OS PENSADORES

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NICOLAU MAQUIAVEL

O PRÍNCIPE

ESCRITOS POLITICOS

Traduções de Lívio XAVIER

EDITOR: VICTOR CIVITA

Títulos originais:

Il Principe. Del modo di trattare i popoli della Valdichiana ribellati. Dalla Legazione al Duca Valentino. Descrizione del modo tenuto dal Duca Valentino nello ammazzare Vitellozzo Vitelli, Oliverotto da Fermo. il Signor Pagolo e il Dúca di Gravina Orsini. Discorso sopra le cose di Alemagna e sopra ['Imperatore. Rapporto di cose della Magna. Ritratto delle cose dell"Alemagna. Della natura dei francesi. Ritratto della cose di Francia. Discorso fatto al Magistrato dei Dieci Sopra le cose di Pisa. Discorso sulla provisione del danaio. Sommario delle cose della citta di Lucca.

|.º edição Janeiro 1973

“O Copyright desta edição, 1973, Abril S.A. Cultural e Industrial, São Paulo. Traduções publicadas sob licença de Athena Editora, São Paulo.

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“Nicolau Maquiavel

Ao magnífico Lorenzo, filho de Piero de Médicis

As mais das vezes, costumam aqueles que desejam granjear as gra- ças de um príncipe trazer-lhe os objetos que lhes são mais caros, ou com os quais o vêem deleitar-se; assim, muitas vezes, eles são presen- teados com cavalos, armas; tecidos de ouro, pedras preciosas e outros ornamentos dignos de sua grandeza. Desejando eu oferecer a Vossa Magnificência um testemunho qualquer de minha obrigação, não achei, entre os meus cabedais, coisa que me seja mais cara ou que tanto estime quanto o conhecimento das ações dos grandes homens apreendido por uma longa experiência das coisas modernas e uma continua lição das antigas; as quais, tendo eu, com grande diligência, ' longamente cogitado, examinando-as, agora mando a Vossa Magnifi- cência, reduzidas a um pequeno volume.

E conquanto julgue indigna esta obra da presença de Vossa Magni- ficência, não confio menos em que, por sua humanidade, deva ser aceita, considerado que não lhe posso fazer maior presente que lhe dar a faculdade de poder em tempo muito breve aprender tudo aquilo

“que, em tantos anos e à custa de tantos incômodos e perigos, hei conhecido. Não ornei esta obra e nem a enchi de períodos sonoros ou de palavras empoladas e floreios ou de qualquer outra lisonja ou ornamento extrínseco com que muitos costumam descrever ou ornar as próprias obras; porque não quis que coisa alguma seja seu ornato e a faça agradável senão a variedade da matéria e a gravidade do assunto. Nem quero que se repute presunção o fato de um homem de baixo e ínfimo estado discorrer e regular sobre o governo dos prínci- pes; pois os que desenham os contornos dos países se colocam na

o $ MAQUIAVEL

planície para considerar a natureza dos montes, e para considerar a das planícies ascendem aos montes, assim também para conhecer bem a natureza dos povos é necessário ser príncipe, e para conhecer a dos príncipes é necessário ser do povo.

Tome, pois, Vossa Magnificência este pequeno presente com a intenção com que eu o mando. Se esta obra for diligentemente consi- derada e lida, Vossa Magnificência conhecerá o meu extremo desejo que alcance aquela grandeza que a Fortuna e outras qualidades lhe prometem. E se Vossa Magnificência, do ápice da sua altura, alguma vez volver os olhos para baixo, saberá quão sem razão suporto uma grande e contínua sorte.

CAPÍTULO 1

De quantas espécies são os principados e de quantos modos se adquirem |

Todos os Estados, todos os domínios que tem havido e que . sobre os homens foram e são repúblicas ou principados. Os principados ou são hereditários, cujo senhor é príncipe pelo san gue, por longo tempo, ou são novos. Os novos são totalmente novos, como Milão com Fran- cesco Sforza, ou são como mem-

bros acrescentados a um Estado que um principe adquire por herança, como o reino de Nápo- les ao rei da Espanha. Estes domínios assim adquiridos são, ou acostumados à sujeição a um principe, ou são livres, e são adquiridos com tropas de outrem ou próprias, pela fortuna ou pelo mérito.

