alguma.
ELpINO — Nem inaptidão alguma. E das duas, de preferência aquela a esta.
Firoreo — Vocês raciocinam bem. Assim afirmo que, como o vácuo, o inane (que necessariamente rêsulta deste conceito peripatético) não possui aptidão alguma para receber e muito menos a deve ter para repelir o mundo. Mas destas duas aptidões nós podemos ver umaem ato, a outra não a podemos ver absolutamente, a não ser com os olhos da. razão. Cômo então nesse espaço igual à grandeza do mundo (que é chamada matéria pelos platônicos) está este mundo, assim outro pode existir naquele e em inúme- ros espaços além deste, iguais a este.
FRACASTORIO — Certamente, podemos julgar com mais exatidão conforme o que vemos
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e conhecemos, do que contrariamente âquilo que vemos e conhecemos. Portanto, uma vez que segundo o nosso modo de ver e a nossa experiência o universo não acaba, nem termina no vácuo e inane, nem possuímos conhecimento algum a respeito disso, devemos concluir logicamente assim: mesmo que todas as outras razões fossem iguais, veríamos que a experiência é contrária ao vácuo e não ao pleno. Dizendo-o ficaremos sempre desculpados; mas, falando de outra forma, dificilmente poderemos fugir a mil acusações e inconvenientes. Continue, Filóteo.
FiLoTEo — Então, pensando o espaço como infinito, sabemos com certeza que é apto a receber corpo, e nada mais. Bastar-me-á, todavia, considerar que não lhe repugna rece-- bê-lo, ao menos pela razão seguinte: onde não existe nada, nada pode lhe ser contrário. Resta ver agora se é conveniente considerar que o espaço todo seja pleno ou não. E se nós considerarmos tanto o que pode ser como o que pode fazer, havemos sempre de achar que não só é razoável mas até necessário que seja pleno. Embora seja evidente, pergunto-lhes se é bom que o mundo exista.
ELpiNOo — Muito bom.
Frrotreo — Logo é bom que este espaço, equivalente à dimensão do mundo (que eu quero chamar de vácuo, semelhante e indistinto do espaço que você identificaria com a convexidade do primeiro céu), seja igualmente pleno.
ELPINO — Assim é.
FiroTEo — Pergunto ainda: acredita você que assim como neste espaço se encontra esta máquina, chamada mundo, a mesma teria podido ou poderia estar num outro espaço deste inane?
ELpiNO — Direi que sim, apesar de não ver claramente como no nada e no vácuo se pos- sam estabelecer diferenças.
FRACASTORIO — Eu tenho a certeza de que você o vê claramente, porém não tem a cora- gem de afirmá-lo porque percebe aonde ele quer levar você.
ELPINO — Pode afirmá-lo com segurança; porque é necessário dizer e entender que este mundo está num espaço, o qual, se o mundo não existisse, seria indistinto daquele que está além do vosso primeiro móvel.
FRACASTORIO — Prossiga.
FiLoTEO — Portanto, da mesma forma que este espaço pode, tem podido e é necessaria- mente perfeito pela continência deste corpo universal, como você afirma, assim também pode e tem podido ser perfeito todo o outro espaço. ELpINO — Concordo, e então? Pode existir, pode estar; logo, existe? Logo está? FiLoTEO — Se você quiser admiti-lo francamente, levá-lo-ei a afirmar que pode existir e que deve existir e que existe. Porque, assim como seria um mal que este espaço não fosse pleno, isto é, que este mundo não existisse; não o seria menos, em virtude de sua igualda- de, que todo o espaço não fosse pleno; e, por conseguência, o universo será de dimensão infinita e os mundos serão inumeráveis.
ELpino — Qual é a causa por que devem ser muitos, e não um só?
FiLorgo — Por que, se é um mal que este mundo não exista ou que este pleno não se encontre, este mal é relativo a este espaço ou a outro espaço igual a este?
ELpIiNO — Eu afirmo que é um mal relativo àquilo que está neste espaço, que poderia indiferentemente ser encontrado num outro espaço igual a este.
FiLoTEo — Se você observa, bem, isto nos leva a um único ponto: porque a bondade deste ser corpóreo que existe neste espaço, ou que poderia existir num outro igual a este, é proporcional e relativa à bondade própria e à perfeição que podem existir em tal e tanto espaço, quanto é este, ou outro igual a este, e não âquelas que podem existir em inúmeros
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outros espaços, semelhantes a este. Tanto mais que, se há razão para que exista um bem
“finito, um perfeito terminado, há também razão para que exista um bem infinito, porque, onde o bem finito existe por conveniência e razão, o infinito existe por absoluta necessidade.
ELPINO — O bem infinito certamente existe, mas é incorpóreo.
Ficotreo — Quanto ao infinito corpóreo estamos de acordo. Mas o que impede que o bem seja admitido como ente infinito? Que se opõe a que o infinito, implícito no simplís- simo € único princípio, não venha explicado neste seu simulacro infinito e não termina- do, capaz de conter inúmeros mundos, em vez de ser explicado em limites tão estreitos, de forma a parecer vitupério o não pensar que este corpo, que se nos apresenta vasto e grandioso, em relação à presença divina não seja senão um ponto, um nada?
ELPINO — Como a grandeza de Deus não consiste de modo algum na dimensão corporal (ressalvo que o mundo não lhe acrescenta coisa alguma), assim não devemos pensar que a grandeza do seu simulacro consista na maior ou menor grandeza de suas dimensões. FrLoTEo — Vocês falam muito bem, mas não respondem ao ponto essencial da questão; porque eu não procuro o espaço infinito, e, com efeito, a natureza não possui espaço infi- nito, pela dignidade da dimensão ou da grandeza corpórea, mas pela dignidade das natu- rezas e espécies corpóreas, visto que a excelência infinita se apresenta incompara- velmente melhor em indivíduos inumeráveis que naqueles que são numeráveis e finitos. É necessário, porém, que para uma forma divina inacessível haja um simulacro infinito, no qual, como membros infinitos se encontrem mundos inumeráveis como são os outros. Assim, por causa dos inúmeros graus de perfeição, que devem explicar a excelência divi- na — incorpórea através dum modo corpóreo, devem existir inúmeros indivíduos, que são estes grandes animais (um dos quais é esta terra, mãe generosa que nos gerou, nos alimenta e não nos receberá de volta) e para os conter faz-se necessário um espaço infini- to. Evidentemente, é bom que existam, como podem existir, inúmeros mundos seme- lhantes a este, como tem podido e pode existir e é bom que este exista.
EcpiNo — Podemos dizer que este mundo finito, com estes astros finitos, compreende a perfeição de todas as coisas.
FiLoTEO — Podem dizê-lo, porém não podem prová-lo; porque o mundo que existe neste espaço finito possui a perfeição de todas as coisas finitas que existem neste espaço, mas não aquela das infinitas coisas que podem existir em outros inumeráveis espaços. FRACASTORIO — Por favor, paremos e não façamos como os sofistas, que discutem para vencer, e depois, enquanto admiram a palma da vitória, impedem a eles mesmos e aos outros de compreenderem a verdade. Agora eu acredito que não exista pessoa tão pérfida e teimosa que, a respeito da questão do espaço que pode infinitamente compreender e a respeito da questão da bondade individual e numeral dos mundos infinitos que podem ser compreendidos tão bem quanto este por nós conhecido, insista em negar deslealmente que todos eles possuem conveniente razão para existir. Pois o espaço infinito possui apti- dão infinita, e nesta infinita aptidão se louva o infinito ato de existência; pelo que o efi- ciente infinito não pode ser considerado deficiente, e a aptidão não é va. Contente-se, pois, Elpino, em escutar outros argumentos, se mais alguns ocorrem a Filóteo.
ELpiNo — Vejo muito claramente, para dizer a verdade, que considerar o mundo ilimita- do, como vocês consideram o universo, não traz consigo inconveniente algum, e até nos liberta de inúmeras angústias que nos envolvem se afirmamos o contrário. Reconheço especificamente que muitas vezes, com os peripatéticos, é necessário dizer coisas que, do nosso ponto de vista, não têm fundamento algum: como, depois de ter negado o vácuo, tanto fora como dentro do universo, querer também responder à pergunta relativa ao
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lugar onde se encontra este universo; e afirmar que ele esteja nas suas partes, por medo de afirmar que não exista em lugar algum; como na afirmação “nullibi, nusquam?. Mas não se pode evitar de considerar que desta forma é necessário dizer que as partes se encontram em algum lugar, e o universo não se encontra em lugar algum nem em espaço algum; e isto, é óbvio, não pode ter fundamento algum, mas significa expressamente uma fuga pertinaz para não confessar a verdade, admitindo o mundo e o universo infinitos, ou o espaço infinito; e ambas as posições levam quem as sustenta a uma dupla confusão. Afirmo, então, que se o todo é um corpo, e corpo esférico, consequentemente figurado e limitado, é necessário que seja limitado em espaço infinito; no qual, se quisermos afirmar que existe o nada, é necessário conceder que existe o verdadeiro vácuo; e se de fato existe o vácuo, deve ser capaz de conter outros mundos, assim como esta parte que vemos é capaz de conter este mundo; se não existe o vácuo, deve existir o pleno e, por conse- quência, o universo infinito. E não menos estulta é a conclusão de que o mundo esteja “alicubi”, afirmando que além dele está o nada, e que ele existe nas suas partes, como se alguém dissesse que Elpino está “alicubi””, porque sua mão está contida no seu braço, o olho na sua face, o pé na sua perna, a cabeça no seu tronco. Mas para concluir e para não me comportar como um sofista baseando-me sobre uma dificuldade aparente, e para não gastar tempo inutilmente, vou afirmar aquilo que não me é possível negar: no espaço infinito ou poderiam existir infinitos mundos semelhantes a este, ou este universo poderia estender sua capacidade de compreensão a muitos corpos, como estes, denominados astros; e além disso afirmo que (sejam estes mundos semelhantes ou diferentes) a exis- tência não se justificaria mais num que no outro; porque a existência daquele não tem menos a razão que a deste, e também não a tem menor por ser de muitos que o ser de cada um e a existência de infinitos que a de muitos. Então, como seriam um mal a extin- ção e o não-ser deste mundo, assim não seria bom o não-ser de inúmeros outros. FRACASTORIO — Vocês são bem explícitos e demonstram que compreendem bem os raciocínios e que não são sofistas, porque aceitam aquilo que não é possível negar. ELPINO — Eu gostaria, no entanto, de ouvir o que se pode acrescentar ao raciocínio rela- tivo ao princípio e causa eficiente eterna: se lhe é conveniente este efeito infinito, e se efetivamente este efeito existe. FiLOTEO — É exatamente isso que eu devia acrescentar. Porque, depois de ter afirmado que o universo deve ser infinito pela capacidade e aptidão do espaço infinito e pela possi- bilidade e conveniência da existência de inúmeros mundos como este, resta agora prová- lo pelas circunstâncias do eficiente que o deve ter produzido assim ou, para dizer melhor, deve produzi-lo sempre assim, e pelas condições do nosso modo de entender. Podemos mais facilmente argumentar que o espaço infinito é semelhante a este que estamos vendo, em vez de argumentar que é tal qual não o vemos, nem por exemplo, nem por compara- ção, nem por proporção, nem mesmo por qualquer imaginação que ao fim não se destrua a si mesma. Agora, para começar: por que queremos ou podemos pensar que a eficácia divina seja ociosa? Por que pretendemos afirmar que a divina bondade, que: pode se comunicar às coisas infinitas e difundir-se infinitamente, prefira ser escassa e limitar-se a um nada, admitindo que toda coisa finita é um nada em relação ao infinito? Por que pretender que o centro da divindade, que pode infinitamente amplificar-se numa esfera infinita (se assim podemos dizer), prefira permanecer estéril, como um avaro, em vez de ser comunicativo, como um pai fecundo, gracioso e belo? Prefira comunicar-se de forma diminuta ou, para melhor dizer, não se comunicar, em vez de fazê-lo segundo a razão de sua gloriosa potência e de seu ser? Por que frustrar a capacidade infinita, defraudar a possibilidade de mundos infinitos que podem: existir, prejudicar a excelência da divina
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imagem que deveria antes resplandecer num espelho ilimitado, segundo seu modo de ser infinito e imenso? Por que deveríamos afirmar algo que, uma vez admitido, traz consigo tantos inconvenientes, e que, sem favorecer, de forma alguma, leis, religiões, fe ou mora- lidade, destrói tantos princípios de filosofia? Como você quer que Deus seja limitado quanto à potência, à operação e ao efeito (que nele são a mesma coisa), e que seja termo da convexidade de uma esfera em vez de, como podemos afirmar, ser termo ilimitado de coisa ilimitada? Termo, digo, sem limites, por ser a infinitude de um diferente da infini- tude do outro: porque Deus é todo o infinito implícita e totalmente, enquanto o universo está todo em tudo (se de alguma forma se pode chamar de totalidade aquilo onde não existe parte nem fim) explicitamente e não totalmente. Portanto, um existe como termo, o outro como terminado, não pela diferença entre finito e infinito, mas porque um é infi- nito e o outro pende para a finitude pela razão de existir completa e totalmente em tudo aquilo que, apesar de ser todo infinito, não é, porém, totalmente infinito, pois isso repug- na à infinitude dimensional.
ELpino — Eu gostaria de entender melhor tudo isso. Então, façam-me o favor de se explicarem mais a respeito daquilo que afirmam existir todo, e totalmente em tudo, e todo, em todo o infinito e totalmente infinito.
Ficoteo — Eu considero o universo “todo infinito” porque não possui limite, nem termo, nem superficie; digo não ser o universo “totalmente infinito” porque cada parte que dele possamos pegar é finita, e cada um dos inúmeros múndos que contém é finito. Digo que Deus é “todo infinito” porque exclui de si qualquer termo, e cada um dos seus atributos é uno e infinito; e digo que Deus é “totalmente infinito”, porque está inteira- mente em todo o mundo, e em cada uma de suas partes, infinita e totalmente: ao contrá- rio da infinitude do universo que reside totalmente no todo e não nas partes (se nos é per- mitido, chamá-las “partes”, referindo-nos ao infinito que nele podemos compreender). ELpiNO — Entendo. Continue suas explicações.
FrroTEOo — Logo, por todas as razões segundo as quais se afirma ser E onnenienie: justo e necessário este mundo, considerado como finito, assim também devem ser conside- rados convenientes e justos todos os outros inumeráveis mundos, aos quais, pelo mesmo raciocínio, a onipotência concede a existência; e sem os quais ela mesma — por não que- rer ou por não poder — viria a ser acusada de deixar um vácuo ou, se você não o quer chamar de vácuo, úm espaço infinito; pelo que não somente seria subtraída a infinita per- feição ao ente, mas também a infinita majestade atual ao eficiente, nas coisas feitas se são feitas, ou dependentes se são eternas. Que motivo nos levaria a acreditar que o agen- te, podendo fazer um bom infinito, o faça finito? E se o faz finito, por que devemos acre- ditar que possa fazê-lo infinito, sendo nele a mesma coisa o poder e o fazer? Porque, se é imutável, não há contingência nem na operação, nem na eficácia, mas de uma determi- nada e certa eficácia depende imutavelmente determinado e certo efeito; daí não poder ser outra coisa senão aquilo que é, nem poder ser aquilo que não é; nem pode ser senão aquilo que pode; não pode querer outra coisa senão aquilo que quer; e necessariamente não pode fazer outra coisa senão aquilo que faz; porquanto, possuir a potência distinta do ato é próprio somente das coisas mutáveis.
FRACASTORIO — Certamente não é sujeito de possibilidade ou potência aquilo que nunca existiu, não existe e nunca existirá; e, na verdade, se o primeiro eficiente não pode querer nada mais além daquilo que quer, também não pode realizar nada além daquilo que faz. E não vejo como alguns podem entender o que afirmam sobre a potência ativa infinita, à qual não corresponda potência passiva infinita, pretendendo que faça apenas um e finito aquele que, no infinito e imenso, pode fazer inumeráveis sendo sua ação
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necessária, porque procede de tal vontade que, por ser imutabilíssima, antes, a própria imutabilidade, é ainda a própria necessidade; logo são a mesma coisa liberdade, vontade, necessidade, e ainda o fazer, o querer, o poder e o ser.
Firoreo — Vocês concordam e estão certos. É necessário, portanto, afirmar de duas uma: ou que o eficiente, podendo depender dele o efeito infinito, seja reconhecido como causa e princípio de um imenso universo que contém inumeráveis mundos, e disto não procede inconveniente algum, antes pelo contrário, tudo é conveniente, quer segundo a
ciência, quer segundo as leis e a fé; ou que, dependendo dele um universo finito, com estes mundos (que são os astros) de número determinado, lhe seja atribuído a uma potên- cia ativa finita e determinada, como é finito e determinado o ato; porque tal é a vontade etal é a potência, qual é o ato.
FRACASTORIO — Eu completo, formulando um par de silogismos da seguinte maneira: o primeiro eficiente, se quisesse fazer coisa diferente daquilo que quer fazer, poderia fazer coisa diferente daquilo que faz; mas não pode querer fazer outra coisa senão aquilo que quer fazer; logo, não pode fazer senão o que faz. Portanto, aquele que diz efeito fini- to afirma a operação e a potência finitas. E mais (o que vem a dar no mesmo): o primeiro eficiente não pode fazer senão aquilo que quer fazer; não quer fazer nada além daquilo que faz; logo, não pode fazer nada além daquilo que faz. Por conseguinte, aquele que nega o efeito infinito nega a potência infinita.
Frrotreo — Estes silogismos, se não são simples, são demonstrativos. Mesmo assim, louvo aqueles dignos teólogos que não os admitem; porque, considerando justamente, sabem que os povos rudes e ignorantes chegam, com esta necessidade, a não poder con- ceber como possa existir a eleição, a dignidade e os merecimentos de justiça; assim que, confiados ou desesperados, por determinada fatalidade, são necessariamente grandes celerados. Como às vezes certos corruptores de leis, fé e religião, querendo parecer sá- bios, corromperam tantos povos, tornando-os mais bárbaros e criminosos que eram, desprezadores do bem-fazer e peritos em qualquer vício ou malandragem, por causa das conclusões que tiram de tais premissas. Por isso, a afirmação contrária não é para os sá- bios tão escandalosa e detratora da grandeza e excelência divinas quanto a verdade é per- niciosa à conversação erudita e contrária à finalidade das leis, não por ser verdade, mas por ser mal compreendida, tanto por aqueles que maliciosamente a manejam quanto por aqueles que são incapazes de compreendê-la, sem prejuízo dos costumes.
FRACASTORIO — É verdade. Jamais se encontrou filósofo, sábio ou homem de bem que, sob pretexto algum, pretendesse tirar de tal proposição a necessidade dos efeitos huma- nos e destruir o livre arbítrio. Como, entre outros, Platão e Aristóteles, pelo fato de admi- tirem a necessidade e a imutabilidade em Deus, não tiram a liberdade moral e a nossa faculdade de escolha; porque sabem e podem compreender muito bem como são compa- tíveis esta necessidade e esta liberdade. Todavia, alguns dos verdadeiros padres e pasto- res de povos evitam esta conclusão é alguma outra semelhante para, talvez, não favore- cer os facínoras e sedutores, inimigos da civilização e progresso geral, a tirarem perigosas conclusões, abusando da simplicidade e ignorância daqueles que dificilmente podem compreender a verdade e imediatamente são levados ao mal. E facilmente nos permitirão usar as verdadeiras proposições, das quais não queremos inferir senão a ver- dade da natureza e da excelência de seu autor; e que não apresentamos ao vulgo, mas somente aos sabios que podem chegar à compreensão dos nossos discursos. Deste princi- pio infere-se que os teólogos, tão sábios quanto religiosos, nunca prejudicaram a liber- dade dos filósofos; e os verdadeiros, esclarecidos e polidos filósofos sempre favoreceram asreligiões; porquanto, tanto uns como outros sabem que a fé é necessária para a forma-
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ção dos povos primitivos, que devem ser governados, e a demonstração é necessária aos contemplativos que sabem governar a si mesmos e aos outros.
ELPINO — Já se falou bastante sobre este argumento. Voltemos agora ao tema. FrLOTEO — Para chegarmos à conclusão desejada, eu afirmo que, se no primeiro efi- ciente existe potência infinita, existe também operação, da qual depende o universo de grandeza infinita e mundos numericamente infinitos.
ELpiNo — Aquilo que você firma contém enorme poder de persuasão, senão a verda- de. Todavia o que me parece agora muito verossímil, eu o considerarei como verdadeiro, se você puder me esclarecer um importantíssimo argumento segundo o qual Aristóteles foi obrigado a negar a divina potência infinita intensivamente, apesar de concedê-la extensivamente. A razão de sua negação era que, sendo em Deus potência e ato a mesma coisa, podendo assim mover infinitamente, moveria infinitamente com vigor infinito; se isto fosse verdade, o céu seria movido num instante; porque, se o motor mais potente move mais velozmente, o potentíssimo move velocissimamente, e o infinitamente potente move instantaneamente. A razão da afirmação era que Deus, etema e regularmente, move o primeiro móvel, segundo a razão e a medida que o move. Você vê, então por que razão lhe atribuí a infinitude extensiva e intensiva, mas não infinitude absoluta. Quero concluir daí que, assim como sua infinita potência motriz é contraída no ato do movi- mento, segundo velocidade finita, assim a mesma potência de produzir o imenso e os inumerávéis é limitada por sua vontade ao finito e aos numeráveis. Quase o mesmo pre- tendem alguns teólogos que, além de concederem a infinitude extensiva, com a qual sucessivamente perpetua o movimento do universo, requerem também a infinitude inten- siva, com a qual pode fazer inúmeros mundos, movimentar inúmeros mundos, movendo simultaneamente cada um deles e eles todos num instante: todavia, assim impôs com sua vontade a quantidade da multidão de inúmeros mundos, como a qualidade do movi- mento intensíssimo. De onde, como este movimento, que embora proceda de potência infinita, é considerado finito, assim também o número dos corpos mundanos poderá facilmente ser concebido como determinado.