CAPÍTULO II |

Dos principados hereditários

Não tratarei das repúblicas, pois em outros lugares falei a res- peito .delas!. Referir-me-ei so- mente aos principados, e procu- rarei discutir e mostrar como esses principados hereditários podem ser governados e manti- dos. Digo, assim, que nesta espé- cie de Estados afeiçoados à fami- lia de seu principe, são muito menores as dificuldades de man- tê-los, pois basta somente que não seja abandonada a praxe dos antecessores, e depois se contem- porize com as situações particu- lares, de modo que, se tal prín-

cipe é de engenho ordinário,

sempre se manterá no seu Esta- do, se não houver uma força extraordinária-.e excessiva que o prive deste; e, mesmo que assim

Maquiavel refere-se aqui à sua obra “Dis- corsi sopra la prima deca di Tito Livio”.

seja, O readquire, por pior que seja o ocupante.

Temos na Itália, por exemplo, o Duque de Ferrara?, o qual resistiu ao ataque dos venezianos em 1484, e aos do Papa Júlio em 1510, somente por ser antigo o domínio da sua família. Porque o. principe natural do país tem menores ocasiões e menor neces- sidade de ofender. É claro, pois, que seja mais querido. Se ex- traordinários defeitos não o fazem odiado, é razoável que seja naturalmente benquisto: da sua gente. E na antiguidade e conti- nuação do domínio gastam-se a memória.e as causas das inova- ções, pois uma transformação poderá ser sempre acompanhada da edificação de outra.

2 Ver. no índice dos nomes citados o nome D'Este.

CapítTuLO HI

Dos principados mistos :

Mas a dificuldade consiste nos principados novos. Primeiro, se não se trata de principado intei- ramente novo, mas sim de mem- bro ajuntado a um Estado heredi- tário (caso em que este pode chamar-se um principado misto), as suas variações nascem princi- palmente de uma dificuldade comum a todos os principados novos, a saber, que os homens mudam de boa vontade de se- nhor, supondo melhorar, e esta crença os faz tomar armas contra o senhor atual. De fato, enga- nam-se e vêem por experiência própria haverem piorado. Isso -«depende de outra necessidade natural e ordinária que faz com que um novo principe careça ofender os novos súditos com a sua tropa e por meio de infindas

injúrias, que acarreta uma recen-

te conquista. Assim, são teus inimigos todos

aqueles que se sentem ofendidos pelo fato de ocupares o princi- pado; e também não podes con- servar como amigos aqueles que te puseram ali, pois estes não podem ser satisfeitos como pen- savam. Não poderás usar contra eles remédios fortes, obrigado que estás para com eles, pois mesmo que sejas fortíssimo nos exércitos, necessitas do favor dos habitantes para entrar numa pro- vincia. Por isso, Luis XII, rei de França, ocupou Milão rapida-

“mente e rapidamente a perdeu,

bastando para isso as forças de Ludovico Sforza, pois a popula- ção que havia aberto as portas ao rei da França, caindo em si do seu engano quanto ao bem que esperava daquele príncipe, não o pôde suportar. É bem verdade . que, sendo conquistados segunda

vez, os países rebelados se per-

dem com mais dificuldade: o

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principe, tendo por pretexto a rebelião, hesita menos no assegu- rar a punição dos revoltosos, esclarecer as suspeitas, prover às suas próprias fraquezas. Assim, para que a França perdesse Milão, foi bastante a primeira “vez que o duque Ludovico amea- çasse as fronteiras, mas a segun- da vez foi necessário que toda a gente fosse inimiga e que os exér- citos franceses fossem aniqui- lados ou expulsos da Itália. De- corre isso das referidas razões.

Não obstante, foi-lhe tomada pri- meira e segunda vez. As razões gerais da primeira estão expos- tas: resta discorrer sobre as da segunda, e ver que remédios hou- vera a França de empregar para manter melhor a conquista.

Estes Estados conquistados e anexados a um Estado antigo, se são da mesma província e da mesma língua, são facilmente sujeitos, máxime quando não estão acostumados a viver livres. Basta, para que se assegure a posse desses Estados, fazer desa-

parecer a linha do príncipe que

os dominava, pois mantendo-se.

nas outras coisas a condição antiga, e não havendo dispari- dade de costumes, os homens vivem calmamente. Assim se viu na França no caso da Borgonha, Bretanha, Gasconha e Norman-

dia?, e, ainda que haja alguma dessemelhança na língua, os cos- tumes são idênticos, de sorte que esses Estados podem viver juntos muito facilmente. O conquista- dor, para mantê-los, deve ter duas regras: primeiro, fazer ex- tinguir o sangue do antigo prínci- pe; segundo, não alterar as leis nem os impostos. De tal modo, num prazo muito breve, ter-se-á

feito a união ao antigo Estado.

Mas, quando se conquista uma província de língua, costumes e leis diferentes, começam então as dificuldades, sendo necessária uma grande habilidade e boa

sorte para poder conservá-la. Um dos meios mais eficazes é ir o

príncipe habitá-la. Se se está pre-

sente, vêem-se nascer as desor-

dens, e pode-se remediá-las com presteza; no caso contrário, se terã notícia -delas quando não houver mais remédio. Além disso, a província conquistada não será espoliada pelos lugar - tenentes. Os súditos ficarão satis- feitos com o mais fácil recurso ao

3 A Normandia uniu-se à coroa de França em 1204; 'a Gasconha em 1453; a Borgonha em 1477, pela morte de Carlos, o Temerário; a Bretanha uniu-se virtualmente à coroa pelo casamento de Ana da Bretanha com Carlos VIII, pois cabia aquela a sucessão, por morte do último representante masculino da linha di- reta da casa reinante. Oficialmente, porêm, foi anexada à coroa de França por ocasião do casamento de Cláudia, filha de Ana e Luís XII, com Francisco 1.

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O PRÍNCIPE 17

principe: assim, terão maiores ' razões de amá-lo, se é o caso, ou de temê-lo. Os ataques externos serão mais custosos e o principe muito dificilmente perderá essa província.

" Outro remédio eficaz é organi- zar colônias, em um ou dois luga- res, as quais serão uma espécie de grilhões postos à província, pois é necessário fazer isso, ou ter muita força armada. Com as colônias não se gasta muito, e sem grande despesa podem ser feitas e mantidas. Os únicos prejudicados com elas serão aqueles a quem se tomam os campos e as casas, para dá-los aos novos habitantes. Mas os prejudicados sendo minoria na população do Estado, e dispersos e reduzidos à pobreza, não pode- rão causar dano ao principe, e os outros que não foram prejudi- cados deverão por isso aquietar- se, por medo de que lhes acon- teça o mesmo. Enfim, acho que essas colônias não custam muito e são fiéis; ofendem menos, é também os ofendidos não podem ser nocivos ao príncipe, como se explicou acima. Deve-se notar que os homens devem ser mima- dos ou exterminados, pois se se vingam de ofensas leves, das gra- ves não podem fazê-lo. Assim, a injúria que se faz deve ser tal, que não se tema a vingança.

"Mas conservando, em vez de colônias, força armada, gasta-se muito mais, e tem de ser despen- dida nela toda a receita da província. A conquista torna-se, pois, perda, e ofende muito mais, porque prejudica todo o Estado com as mudanças de alojamento das tropas. Estes incômodos todos os sentem, e todos por fim se tornam inimigos que podem fazer mal, ainda batidos na pró- pria casa. Por todas as razões, pois, é inútil conservar força armada, ao contrário de manter colônias.

Também numa província dife- rente por sua língua, costumes e leis, faça-se o príncipe de chefe e defensor dos mais fracos, e trate de enfraquecer os poderosos da própria província, além de guar- dar-se de que entre por acaso um estrangeiro tão poderoso quanto ele.

Pois acontecerá sempre que os habitantes da província, movidos pela ambição ou pelo temor, cha- mem estrangeiros poderosos. Assim, os etólios chamaram à Grécia os romanos, que sempre foram chamados pelos naturais das províncias conquistadas.

E a ordem das coisas é que quando um estrangeiro poderoso chegue a uma província, todos aqueles que se acham enfraque- cidos lhe dêem adesão, movidos

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pela inveja do que lhes é senhor. Por isso mesmo, não custa traba- lho algum lhes alcançar o apoio; e de boa vontade farão bloco de- pois com o Estado conquistado. o perigo de ficarem eles muito fortes e com demasiada autoridade; facilmente então fica- .riam árbitros da província, aba- tendo os poderosos com as pró- prias forças do conquistador. Aquele que não se dirigir bem, a este respeito, perderá depressa a sua conquista, enquanto não a perder terá infindas dificuldades e dissabores.