FiLOTEO — Na verdade, o argumento tem mais persuasão e aparência que qualquer outro possa ter e sobre ele já se falou o suficiente, afirmando que a vontade divina é regu- ladora, modificadora e determinante da divina potência. De onde surgem inúmeros inconvenientes, ao menos segundo a filosofia. Deixo de lado os princípios teológicos, que, no entanto, não admitirão que a divina potência seja mais que a divina vontade ou bondade, e, em geral, que um atributo apresente maior razão que outro para convir à divindade.
ELPINO — Por que então se expressam dessa maneira, se não entendem assim? FrroTteEo — Por falta de termos e resoluções eficazes. ELpINO — Então você, possuidor de princípios particulares, Segundo os quais afirma
um, isto é, que a potência divina é infinita intensiva e extensivamente, e que o ato não é distinto da potência e por isso o universo ê infinito e os mundos inumeráveis; e não nega o outro, que de fato cada um dos astros ou orbes, como lhe apraz dizer, é movido no tempo e não no instante; demonstre com que termos e com que resoluções você consegue salvar a sua convicção, ou destruir a dos outros que, em conclusão, julgam o contrário daquilo que você julga.
FrLoTeo — Para a solução daquilo que procura, você deve primeiro considerar que, sendo o universo infinito e imóvel, não é necessário procurar o motor dele. Segundo, se infinitos são os mundos contidos nele, tais como as terras, os fogos e outras espécies de corpos chamados astros, todos se movem pelo princípio interno, que é a própria alma,
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como temos provado em outro lugar; sendo assim, é inútil investigar acerca de seu motor extrinseco. Em terceiro lugar, que estes corpos mundanos se movem na região etérea e não estão fixados nem pregados em corpo algum, assim como esta terra, que, sendo um deles, não está fixa em parte alguma; a qual provamos girar ao redor do próprio centro e em torno do sol, movida pelo instinto animal interno. Enunciadas essas advertências, segundo os nossos princípios, não somos forçados a demonstrar o movimento ativo nem o passivo de um poder intensivamente infinito, porque o móvel e o motor são infinitos, e a alma movente e o corpo movido concorrem num sujeito finito, isto é, em cada um destes astros mundanos. Tanto que o primeiro princípio não é aquele que move; mas, quieto e imóvel, dá o poder de se movimentar a infinitos e inúmeros mundos, grandes e pequenos animais colocados na amplíssima região do universo, tendo cada um, segundo a condição da própria eficiência, a razão da mobilidade, mudança e outros acidentes. ELPINO — Sua posição é muito forte, mas nem por isso você derruba o conjunto das opi- niões contrárias. Elas todas defendem o famoso pressuposto de que o Ótimo Máximo move tudo. Você afirma que ele dá o movimento a tudo que se move; no entanto, o movi- mento se produz segundo a eficiência do motor mais próximo. Na verdade o que você afirma parece-me mais razoável e vantajoso que a opinião comum, por ser mais lógico, todavia — pelo que você costuma afirmar a respeito da alma do mundo e da essência divina, que está toda em tudo, enche tudo e que é mais intrínseca às coisas que a própria essência delas, porque é a essência das essências, vida das vidas, alma das almas — parece-me que tanto podemos afirmar que ele move tudo, como dá a tudo a possibilidade de se mover. Por isso a dúvida acima expressa continua de pé. FrLoTEo — Neste ponto eu posso facilmente esclarecê-lo. Afirmo, pois, que nas coisas devemos contemplar, se assim lhe agrada, dois princípios ativos do movimento: um fini- to, segundo a razão do sujeito finito, e este move no tempo; o outro infinito, segundo a razão da alma do mundo, ou seja, da divindade, que é como alma da alma, que está toda em tudo e faz que a alma exista toda em tudo, e este move no A instante. A terra, portanto, possui dois movimentos. Assim, todos os corpos que se movem possuem dois princípios de movimento, sendo o princípio infinito aquele que simultanea- I mente move e moveu; e por essa razão o corpo móvel não é menos estabilíssimo que mobilíssimo. Como aparece na pre- sente figura, que representa a terra, ela é movida no instante, pois possui motor de poder infinito e, voltando de E para À, realizando-se isto num instante, está simultaneamente em A e em E e em todos os lugares intermédios; e por isto partiu e vol- tou ao mesmo tempo; acontecendo sempre assim, advém que K está sempre muito estável. Semelhantemente, quanto ao seu movimento à volta do centro, onde 1 é o seu oriente, V, o sul, K, o ocidente, e O, o norte. Cada um destes pontos roda em virtude de impulso infinito; e cada um deles partiu e voltou simultaneamente, logo, está sempre fixo, está onde estava. De forma que, para concluir, considerar estes corpos movidos por poder infinito é o mesmo que considerá-los não movidos; porque mover num instante e não mover é a mesma coisa. Permanece, portanto, o outro princípio ativo do movimento, que procede do poder intrínseco, e, por conseguinte, existe no tempo e numa certa sucessão; e este movimento é distinto da quietude. Eis, pois, como podemos afirmar que Deus move o todo; e como devemos entender que ele dá a possibilidade de movimento a tudo o que se move.
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ELPINO — Agora que tão profunda e eficazmente você me livrou desta dificuldade e a resolveu, cedo completamente ao seu raciocínio, esperando no futuro receber sempre semelhantes soluções; porque, embora até o momento pouco tenha interrogado e experi- mentado você, recebi e aprendi muito, e espero tirar ainda maior proveito, pois, apesar de não poder compreender plenamente a sua intenção, pela luz que ela difunde percebo que esconde no interior um sol ou uma estrela ainda maior. E de hoje em diante, não na espe- rança de superar a sua capacidade, mas com a finalidade de oferecer ocasião a suas elucidações, continuarei a questioná-lo, se você aceitar de nos encontrarmos aqui à mesma hora, por tantos dias quantos forem necessários para ouvir e compreender o sufi- ciente para acalmar meu espírito.
FILOTEO — Assim farei.
FRACASTORIO — Você será bem-vindo e nós seremos ouvintes muito atentos.
Burquio — E eu, embora entenda muito pouco. se não conseguir entender os racioci- nios, escutarei as palavras; se não escutar as palavras, ouvirei a voz. Adeus!
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DIÁLOGO SEGUNDO
Interlocutores ELPINO, FILOTEO, FRACASTORIO E BURQUIO
FiLóTeo — Dado que o primeiro princípio é simplíssimo, se em relação a um atributo fosse finito, seria finito em relação a todos os atributos. Ou, sendo finito segundo uma determinada razão intrínseca e infinito segundo outra, necessariamente se deduz que ele é composto. Se, portanto, ele é operador do universo, com certeza é um operador infinito, relativo a um efeito infinito: efeito, repito, porque tudo depende dele. Além disso, assim como a nossa imaginação pode proceder até o infinito, imaginando sempre uma gran- deza dimensional além de outra grandeza e imaginando um número além de outro núme- ro, segundo uma determinada sucessão, e em potência, como se diz, assim devemos compreender que Deus atualmente concebe a dimensão infinita e o número infinito. E desse conceito origina-se a possibilidade, com a conveniência e a oportunidade de assim ser: pois, como a potência ativa é infinita, assim, por necessária consequência, o sujeito de tal potência é infinito. Porquanto, como temos demonstrado inúmeras vezes, o poder fazer pressupõe o poder ser feito, a dimensão pressupõe o dimensionável, o dimensio- nante pressupõe o dimensionado. Acresce que, como realmente se encontram corpos dimensionados finitos, assim o primeiro intelecto entende corpo e dimensão. Se o enten- de, o entende infinito; se o entende infinito, e o corpo é compreendido como infinito, necessariamente existe tal espécie inteligível; e por ser produzida por tal intelecto qual é o divino, é verdadeiramente real, tão real que o seu ser é muito mais necessário do que aquilo que atualmente se encontra diante de nossos olhos sensíveis. Se você considerar bem, acontece que, assim como existe verdadeiramente um indivíduo infinito simplis- simo, assim também existe um amplíssimo dimensional infinito, que esteja naquele e em que ele exista, da mesma forma em que ele está em tudo, e tudo está nele. Depois, se por sua qualidade corpórea podemos ver que um corpo tem potência para se aumentar infini- tamente, como verificamos com o fogo, que se alastraria infinitamente, e isso qualquer pessoa reconhece, caso se lhe oferecesse matéria apta, qual é a razão que impediria que o fogo, que pode ser infinito e pode ser colocado, por consequência, como infinito, não possa encontrar-se atualmente infinito? Não sei, na verdade, como se possa imaginar que na matéria exista alguma coisa como potência passiva que não seja potência ativa no efi- ciente e, por consequência, no ato, antes, que seja o próprio ato. Certamente, dizer que o infinito existe em potência e numa determinada sucessão e não em ato, implica neces-
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sanamente que a potência ativa possa realizar o infinito em ato sucessivo e não em ato concluído; porque o infinito não pode ser concluído. Donde resultaria ainda que a pri- meira causa não tem potência ativa simples, absoluta e única, mas uma potência ativa a que corresponde a possibilidade infinita sucessiva, e outra a que corresponde a possibili- dade indistinta do ato. Concedo que, sendo o mundo limitado, e não havendo modo de imaginar como uma coisa corpórea possa confinar circunferencialmente com uma coisa incorpórea, este mundo teria o poder e a possibilidade de se anular e desaparecer, pois, pelo que sabemos, todos os corpos são dissolúveis. Além disso, não haveria razão para não admitir que alguma vez o inane infinito, apesar de não se poder concebê-lo como possuidor de potência ativa, possa absorver este mundo como um nada. Admito que o lugar, o espaço, o vazio, têm semelhança com a matéria, se não são mesmo à própria matéria; como às vezes parecem admitir, talvez com razão, Platão e todos aqueles que definem o lugar como espaço determinado. Ora, se a matéria possui uma tendência pró- pria, que não pode existir em vão, porque esta tendência é particular da natureza e proce- de da ordem da natureza originária, é necessário que o lugar, o espaço, o inane, tenham tal tendência. Como já foi dito acima, nenhum dos que consideram o mundo terminado, depois de ter afirmado o termo, sabe de forma alguma imaginar como ele seja; e, além disso, alguns deles, negando o vácuo e o inane com proposições e palavras, vêm depois a admiti-lo, necessariamente, na prática. Se é vácuo € inane, é com certeza capaz de rece- ber, o que não pode ser negado de forma alguma, admitindo que — pela mesma razão por que se considera impossível que no espaço onde está este mundo se encontre ao mesmo tempo contido outro mundo — deve-se afirmar a possibilidade de ser contido no espaço fora deste mundo, ou naquele nada, se assim pretende Aristóteles designar o que não quer chamar de vácuo. A razão pela qual ele afirma que dois corpos não podem estar juntos é a impossibilidade de coexistir nas dimensões de um e de outro corpo: per- manece então no âmbito deste raciocínio, que onde não se encontrem as dimensões de um corpo podem encontrar-se as dimensões de outro. Se esta possibilidade existe, então o espaço, de certa forma, é matéria; se é matéria, possui aptidões; se possui aptidões por qual razão haveis de negar-lhe o ato?
ELpiNno — Muito bem. Mas, por favor, proceda de outro modo; faça-me entender que diferença há entre mundo e universo.
Frotreo — A diferença é muito conhecida fora da escola peripatética. Os estóicos fazem distinção entre o mundo e o universo, porque o mundo é tudo o que existe de pleno e consta de corpo sólido; o universo não é somente o mundo, mas também o vácuo, o inane e o espaço fora dele: por isso consideram o mundo como finito e o universo infini- to. De forma semelhante, Epicuro chama ao todo e ao universo mistura de corpos e de inane; e nesta mistura afirma consistir a natureza do mundo, que é infinito, na capaci- dade do inane e do vácuo, e também na multidão de corpos que nele existem. Nós não consideramos vácuo o que é simplesmente o nada, mas, segundo aquele conceito, tudo o que não possua corpo que resista sensivelmente, sempre que tenha dimensão, é conside- rado vácuo: pois, comumente, não se concebe o corpo senão com a propriedade de resis- tência. Daí afirmarem que, como não é carne aquilo que não é vulnerável, assim não é corpo aquilo que não resiste. Desta forma dizemos existir um infinito, isto é, uma etérea região imensa, na qual existem inúmeros e infinitos corpos, como a terra, o sol, a lua, que são chamados por nós de mundos compostos de pleno e vácuo: porque este espírito, este ar, este éter, não estão somente à volta destes corpos, mas ainda os penetram e estão ínsi- tos em todas as coisas. Consideramos ainda o vácuo segundo a mesma razão que nos
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permite responder a quem perguntasse onde se encontram o éter infinito e os mundos, e nos respondesse: num espaço infinito, num ambiente determinado, no qual tudo existe e se compreende, e nem se poderia compreender como existindo em outra parte.
Neste ponto, Aristóteles, tomando confusamente o vácuo segundo esses dois conceitos e mais um terceiro, que ele imaginou mas não soube denominar nem definir, vai-se deba- tendo para eliminar o vácuo e pensa destruir, com a mesma argumentação, todas as opi- niões acerca dele. Contudo, não toca nelas mais do que alguém que, por ter eliminado o nome de alguma coisa, pensasse ter eliminado a coisa mesma, porque destrói o vácuo, se acaso o destrói, por um raciocínio que, provavelmente, nunca foi apresentado por nin- guém: considerando que os antigos e nós tomamos o vácuo por aquilo que pode conter um corpo e que pode conter qualquer coisa, inclusive átomos e corpos, e só ele define o vácuo como sendo o nada, no qual nada está e nada pode estar. Daí, tomando o vácuo segundo um nome e significação que ninguém lhe deu, fez castelos no ar e destruiu o seu vácuo, mas não o de todos os outros que falaram de vácuo e se utilizaram deste nome: vácuo. Este sofista não procede de outro modo no tocante a outros assuntos, tais como movimento, infinito, matéria, forma, demonstração, ente, edificando sempre sobre a fé da sua própria definição e sobre o nome tomado segundo novo significado. De modo que todo aquele que não é completamente desprovido de juízo pode facilmente perceber quanto este homem é superficial na consideração da natureza das coisas e quanto está apegado às suas suposições, nem confirmadas nem dignas de serem confirmadas, suposi- ções ainda mais vãs em sua filosofia natural do que se possa imaginar na matemática. E vocês podem observar que tanto se gloriou desta vaidade e tanto se enalteceu que, a pro- pósito da especulação sobre a natureza das coisas, ambicionou tanto ser considerado raciocinador ou, como queremos dizer, lógico que, por desprezo, chama de fisicos aque- les que mais se ocuparam da natureza, realidade e verdade. Ora, para voltar ao tema, considerando que, em seu livro Do vácuo, nem direta, nem indiretamente afirma alguma coisa que possa dignamente se opor à nossa posição, deixemo-lo assim ficar, remetendo- o para uma ocasião mais oportuna. Portanto, se lhe agrada, Elpino, formule e ordene as razões pelas quais o corpo infinito não é admitido por nossos adversários, e depois as outras, pelas quais não podem compreender a existência de mundos inumeráveis. ELpIiNO — Assim farei. Referirei as posições de Aristóteles, em ordem, e vocês dirão a respeito delas tudo aquilo que lhes ocorrer. “Devemos considerar”, diz ele, “se encon- tramos um corpo infinito, como afirmam alguns antigos filósofos, ou se isto é impossível; em seguida, é preciso investigar se existe um ou mais mundos. A resolução dessas ques- tões é importantissima: porque ambas as partes da contradição são de tal valor que origi- nam duas correntes filosóficas muito diferentes e contrárias: como, por exemplo, perce- bemos que aquele primeiro erro dos que admitiram a existência de partes individuais, fechou o caminho de tal forma que eles chegam a errar em grande parte da matemática. ' Explicaremos, então, posições de grande atualidade para as dificuldades passadas, pre- sentes e futuras; porque, embora seja de pouca importância o equivoco em que se cai no começo, aumenta dez mil vezes com a continuação; da mesma forma, o engano que se comete ao início de qualquer caminho tanto mais se avoluma quanto mais se procede, afastando-se do princípio, de maneira que no fim acaba por levar a um termo contrário aquele que era proposto. A razão de tudo isso é que os princípios são pequenos em tama- nho e enormes em eficácia. Essa é a razão da determinação desta dúvida.” FmorTeo — Tudo aquilo que Aristóteles afirma é imprescindível, e digno de ser afirmado por outros além dele; porque, como ele acredita que, por compreender mal este princípio,
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os adversários incorreram em grandes erros, assim, em contrapartida, nós acreditamos e vemos claramente que peló oposto a este princípio ele perverteu toda a especulação natural.
ELPINO Ele acrescenta: “Precisamos, então, pesquisar se é possível existir um corpo simples de grandeza infinita, o que, primeiramente, deve resultar como impossível no pri- meiro corpo que se movimenta circularmente; em seguida, nos outros corpos; porque, sendo cada corpo simples ou composto, o que é composto segue a disposição do que é simples. Se, portanto, os corpos simples não são infinitos nem em número, nem em gran- deza, necessariamente não poderá existir tal corpo composto”.
FiroteEo — Prometo muito! Porque, se ele provar que o corpo chamado continente e primeiro é continente, primeiro e finito, será também supérfluo e vão prová-lo acerca dos corpos contidos.
ELPINO — Agora prova que o corpo redondo não é infinito: “Se o corpo redondo é infi- nito, as linhas que partem do centro serão infinitas, e a distância de um semidiâmetro ao outro (os quais, quanto mais se afastam do centro, maior distância adquirem) será infini- ta; porque, pela adição das linhas segundo a longitude, é necessário que resulte a maior distância; portanto, se as linhas são infinitas, a distância será também infinita. Ora, é impossível que o móvel possa transcorrer distância infinita; e no movimento circular é necessário que a linha de um semidiâmetro do movél chegue ao outro semidiâmetro”. Frcorego — Esse raciocínio é bom, mas não vem a propósito contra a intenção dos adversários. Porque existiu alguém tão primitivo e de inteligência tão escassa, que tenha colocado o mundo infinito e a grandeza infinita como móveis. E demonstra ter-se esque- cido ele mesmo daquilo que expôs na sua Física: que aqueles que admitiram um ente e um princípio infinito o consideraram evidentemente imóvel; e nem ele, nem outro por ele, poderá jamais mencionar algum filósofo ou homem comum, que tenha admitido uma grandeza infinita móvel. Mas ele, como sofista, toma uma parte da sua argumentação da conclusão dos adversários, supondo o próprio princípio que o universo é móvel, que está em movimento e que apresenta figura esférica. Então podem ver se entre tantas razões apresentadas por este mendigo encontramos uma que argumente contra a idéia daqueles que afirmam existir um infinito, imóvel, sem forma, amplíssimo continente de inúmeros móveis, que são os mundos, chamados astros por alguns e esferas por outros; observem um pouco se nesta ou noutras razões apresenta pressupostos admitidos por alguém. ELpino — Certamente, todas as seis razões são fundamentadas sobre esta pressuposi- ção, isto é, que o adversário considere o universo infinito e admita que esse infinito seja móvel: o que é certamente uma estupidez, até uma irracionalidade, se por acaso não que- remos juntar num conceito só o infinito movimento e a infinita quietude, como você me afirmou ontem a propósito dos mundos particulares.
FiLoTEO — Não quero afirmar isso em relação ao universo ao qual, por nenhuma razão, pode ser atribuído o movimento; pois que esse não pode, nem é conveniente, nem deve ser atribuído ao infinito; e nunca, como já foi dito, se emcontrou alguém que assim o imaginasse. Mas esse filósofo, como aquele que tem falta de terreno, edifica tais castelos no ar.
ELpiNno — Na verdade, desejaria um argumento que se opusesse ao que vocês afirmam, porque as outras cinco razões, que esse filósofo apresenta, seguem todas o mesmo cami- nho, e andam sobre os mesmos trilhos. Por isso julgo desnecessário reproduzi-las. Ora, depois de ter apresentado as que versam sobre o movimento mundano e circular, passa a propor as que se fundam sobre o movimento retilineo; e afirma também “ser impossível que alguma coisa seja movida por movimento infinito no meio, ou embaixo, ou do meio
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para o alto”; e o prova, primeiro, pelos movimentos próprios de tais corpos, e isso tanto em relação aos corpos extremos como aos intermediários.
“O movimento para o alto”, afirma ele, “e o movimento para baixo são contrários e o lugar de um movimento é contrário ao lugar de outro. Entre os contrários ainda, se um é determinado, o outro também deve ser determinado; e o intermédio que participa de ambos os determinados deve ser assim ele também, porque não de qualquer ponto, mas de certa parte, é necessário que inicie aquele que deve passar além do meio, pois existe um lugar estabelecido onde iniciam e um outro lugar estabelecido onde terminam os limi- tes do meio. Sendo, então determinado o meio, é necessário que sejam determinados os extremos; e se os extremos são determinados, é necessário que seja determinado o meio, e se os lugares são determinados, é necessário que os corpos aí colocados o sejam tam- bém, porque de outro modo o movimento seria infinito. A mais, quanto à gravidade e leveza, o corpo que tende para o alto pode chegar a tal lugar, porque nenhuma tendência natural é vã. Portanto, não existindo espaço do mundo infinito, não existe lugar nem corpo infinito. Também em relação ao peso, o infinito não é nem pesado nem leve; então o infinito não possui corpo: como é necessário que, se o corpo grave é infinito, sua gravi- dade seja infinita. E isto não se pode evitar; porque se você quisesse afirmar que o corpo infinito possui gravidade infinita, derivariam daí três inconvenientes. Primeiro, que a gra- vidade e a leveza dos corpos finito e infinito seriam as mesmas; porque ao corpo finito grave, conquanto seja excedido pelo corpo infinito, eu faria tantas adições e subtrações quantas fossem necessárias para atingir aquela mesma quantidade de gravidade e leveza. Segundo, que a gravidade da grandeza finita poderia ser maior que a da infinita; pois, pela mesma razão, pela qual pode ser igual a ela, pode ainda ser superior, acrescentan- do-lhe quanto você quiser de corpo grave, ou subtraindo-lhe, ou acrescentando-lhe algo de corpo leve. Terceiro, que a gravidade da grandeza finita e infinita seria igual; e como aquela proporção que a gravidade tem em relação à gravidade é a mesma que a da velo- cidade em relação à velocidade, resultaria que a mesma velocidade e lentidão se pode- riam encontrar num corpo finito e infinito. Quarto, que a velocidade do corpo finito poderia ser maior que a do infinito. Quinto, que poderia ser igual; ou, da mesma forma que o grave supera O grave, assim a velocidade supera a velocidade: havendo gravidade infinita, será necessário que se movimente, em qualquer espaço, em menos tempo que a gravidade finita; ou então não se movimente, pois a velocidade e a lentidão derivam da grandeza do corpo. Onde, não existindo proporção entre finito e infinito, será por fim necessário que O grave infinito não se movimente; porque, se ele se movimenta, não se movimenta tão velozmente, que não haja gravidade finita, que no mesmo tempo, através do mesmo espaço, avance com a mesma velocidade.” FiLOTEO — É impossível encontrar outro que, com título de filósofo, imaginasse hipóte- ses mais vãs e criasse tão estúpidas posições contrárias, para dar origem a tanta superfi- cialidade quanta podemos notar nas razões dele. Agora, quanto âquilo que é relativo aos lugares próprios dos corpos e do determinado alto, baixo e mediano, gostaria de saber contra que posição ele argumenta. Porque todos aqueles que admitem corpo e grandeza infinitos nesta não colocam meio nem extremo. Pois quem afirma o inane, o vácuo, o éter, como infinitos, não lhes atribui gravidade, leveza, movimento, nem região superior, inferior, mediana; e colocando depois em tais espaços, corpos infinitos, como esta terra, aquela e mais outra terra, este sol, aquele e mais outro sol, todos eles se movimentam circularmente dentro deste espaço infinito, através de espaços finitos e determinados ou em torno dos próprios centros. Assim, nós, que estamos na terra, afirmamos que a terra está no meio e todos os filósofos modernos e antigos, de qualquer linha de pensamento,
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puderam afirmar que ela está no meio, sem prejudicar os seus princípios; como afirma- mos em relação ao horizonte maior desta etérea região que está à nossa volta, terminada por aquele circulo eguidistante, em relação ao qual nós estamos como que no centro. Assim como aqueles que se encontram na lua consideram ter à sua volta esta terra, o sol e todas as outras estrelas, que estão em volta do meio e do termo dos próprios semidiã- metros do próprio horizonte; assim também a terra não é mais centro do que qualquer outro corpo mundano, e certos e determinados pólos não o são mais em relação à terra do que a terra é um certo e determinado pólo em relação a qualquer ponto do éter e espa- ço mundano; e o mesmo acontece com todos os outros corpos, os quais, sob diferentes pontos, todos são ao mesmo tempo centros, pontos de circunferência, pólos, zênites e ou- tras coisas mais. Portanto, a terra não se encontra, em absoluto, no meio do universo, mas só em relação a esta nossa região.
Logo, este contendor cai em petição de princípio e pressuposição daquilo que deve provar. Isto é, toma por princípio o equivalente ao oposto da posição contrária, pressu- pondo meio e extremo contra aqueles que, considerando o mundo infinito, negam neces- sariamente este extremo e meio e, por conseguência, o movimento para cima, para o lugar supremo, e para baixo, para o ínfimo. Viram os antigos, e ainda vemos nós, que al- guma coisa vem para a terra, onde nós estamos, e alguma coisa parece sair da terra ou do lugar onde nos encontramos. Por conseguinte, se afirmamos e queremos afirmar que o movimento de tais coisas é para o alto e para baixo, entendemos que isto aconteça em relação a determinadas regiões, sob determinados pontos de vista; de sorte que, se algu- ma coisa, afastando-se de nós, procede rumo à lua, assim como nós dizemos que ela ascende, aqueles que estão na lua e são nossos anticéfalos dirão que ela desce. Logo, aqueles movimentos que existem no universo não apresentam diferença alguma de posi- ção em cima, embaixo, aqui ou lá, em relação ao universo infinito, mas sim aos mundos finitos que existem nele, quer tomados segundo a amplidão de inumeráveis horizontes mundanos, quer segundo o número de inumeráveis astros; daí, ainda a mesma coisa, segundo o mesmo movimento, em relação a elementos diversos, afirma-se provir do alto e de baixo. Determinados corpos, portanto, não possuem movimento infinito, mas finito e determinado acerca dos próprios termos. Mas no indeterminado e infinito não existe nem finito nem infinito movimento, e não há diferença de lugar nem de tempo.
' Em relação, pois, ao argumento acerca da gravidade e da leveza, afirmamos que este é um dos mais lindos frutos que poderia produzir a árvore da estúpida ignorân- cia. Porque a gravidade, como demonstraremos ao longo desta especulação, não pode ser encontrada em corpo inteiro ajgum e naturalmente disposto e colocado; pois que não são as diferenças que devem distinguir a natureza dos lugares e a razão de movimento. Além disso, demonstraremos que grave e leve passam a ser a mesma coisa, segundo o mesmo impulso e movimento em relação aos diferentes meios; como também em relação a diver- sos meios, a mesma coisa passa a ser alta e baixa, ou movimentar-se para cima e para baixo. Isto eu afirmo com respeito aos corpos particulares e aos mundos particulares, dos quais nenhum é grave nem leve, e cujas partes, afastando-se e difundindo-se deles, chamam-se leves, e voltando aos mesmos, chamam-se graves; como as partículas da terra ou das coisas terrestres quando vão rumo à circunferência do éter, afirma-se que sobem, e quando vêm rumo ao seu todo, afirma-se que descem. Mas quanto ao universo e corpo infinito, alguma vez se encontrou alguém que os afirmasse graves ou leves? Ou, então, alguém que pusesse tais princípios ou delirasse de tal maneira que, por conse- quência, pudesse levar-nos a concluir de suas afirmações que o infinito seja grave ou leve? Que deva subir, ou elevar-se ou apoiar-se? Nós demonstraremos como nenhum dos
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infinitos corpos que existem não é grave, nem leve. Porque essas qualidades se manifes- tam nas partes, quando tendem para o seu todo e para o lugar de sua conservação, porém não são relativas ao universo, mas aos próprios mundos continentes e inteiros; como na terra, querendo as partes do fogo libertar-se e ir rumo ao sol, levam sempre consigo algu- ma parte da terra e da água a que estão juntos; as quais, sendo multiplicadas em cima, ou no alto, assim com impulso próprio e naturalíssimo, voltam ao seu lugar. Daí, com mais razão, se concluídas, não ser possível que os grandes corpos sejam graves ou leves, sendo o universo infinito; e por isso não há razão de afastamento ou aproximação da circunferência ou do centro; por conseguinte, a terra não é mais grave em seu lugar do que o sol no seu, O saturno no seu, a estrela polar no dela. Poderíamos dizer, porém, que, como são as partes da terra que voltam à terra por sua gravidade — querendo assim designar o impulso das partes para o todo, e do que está longe para o próprio lugar —, assim são as partes dos outros corpos, como podem ser infinitas outras terras ou possui- doras de semelhante condição, infinitos outros sóis ou fogos, ou de natureza semelhante. Todos se movimentam dos lugares circunferenciais para o próprio continente, como para o meio: donde resultaria que existem infinitos corpos graves, de acordo com o número. Não existirá, porém, gravidade infinita, como num sujeito, e intensivamente, mas como em inúmeros sujeitos, e extensivamente. É isto que resulta da opinião de todos os antigos e da nossa também, e contra essa teoria o contendor não teve argumento algum. Então, aquilo que ele afirma sobre a impossibilidade do infinito grave é tão verdadeiro e tão evi- dente que é quase uma vergonha mencioná-lo e de forma alguma é oportuno destruir a filosofia alheia para confirmar a própria; mas são tudo argumentos e palavras jogadas ao vento.
Erpino — A leviandade das razões por ele apresentadas é mais que manifesta, de maneira que não seria suficiente toda a arte da persuasão para escusá-la. Ouçam agora as razões que ele acrescenta para concluir universalmente que não existe corpo infinito. “Ora”, diz ele, “sendo manifesto aqueles que observam as coisas particulares que não existe corpo infinito, resta ver e em geral isto é possível. Porque alguém poderia afirmar que, assim como o mundo está disposto à nossa volta, não é impossível que existam ou- tros céus. Mas, antes de chegarmos a esse ponto, investigúemos de forma geral sobre o infinito. É necessário, pois, que cada corpo ou seja infinito, e que esse seja todo com- posto de partes semelhantes, ou de partes não semelhantes; constando estas de espécies finitas ou de espécies infinitas. Não é possível que conste de infinitas espécies, se quiser- mos pressupor o que temos dito, isto é, que existem outros mundos semelhantes a este, porque, da mesma forma como este mundo está disposto em relação a nós, assim tam- bém estaria disposto em relação a outros, existindo outros céus. Porque, se são determi- nados os primeiros movimentos, que são relativos ao meio, é necessário que sejam deter- minados também os movimentos secundários, e por isso, como já distinguimos cinco espécies de corpos, dois dos quais são simplesmente graves ou leves, e dois mediocre- mente graves ou leves, e um nem grave nem leve, mas ágil em torno do centro, a mesma coisa deve acontecer nos outros mundos. Não é possível, portanto, que conste de infinitas espécies. Não é, alêm disso, possível que conste de espécies finitas.” E em primeiro lugar prova que não consta de espécies finitas dessemelhantes por quatro razões, sendo a pri- meira que “cada uma destas partes infinitas será água ou fogo, e por consequência coisa grave ou leve. E isto foi demonstrado como impossível, quando se viu que não existem gravidade nem leveza infinitas”.
FiLoTEo — Nós dissemos o suficiente, quando respondemos a isso.
ELPINO — Eu sei. Acrescenta a segunda razão, dizendo que “é necessário que cada uma
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destas espécies seja infinita, e, por conseguência, o lugar de cada uma deve ser infinito; de onde resultará que o movimento de cada uma seja infinito; que é impossível. Porque não pode acontecer que um corpo que desça deslize pelo infinito abaixo, o que é manifes- 'to, pelo que se verifica em todos os movimentos e transmutações. Assim como na gera- ção não se procura fazer aquilo que não pode ser feito, assim no movimento espacial não se procura o lugar onde não é possível chegar nunca; e aquilo que não pode estar no Egito é impossível que se movimente para o Egito; porque a natureza nada opera em vão. É impossível, pois, que uma coisa se movimente em direção a um lugar onde não pode chegar”.
FILOTEO — À isto já se respondeu o bastante; e confirmamos que existem terras infinitas, sóis infinitos e éter infinito; ou, segundo as afirmações de Demócrito e Epicuro, existem o cheio e o vácuo infinitos, um ínsito no outro. E existem diferentes espécies finitas, umas contidas pelas outras e umas ordenadas para as outras. E todas essas espécies, mesmo diversas, concorrem todas para a construção de um inteiro universo infinito, e para a construção de infinitas partes do infinito, pois que de infinitas terras semelhantes a essa se origina, em ato, uma terra infinita, não como uma só entidade contínua, mas como uma unidade constituída pela inúmerável multidão delas. O mesmo raciocínio podemos aplicar às outras espécies de corpos, sejam elas quatro, ou duas, ou três, ou quantas forem (não determino por ora); sendo elas como que partes (se é que podem ser chama- das partes) do infinito, é necessário que sejam infinitas, segundo o volume que resulta de tal multidão. Ora, não é necessário concluir disso que o grave proceda pelo infinito abai- xo. Mas como este grave procede em direção a seu próximo e conatural corpo, assim cada um dos outros procede em direção ao seu. Esta terra possui as partes que lhe per- tencem; aquela outra terra possui as partes pertencentes a ela mesma. Da mesma forma,
aquele sol possui aquelas partes que dele se difundem e procuram voltar para ele; e, semelhantemente, outros corpos recolhem naturalmente suas próprias partes. Donde resulta que, sendo finitos os termos e as distâncias entre os corpos, assim também os movimentos resultam finitos; e como ninguém parte da Grécia para ir ao infinito, mas para chegar à Itália ou ao Egito, assim, quando parte da terra ou do sol se movimenta, não se propõe a alcançar um termo infinito, mas um finito, um limite. Todavia, sendo o universo infinito e todos os seus corpos transmutáveis, consequentemente, todos difun- dem sempre partes de si e sempre a eles voltam, emitem algo próprio e recolhem o que é alheio. Não considero coisa absurda ou não conveniente, pelo contrário, muito possível e natural, que existam transmutações finitas que podem afetar um sujeito; e que partí- culas de terra vagueiem pelo éter e se aproximem, através do espaço imenso, quer de um corpo quer de outro, da mesma maneira que podemos ver as mesmas partículas mudar de lugar, de organização e de forma, enquanto permanecem ainda perto de nós. Do que se conclui que, se esta terra é perpétua e eterna, não o é pela consistência das suas próprias partes e dos seus próprios indivíduos, mas pela vicissitude de outros que ela difunde e de outros que lhes sucedem no lugar daqueles; de forma que, embora possuindo sempre a mesma alma e a mesma inteligência, o corpo sempre muda e se renova nas várias partes. O mesmo se verifica também nos animais, que subsistem por causa dos alimentos que recebem e dos excrementos que sempre eliminam. Pelo que aquele que raciocinar cuida- dosamente concluirá que os jovens não possuem a mesma came de quando eram crian- ças, e os velhos não possuem aquela mesma carne de quando eram jovens; pois estamos continuamente em transmutação, a qual faz com que cheguem a nós continuamente novos átomos e de nós partam aqueles anteriormente acolhidos. Como em volta do
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esperma, acrescentando-se átomos a átomos pelo poder do intelecto geral e da alma (por meio da fabricação, onde concorrem como matéria), forma-se e cresce o corpo, quando o influxo dos átomos é maior que o defluxo; depois o mesmo corpo permanece numa determinada consistência quando o defluxo é igual ao influxo, e declina quando o defluxo se torna maior que o influxo. Não afirmo “influxo” e “defluxo” em sentido absoluto, mas o defluxo do conveniente nativo e o influxo do alheio e não-conveniente, que não pode ser superado pelo debilitado princípio causado pelo defluxo, que é constante, quer num elemento vital, quer num elemento não-vital. Para chegar, pois, ao ponto da questão, afir- mo que por tal vicissitude não é inconveniente, mas, pelo contrário, é bem razoável afir- mar que as partes e os átomos possuam curso e movimento infinitos por causa das infini- tas vicissitudes e transmutações tanto de formas quanto de lugar. Inconveniente seria se, num termo próximo e determinado de transmutação local, ou de alteração, se encon- trasse alguma coisa que tendesse para o infinito. O que não pode ser, atendendo que uma coisa nunca é movimentada por algo que se encontre em outro lugar, nem é espoliada de uma que não seja investida de outra disposição, nem deixa um ser sem ter tomado outro ser; coisa que necessariamente resulta da alteração, que necessariamente deriva da muta- ção local. De modo que o sujeito próximo e formado não pode se movimentar a não ser finitamente, porque facilmente toma outra forma, se muda de lugar. O sujeito primário e sem forma se movimenta infinitamente, segundo o espaço e segundo o número de confi- gurações; enquanto as partes da matéria se introduzem ou saem de um lugar para vários outros, seja em parte, seja no todo.
ErpINO — Compreendo muito bem. Acrescente por terceira razão que, “se considerás- semos o infinito como separado e não junto, onde deveriam existir infinitos fogos parti- culares e individuais, embora podendo cada um deles tornar-se depois finito, aconteceria que aquele fogo, que resulta de todos os fogos individuais, deve ser infinito”.
FrrotTeo — Com isto eu já concordei; e, para concluir isso, ele não precisava insistir sobre o fato de que daí não deriva inconveniente algum. Porque, se o corpo vem separado ou dividido em partes localmente distintas, das quais uma pese cem, a outra mil, a outra dez, resultará que o conjunto todo pesa mil cento e dez. Mas isto se verificará com vários pesos separados e não com um peso único. Ora, nem nós, nem os antigos, não temos por inconveniente afirmar que em partes distintas se possa encontrar peso infinito; porque delas resulta logicamente um peso, ou aritmeticamente ou geometricamente, que verda- deira e naturalmente não fazem um peso, como não fazem uma massa infinita, mas fazem massas infinitas e pesos finitos. Porque dizer, imaginar e ser não são a mesma coisa, mas coisas muito diferentes. Pois que disso não se conclui que exista um corpo infinito duma espécie, mas uma espécie de corpo em infinitos finitos; porém, não existe peso infinito, nem infinitos pesos finitos, considerando que esta infinitude não é continua, mas parcelada, e as partes se encontram num infinito contínuo, que é o espaço, o lugar e a dimensão capaz de contê-las todas. Não é, pois, inconveniente que existam infinitas partes graves, que, porém, não constituem um grave, como infinitas águas não fazem uma água infinita, nem infinitas partes de terra não fazem uma terra infinita: de maneira que existem infinitos corpos em multidão, os quais fisicamente não compõem um corpo de grandeza infinita. E isso faz uma grandíssima diferença; como podemos, por seme- lhança, ver no sulco de um barco, que é impulsionado por dez pessoas unidas e nunca O será por milhares de pessoas desunidas e cada uma por sua conta.
ELPINO — Com o que você afirma, fica resolvido, mil vezes, tudo o que está contido na quarta razão, que afirma: “Se consideramos um corpo infinito, é necessário entendê-lo
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infinito segundo todas as dimensões. Por conseguinte, não pode em parte alguma existir qualquer coisa fora dele; portanto, não é possível que num corpo infinito existam vários elementos dessemelhantes, sendo cada um infinito”.
FiLoTEo — Tudo isso é verdade e não nos contradiz, pois que temos tantas vezes afir- mado a existência de vários elementos dessemelhantes finitos num infinito e já explica- mos como. Seria, talvez, como se alguém afirmasse a coexistência de vários corpos conti- nuos, como, por exemplo, acontece com a lama, onde sempre e em cada parte a água é contínua à água e a terra é contínua à terra: daí, pela insensível participação das míni- mas partes de terra e das mínimas partes de água, que formam o conjunto, não poderão ser consideradas distintas nem contínuas, mas um único contínuo, que não é água nem terra, mas é lama.
Assim, de modo idêntico, pode qualquer outro gostar de dizer que a água não é propriamente continuada pela água, nem a terra é continuada pela terra, mas a água é continuada pela terra e a terra pela água. E pode igualmente haver um terceiro que, negando as duas posições anteriores, afirme ser a lama continuada pela lama. E, segundo essas razões, o universo infinito pode ser considerado como um todo contínuo, no qual o éter interposto entre corpos tão grandes não os separa mais do que na lama o ar inter- posto entre as partes de água e de terra, diferindo somente pela pequenez, pela inferiori- dade e pela insensibilidade das partes que estão na lama, em contraposição à grandeza, superioridade e sensibilidade das partes que existem no universo: do mesmo modo, os contrários e os diferentes móveis concorrem na constituição de um imóvel contínuo, em que os contrários participam na constituição de uma unidade e pertencem a uma ordem e finalmente eles são uma unidade. Seria um inconveniente certo e impossível admitir dois infinitos distintos um do outro; pois não teriamos a possibilidade de imaginar onde um termina e começa o outro, e onde ambos viessem a terminar um por causa do outro. Ademais, é dificilimo encontrar dois corpos finitos num extremo e infinitos no outro extremo.
ELpINO — Ele apresenta mais duas razões para provar que, por esse lado, não existe infi- nito. “A primeira é que seria necessário que àquele fosse conveniente uma destas espécies de movimento local; que seria uma gravidade ou uma leveza infinitas, ou uma circulação infinita; e temos demonstrado como tudo isto é impossível.”
FiLoTeEo — E nós temos esclarecido quanto esses discursos e razões são vãos; e que o infinito não se move no todo; que não é grave nem leve, tanto ele como qualquer outro corpo, em seu lugar natural; nem tampouco as partes separadas, quando estiverem afas- tadas para além dum certo limite, do próprio lugar. Portanto, o corpo infinito, segundo nossa opinião, não é móvel nem em potência nem em ato; e não é grave nem leve em potência ou em ato; e não pode haver gravidade ou leveza infinitas, segundo os nossos princípios e os de outros, contra os quais ele edifica tão lindas teorias.
ELpINO — Por isso a segunda razão também é va, porque inutilmente pergunta “se o infinito se move natural ou violentamente”, a quem nunca afirmou que ele se move, quer em potência, quer em ato. Depois, prova que não existe corpo infinito, pelas razões deri- vadas do movimento comum. Afirma, em suma, que o corpo infinito não pode ter influência sobre o corpo finito, nem tampouco recebê-la deste; e apresenta três proposi- ções a respeito. Primeira, que “o infinito não é influenciado pelo finito”: porque cada movimento e, por consequência, cada paixão existem no tempo, e se assim é, poderá acontecer que um corpo de menor grandeza tenha uma paixão proporcional a ela; porém,
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assim como existe proporção entre o agente finito e o paciente finito, assim acontecerá entre o paciente finito e o agente infinito. Isto pode ser verificado se colocarmos como corpo infinito A, e como corpo finito B; e pois que todo o movimento se verifica no tempo, colocamos o tempo G, no qual À se movimenta ou é movimentado. Tomamos de- pois um corpo de grandeza menor, isto é, B, e a linha D seja agente em relação ao outro corpo (que seja H) completamente, no mesmo tempo G. Daqui poder-se-á verificar que existe proporção de D, agente menor, a B, agente maior, assim como existe proporção entre o paciente finito H e a parte finita A, cuja parte seja AZ. Ora, quando mudarmos a proporção do primeiro agente ao terceiro paciente, como há proporção do segundo agente ao quarto paciente, verificar-se-á uma proporção entre D e H, como há proporção de Ba AZ; B será verdadeiramente, no mesmo tempo G, agente perfeito entre coisa finita e coisa infinita, isto é, em AZ, parte do infinito, e em A, infinito. Isto é impossível; por- quanto o corpo infinito não pode ser nem paciente nem agente, porque dois pacientes iguais sofrem igualmente, no mesmo tempo, do mesmo agente, e o paciente menor sofre do mesmo agente em tempo menor, e o paciente maior, em tempo maior. Além disso, quando existem agentes diversos em tempo igual, e se efetua a ação deles, virá a se for- mar uma proporção entre agente e agente, da mesma forma que existe proporção entre paciente e paciente. Ainda, cada agente opera sobre o paciente em tempo finito (estou me referindo àquele agente que completa a sua ação, não àquele cujo movimento seja conti- nuo, como só o movimento de translação pode ser), porque é impossível que exista ação finita em tempo infinito. Eis, portanto, esclarecido em primeiro lugar como o finito não pode exercer sobre o infinito ação que tenha fim.
G tempo
A paciente infinito B agente finito maior
A (parte do infinito) Z
H paciente finito D agente finito menor
Segundo, demonstramos, da mesma forma, que o “infinito não pode ser agente de coisa finita”. Seja o agente infinito A, e o paciente finito B, e suponhamos que A, infinito, é agente em B, finito, no tempo G. Depois, seja o corpo finito D, agente na parte B, isto é, BZ, finito, no mesmo tempo G. Certamente verificaremos uma proporção entre o paciente BZ e todo o paciente B, da mesma forma que existe proporção entre o agente D e o outro agente finito, H; e mudando-se também a proposição entre D agente e BZ paciente, verificar-se-á a mesma proporção de H agente a todo o B.
Por consegiência, B será movido por H, no mesmo tempo em que BZ é movido por D, isto é, no tempo G, no tempo em que B é movido pelo agente infinito A; coisa essa impossível. E tal impossibilidade resulta daquilo que temos apresentado, isto é, que, se uma coisa infinita operar em tempo finito, torna-se necessário que a ação não se verifi- que no tempo, porque entre o finito e o infinito não existe proporção. Logo, colocando dois agentes diversos que exerçam a mesma ação no mesmo paciente, necessariamente a ação deles se verificará em dois tempos diversos, e formar-se-á uma proporção entre tempo e tempo, como entre um agente e outro agente. Mas se colocarmos dois agentes, dos quais um é infinito e outro finito, proporcionando uma mesma ação a um mesmo
qui BRUNO .
paciente, será necessário afirmar uma dessas duas coisas: ou que a ação do infinito se verifica num instante, ou que a ação do agente finito se dá num tempo infinito. Ambos Os casos são impossíveis.
G tempo A agente infinito H agente finito B paciente finito D agente finito B (parte do paciente finito)
Terceiro, aparece claramente que o “corpo infinito não pode operar em corpo infini- to”. Porque, como ficou dito na Auscultação física, é impossível que a ação ou paixão fique sem finalização. Ficando assim demonstrado que nunca se pode finalizar uma ação do infinito sobre outro infinito, será possível concluir que entre eles não pode existir ação. Ponhamos, então, dois infinitos, dos quais um seja B, que é paciente de A, em tempo finito G, porque a ação finita necessariamente se verifica em tempo finito. Supo- nhamos depois que a parte do paciente BD sofre a ação de A; certamente ficará mani- festo que a paixão deste vem a ser em tempo menor que o tempo G; e representemos essa parte por Z. Haverá, pois, proporção entre o tempo Z e o tempo G, assim como há pro- porção entre BD, parte do paciente infinito, e a parte maior do infinito, isto é, B; e que essa parte seja representada por BDH, que é paciente de A no tempo infinito G; que, no mesmo tempo, já agiu sobre todo o infinito B; o que é falso, pois é impossível existirem dois pacientes, um infinito e outro finito, que suportem a ação do mesmo agente, pela mesma ação, no mesmo tempo, sendo o eficiente finito, ou, como tínhamos suposto, infinito.
tempo finito
G Z A agente infinito
paciente infinito B D H
Firoreo — Tudo o que Aristóteles afirmou quero que resulte verdadeiro, quando for bem aplicado e quando chegar a conclusões aceitáveis; mas, como já afirmamos, não existe filósofo que tenha falado do infinito de forma a gerar tais inconvenientes. Todavia, não para responder àquilo que ele afirma, visto não contradizer aquilo que nós afirma- mos, mas unicamente para contemplar a importância de suas opiniões, examinemos sua maneira de raciocinar. Primeiro, em sua especulação, ele procede por fundamentos que não são naturais, querendo juntar todas as partes do infinito, sendo que o infinito não pode possuir partes; nem podemos afirmar que tal parte é infinita, pois isto implicaria uma contradição: que existe, no infinito, parte maior e parte menor e parte que possua maior ou menor propor- ção em relação a ele. Porque não é possível aproximar-se mais do infinito procedendo de cem em cem que de três em três, porque o número infinito consta tanto de infinitos três como de infinitos cem. A dimensão infinita não tem menos infinitos pés que infinitas
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milhas; por isso, quando queremos falar sobre as partes da dimensão infinita, não dize- mos cem milhas, mil parassangas; porque todas elas podem apenas ser designadas como partes do finito, e na verdade são apenas partes do finito e somente a ele podem ser todas proporcionais, e não podem e não devem ser consideradas partes daquilo em relação ao qual não têm proporção.
Assim, mil anos não são parte da eternidade porque não têm proporção em relação ao todo, mas são partes de alguma medida de tempo, como de dez mil anos, de cem mil séculos. ELPINO — Faça-me compreender então: quais julga ser as partes da duração infinita” FILOTEO — As partes proporcionais da duração têm proporção na duração e no tempo, mas não na duração infinita e no tempo infinito, porque nele o tempo máximo, isto é, a maior parte proporcional da duração, torna-se equivalente à mínima, considerando que não são maiores os infinitos séculos que as infinitas horas. Afirmo que na infinita dura- ção, isto é, na eternidade, não são mais as horas que os séculos, de maneira que toda a coisa que se considerar como parte do infinito, enquanto é parte do infinito, é infinita quer na infinita duração, quer no volume infinito. Por esta doutrina pode-se perceber quanto Aristóteles ê circunspecto em suas suposições, quando examina as partes finitas do infinito, e quanta seja a força das razões de alguns teólogos, quando da eternidade do tempo querem inferir o inconveniente de tantos infinitos, uns maiores que os outros, quantas podem ser as espécies de número. Por esta teoria, afirmo, você tem a possibili- dade de sair de inúmeros labirintos.
ELPINO — Especialmente daquele que diz respeito à nossa especulação sobre os infinitos passos e as infinitas milhas, que viriam a formar um infinito menor e um infinito maior, na imensidão do universo. Agora, continue.
Firoreo — Segundo, Aristóteles não procede demonstrativamente em suas deduções. Porque do pressuposto de que o universo é infinito e que nele (não digo dele, porque uma coisa é dizer partes no infinito e outra coisa é dizer partes do infinito) existem infinitas partes, possuindo todas as ações e paixões, e por consequência transmutações entre si, quer inferir: ou que O infinito exerça ação no finito ou sofra do finito, ou que o infinito exerça ação no infinito e que este sofra e seja transformado por aquele. Esta ilação, afir- mamos nós, não vale fisicamente, se bem que logicamente corresponda à verdade: consi- derando que, embora calculando pela razão, encontramos infinitas partes que são ativas, e infinitas que são passivas, podendo ser consideradas umas o contrário das outras. Na natureza — por estas partes estarem desunidas, separadas e divididas por limites parti- culares, como podemos notar — elas não nos obrigam nem nos induzem a afirmar que o infinito seja agente ou paciente, mas que no infinito inúmeras partes finitas possuem ação ou paixão.
Podemos conceder, então, não que o infinito seja móvel e alterável, mas que nele existam infinitos elementos móveis e alteráveis; não que o finito sofra do infinito, segun- do a infinitude física e natural, mas segundo a infinitude que procede de uma agregação lógica e racional, que soma todos os graves num grave, mesmo que todos os graves não sejam um grave. Pois o infinito permanecendo completamente imóvel, inalterável, incor- ruptível, nele podem existir, e existem, movimentos e alterações inúmeros e infinitos, per- feitos e completos. Acresce ao que temos exposto que, dado que existam dois corpos infi- nitos de um lado e que do outro lado venham a terminar um no outro, contudo, não resultará disso o que Aristóteles pensa segue necessariamente, isto é, que a ação e a pai- xão seriam infinitas. Considerando que, se destes dois corpos um age sobre o outro, não será agente segundo toda a sua dimensão e grandeza, porque não está perto, próximo,
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junto e contínuo ao outro completamente, e segundo todas as partes dela. Suponhamos, por exemplo, que existem dois corpos infinitos A e B, os quais sejam continuados ou con- jugados simultaneamente na linha ou superficie FG. Com certeza, não virão a influir um contra o outro segundo toda a sua capacidade, porque não estão próximos um do outro em todas as suas partes, visto que a contigiidade não pode existir a não ser num certo li- mite finito. E ainda acrescento mais, que, apesar de supormos que aquela superfície ou linha possa ser infinita, não se seguirá, por isso, que os corpos, continuados nela, causem ação e paixão infinitas, porque não são intensas, mas extensas, como as partes são exten- sas. Daí resulta que em parte alguma o infinito opera segundo toda a sua eficiência, mas de modo extensivo, parte por parte, discreta e separadamente.
10 1 F A M 20 2 id B N A. B 30 É, nd e O 40 4 G D P
Por exemplo, as partes de dois corpos contrários, que podem alterar-se um com outro, são as vizinhas, como A el, Be2,Ce3,D e 4; e assim infinitamente. Por isso nunca se poderá verificar uma ação intensivamente infinita, porque as partes daqueles dois corpos não podem sofrer alteração para além de uma certa e determinada distância; e daí, Me 10,N e 20,0€ 30, P e 40 não têm possibilidade de se alterarem uns aos outros. Eis, portanto, como postos dois corpos infinitos, não poderia seguir ação infinita.
Eu afirmo ainda que, apesar de se supor e de se conceder que estes dois corpos infi- nitos possam ter uma ação recíproca intensivamente e relacionar-se um com o outro segundo toda a sua capacidade, não se concluirá daí qualquer efeito de ação nem de pai- xão alguma entre eles, pois que tão forte é aquele que repele e resiste quanto aquele que impele e insiste. E daí não deriva alteração alguma. Eis, então, como de dois infinitos contrapostos, ou resulta uma alteração finita, ou não resulta nada, de fato.
ELPINO — Ora, o que dirá você em relação à hipótese de um corpo contrário e outro infi- nito, como se a terra fosse um corpo frio e o céu fosse o fogo, e todos os astros fossem fogos, e O céu imenso e os astros inumeráveis? Acho que daí resultaria aquilo que Aristó- teles deduz, isto é, que o finito seria absorvido pelo infinito?
FrrotTeo — Certo que não, como se pode inferir daquilo que temos afirmado. Porque, sendo a eficiência corpórea dilatada pela dimensão de corpo infinito, não viria a ser efi- ciente contra o finito, com vigor e poder infinitos, mas com aquilo que pode difundir das partes finitas e afastadas segundo determinada distância; uma vez que é impossível que opere segundo todas as partes, mas somente segundo as mais próximas.
Como podemos perceber na demonstração precedente: pressupondo serem A e B dois corpos infinitos que não são aptos a se transmutarem reciprocamente, a não ser através das partes que se encontram nas distâncias entre 10, 20,30,40eM, N, O, P;e, portanto, nada concorre para fazer maior e mais vigorosa a ação, embora o corpo B corra e cresça infinitamente, e o corpo A permaneça finito. Eis como, de dois contrários opostos, sempre resulta ação finita e alteração finita, tanto supondo um deles infinito e o outro finito como supondo ambos infinitos.
ELpiNOo — Você me deixou muito satisfeito, de maneira que me parece supérfluo apresentar aquelas outras razões grosseiras, com as quais pretende demonstrar que além do céu não existe corpo infinito, como aquela que afirma: “Cada corpo que existe num
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lugar é sensível, mas além do céu não existe corpo sensível; portanto, aí não existe lugar”. Ou, então, assim: “Cada corpo sensível existe num lugar; além do céu não existe lugar; logo, aí não existe corpo. Aliás não existe o além do céu, porque além significa diferença entre lugares sensíveis, não corpo espiritual e inteligível, pois alguém poderia dizer: se é sensível, é finito”..
FrroTeo — Eu acredito e entendo que muito além daquele limite imaginário do céu sem- pre exista uma região etérea, e corpos mundanos, astros, terras, sóis, todos absoluta- mente sensíveis em relação a si mesmos, e para aqueles que estão dentro ou perto deles, apesar de não serem sensíveis para nós, por causa de seu afastamento e distância. Entre- tanto, considere-se que fundamento apresenta ele, para que, do fato de não existirem cor- pos sensíveis além da circunferência imaginária, pretende que não exista corpo algum: por isso ele se negou a aceitar a existência de outro corpo, a não ser a oitava esfera, para além da qual os astrólogos de seu tempo não admitiam a existência de outro céu. E por- que referiram sempre a rotação aparente do mundo em torno da terra a um primeiro móvel acima de todos os outros, estabeleceram tais fundamentos, que têm andado acres- centando sem fim, indefinidamente, esfera sobre esfera, e têm encontrado outras sem
estrelas, e, por consequência, sem corpos sensíveis. Enquanto as suposições astrológicas e as fantasias condenam esse raciocínio, muito
mais condenado é por aqueles que melhor compreendem terem os corpos que se dizem pertencer ao oitavo céu tanta distinção entre si, por estarem a maior ou menor distância da superfície da terra, como os outros sete céus, porque a razão de sua equidistância depende só da falsissima suposição da fixidez da terra; contra o que brada toda a nature- za, clama toda a razão e sentencia todo intelecto reto e bem informado. Pois, seja como for, tem-se afirmado, contra todas as razões, que o universo acaba e termina onde finda a experiência dos nossos sentidos; porque a sensibilidade é a causa da inferência que os corpos existem, mas negar a sensibilidade, o que pode ocorrer por uma deficiência da capacidade sensitiva e não por defeito dos objetos sensíveis, não é absolutamente sufi- ciente para fazer-nos suspeitar a não-existência dos corpos. Porque, se a verdade depen- desse de tal sensibilidade, os corpos seriam tais que pareceriam muito próximos e aderen- tes uns aos outros. Mas nós consideramos que tal estrela que parece menor no firmamento, e se diz de quarta e quinta grandeza, será muito maior do que outra que se classifique de segunda grandeza ou de primeira; em cujo juízo se engana o sentido, que não está apto a conhecer a razão da distância maior; e nós, que por isso tinhamos conhe- cido o movimento da terra, sabemos que aqueles mundos não possuem tal equidistância em relação ao nosso, e que não estão, portanto, como que num outro céu.
ELpiNo — Você quer dizer que eles não estão como que encaixados numa mesma cúpu- la, idéia tão banal que só as crianças a podem imaginar, podendo, às vezes, ser levadas a acreditar que se não estivessem bem grudados à abóbada celeste com uma boa cola, ou pregados como Ótimos pregos, cairiam em cima de nós como o granizo produzido pelo ar que está mais perto de nós. Quer dizer que aquelas outras tantas terras e outros tantos corpos bem espaçosos ocupam os seus lugares no céu e possuem suas próprias distâncias no campo etéreo, da mesma forma que esta terra, que, com a sua revolução, provoca a ilusão de que todos simultaneamente, como que encadeados, giram ao redor dela.
Quer dizer que não é necessário aceitar corpo espiritual fora da oitava ou nona esfe- ra, mas que este mesmo ar que contém a terra, a lua, o sol, assim vai se amplificando infi- nitamente para conter outros astros infinitos e grandes seres animados; e este ar vem a ser lugar-comum e universal, um regaço infinitamente espaçoso, que envolve todo o uni- verso infinito da mesma forma que contém este espaço sensível para nós por causa de
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tantas e tão numerosas estrelas brilhantes. Quer você demonstrar que não é o ar e este corpo continente que se move circularmente, ou que leva consigo os astros, como a terra, a lua e outros, mas que eles se movem por sua própria aptidão particular através de seus próprios espaços, possuindo todos eles seus movimentos particulares, que se efetuam além do movimento do mundo, o qual se manifesta por causa do movimento da terra, e outros ainda, que parecem comuns a todos os outros astros, como se estivessem encaixa- dos num corpo móvel; e esta aparência é provocada pela diversidade dos movimentos deste astro onde moramos, cujo movimento nos é insensível. Julga, por consequência, que o ar e as partes colocadas na região etérea não possuem movimento senão de redu- ção e amplificação, necessário para o percurso destes corpos sólidos através do espaço, enquanto uns giram em torno dos outros, porquanto é mister que este corpo espiritual encha tudo.
FiLóreo — É verdade. Acrescento, além disso, que este infinito e imenso elemento é um animal, se bem que não tenha figura determinada e sentido que se refira a coisas exterio- res; porque ele contém em si toda a alma, compreende todo o elemento animado e confunde-se completamente com ele. Afirmo ainda que não segue daqui inconveniente algum, como aquele de admitir dois infinitos; porque, sendo o mundo corpo animado, tem em si infinito poder motor e é, discretamente, sujeito infinito de mobilidade, como temos demonstrado: porque o todo contínuo é imóvel, tanto em relação ao movimento circular, que é em torno do meio, quanto em relação ao movimento retilíneo, que parte do meio ou tende para o meio, não possuindo meio nem extremo.
Afirmamos, além disso, que o movimento de um corpo grave ou de um corpo leve não só é conveniente ao corpo infinito mas também a um corpo inteiro e perfeito que nele exista, e a alguma parte de qualquer um desses que esteja no seu lugar próprio e goze de sua natural disposição. E torno a dizer que nada é grave ou leve em sentido absoluto, mas relativo: isto é, em relação ao lugar para o qual as partes difusas e esparsas conver- gem € se agregam.
E, por hoje, parece-me suficiente haver especulado sobre o infinito volume do uni- verso. Amanhã esperá-los-ei para esclarecimentos sobre a infinitude dos mundos que nele existem, como vocês estão querendo.
ELpiNo — Eu, se bem que por esta doutrina julgue haver-me tornado apto a entender a outra, voltarei, todavia, na esperança de ouvir outras coisas especiais e importantes. FRACASTORIO — Eu virei apenas como ouvinte.
Burquio — Eu também virei; como, pouco a pouco e sempre mais, vou conseguindo entendê-los, assim devagar, chego a considerar verossímil, e talvez até verdadeiro, aquilo que vocês afirmam. Ed)
DIÁLOGO TERCEIRO
Interlocutores
ELPINO, FILOTEO, FRACASTORIO E BURQUIO
FILOTEO — É, pois, um só o céu, um o espaço imenso, uma a abóbada, um o continente universal, uma a região etérea pela qual tudo passa e tudo se movimenta. Aí podem ser observados sensivelmente inúmeras estrelas, astros, globos, sóis e terras e, com razão, chega-se a conjeturar que são infinitos. O universo imenso e infinito é o composto que resulta de tal espaço e de tantos corpos nele contidos.
ELPINO — Tanto que não existem esferas de superfície côncava e convexa, nem os dife- rentes orbes; mas tudo é um só campo, tudo é um receptáculo geral.
FiLOTEO — Exatamente.
ELpiNo — O que levou, portanto, a imaginar os diversos céus foram os diversos movi- mentos astrais, porque se via um céu repleto de estrelas girar em volta da terra, sem que fosse possível, de modo algum, perceber uma daquelas luzes afastar-se da outra, mas, mantendo sempre a mesma distância e relação, juntamente com uma certa ordem, evoluí- rem em torno da terra à maneira de uma roda, em cujos aros estivessem pregados inúme- ros espelhos, e que girasse em torno do próprio eixo.
Julga-se, então, muito evidente, devido ao sentido da vista, que aqueles corpos lumino-
sos não possuem movimento próprio, pelo qual possam deslocar-se no ar, como as aves; mas, pela revolução dos mundos, em que estão fixos, revolução esta produzida pelo impulso divino de alguma inteligência. FrroTEO — Assim comumente se crê; mas esta fantasia — uma vez que seja compreen- dido o movimento deste mundo onde moramos, o qual, sem estar afixado em qualquer outro mundo, se movimenta através do espaçoso campo geral pelo princípio intrínseco, por sua alma € natureza próprias, gira ao redor do sol e se volta em torno do próprio cen- tro — deverá desaparecer: assim ficará livre o caminho da inteligência para os verda- deiros princípios da natureza e a passos largos poderemos percorrer o caminho da verda- de. Verdade que, escondida sob os véus de tão sórdidas e ignorantes fantasias, permaneceu até o presente oculta pela injúria do tempo e pelas vicissitudes das circuns- tâncias, depois que à luz dos antigos sábios sucedeu a treva dos temerários sofistas.
Não está parado, mas se move e gira Tudo quanto no céu e sob o céu podemos ver.
50 BRUNO
Cada coisa se move, às vezes para o alto, às vezes para baixo, em tempo longo ou breve,
seja ele pesado, seja leve.
E pode ser que tudo se movimente com o mesmo passo para o mesmo lugar.
E tudo se movimenta até chegar ao ponto que lhe compete. Tanto gira na água uma bóia
que uma mesma parte
se vê ora virada para cima ora virada para baixo,
e a mesma agitação
o mesmo destino impõe a tudo.
ELpino — Certamente, não há dúvida alguma de que todas aquelas fantasias sobre as estrelas, os lumes, os eixos, a derivação de um mundo do outro, os epiciclos, e muitas ou- tras crenças, não se originam de algum outro princípio a não ser da pura imaginação, que nos dá a ilusão de ser a nossa terra o centro do universo, e que, estando só ela fixa e imóvel, tudo o mais se move ao redor dela.
FicoTeo — O mesmo fenômeno aparece àqueles que moram na lua e nos outros astros, que existem neste mesmo espaço, isto é, as várias terras ou sóis.
ELPINO — Supondo então, por enquanto, que seja a terra, com seu movimento, que origi- ne essa aparência de movimento diurno e mundano, e com as várias diferenças de tal movimento provoque todos os outros movimentos que parecem igualmente convir a inú- meras estrelas, nós deveríamos admitir que a lua (que é uma outra terra) se movimenta por si própria no ar e ao redor do sol. Da mesma forma Vênus, Mercúrio e os outros astros, que também são outras terras, realizam os seus próprios percursos em torno da mesma fonte de vida.
FILOTEO — Assim é.
ELPINO — Movimentos próprios de cada um são aqueles que podem ser notados, além desse movimento, chamado mundano, e próprios daquelas estrelas, cnamadas fixas (ambos os movimentos hão de ser referidos à terra); e tais movimentos são mais que as muitas diferenças, tantos quantos são os corpos; assim que jamais acontecerá que dois astros alcancem o mesmo ponto e a mesma ordem ou medida de movimento, se puder- mos perceber movimento em todos aqueles que a nós não mostram variação alguma, de- vido à enorme distância a que estão de nós.
Embora eles completem os seus giros ao redor do fogo solar e embora eles evoluam em torno dos próprios centros, pela participação do calor vital, os diversos movimentos de sua aproximação e de seu afastamento não podem ser percebidos por nós.
FIiLOTEO — Justo.
ELPINO — Existem, pois, inúmeros sóis, existem terras infinitas, as quais se movimentam à volta daqueles sóis, como percebemos estes sete girarem ao redor deste sol que nos é vizinho.
FiLoTEO — Exato.
ELpINO — Como, então, não conseguimos perceber o movimento em torno de outros lumes, que são considerados sóis, daqueles outros lumes que são considerados terras, e não podemos, além deles, compreender movimento algum, enquanto todos os outros cor- pos mundanos (com exceção daqueles que são chamados cometas) podem ser percebidos sempre na mesma disposição e distância?
FILÓTEO — À razão é que nós podemos ver o sóis que são os maiores, antes grandiís- simos corpos, mas não podemos perceber as terras, as quais, por serem corpos muito
SOBRE O INFINITO 51
menores, são invisíveis; da mesma forma que não se opõe à razão a existência de outras terras, mesmo que elas se movimentem ao redor deste sol, e não se manifestem a nós, seja por causa da maior distância, seja por causa do menor volume; quer por não possuírem muita superficie de água, quer por não possuírem tal superficie voltada para nós e oposta ao sol, por meio da qual, como num límpido espelho que recebe os raios solares, se tor- nam visíveis.
Não resulta, pois, ser coisa extraordinária, nem contrária à natureza, poder ouvir, não raras vezes, que o sol vem a ser eclipsado de alguma forma, sem que entre ele e a nossa vista se tivesse interposto a lua.
Além dos visíveis podem existir também inúmeros lumes aquosos (isto é, terras que possuam, em parte, água), que giram em torno do sol; mas a diversidade de suas rotações não pode ser percebida por causa da enorme distância. Daí, naquele movimento lentis- simo que pode ser percebido nos corpos visíveis sobre ou além de Saturno, não se perce- bem variações de movimento de uns e de outros, nem se percebe o tipo de movimento de todos em torno do meio, quer coloquemos a terra como ponto central, quer o sol.
ELPINO — Como você queria que todos eles, conquanto muito distantes do meio, isto é, do sol, pudessem razoavelmente participar do calor vital daquele?
FiLOTEO — Por isto que, quanto mais afastados eles se encontrarem, tanto maior círculo eles percorrem; quanto maior circunferência eles produzirem, tanto mais demoradamente eles se movimentam ao redor do sol; quanto mais vagarosos eles forem, tanto mais resis- tem aos quentíssimos e abrasadores raios do sol.
ELpINO — Você queria, então, que aqueles corpos, apesar de se encontrarem tão longe do sol, possam, contudo, receber tanto calor quanto lhes baste, porque girando mais velozmente ao redor do próprio centro, e mais lentamente em torno do sol, poderiam não somente participar de tanto calor mas de mais ainda, se lhes fosse necessário; visto que, pelo movimento mais rápido ao redor do próprio centro, a mesma parte do convexo da terra que não foi suficientemente aquecida mais depressa torna a se restaurar, e, pelo movimento mais lento em torno do meio incandescente e por estar mais submetida à ação daquele, vem a receber com mais vigor Os raios quentes?
FILOTEO — Assim é.
ELpINO — Você quer, portanto, que os astros que se encontram para além de Saturno, se são verdadeiramente imóveis, como parecem, venham a ser os inumeráveis sóis ou fogos mais ou menos perceptíveis para nós, ao redor dos quais se movimentam as terras próxi- mas, não perceptíveis para nós?
FrLoTEO — Precisariamos afirmar isto, atendendo que todas as terras são dignas de ter a mesma organização e a mesma todos os sóis também.
ELPINO — Julga, por isso, que todos eles sejam sóis?
Fr.oTEo — Não, porque não sei se todos, ou a maior parte, são imóveis, ou se alguns deles giram ao redor dos outros, pois não existe quem tenha observado isto, nem é coisa fácil de ser observada. Como não se percebe facilmente o movimento e o progresso de uma coisa distante, que, por estar muito longe, com dificuldade se vê sua mudança de lugar, tal como acontece com os navios em alto mar.
Mas, de qualquer forma, sendo o universo infinito, é, afinal, necessário que existam mais sóis; pois é impossível que o calor e a luz de um elemento particular possam difun- dir-se na imensidão, como imaginou Epicuro, se é verdade aquilo que os outros contam. Por isso se torna necessário também que existam inumeráveis sóis, muitos dos quais são visíveis a nós sob a forma de pequenos corpos; mas um destes astros que aparece bem menor poderá ser muito maior do que outro que parece ser o máximo.
ELPINO — Pelo menos se deve julgar tudo isso possível e conveniente.
52 BRUNO à
FiLoTeo — Ao redor daqueles podem movimentar-se terras muito maiores ou menores que a nossa terra.
ELpiNO — Como poderei me certificar da diferença? Quero dizer, como conseguirei dis- tinguir as estrelas das terras?
FrroTeo — Pelo fato de as estrelas serem fixas e as terras móveis, as estrelas cintilam e as terras não. Destes sinais, o segundo é mais sensível que o primeiro.
ELpiNO — Dizem que a cintilação aparente é originada pela distância deles em relação a nós.
FILOTEO — Se assim fosse, o sol não cintilaria mais que todos, e os astros menores, que se encontram mais afastados, cintilariam mais que os maiores, que estão mais próximos. ELpINO — Pensa que os mundos ígneos sejam também habitados, assim como os mun- dos aquosos?
Fr.oTEo — Nem mais nem menos.
ELpiNo — Mas que animais podem viver no fogo?
Frcoreo — Não imagine que eles sejam corpos com partes semelhantes, porque não se- riam mundos, mas massas vazias, vãs e estéreis. Contudo, é conveniente e natural que possuam diversidade nas partes, como a nossa e outras terras possuem diversidade nos próprios membros; se bem que estes sejam sensíveis como águas iluminadas e aqueles como chamadas luminosas.
ELpiNOo — Você acredita que, em relação à consistência e solidez, a matéria próxima do sol seja a mesma que a matéria próxima da terra? (Porque sei que você não duvida existir uma única matéria primordial para tudo.)
Ficoteo — Certo. Assim o entendeu Timeu, confirmou-o Platão, todos os verdadeiros filósofos o reconheceram. mas poucos o explicaram, não se encontrando nenhum, no nosso tempo, que o tenha entendido perfeitamente. Pelo contrário, muitos de mil manei- ras lhe dificultam a compreensão. O que se verificou pela corrupção do hábito mental e defeito de princípios.
ELpINO — Embora não tivesse talvez chegado a esta forma de raciocinio, parece haver dela se aproximado 4 Douta Ignorância do Cusano ? quando, falando das condições da terra, afirma:
“Não deveis considerar que, por causa da obscuridade e da cor negra, possamos argumentar que o corpo terreno seja vil e mais ignóbil que todos os outros; porque, se nós habitássemos o sol, não veríamos aquela claridade que percebemos nele enquanto permanecemos nesta região que lhe está ao redor. Além do que, se agora nós o olhás- semos cuidadosamente, descobririamos que se encontra no seu meio, mais ou menos, uma terra, ou talvez como que um corpo úmido e nebuloso, donde, como de um círculo circunferencial, difunde clara e brilhante luz. Daí, tanto ele como a terra vêm a ser com- postos dos mesmos elementos”.
FIiLOTEO — Até aqui está perfeitamente certo; mas prossiga, relatando o que ele acrescenta. ErpiNOo — Pelo que acrescenta, pode-se entender que esta terra seja outro sol, e que
todos os astros sejam, igualmente, sóis. Diz ele:
“Se alguém se transportasse para além da região do fogo, essa terra lhe pareceria por meio do fogo uma estrela brilhante na circunferência de sua região; da mesma forma que a nós, que nos encontramos na circunferência da região solar, o sol aparece brilhan- tíssimo; e a lua não aparece igualmente luminosa porque pode ser que nós estejamos, em
E É uso deste período colocar termos contraditórios nos títulos das obras para realçar mais um ou outro dos dois termos. (N. do T.)
SOBRE O INFINITO 53
relação à sua circunferência, colocados nas partes intermédias, ou, como ele diz, nas par- tes centrais, isto é, na região úmida e aquosa desta. Portanto, apesar de ter a sua luz pró- pria, nada disso nos aparece, pois o que percebemos na superfície aquosa é devido unica- mente à reflexão da luz solar”.
FicoTeo — Este filósofo compreendeu e visualizou muito bem o problema, e ele se tor- nou uma das inteligências mais destacadas que tenham vivido neste mundo. Mas, quanto à apreensão da verdade, conduziu-se como um nadador jogado para cima e para baixo pelas ondas tempestuosas, pois não percebia a luz continuamente de forma clara e distin- ta, e não nadava num mar calmo e trangúilo, mas procedia de maneira interrupta e com intervalos. A razão disto é que ele não havia renunciado a todos os falsos princípios da doutrina comum de que estava imbuído e de onde tinha partido. De sorte que talvez não seja um mero acaso o fato de ser muito apropriado o título dado à sua obra 4 Douta Ignorância ou À Ignorante Doutrina.
ELpiNOo — Qual é o princípio do qual não se libertou como devia?
Frroteo — Que o elemento do fogo, como o ar, choca-se com o movimento do céu, como acontece com o ar, e que o fogo é um corpo muito sutil, princípio manifestamente contrário à realidade e à verdade, como já vimos claramente nas suposições e nos racio- cínios sobre os quais estivemos especulando. Donde se conclui ser tão necessária a exis- tência de um princípio material sólido e consistente do corpo quente como do corpo frio; e que a região etérea não pode ser composta de fogo, nem ser fogo, mas é aquecida e acesa por um corpo vizinho sólido, isto é, pelo sol. Assim que onde podemos chegar pela lógica do diálogo, não é necessário recorrer a fantasias matemáticas. Podemos ver que todas as partes que a terra tem não são luminosas por si próprias. Percebemos que algu- mas podem brilhar por causa de um outro corpo, como a sua água, O seu ar vaporoso, que recolhem o calor e a luz do sol e podem ambos difundi-los pelas regiões circuns- tantes. Portanto, é necessário que exista um corpo primeiro, ao qual convenha ser, por si próprio, simultaneamente brilhante e quente. E tal não pode acontecer se o corpo não for constante, espesso e denso; porque o corpo raro € tênue não pode ser sujeito nem de luz, nem de calor, como já o demonstramos outras vezes.
É necessário, pois, que os dois fundamentos das duas primeiras qualidades contrá- rias, ativas, sejam semelhantemente constantes; e que o sol, segundo as partes que nele são luminosas e quentes, seja como uma pedra ou um metal solidissimo incandescente. Não direi metal liquescente, como o chumbo, o bronze, o ouro e a prata; mas como um metal infusível, não propriamente o ferro incandescente, mas o ferro que já é o próprio fogo. E que, como este astro onde nós moramos é por si frio e escuro, não participando de calor e luz senão quando é aquecido pelo sol, assim aquele é por si próprio quente e luminoso, não participando do frio e da obscuridade a não ser quando é arrefecido pelos corpos circunstantes e possui em si partes de água, como a terra possui partes de fogo. Como, porém, neste corpo frigidíssimó, o primeiro frio e obscuro, podem existir animais que vivem pelo calor e luz do sol, assim naquele corpo muito quente e luminoso existem aqueles que vegetam pela refrigeração dos elementos frios circunstantes. E assim como este corpo é por participação quente nas suas partes dessemelhantes, também aquele é frio nas suas por participação.
ELPINO — Ágora, o que diz em relação à luz?
FiLroTEo — Eu afirmo que o sol não brilha para o sol, a terra não brilha para a terra, corpo algum brilha em relação a si mesmo, mas cada corpo luminoso brilha no espaço à sua volta. Contudo, apesar de a terra ser um corpo luminoso por causa dos raios do sol que incidem na superfície cristalina, sua luz não nos é sensível, nem aos que se encon-
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tram sobre esta superfície, mas é percebida por aqueles que se encontraxr do lado oposto ao dela. Como, além disso, dado que toda a superficie do mar seja iluminada à noite pelo luar, contudo, para os que estão no mar isto se observa apenas com respeito a um deter- minado espaço oposto à lua. Assim, se lhes fosse possível erguer-se sempre mais no ar, sobre o mar, sempre maior se tornaria para eles a dimensão da luz e do campo luminoso.
Daqui se conclui facilmente que os que moram nos astros luminosos ou iluminados não percebem a luz do próprio astro, mas a luz dos astros circunstantes; assim como num mesmo lugar comum, um lugar particular recebe a luz dum lugar particular diverso º.
"ELPINO — Então, você quer afirmar que os elementos animados que moram no sol não recebem a luz do mesmo sol, mas duma outra estrela circunstante? FroTeEo — Certamente. Não pode entender isto? ELPINO — Quem não poderia entendê-lo? Pelo contrário, por causa desse raciocínio passo a compreender muitas outras coisas. Existem, pois, duas espécies de corpos lumi- nosos: os igneos, que são primariamente luminosos; e os aquosos ou cristalinos, que são secundariamente luminosos. FiLoTEO — Certo. ELpiNO — Então, a origem da luz não deve ser atribuída a algum outro princípio? Ficotego — Como poderia ser de outro modo, se nós não conhecemos outra fonte de luz? Por que queremos apoiar-nos em vãs fantasias, quando a própria experiência nos ensina? ELpiNO — É verdade que não devemos considerar que aqueles corpos recebem a luz por algum acidente inconstante, como acontece com a podridão das lenhas, as escamas e os grumos viscosos dos peixes, ou o fragilíssimo dorso dos ratos de campanha * e os vagalu- mes, sobre cujo lume voltaremos a raciocinar em outra oportunidade. FiLoTEo — Como lhe aprouver. ELpiNo — Enganam-se também aqueles que consideram os corpos luminosos circuns- tantes como a quinta-essência ?, ou alguma divina substância de natureza contrária a estas que estão junto de nós e junto das quais nós estamos, como se enganariam aqueles que afirmassem a mesma coisa de uma vela ou dum cristal brilhante visto de longe. FrLoTEo — Certamente. FRACASTORIO — Na verdade, tudo isto é conforme a qualquer raciocínio, ao intelecto e ao senso * Burquio — Não já ao meu, que julga essa sua especulação simplesmente um superficial raciocínio sofista. FLOTEO — Fracastório, responda você a Búrquio, assim Elpino e eu, que temos falado muito, poderemos ficar ouvindo. FracAsTORIO — Meu doce Búrquio, eu prefiro colocar você no lugar de. Aristóteles e
3 OQ termo no texto original é “particolare”, que adquire significados diferentes segundo os casos. Com efei- to, pode significar tanto “individual”, como “específico”, ou “particular”. O significado mais comum é “específico”. (N. do T.)
* O texto original usa os termos “nitedole” e “nottiluche”, italianizando graficamente, no primeiro caso, O termo latino. Ele se origina do termo latino “nitedula”, que significa rato do campo. O segundo termo é o produto da corruptela latina “luz da noite”, isto é, “vaga-lume”. (N. do T.)
“Quinta-essência” é o termo sempre presente nestes tipos de obras medievais e renascentistas. Aos quatro elementos comuns, tradicionais: água, ar, terra e fogo, eles acrescentavam sempre um quinto elemento, nunca bem definido, a respeito do qual formaram- -se muitas teorias. É uma concepção antiquíssima, tanto que Cícero, na obra Tusculana, afirma: “Quinta illa non nominata magis quam non intellecta” (aquela quinta-essência não explicada e muito menos compreendida). (N. do T.)
ê O termo “senso” nunca teve, neste período, o significado de “sentido”, mas sempre o verdadeiro signifi- cado da palavra “senso”. Às vezes adquiriu também o significado de “sensação” ou também de “percepção sensitiva”. (N. do T.)
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ficar no lugar dum idiota e ignorante que confessa não saber nada e pressupõe nada ter compreendido daquilo que entende Aristóteles e todo mundo. Eu acredito no parecer da maioria, acredito no nome e na fama da autoridade peripatética, admiro junto com uma inumerável multidão de filósofos a divindade deste fenômeno da natureza ”; mas por isso mesmo estou aqui para receber informações sobre a verdade e para libertar-me da per- suasão desse que você considera um sofista. Agora lhe pergunto: qual é a razão pela qual você afirma existir enorme, ou grande, ou qualquer diferença entre aqueles corpos celes- tes e estes que se encontram perto de nós? BURQUIO — Aqueles são divinos, estes são de vil matéria. FRACASTORIO — De que maneira me fará ver e acreditar que aqueles sejam mais divinos? BurQuIOo — Porque aqueles são impassíveis, inalteráveis, incorruptíveis e eternos, e estes aqui são o contrário; aqueles são móveis de movimento circular e perfeitíssimo, estes, de movimento reto. FRACASTORIO — Gostaria de saber se, depois de haver bem considerado, poderia você jurar que este corpo único (que você entende como composto de três ou quatro corpos, e não os compreende como membros do mesmo composto) não possui o mesmo movi- mento dos outros astros móveis, considerando que o movimento daqueles não é sensível porque estamos afastados para além de uma determinada distância. E este corpo, se exis- te, não nos pode ser sensível, porque, como bem perceberam os verdadeiros estudiosos da natureza, antigos e modernos, e como, pela experiência, no-lo manifestam de mil manei- ras os sentidos, não podemos apreender o movimento a não ser por uma certa compara- ção e relação a alguma coisa fixa. Porque alguém, que não soubesse que a água corre e não pudesse enxergar as margens, encontrando-se no meio da água, num navio em movi- mento, não perceberia o movimento dela. Por isso poderei começar a duvidar e a equivo- car-me sobre esta quietude e imobilidade; e posso também deduzir que se eu me encon- trasse no sol, na lua e em outras estrelas, sempre me pareceria estar no centro do mundo imóvel, ao redor do qual se movimenta tudo o que está em volta, girando, porém, como um corpo continente em que me encontro em torno do próprio centro. Eis por que não estou mais certo da diferença entre o móvel e o estável.
Quanto ao que você afirma do movimento retilíneo, com certeza não percebemos este corpo se movimentar em linha reta, como tampouco não percebemos os outros. A terra, se está em movimento, movimenta-se circularmente como os outros astros, tal como o afirmam Hegésias, Platão e todos os sábios, devendo admiti-lo Aristóteles e os outros. E o que nós vemos subir ou descer da terra não é todo o globo, mas algumas pequenas partes dele, as quais não se afastam além daquela região que é calculada entre as partes e os membros deste globo, onde, como num animal, há o defluxo e o influxo das partes, certo revezamento e certa mudança e renovação. E, admitindo-se que tudo isto exista também nos outros astros, não necessariamente há de ser percebido por nós, por- que estas elevações e exalações de vapores, o aparecimento de ventos, chuvas, neves, tro- voadas, esterilidade, fertilidade, inundações, nascimentos, mortes, se existem nos outros astros, também não são necessariamente percebidos por nós. Mas somente nos são sensi- veis aqueles que enviam da superficie de fogo, ou de água, ou de nuvens, uma contínua luz ao imenso espaço. Como este Astro é igualmente percebido por aqueles que residem nos outros astros, pelo esplendor que difunde da superfície dos mares (e às vezes pelo
7 O termo “demônio”, neste período, não possuía o significado atual de “diabo”. Significava “fenômeno”, isto é, qualquer elemento fora do comum. Torna-se bem claro o termo aqui usado por Giordano Bruno, isto é, “demônio da natureza”, devido à grandíssima admiração que alguns filósofos, especialmente o árabe Averróis, tiveram por Aristóteles. (N. do T.)
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envólucro * afetado por corpos nublados, assim como na lua, pela mesma razão, as par- tes opacas aparecem menos opacas), superfície que não se modifica senão em enormes intervalos de idades e séculos, período no qual os mares se mudam em continentes e os continentes em mares. Este e aqueles corpos são, pois, sensíveis pela luz que emanam. A luz que desta terra se difunde aos outros astros não é mais nem menos inalterável e per- pétua que a de astros semelhantes; e assim como o movimento retilíneo e a alteração daquelas pequenas partes não são percebidos por nós, assim não são percebidos por eles qualquer outro movimento e alteração que se possam encontrar neste corpo.
E assim como da lua desta terra, que é uma outra lua, aparecem diversas partes, umas mais luminosas, outras menos, assim também da terra daquela lua, que é uma outra terra, aparecem diversas partes por causa da variedade e da diferença de espaços da sua superfície. Da mesma forma, se a lua se encontrasse mais longe, faltando o diâme- tro das partes opacas, as partes brilhantes iriam juntar-se e apertar-se numa única per- cepção de um corpo menor e completamente brilhante; assim apareceria a terra, se esti- vesse mais distanciada da lua.
Daí podemos concluir que inúmeras estrelas são outras luas, outros tantos globos terrestres, outros tantos mundos semelhantes a este, em torno dos quais parece movimen- tar-se esta terra, da mesma forma que eles parecem movimentar-se e girar ao redor desta terra. Por que, então, queremos afirmar que existe diferença entre estes corpos e aqueles, se podemos constatar tamanha aptidão *? Por que queremos negar esta semelhança se não existe razão nem experiência que nos induzam a duvidar dela?
BURQUIO — Assim, você considera comprovado que aqueles corpos não diferem deste aqui? FRACASTORIO — E muito bem, porque o que de lá se pode ver neste vê-se naqueles
daqui; o que naqueles se vê de cá neste vê-se de lá. Em outras palavras: tanto este como aqueles são corpos pequenos, luminosos em parte pela menor distância a que se encon- tram este e aqueles; este e aqueles totalmente luminosos, porém menores, em virtude da maior distância a que estão.
Burquio — Onde ficou, então, aquela boa organização da natureza, aquela linda hierar- quia, pela qual se sobe do corpo mais denso e espesso que é a água, ao sutil'º que é o vapor, ao mais sutil que é o ar puro, ao sutilíssimo que é o fogo, ao divino que é o corpo celeste? Do obscuro ao menos obscuro, ao claro, ao mais claro, ao clarissimo? Do tene- broso ao lucidíssimo, do alterável e corruptível ao isento de qualquer alteração e corrup- ção? Do gravíssimo ao grave, do grave ao leve, do leve ao levíssimo, e deste àquele que não é nem grave nem leve? Do móvel ao meio, ao móvel do meio e, finalmente, ao móvel em torno do meio?
FRrAcAsTORIO — (Quer saber onde se encontra essa ordem? Onde estão os sonhos, as fantasias, as quimeras, as loucuras? Pois que, em relação ao movimento, tudo aquilo que naturalmente se movimenta possui translação circular, ou em torno do próprio meio, ou em volta dum alheio; digo circular, não considerando simples e geometricamente o cir- culo e a translação circular, mas segundo a regra à qual obedecem os corpos naturais, mudando de lugar físico, como podemos perceber. O movimento retilíneo não é próprio nem natural de corpo algum principal! ! porque não se percebe a não ser nas partes mais
Z 22 eq
8 O termo aqui usado é “volto”, isto é, “cara”, “face”, “aspecto”, mas que, na época, adquiria quase sempre o significado que Giordano Bruno ihe atribui aqui, isto é, “invólucro”, “capa exterior”. (N. do T.)
* O termo usado aqui é “convenienza”, que possui sempre um significado, em tudo, diferente do atual. Não significava, na época, “conveniência”, mas “aptidão”. (N. do T.)
1º Giordano Bruno emprega o termo “suttile”, que significava tanto um elemento “sutil”, isto é, composto de pouquissima matéria, como um elemento muito móvel. (N. do T.)
1 Aqui Giordano Bruno usa o termo “priricipale”, que possuía um significado mais amplo que o hodierno. Com efeito, o termo “principal” significa elemento principal, mais importante, porque “originário”. (N. do T.
SOBRE O INFINITO 57
vulgares, que emanam dos corpos mundanos, ou então de qualquer modo se dirigem.às esferas congênitas e continentes.
Assim vemos as águas, que, em forma de vapor rarefeito pelo calor, sobem ao alto; e condensadas pelo frio numa forma própria, voltam para baixo, pelo processo que expli- caremos em tempo oportuno, quando considerarmos o movimento. Quanto à disposição dos quatro corpos, chamados terra, água, ar, fogo, gostaria de saber qual a natureza, que arte, que sentido a produz, a verifica, a demonstra.
BuRQuIO — Você nega, então, a famosa distinção dos elementos?
FRACASTORIO — Não nego a distinção, pois deixo cada um distinguir, a seu bel-prazer. as coisas naturais; mas nego esta ordem, esta disposição, isto é, que a terra seja circun- dada e contida pela água, a água pelo ar, o ar pelo fogo, o fogo pelo céu. Porque afirmo ser apenas um o continente e receptáculo de todos os corpos e das grandes máquinas '? que vemos como que disseminados e esparsos neste amplssimo campo: onde cada um destes corpos, astros, mundos, lumes eternos, é composto daquilo que se chama terra, água, ar, fogo. E, se a substância predominante nele é o fogo, o corpo se chama sol, e é luminoso por si mesmo; se predomina a água, o corpo se chama corpo terra, lua, ou coisa semelhante, e brilha por influência de outro, como já foi afirmado.
Nestes astros ou mundos, como queiramos chamá-los, ao partes não- semelhantes encontram-se também ordenadas segundo várias e diferentes !? compleições de pedrás, lagoas, rios, fontes, mares, areias, metais, cavernas, montanhas, planícies e outras seme- lhantes espécies de corpos compostos, de lugares e figurações que, nos animais, são as partes chamadas heterogêneas, segundo as diversas e várias complicações de ossos, intestinos, veias, artérias, carnes, nervos, pulmões, membros de uma ou de outra figura, apresentando os seus montes, seus vales, seus recantos, suas águas, seus espíritos ! *, seus fogos, com acidentes proporcionais a qualquer pressão atmosférica ' *, tais como os catarros, as erisipelas, os cálculos, as vertigens, as febres e outras inúmeras disposições e costumes que correspondem às névoas, chuvas, nevadas, canículas, abrasamentos, aos raios, trovoadas, terremotos e ventos, e às férvidas e violentas tempestades ! *
Portanto, se a terra e as outras montanhas são animais "”, diversos dos animais vulgarmente tidos como tais, certamente, com maior e mais excelente razão, aqueles tam- bém são animais. Contudo, como Aristóteles ou qualquer outro poderá provar que O ar é encontrado com maior abundância ao redor da terra que dentro dela, se não existe parte alguma desta em que aquele não possa conseguir lugar ou penetração, talvez, pelo modo como os antigos entenderam o vácuo, por abranger tudo por fora e penetrar no ele- mento cheio? Como pode você imaginar que a terra tenha espessura, densidade e consis- tência, sem a água que junte !º e una as partes? Como pode entender que a terra é mais grave em direção ao meio, sem acreditar que as suas partes são aí mais espessas e densas,
'2 O significado que na época se dava ao termo “machina”, usado aqui por Giordano Bruno, era “com- posto mecânico”. (N. do T.) * Nesta obra, os termos constantemente usados por Giordano Bruno são “varie e diverse” que tinham, na êpoca, dois significados diferentes. O termo “vários” possuía um significado puramente numérico, enquanto o termo “diversos” possuía significado numérico e qualitativo. (N. do T.) É * O termo “espírito”, para a época, tinha um significado muito particular, indicava um elemento material, interno, dotado de determinadas funções. Possuía mais pontos em comum com o significado atual da palavra “psique” do que com o da palavra * “espírito”. (N. do T.) '8 Giordano Bruno usa “meteoriche impressioni”, onde o termo “impressione” adquire o significado, que quase sempre possuía, de “pressão”. (N. do T.) º Aqui o termo é “algose”, particular de Giordano Bruno, que possui o significado figurativo de “denso”. (N. do T.) "7 Deve-se manter aqui o termo “animal”, que é a idéia básica do naturalismo renascentista e, por isso, de todos os filósofos que se ocuparam, como Giordano Bruno, de filosofia natural. (N. do T.) '8 “Accoppie” possui o significado específico de * “copular”. O termo é usado com exatidão por Giordano Bruno, porque a idéia da copulação da matéria é uma das idéias básicas deste período. (N. do T.)
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cuja espessura é impossível sem água, único elemento que tem o poder de aglutinar parte com parte?
Quem não percebe que por toda a parte da terra aparecem ilhas e montanhas acima do nível das águas, e não somente acima da água, mas acima do ar vaporoso e tempes- tuoso encerrado entre as altas montanhas, e contado entre os membros da terra, para for- mar dela um corpo perfeitamente esférico; daí, não é evidente que a água ocupa nas entranhas da terra o lugar que o sangue e os humores ocupam nas nossas? Quem desco- nhece que nas profundas cavernas e concaidades da terra estão as principais reservas de água? E se você afirma que a terra é tâmida nos litorais, respondo que estes não são as partes superiores da terra, porque tudo aquilo que existe entre as montanhas altíssimas não é superficie, mas concavidade. Além disso, pode-se perceber a mesma coisa nas gotas empoeiradas, pendentes, que mantêm consistência sobre um elemento plano; por- que a alma íntima que compreende todas as coisas € existe nelas é a primeira a produzir esta operação: unir quanto pode as partes, segundo a capacidade do sujeito. E não é por- que a água esteja ou possa estar naturalmente sobre ou em volta da terra, mais que O úmido de nossa substância esteja sobre ou em volta do nosso corpo.
Concordo que os ajuntamentos de água são mais importantes no meio que em todos os litorais e em todos os outros lugares onde se encontram tais ajuntamentos. E certa- mente se as partes da terra árida tivessem a possibilidade de se juntarem por si mesmas, fariam o mesmo, como é evidente pela forma esférica que assumem, quando são agluti- nadas pela água: porque toda espessura ou união de partes que se encontram no ar pro- cede da água. Existindo, pois, a água nas entranhas da terra, e não existindo parte algu- ma dela, que faça a união e espessura das partes, que não contenha mais partes de água que de terra árida (porque onde existe o muito espesso, aí são máximos a composição é o domínio de tal sujeito, que possui o poder de juntar as partes) 'º, haverá alguém que não prefira afirmar que a água é a base da terra e não a terra da água? Que a terra se funda sobre o elemento da água e não vice-versa? Concedo, ainda, que a altura da água sobre a superficie da terra que habitamos, chamada mar, não pode ser e não é tanta que possa ser dignamente comparada com a massa desta esfera, não estando verdadeira- mente à sua volta, como acreditam os insensatos, mas dentro dela.
Da mesma forma que, forçado pela verdade ou pela costumeira afirmação dos anti- gos filósofos, Aristóteles teve que admitir, no seu primeiro livro da Meteorologia que as duas regiões ínfimas do ar turbulento e inquieto ?º estão interceptadas e compreendidas entre os altos montes, e são como que partes e membros daquela; e esta é circundada e compreendida pelo ar sempre trangúilo, sereno e claro, frente às estrelas? !; assim que, baixando os olhos, vêem-se todos os ventos, nuvens, névoas e tempestades, fluxos e reflu- xos que procedem da vida e respiração deste grande animal e nume a que chamamos Terra, que os antigos?? chamam Ceres, representaram como Ísis, intitularam Prosérpina e Diana, a mesma que no céu se chama Lucina; entendendo-se que esta não é de natureza diferente daquela. Eis onde se engana o nosso bom Homero, que, quando não dorme, afirma que a água possui lugar natural sobre ou ao redor da terra, onde não se encon- traram ventos, nem chuvas, nem pressões atmosféricas. E se tivesse refletido e entendido melhor, teria percebido também que o meio desse corpo (é aí o centro da gravidade) é um
'º Quanto ao sentido de “virti de le parti coerenti”, confira a nota 13. (N. do T.)
2º O termo aqui usado por Giordano Bruno é justamente * “inquieto”, termo exatíssimo, que faz referência a outra teoria básica da Renascença, isto é, a percepção sensitiva da matéria. (N. do T.)
21 Aqui “aspetto” possui o mesmo significado de “volto”. (N. do T.) E
22 Fomos obrigados a colocar o termo “antigos”, que Giordano Bruno deixa subentendido, para maior cla- reza da frase. (N. do T.)
SOBRE O INFINITO É 59
lugar mais apto para a água que para a terra árida. Porque as partes da terra não são. graves, sem que muita água entre na composição delas, sem a qual não adquirem a capa- cidade, pelo impulso e pelo próprio peso, de descer do ar e reencontrar esfera do próprio continente.
Portanto, qual o juízo reto, que verdade natural distingue e organiza estas partes, na forma em que é concebida pelo vulgo cego e ignóbil?º*, aprovada por aqueles que falam sem raciocinar, predicada por aqueles que muito dizem e pouco pensam? Quem acredita- rá, ainda, não ser verdadeira (mas se é o parecer de um homem sem autoridade, é coisa que faz rir; se é parecer de pessoa considerada e conhecida como ilustre, é coisa para ser contada como um mistério ou parábola, e interpretada por metáfora; se é parecer de homem possuidor de mais senso e intelecto que de autoridade, é coisa para ser enume- rada entre os ocultos paradoxos) a teoria de Platão, tirada de Timeu, de Pitágoras e outros, a qual declara que nós vivemos na parte côncava e obscura da terra, e temos para com os animais, que existem sobre a terra, a mesma relação que existe entre os peixes e nós; porque, da mesma forma que estes vivem num ambiente mais úmido, mais denso e mais espesso que o nosso, assim também vivemos num ar mais carregado do que aqueles que se encontram numa região mais pura e tranquila. E assim como o oceano é água em relação ao ar impuro, assim o nosso ar nebuloso, em relação ao outro elemento, há de ser verdadeiramente puro?
De tal maneira de ver e de dizer, eu quero concluir o seguinte: o mar, as fontes, os rios, as montanhas, as pedras e o ar nelas contido, e compreendido neles até a região mediana, como ela é chamada, não passam de partes e membros dessemelhantes de um mesmo corpo, de uma só massa, bastante proporcionais às partes e membros que nós vulgarmente conhecemos por compostos animais, cujos termos, convexidade e última superfície, são limitados pela extremidade das montanhas e pelo ar impetuoso. De sorte que o oceano e os rios permanecem nas profundidades da terra, como o fígado? *, consi- derado a fonte do sangue, e as veias ramificadas que estão contidas e estendidas em todos os vários membros.
Burquio — Então a terra, que está no meio, não é um corpo mais grave que a água, que a circunda, e esta, por sua vez, mais grave que o ar?
FRACASTORIO — Se você considera um elemento grave pela maior aptidão que tem para penetrar nas partes e se introduzir no meio, ou no centro, afirmarei que o ar é, a um tempo, o elemento mais grave e o mais leve entre todos os assim chamados elementos. Pois, assim como uma parte da terra, se se lhe oferece espaço, desce atê o meio, assim as partes do ar alcançarão o meio mais rapidamente que uma parte de qualquer outro corpo. Porque compete ao ar ser o priméiro a chegar num espaço, a impedir o vácuo, enchendo-o. Não com a mesma velocidade chegam a um lugar as partes da terra, as quais ordinariamente não se movimentam, a não ser penetrando-lhes o ar; porque, para fazer o ar penetrar, não é necessário nem terra, nem água, nem fogo, e nenhum destes se antecipa ao ar, nem pode vencê-lo por serem mais lestos, mais aptos e mais rápidos para encher os cantos do corpo continente. Ademais, se a terra, que é um corpo sólido, se divi- de, o ar ocupará seu lugar; mas a terra não está apta a ocupar o lugar do ar que se divide. Assim, sendo próprio do ar o movimentar-se para penetrar cada sítio e recanto, não exis- te corpo mais leve que o ar, nem existe corpo mais pesado que o ar.
BuRquUIO — E da água, o que você dirá agora?
23 O termo “sordido” possuía o significado que atualmente possui a palavra “surdo”, no sentido de lugar onde os impulsos permanecem sem efeito. (N. do T.) 2º Palavra latina “epate”, isto é, fígado. (N. do T.)
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FRACASTORIO — A respeito da água já falei, e volto a falar, que é um elemento mais grave que a terra porque podemos ver com mais eficiência o humor descer e penetrar na terra árida até o meio que a terra penetrar na água. Além disso, a terra árida, tomada completamente sem água, flutuará nela e não terá possibilidade de penetrar. Não desce se não for primeiro embebida e condensada numa massa e num corpo espesso, por meio de cuja espessura e densidade adquire o poder de penetrar na água. Esta, pelo contrário, nunca descerá por causa da terra, mas porque se agrega, se condensa e dobra o número de suas partes para embeber e amassar a terra. Por isso percebemos que entra mais água num vaso cheio de cinza verdadeiramente seca do que num outro vaso igual que não con- tenha nada. Portanto, a terra árida, porque árida, está em cima e bóia na água.
BurquiIo — Explique-se melhor.
FRACASTORIO — Torno a dizer que, se fosse removida toda a água da terra, de modo a ficar terra pura, o restante seria necessariamente um corpo incongruente, ralgçdissolvido e fácil de ser disperso no ar, ainda sob a forma de inúmeros corpos descontínuos. Porque o elemento que faz um corpo contínuo é o ar, e o que faz um corpo contínuo pela coerên- cia é a água, seja qual for o elemento composto, coerente e sólido, que ora é um, ora é outro, ora o composto de ambos.
Daí, se a gravidade não procede de outra coisa senão da coerência e espessura dãs partes, e as da terra não possuem coerência senão por causa da água — cujas partes, como as do ar, se juntam por si mesmas e que possui maior poder que qualquer outra coisa e a singular eficiência de fazer com que as partes de outros corpos se juntem —, acontecerá que a água, em relação aos outros corpos que por causa dela se tornam pesa- dos, e por causa dela outros elementos adquirem o ser pesado, é, em primeiro lugar, grave. Por isso, não deviam ser considerados incipientes, pelo contrário, muito sábios, aqueles que afirmaram que a terra tem por base a água.
Burquio — Nós afirmamos que se deve sempre considerar a terra no meio, como concluíram muitas personagens verdadeiramente sábias.
FRACASTORIO — E os incipientes confirmam.
Burquio — Por que incipientes?
FRACASTORIO — Porque esta afirmação não pode ser confirmada nem pelos sentidos nem pela razão.
Burquio — Não percebemos que os mares têm fluxo e refluxo, e os rios percorrem seus leitos sobre a face da terra?
FRACASTORIO — Não percebemos as fontes, que são a origem dos rios, das lagoas e dos mares, sair das entranhas da terra, e não de fora das entranhas da terra, se acaso você entendeu aquilo que, pouco tempo atrás, eu expliquei várias vezes?
BurQuio — Percebemos que a água desce do ar, antes que por meio dela se formem as fontes.
FracasTORIO — Sabemos que a água — mesmo descendo de outro ar que não seja aquele que constitui uma parte e pertence aos membros da terra — está primeiro origi- nal, principal e totalmente na terra; depois está no ar, derivativa, secundária e particularmente.
BURQUIO — Sei que você afirma que a verdadeira superfície extrema do convexo da terra não se mede a partir da superficie do mar, mas do ar igual às altíssimas montanhas. FRACASTORIO — Assim afirmou e confirmou o seu príncipe Aristóteles.
BuRQUIO — Esse nosso mestre é, sem comparação, mais célebre, digno e seguido que o seu, que ainda não se viu, nem é conhecido. Por isso, mesmo que muito lhe agrade o seu, eu gosto do meu.
SOBRE O INFINITO a
FRACASTORIO — Se bem que deixe você morrer de fome e frio, o alimente de vento, eo deixe ir descalço enu...
FiLOTEO — Por favor, não perca tempo com esses raciocínios inúteis e vãos. FRACASTORIO — Assim faremos. O que você deduz, Búrquio, daquilo que você acaba de ouvir?
Burquio — Deduzo que, ao fim, precisamos especular sobre o que se encontra no meio dessa massa, desse teu astro, desse teu animal. Porque, se lá existir a terra pura, a manei- ra como eles organizaram os elementos não é va.
FRACASTORIO — Já afirmei e demonstrei que é muito mais razoável estar lá a água ou o ar, em vez de a terra árida, que, aliás, não poderia estar aí sem ser composta de partes de água que, por fim, vêm a ser seu fundamento; porque vemos que as partículas de água têm mais poder de penetrar na terra que as partículas desta penetrar naquela. É, portan- to, mais verossímil, até mais necessário, considerar que nas entranhas da terra se encon- tre água do que nas entranhas da água se encontre terra.
BurQquio — O que você me diz da água que corre na superficie da terra, e sobre ela permanece?
FRACASTORIO — Não existe ninguém que não perceba que isto acontece por causa da própria água, que, havendo reduzido a elemento espesso e fixo a terra, conjugando as partes dela, torna impossível a absorção de mais água, a qual, de outra forma, penetraria até o fundo da árida substância, como podemos averiguar pela experiência universal. É necessário, então, que no meio da terra exista a água, para que esse meio tenha firmeza, o que não tem sua origem primária na terra, mas na água. Porque esta junta e une as par- tes daquela e, por conseqgliência, a água produz antes a densidade da terra, que, pelo contrário, a terra cause a coerência das partes da água e as faça densas.
Se você não quer, portanto, que o meio seja composto de terra e água, é mais verda- deiro e de acordo com qualquer raciocínio e experiência que esteja ali a água de prefe- rência à terra. E se existe ali um corpo espesso, há mais razão que nele predomine a água que a terra árida, porque a água é que faz a espessura das partes da terra, a qual, pelo calor, dissolve-se (não afirmo a mesma coisa em relação à espessura do fogo primário, a qual é dissolúvel mediante seu contrário), e que, quanto mais espessa e grave tanto mais participa da água. Daí, as coisas que nós julgamos ser espessissimas não somente pos- suem maior percentagem de água, mas são a própria água em substância, como se veri- fica na redução dos corpos mais graves e espessos, que são os metais liquescíveis. E, na verdade, em qualquer corpo sólido, coerente, é subentendida a existência da água que junta e une as partes de duas em duas, iniciando pelos elementos infimos da natureza; assim que, a terra árida, em absoluto separada da água, não é senão átomos vagos e esparsos.
São mais consistentes, porém, as partes da água sem a terra, porque as partes da terra árida não possuem nenhuma consistência sem a água. Pois, se o lugar do meio é destinado àquele que o aicança com maior impulso e maior velocidade, em primeiro lugar convém ao ar, que tudo enche, em segundo lugar à água, em terceiro à terra. Se o meio é destinado ao primeiro elemento pesado, ao mais denso e espesso, primeiramente convém à água, em segundo iugar ao ar, em terceiro à terra árida. Se consideramos a terra árida juntamente com a água, o meio convém primeiro à terra, em segundo lugar à água, em terceiro ao ar. Tanto que, devido a numerosos e diferentes motivos, o meio resulta conveniente em primeiro lugar a elementos diversos; segundo a verdade e nature- za, um elemento não existe sem o outro, e não existe membro da terra, isto é, deste gran- de animal, onde não existam todos os quatro, ou pelo menos três deles.
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BuRrQquUIO — Chegue rápido à conclusão.
FRACASTORIO — O que quero concluir é o seguinte: que a famosa e vulgar ordem dos elementos e corpos mundanos é uma ilusão e uma fantasia vã, pois não se verifica na natureza, nem se deduz pelo raciocínio e especulação, nem deve por conveniência, nem pode por potência, existir de tal maneira. Falta, então, compreender que existe um campo infinito e um espaço continente, que compreende e penetra tudo. Nele se encontram infi- nitos corpos semelhantes a este, não estando nenhum deles mais no centro do universo que o outro, porque o universo é infinito, portanto sem centro e sem margens, sendo tudo isso possível a cada um destes mundos, que nele se encontram, pela forma que já relatei, e particularmente quando temos demonstrado existir certos meios determinados e defi- nidos*? º que são os sóis, os fogos, ao redor dos quais se movimentam todos os planetas, as terras, as águas, tal como podemos ver, por exemplo, com o nosso, em torno do qual movimentam-se esses sete planetas errantes. E ainda quando temos demonstrado tam- bém que cada um destes mundos e destes astros, movimentando-se ao redor do próprio centro, dá a impressão de um sólido e continuado mundo que arrebata consigo quantos astros se podem ver e podem existir e que se movimentam em torno dele, como se fosse o centro do universo.
De maneira que não existe um único mundo, uma única terra, um único sol; mas os mundos são tantos quantas lâmpadas luminosas percebemos à nossa volta, as quais não estão mais num céu, num lugar e num receptáculo, do que este nosso mundo, onde mora- mos, está num receptáculo, num lugar, num céu. E assim, o céu, o ar infinito, imenso, apesar de fazer parte do universo, não é contudo mundo, nem parte de mundos; mas regaço, amparo e campo onde eles existem, movimentam-se, vivem, vegetam e põem em efeito os atos de suas vicissitudes, produzem, alimentam, realimentam, e mantêm seus habitantes e animais; e com determinadas disposições e organizações administram a natureza superior, mudando o aspecto de um ente em inúmeros sujeitos. Portanto, cada um destes mundos é um meio, para o qual cada uma de suas partes concorre e onde resi- de toda a coisa da mesma origem; da mesma forma que as partes deste astro, de uma dis- tância determinada, de cada lado, de cada região circunstante, se relacionam com o seu continente. De onde, não existindo parte que emane de tal modo de um corpo que não volte novamente a ele, resulta que este corpo é eterno, embora seja dissolúvel: se bem que a necessidade de tal eternidade provenha de um mantenedor e de um provisor extrínseco, e não de uma intrínseca e própria suficiência, se não estou enganado. Mas sobre este pro- blema discutiremos em outras oportunidades, com razões mais apropriadas.
BuRQUIO — Então os outros mundos estariam habitados como este aqui?
FRACASTORIO — Se não assim ou melhor, ao menos não pior; porque é impossível que uma inteligência racional e um pouco atenta possa imaginar que estejam privados de semelhantes ou até melhores moradores os inúmeros mundos, que a nós se manifestam iguais ou melhores que o nosso; os quais são sóis, ou o sol difunde neles os diviníssimos e fecundos raios, que tanto tornam feliz o próprio sujeito e fonte, como tornam afortu- nados os elementos circunstantes que participam desse poder difundido. São, portanto, infinitos os inúmeros e principais membros do universo, com o mesmo aspecto, a mesma forma, prerrogativa, poder e efeito.
BuRrQuIOo — Não quer admitir a existência de alguma diferença entre uns e outros” FRACASTORIO — Repetidamente vocês escutaram que são brilhantes e quentes por seu próprio poder aqueles em cuja composição predomina o fogo; os outros resplendem por
25 Entre estes dois termos existe a mesma diferença da nota 13. (N. do T.)
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participação alheia, pois são por si frios e obscuros, e em sua composição predomina a água.
Desta diversidade e oposição dependem a organização, a simetria, a compleição, a paz, a concórdia, a composição, a vida. De tal sorte que os mundos são compostos de elementos contrários; e alguns contrários, como as terras e as águas, vivem e vegetam por meio de outros contrários, como os sóis e os fogos. E acredito que assim quis dizer aquele sábio ao afirmar que Deus produzia a paz nos sublimes contrários, e aquele outro sábio ao afirmar a Estonia de tudo como sendo gerado pela luta dos semelhantes e o amor dos contrários. *?
Burquio — Com essas afirmações você põe o mundo de cabeça para baixo. FRACASTORIO — Considera você errado alguém inverter um mundo virado às avessas? Burquio — Quer destruir tantas fadigas, tantos estudos, pesquisas de físicos conheci- dos, sobre os céus e os mundos, ? ” a respeito dos quais especularam tão grandes comen- tadores, imitadores, glosadores, compendiários, sumistas, selecionadores, tradutores, divulgadores e teoristas? Onde colocaram suas bases e lançaram seus fundamentos os doutores profundos, sutis, iluminados, ?º magnos inexpugnáveis, irrefragáveis, angélicos, seráficos, querúbicos e divinos? ,
FracastTORIO — Adde?º os tritura-pedras ou quebra-seixos, os cornúpetos, os asnos. Adde os alucinados, os paládios, os olímpicos, os firmamentícios, os celestes empíricos, os gritalhões.
BurQuiIo — E, segundo você, deveríamos jogá-los todos na privada? Certamente, o mundo ficará bem governado, se forem abolidas e desprezadas as especulações de tantos e tão dignos filósofos!
FRACASTORIO — Não é justo tirarmos a alface'aos burros e querermos que o gosto deles -se torne semelhante ao nosso. A variedade de idéias e inteligências é a mesma que a variedade de espíritos e de estômagos.
Burquio — Quer que Platão seja um ignorante, Aristóteles um asno, e seus seguidores sejam insensatos, estúpidos e fanáticos?
FracastORIO — Meu filho, não afirmo que estes sejam cavalos e aqueles asnos, que estes sejam macacos e aqueles símios, como você quer me fazer dizer; mas, como eu afir- mei desde o começo, eu os considero heróis da terra; todavia, não posso acreditar neles sem uma prova, nem admitir aquelas proposições, cujas contraditórias, como você deve ter percebido, se não estiver cego nem surdo, são tão expressamente verdadeiras. Burquio — Então, quem poderá servir de juiz?
FRACASTORIO — Todo juízo reto e atento, qualquer pessoa discreta, que não se obstine quando perceber que foi convencida e está impotente para defender as razões daqueles e resistir às nossas.
Burquio — Quando eu não o souber defender, será por causa de minha insuficiência e não por causa de sua doutrina; quando, impugnando-as, vocês souberem concluir, não será pela verdade das doutrinas, mas por suas inoportunas elaborações sofiísticas.
28 O termo usado aqui é “litiganti”, que Giordano Bruno considera mais exato que o termo “contrários”, por se encontrar de acordo com a teoria de Heráclito, muito usada pelos naturalistas da Renascença. (N. do T.)
2? Aqui Giordano Bruno quer dar ênfase à teoria aristotélica do céu como elemento que abarca os vários mundos, teoria que ele combate. (N. do T.)
28 OQ termo aqui usado por Giordano Bruno é “aurati”, do termo latino “aureum”, isto é, “ouro”, mas que significava também “sol” ou “luz”. Estes três termos foram sempre identificados, nessa época. (N. do T.)
28 “Acrescenta”. (N. do T.)
64 BRUNO
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FRACASTORIO — Eu, se me achasse incompetente na pesquisa das causas, me absteria de oferecer soluções. Se eu fosse tão afetado ?º como você, considerar-me-ia douto por fé e não por ciência.
BURQUIO — Se você fosse mais maleável, reconheceria que você é um asno presunçoso, sofista, perturbador dos bons conhecimentos, carnífice das inteligências, amante das novidades, inimigo da verdade, suspeito de heresia.
FiLoTEO — Até agora ele demonstrou possuir pouca doutrina, agora quer demonstrar possuir pouco discernimento e não é dotado de cultura. *”
ELpiNo — Tem boa voz e discute mais galhardamente que um frade de sandália. º? Meu caro Búrquio, louvo muito a constância de sua fé. No início, você afirmou que, mesmo que isso fosse verdade, você não acreditaria.
BurquiIo — Sim, prefiro ignorar em companhia de muitas mentes ilustres e doutas, que saber com poucos sofistas, como considero esses amigos.
FRACASTORIO — Muito mal sabe você diferenciar doutos é sofistas, se acreditamos naquilo que você afirma. Não são ilustres e doutos aqueles que ignoram; aqueles que sabem não são sofistas.
BuRQUIO — Eu sei que você entende o que eu quero dizer.
ELpiNo — Seria bastante se pudéssemos entender aquilo que você afirma, porque você mesmo dificilmente poderá entender o que você mesmo pretende afirmar.
Burquio — Vamos, vamos, mais doutos que Aristóteles; vamos, mais divinos que Pla- tão, mais profundos que Averróis, mais sábios que um tão grande número de filósofos e teólogos de tão numerosas eras e tão numerosas nações, que os comentaram, admiraram e os colocaram no céu. Andem, vocês, que não-conheço, nem sei de onde vieram; e que- rem presumir de se opor à abundância de tantos grandes doutores!
FracAsTORIO — Esta seria a melhor de todas as razões que você apresentou, se fosse uma razão.
Burquio — Você seria mais douto que Aristóteles, se não fosse uma besta, um coitado, um mendigo, um miserável, alimentado a pão de milho, morto de fome, gerado por um alfaiate, nascido de uma lavadeira, sobrinho de Chico sapateiro, filho de Momo, cafetão de prostitutas, irmão de Lázaro que faz ferraduras para os asnos. Fiquem possuídos*º por cem diabos vocês também, que não são muito melhores que ele!
ELPINO — Por favor, magnífico senhor, não mais se preocupe em vir encontrar-nos e es- pere que nós o procuremos.
FRACASTORIO — Querer, com mais razões, mostrar a verdade a pessoas semelhantes é mais difícil que lavar muitas vezes a cabeça de um burro com sabão e quiboa; pois não é mais profícuo lavar cem vezes, que uma só, ou de mil maneiras ou de uma só, porque dá no mesmo ter lavado ou não ter lavado.
FiLoTEo — Pelo contrário, aquela cabeça será ainda considerada mais imunda no fim da lavação do que no princípio e antes de ser lavada. Porque, acrescentando-se mais água e mais perfumes, sempre mais se vêm a remover os olores daquela cabeça, perce- bendo-se o mau cheiro que não se teria percebido antes, e que será tanto mais enfastiante quanto mais os perfumes aromáticos o despertarem.
3º O termo usado aqui é “affeto”, isto é, “afetado”, mas que significava também “impressionado”. (N. do T.)
31 Aqui o termo usado é “civiltã”, segundo o uso latino do termo “civis”, isto é, “cuidado”, que na Idade Média passou a ter o significado de “culto”. (N. do T.) 32 O termo usado qui é “zoccoli”, que se refere particularmente aos frades pertencentes às Ordens Mendi- cantes, que não podiam usar sapatos. (N. do T.)
33 Aqui Giordano Bruno usa a expressão já suficientemente moderna: “rimanete con”. (N. do T.)
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Nós discutimos demais hoje. Regozijo-me bastante com a capacidade de Fracas- tório e com o seu amadurecido juízo, Elpino. Agora, tendo discutido sobre o ser, o núme- ro e a qualidade dos mundos infinitos, é bom que amanhã pesquisemos se existem razões contrárias, e quais são elas.
ELPINO — Assim seja! FRACASTORIO — Adeus!
DIÁLOGO QUARTO
Interlocutores ELPINO, FILOTEO, FRACASTORIO E BURQUIO
FrLoTEo — Os mundos não são, pois, infinitos segundo imaginaram a composição desta terra, circundada por tantas esferas, algumas contendo um astro, outras inúmeros astros: considerando que o espaço é de tal ordem que nele podem se movimentar muitos astros. E cada um deles é de tal maneira que pode, por si mesmo e por um princípio intrínseco, movimentar-se para se comunicar com as coisas que lhe convêm. Cada um deles é tão completo que é suficiente, capaz e digno de ser considerado um mundo. Não existe ne- nhum que não possua um princípio eficaz e a maneira de continuar e conservar a perpê- tua geração e a vida de inúmeros e excelentes indivíduos. Conhecendo-se que a aparência do movimento mundano é causada pelo verdadeiro movimento diurno da terra (o que, aliás, também se encontra em astros semelhantes), não existirá razão que nos obrigue a calcular a eguidistância de tais estrelas, que o vulgo considera situadas numa oitava esfe- ra, como que pregadas e fixas. E não existirá raciocínio que impeça nosso conhecimento sobre a distância daquelas que são inúmeras e que possuem inúmeras diferenças de comprimento e semidiâmetro. Compreenderemos que os orbes e as esferas do universo não estão colocados de forma que venham a se inserir um no outro,” * sendo sempre con- tido o menor pelo maior como, por exemplo, as folhas de qualquer cebola; mas que o calor e o frio, difundidos no campo etéreo pelos corpos que principalmente possuem esta propriedade, temperam-se reciprocamente segundo a junção de diversos graus, e se trans- formam, assim, num princípio originário de tantas formas e espécies de entes.
ELPINO — Por favor, vamos logo à resolução das razões dos contrários e especialmente às razões aristotélicas, que são as mais celebradas e as mais famosas, consideradas pela multidão estápida como perfeitas demonstrações. E para não dar a idéia de que eu queira deixar alguma coisa para trás, relatarei todas as razões e sentenças deste pobre sofista, e você examinará uma por uma.
FiLoTeo — Vamos fazer assim.
ELPINO — Devemos observar, afirma Aristóteles, no primeiro livro do seu Céu e Mundo, se fora deste mundo existe outro.
34 No texto, o termo usado é “comprendersi Jun Valtro”; mas o uso que Giordano Bruno faz do termo “compreender” é aquele comum a toda a Renascença, isto é, “conter”, com significado particularmente fisi- co. (N. do T.)
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FILOTEO — À respeito desta questão, você bem sabe que a palavra mundo adquire signi- ficado diferente para ele e para nós; porque nós acrescentamos mundo a mundo, da mesma forma que astro a astro, neste amplíssimo espaço etéreo, como é natural que te- nham entendido todos aqueles que consideraram os mundos inumeráveis e infinitos. Aristóteles considera a palavra mundo como um agrado destes elementos esparsos e dos orbes faritásticos dispostos até a convexidade do primeiro móvel, que, sendo perfeita- mente esférico, revoluciona todos eles rapidamente, girando ele mesmo em tomo do cen- tro, onde nós nos encontramos.
Seria, porém, um vão e infantil entretenimento se quiséssemos, razão por razão, examinar tal fantasia. Mas será ótimo expediente solucionar suas proposições na parte em que podemos considerá-las contrárias ao nosso modo de ver, sem nos preocuparmos com as que não nos contradizem.
FRACASTORIO — Que responderíamos a quem nos acusasse de disputarmos sobre o equivoco?
FiLotrEo — Responderíamos duas coisas: primeiro, que o defeito é causado por Aristó- teles, que considerou o mundo segundo uma significação imprópria, criando um universo fantástico e corpóreo; segundo, que nossas respostas são igualmente válidas conside- rando o significado do termo mundo quer segundo a imaginação dos adversários, quer segundo a verdade. Porque, onde quer que sejam imaginados os pontos da última circun- ferência deste mundo, cujo meio é esta terra, podem-se figurar os pontos de outras inú- meras terras, que existem para além daquela imaginária circunferência. Admitindo-se que existam realmente, embora não segundo a condição imaginada por eles; condição que, de outro lado, não acrescenta nem tira nada ao argumento que se refere à quanti- dade do universo e ao número dos mundos.
FRACASTORIO — Você raciocina corretamente; continue, Elpino.
ELpiNo — “Todo o corpo”, afirma Aristóteles, “ou se move ou permanece imóvel. E este movimento ou permanência ou é natural ou é forçado. Alêm disso, todo o corpo, onde não permanece por violência mas naturalmente, aí fica imóvel, não por violência, mas por natureza; e onde não se move por violência, aí permanece naturalmente. De sorte que tudo aquilo que é violentamente movido para o alto move-se naturalmente para baixo, e vice-versa. Daqui se infere que não existe multiplicidade de mundos, se considerarmos que, se a terra, que está fora deste mundo, se move violentamente para o meio deste, a terra que está neste mundo mover-se-á naturalmente para o meio daquele. E se o seu movimento do meio deste mundo para o meio daquele é violento, será natural o seu movimento do meio daquele mundo para o meio deste. A causa de tudo isto é que, se aceitarmos a existência de mais terra, precisamos admitir que a potência de uma seja semelhante à potência da outra, assim como a potência daquele fogo será semelhante à potência deste fogo.
“De outro modo, as partes daqueles mundos serão semelhantes às partes deste mundo somente em nome, e não em substância e, por consegiiência, aquele mundo será tal, mas se chamará mundo, como este. Ainda, todos os corpos que são de uma única natureza e de uma única espécie possuem um único movimento; porque qualquer corpo se move naturalmente, de qualquer maneira. Se aí existem, pois, terras da mesma natu- reza que esta e da mesma espécie, terão certamente o mesmo movimento; como, inversa- mente, se possuem O mesmo movimento, possuirão os mesmos elementos. Sendo assim, necessariamente a terra daquele mundo se movimentará para a terra deste mundo, o fogo daquele para o fogo deste. Daí também resulta que a terra se move tão naturalmente para cima como para baixo, e o fogo se move tanto para baixo como para cima. Ora, sendo
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tais coisas impossíveis, deve existir só uma terra, um centro, um meio, um horizonte, um mundo.”
Fmorteo — Contra tudo isso afirmamos que, pelo modo com que neste espaço universal infinito a nossa terra gira em torno desta região e ocupa esta parte, assim os outros as- tros ocupam as suas partes e giram em torno de suas próprias regiões no imenso campo. E, como esta terra consta de seus próprios membros, possui suas próprias alterações, o fluxo e refluxo em suas várias partes (como vemos acontecer nos animais, humores € par- tes, que estão em contínua alteração e movimento), assim os outros astros constam de seus próprios membros semelhantemente afetados. E assim como este, movendo-se natu- ralmente segundo toda a máquina, apresenta um movimento semelhante ao circular, pelo qual gira em torno do próprio centro e desliza ao redor do sol, assim necessariamente acontece com todos os outros corpos que possuem a mesma natureza.
E da mesma forma como as partes isoladas daqueles corpos que, acidentalmente se encontram afastadas de seu lugar (elas, porém, não devem ser consideradas partes principais ou membros), voltam àquele lugar naturalmente, por impulso próprio, assim as partes da terra árida e da água, que pela ação do sol e da terra, sob forma de exalação e vapor, tinham-se afastado para os membros e regiões superiores deste corpo, aí regres- sam, depois de readquirirem novamente sua própria forma. Assim, aquelas partes, como estas, não se afastam de seu continente para além de certo termo, como se tornará evi- dente quando virmos que a matéria dos cometas não pertence a este globo. E finalmente, embora as partes de um animal sejam da mesma espécie que as partes de um outro ani- mal, pertencendo contudo a indivíduos diversos, nunca aquelas de um deles (falo das par- tes principais e longínquas) se inclinam para o lugar daquelas do outro: como a minha mão nunca se adaptará ao teu braço, a minha cabeça ao teu busto.
Postos estes elementos fundamentais, afirmamos a existência de verdadeira seme- lhança entre todos os astros, entre todos os mundos, e da mesma organização desta terra e das outras. Isto não implica, porém, que onde está este mundo devam estar todos os outros? E onde está situada esta, devam estar situadas as outras; mas podemos facil- mente inferir que, assim como esta permanece em seu lugar, todas as outras permanecem no delas; como não é conveniente que esta se mova para o lugar das outras, não é tam- pouco conveniente que as outras se movam para o lugar desta; como esta é diferente das outras em matéria e em outras circunstâncias individuais, assim as outras são diferentes desta. Assim, as partes deste fogo se movem rumo a este fogo, como as partes daquele se movem rumo áâquele; assim as partes desta terra se movem rumo a esta toda, e as partes daquela terra se movem rumo àquela toda. Da mesma forma, as partes daquela terra que chamamos lua, com suas águas, mover-se-jam contra sua própria natureza e violenta- mente rumo a esta terra, como as partes desta mover-se-iam para aquela.
A lua se movimenta naturalmente em seu lugar e alcança a sua região, que ali está; a terra permanece naturalmente aqui em sua região; assim se referem suas partes aquela terra, como as daquela a esta terra; assim também se deve pensar com respeito às partes daquelas águas e daqueles fogos. A parte inferior desta terra não é qualquer ponto da região etérea fora da própria esfera e além dela (como acontece em relação às partes for- madas fora da própria esfera, se isso pode acontecer), mas se encontra no centro de sua massa, ou de sua redondeza, ou de sua gravidade. Assim, a parte inferior daquela outra terra não é algum lugar fora dela, mas é o seu próprio meio, o seu próprio centro. A parte superior desta terra é tudo o que existe em sua circunferência e fora de sua circunfe- rência; porém, as partes daquela se movem tão violentamente para além de sua circunfe- rência e se recolhem tão naturalmente para o seu centro, como as partes desta, que se
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afastam violentamente e naturalmente voltam ao próprio meio. Eis como se há de enten- der a verdadeira semelhança entre estas e aquelas terras.
ELpino — Você diz, muito bem, pois, assim como é inconveniente e impossível que um destes animais se mova e fique onde se encontra outro, e não possua subsistência própria individual com seu próprio lugar e circunstâncias, assim também é de todo inconveniente que as partes deste possuam inclinação e movimento atual para o lugar das partes daquele.
Frrotreo — Você raciocina bem em relação às partes que devem ser verdadeiramente consideradas partes. Porque, tudo o que pertence aos primeiros corpos indivisíveis, dos quais originariamente é composto o todo, é de crer que tenham pelo espaço imenso certas vicissitudes pelas quais afluem em algumas partes e emanam de outras.
E se estes, por providência divina, não constituem segundo o ato novos corpos, dissolvendo os antigos, ao menos possuem tal faculdade. Porque, na verdade, os corpos mundanos são dissolúveis; mas, seja por eficiência intrínseca, seja por eficiência extrín- seca, pode acontecer que os mesmos persistam eternamente, por haver tal e tanto afluxo de átomos quanto têm de fluxo, permanecendo assim os mesmos em números, como nós, que de maneira idêntica, dia após dia, hora após hora, momento após momento, nos renovamos na substância corpórea pela atração e pela digestão que fazemos por todas as partes do corpo.,
ELPINO — À respeito disso, discutiremos outra vez. Quanto ao presente, muito me ale- gro, ainda, por aquilo que você notou que assim como se compreenderia subir violenta- mente cada uma das outras terras para esta, se se movesse para este lugar, assim esta subiria violentamente se se movimentasse rumo a qualquer uma daquelas. Porque, se andando de qualquer parte desta terra rumo à circunferência ou última superficie, e rumo ao horizonte hemisférico do éter, se procede para cima, assim de qualquer parte da super- fície das outras terras rumo a esta se procede também por ascensão, visto que esta terra é circunferencial àquelas, como aquelas o são a esta. Concordo que, embora aquelas ter- ras sejam da mesma natureza que esta, isto não implica que se refiram ao mesmo centro: porque o centro de qualquer outra terra não é o centro desta, e a sua circunferência não é a circunferência desta, como a minha alma não é a sua, a minha gravidade e de minhas partes não são o seu corpo e gravidade, apesar de todos estes corpos, gravidades e almas se chamarem univocamente e serem da mesma espécie.
Ficoteo — Bem. Mas nem por isso gostaria que você imaginasse que, se as partes daquela terra se aproximassem desta terra, não fosse possível que tivessem da mesma maneira impulso para este continente, como se as partes desta se aproximassem daquela; apesar de ordinariamente não percebermos tal acontecimento nos animais e diversas par- tes das espécies destes corpos, senão quando um é alimentado e aumenta por causa do outro, e um se transforma no outro.
ELpiNO — Muito bem. Mas que diria você se toda aquela esfera se encontrasse tão perto desta quanto estão afastados dela as suas partes que têm aptidão para voltar ao seu continente?
FiLOTEO — Aceitando que as partes notáveis da terra se organizem fora da circunfe- rência da terra, ao redor da qual existe, como se diz, O ar puro e terso, facilmente conce- do que tais partes possam naturalmente voltar daquele lugar para o seu; porém, não con- cedo que possa chegar toda uma outra esfera nem descerem naturalmente as suas partes, mas, pelo contrário, subirem violentamente; como as partes desta não desceriam natural- mente para aquela, mas subiriam violentamente. Porque, em todos os mundos, o extrin- seco de sua circunferência é a parte superior, e o centro intrínseco é a parte inferior, e a
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organização do meio para o qual suas partes naturalmente tendem não se tira de fora, mas de dentro daqueles. Coisa ignorada por aqueles que, imaginando um certo limite e definindo o universo de forma vã, consideraram ser a mesma coisa o meio e o centro do mundo e o desta terra. O contrário disso ficou demonstrado, conhecido e aprovado pelos matemáticos de nossos tempos, que descobriram que o centro da terra não é equidistante da imaginária circunferência do mundo.
Passo por cima dos outros mais sábios, que, compreendido o movimento da terra,
concluíram, não só por razões próprias à sua arte mas também por alguma razão natu- ral, que partindo do mundo e universo que podemos entender através do sentido da vista, mais razoavelmente e sem inconvenientes, e para formular uma teoria mais permitente e justa, aplicável ao movimento mais regular dos ditos astros, errantes em torno do meio, devemos entender que a terra se encontra tão longe no meio quanto o sol. Daí, facil- mente, com os seus próprios princípios podem descobrir aos poucos a inconsistência daquilo que se diz sobre a gravidade deste corpo, da diferença entre este lugar e os outros, da equidistância dos inumeráveis mundos, que daqui vemos para além dos ditos planetas, do movimento rapidíssimo de todos aqueles ao redor deste único, quando se devia falar da revolução deste único em relação a todos aqueles. Ainda poderão surgir dúvidas concernentes a outros importantissimos inconvenientes, de que está imbuída a filosofia vulgar. Para voltar ao nosso ponto de partida, torno a dizer que nem um astro inteiro nem parte dele estariam aptos a se movimentar rumo ao meio de um outro, embo- ra se encontrasse muito próximo deste, de tal maneira que o espaço ou ponto da circunfe- rência daquele se tocasse com o ponto ou espaço da circunferência deste. ELPINO — À precavida natureza providenciou o contrário desta teoria, porque, se não fosse assim, um corpo contrário destruiria O outro; o frio e o úmido se aniquilariam com o calor e o seco: ao passo que, colocados a uma determinada e conveniente distância, cada um pode viver e vegetar por influência do outro.
Além disso, um corpo semelhante impediria ao outro a comunicação e participação com o conveniente, oferecido ao dessemelhante e recebido do dessemelhante; como no-lo demonstram, às vezes, os danos não medíocres que à nossa fragilidade causam as inter- posições de uma outra terra, que nós chamamos lua, entre esta terra e o sol. Ora, que aconteceria se ela se encontrasse mais perto da terra e por muito mais tempo nos privasse daquele calor e luz vital?
FiLoTEo — Você fala muito bem. Continue agora a argumentação de Aristóteles. ELPINO — À seguir, apresenta uma objeção falsa, dizendo que, por esta razão, um corpo não se move rumo a outro, porque, quanto mais afastado estiver por distância local, tanto mais diversa é a sua natureza. E contra esta teoria, ele afirma que a distância maior ou menor não basta para fazer que a natureza seja diversa.
FicotTeo — Tudo isto, entendido como se deve, é muito verdadeiro. Porém, nós temos outro modo de responder, e apresentamos outra razão pela qual uma terra não se movi- menta rumo à outra, esteja ela próxima ou afastada.
ELPINO — Já a compreendi. Mas parece-me também verdade aquilo que os antigos consideravam como verdade, isto é, que um corpo, quanto maior é a distância, menor capacidade adquire (que eles chamam propriedade e natureza, como usualmente se expri- miam), porque as partes a que está sujeito muito ar têm menos potência para dividir o meio e vir para baixo.
FrLotreo — É bem certo e suficientemente verificado nas partes da terra que, de certo termo de seu recesso e afastamento, costumam voltar a seu continente, apressando-se tanto mais quanto mais se aproximam. Mas nós falamos agora das partes de outra terra.
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ELpiNO — Ora, sendo uma terra semelhante a outra terra, uma parte semelhante a outra parte, que pensa você que aconteceria se elas fossem vizinhas? Não haveria igual potên- cia, tanto das partes de uma como da outra, para se aproximarem e, portanto, subirem ou descerem? FicotTeEo — Colocado este inconveniente (se é um inconveniente), o que nos impede que ponhamos outro, consequente? Mas, aceitando isto, afirmo que as partes, tendo igual razão e distância de diversas terras, ou permanecem, ou, determinando um lugar para onde ir, dir-se-á que descem em relação a ele e que sobem com respeito a outro, do qual se afastam. ErpiNO — Todavia, quem sabe se as partes de um corpo principal se movem rumo a outro corpo principal, embora semelhantes em espécie? Porque parece-me que as partes e os membros de um homem não podem se adaptar e convir a outro homem. FiLoTEO — Principal e primariamente é verdade, mas acessória e secundariamente acon- tece o contrário. Pois temos percebido por experiência que a carne de outro pode ser jun- tada ao lugar onde se encontrava o nariz deste; e sabemos que podemos substituir facil- mente a orelha de um pela orelha de outro. ELPINO — Esta cirurgia não deve ser comum. FiLoTEO — Não é. ELpiNno — Volto a querer saber: se acontecesse que uma pedra estivesse meio no ar, num ponto equidistante de duas terras, de que modo devemos acreditar que ela permaneceria fixa? E de que modo se determinaria para ela ir mais rapidamente para um do que para outro continente? FiLoTEO — Afirmo que não tendo a pedra, por uma forma, relação maior com uma do que com outra, e tendo ambas mesma relação com a pedra, e sendo igual a sua influência naquela, aconteceria que, devido à incerteza e igual razão em relação de dois termos opostos, permaneceria, não podendo se resolver a andar de preferência para um do que para o outro, visto que este não atrai mais do que aquele, e ela não possui maior impulso para um do que para o outro. Porém, se um deles lhe é mais congênere e natural, ou mais semelhante e apto a conservá-la, determinar-se-á a ir para ele, justamente, pelo caminho mais breve. Porque o principal princípio motor não é a própria esfera e o próprio conti- nente, mas o desejo de conservar-se: como, por exemplo, vemos a chama serpentear pelo chão, inclinar-se a dirigir-se para baixo, a fim de andar para o lugar mais próximo em que possa alimentar-se e aumentar, abandonando a direção do sol, rumo ao qual não subiria sem o risco de enfraquecer pelo caminho. ELpINO — O que você diz em relação àquilo que Aristóteles acrescenta, isto é, que as partes e os corpos congêneres, apesar de distantes, se movem também rumo ao próprio todo e ao próprio semelhante? Firotreo — Quem não percebe que é contra qualquer razão e sentido, considerando aquilo que já temos dito antes? Certamente, as partes fora do próprio globo se movimen- tarão rumo ao semelhante próximo, ainda que ele não seja seu continente primário e prin- cipal; e, às vezes rumo a outro que o conserve e alimente, mesmo que seja de espécie não-semelhante, porque o princípio intrínseco impulsivo não procede da relação entre ele e um determinado lugar, certo ponto e esfera próprios mas do impulso natural de procu- rar onde melhor e mais rapidamente possa manter-se e conservar-se no ser presente. E, conquanto esta essência possa ser da mais desprezível natureza, todas as coisas natural- mente a desejam.
Como especialmente mais desejam viver e mais temem a morte aqueles homens que não possuem a luz da verdadeira filosofia e não compreendem outro ser além do presente
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e julgam que não pode acontecer nada que não lhes pertença. Porque não chegaram a entender que o princípio vital não consiste nos acidentes que resultam da composição, mas na substância individual e indissolúvel, a qual, não havendo perturbação, não possui o desejo de conservar, nem o temor de se perder. Isto é conveniente aos compostos, a saber, por uma organização simétrica, de compleição e acidental. Porque, nem a subs- tância espiritual que une, nem a substância material que é unida, segundo se admite, podem estar sujeitas a qualquer alteração ou paixão, não procurando, por conseguência, conservar-se, é por isso não convém a tais substâncias movimento algum, mas às subs- tâncias compostas.
Compreender-se-á tal doutrina quando se entender que ser grave ou leve não per- tence aos mundos nem às partes deles; porque estas diferenças não existem naturalmente, mas positiva e relativamente. Além disso, pelo que temos considerado outras vezes, isto é, que o universo não possui limites, nem extremos, mas é imenso e infinito, advém que os corpos principais não podem se determinar a movimentar-se em linha reta, com res- peito.a qualquer meio ou extremo, porque têm igual relação com todos os cantos, fora de sua circunferência. Por isso não possuem outro movimento retilíneo que o das próprias partes não em relação a outro meio e centro, que não seja o do próprio conjunto inteiro, continente e perfeito. Mas disto me ocuparei a seu tempo e lugar.
Chegando ao âmago da questão, afirmo: segundo seus próprios princípios, este filó- sofo não poderá verificar que um corpo, apesar de longínquo, possua a aptidão de voltar rumo a seu continente ou semelhante, se ele considera os cometas como sendo de matéria terrestre que subiu, em forma de exalação, à incandescente região do fogo, sendo as suas partes inaptas para descer; mas, arrebatadas pelo poder do primeiro móvel, giram em torno da terra, embora não sejam de quinta-essência, mas corpos terrestres gravíssimos, espessos e densos. Como claramente se deduz pela sua aparição em tão longos intervalos de tempo, e pela contínua resistência que opõem ao grave e vigoroso incêndio do fogo: perseverando, às vezes, mais de um mês a arder, como se viu um no nosso tempo, duran- te quarenta e cinco dias consecutivos. |
Ora, se pela distância não se destrói o atributo da gravidade, por que razão esse corpo não somente não desce até o fundo; não pára, mas ainda gira em torno da terra? Se Aristóteles afirmar que ele não gira por seu próprio poder, mas porque é arrebatado, então eu direi que da mesma forma é arrebatado cada um de seus céus e astros (que ele não admite serem graves, nem leves, nem de matéria semelhante). Concedo que o movi- mento destes corpos lhes pareça próprio, porque nunca é conforme ao diurno, nem aque- le dos outros astros.
Esta razão é ótima para os convencer pelos seus próprios princípios. Porque nós falaremos da verdadeira natureza dos cometas, examinando-a convenientemente e demonstrando que tais incendimentos não provêm da esfera de fogo, porque ficariam acesos por todas as partes, atendendo que são contidos, segundo toda a circunferência ou superficie de sua massa, no ar friccionado pelo calor, como eles afirmam, ou pela esfera de fogo. Mas percebemos sempre que o incendimento se verificava numa parte. Conclui- remos então que os ditos cometas são uma espécie de astros, como bem disseram e enten- deram os antigos, e tais astros que por seu próprio movimento se aproximam e se afas- tam deste, por razões de atração e repulsão, primeiro parece que crescem, como se se acendessem, e depois diminuem, como se se apagassem. Não se movem ao redor da terra, mas o seu movimento próprio está para além do diurno, próprio da terra, que, girando com o próprio dorso, transforma em orientes e ocidentes todos aqueles lumes que se encontram fora da sua circunferência. E não é possível que aquele corpo terrestre,
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tão grande, possa ser arrebatado e mantido suspenso, contra sua natureza, por um corpo tão líquido, aéreo e sutil, que não resiste a seja o que for e cujo movimento, se fosse efeti- vo, seria somente conforme ao do primeiro móvel, pelo qual é arrastado, e não imitaria o movimento dos planetas. Por isso, ora é considerado da mesma natureza de Mercúrio, ora da mesma natureza da lua, ou de Saturno, ou dos outros. Mas a propósito de tudo isto falaremos em outra oportunidade. É suficiente haver falado, por enquanto, o neces- sário para argumentar contra este, que não quer que da proximidade e do afastamento se infira a maior ou menor possibilidade de movimento, que ele considera próprio e natural, contra a verdade. Verdade que não permite que se possa dizer próprio e natural de um sujeito, em tal disposição que nunca lhe possa convir: por isso, se as partes para além de uma certa distância nunca se movem rumo ao continente, não se deve dizer que tal movi- mento lhes seja natural.
ELpiNO — Quem bem considera bem sabe que Aristóteles defendia princípios completa- mente contrários aos verdadeiros princípios da natureza. Ele replica em seguida que, “se o movimento dos corpos simples lhes é natural, acontecerá que os corpos simples, que existem em muitos mundos, e são da mesma espécie, se movimentam rumo ao mesmo meio ou ao mesmo extremo”.
FiLoTEO — Isto ê o que ele nunca poderá demonstrar, isto é, que se devem mover para o mesmo lugar particular e individual. Porque, se do fato de os corpos serem da mesma espécie se infere que seja conveniente para eles um lugar da mesma espécie e um meio da mesma espécie, que é o próprio centro, não se deve nem se pode inferir que exijam o mesmo lugar numérico.
ELpino — Ele, de alguma forma, pressentiu esta resposta; mas, com todo o seu vão esforço, tenta afastar esta objeção, afirmando que a diferença numérica não é causa da diversidade dos lugares.
Frotreo — Geralmente vemos tudo completamente ao contrário. Mas, diga, como prova isto?
ELrino — Ele afirma que, se a diversidade numérica dos corpos fosse a causa da diversi- dade dos lugares, seria necessário que cada uma das partes desta terra, diversas em nú- mero e gravidade, tivesse no mesmo mundo o próprio meio. Coisa esta impossível e inconveniente, visto que, de acordo com o número das partes individuais da terra, tal seria o número dos meios.
FiLoTEO — Veja agora como é pobre esta explicação. Considere se, por isso apenas, você pode se afastar da opinião contrária ou se prefere permanecer nela. Quem duvida que não seja inconveniente afirmar ser um só o meio de toda a massa, e único o meio do corpo e do animal inteiro, ao qual se referem e ácolhem, e pelo qual se unem e possuem fundamento todas as partes? E, dado que podem existir positivamente inúmeros meios ao mesmo tempo, segundo a inúmera multidão de partes, podemos, então, procurar em cada uma, ou tomar ou supor o meio? No homem hã simplesmente um meio chamado cora- ção, e depois existem muitos outros meios, segundo a multidão das partes, das quais o coração possui o seu meio, os pulmões o seu, o fígado, a cabeça, o braço, a mão, os pés, este osso, esta veia, esta articulação e estas partículas que constituem tais