Os romanos, nas províncias

que conquistaram, observaram boa política a respeito. Fizeram colônias, fomentaram os menos poderosos sem aumentar a força destes, abateram os mais podero- sos, e não deixaram que os estrangeiros poderosos tomassem força. Sirva-me de exemplo a província da Grécia. Roma sus- tentou os aqueus e os etólios, abateu o reino dos macedônios, expulsou Antíoco. Mas nem os méritos dos primeiros e dos se- gundos permitiram-lhes aumen- tar os. seus domínios; também Filipe? não persuadiu os roma- nos de que deviam ser seus ami- gos, nem a Antíoco deixaram

4 Ver no índice dos nomes citados o nome de Filipe V, rei da Macedonia.

conservar domínio algum. Por- que os romanos nestes casos fize- ram o que todo príncipe prudente deve fazer: não remediar o presente, mas prever os casos futuros e preveni-los com toda a perícia, de forma que se lhes possa facilmente levar corretivo, e não deixar que se aproximem os acontecimentos, pois deste modo o remédio não chega a tempo, tendo-se tornado incurá- vel a moléstia. Da tísica dizem os médicos que, a princípio, é fácil de curar e difícil de conhecer, mas com o correr dos tempos, se não foi reconhecida e medicada, torna-se fácil de conhecer e dificil de curar. Assim se com as coi- sas do Estado: conhecendo-se os males com antecedência, o que não é dado senão aos homens prudentes, rapidamente são cura- dos: mas quando, por se terem ignorado, se têm deixado aumen- tar, a ponto de serem conhecidos de todos, não haverá mais remé- dio aqueles males.

Os romanos, vendo de longe as perturbações, sempre as remedia- ram e nunca as deixaram seguir O seu curso, para evitar guerras, pois sabiam que a guerra não se evita, mas se é protelada redunda. sempre em proveito de outros. Assim, empreenderam a guerra contra Filipe e Antíoco, na Gré- cia, para não ter de fazê-la na Itá-

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lia; podiam tê-la evitado, mas não o quiseram. Não lhes agra- dava fiar-se no tempo para resol- ver as questões, como aos sábios da nossa época, mas se louva- vam na própria virtude e prudên- cia, porque o tempo leva por diante todas as coisas, e pode

mudar o bem em mal e trans-

formar o mal em bem.

Mas voltemos à França e exa- minemos como procedeu ela em situações semelhantes. Falarei de Luíisº e não de Carlos*, pois aquele conservou por mais tempo possessões na Itália, e se viu me- lhor a medida dos seus progres- sos. Vereis que ele fez o contrário do que se deve fazer para conser- var a conquista de um Estado diferente. O Rei Luis foi levado à Itália pela ambição dos venezia- nos, que quiseram, por esse meio, ganhar o Estado: da Lombardia. Não quero censurar o partido to- mado pelo rei. Quando tomou na Itália, e não tendo amigos nesta província, e antes pelo contrário, pelos precedentes do Rei Carlos, sendo-lhe trancadas todas as portas, foi ele forçado a ter as amizades que podia. E seria bem sucedido na decisão tomada, se em outros manejos não tivesse praticado algum erro.

5 Luís XII. 6 Carlos VIII.

Conquistada pois a Lombardia, o rei recuperou a reputação que Carlos perdera; Gênova cedeu, os florentinos tornaram-se seus amigos, o Marquês de Mântua, o Duque de Ferrara, Bentivoglio, a Senhora de Forli, o Senhor de Faenza, de Pescaro, de Rimini, de Camerino, de Piombino, os luqueses, os pisdes e sieneses, todos foram ao encontro da sua amizade. Os venezianos puderam então considerar a temeridade da própria resolução, pois para ad- quirir dois tratos de terra, na Lombardia, fizeram o rei senhor: de dois terços da Itália. Veja-se agora quanto era fácil ao rei manter na Itália a sua reputação, se, tendo observado as regras referidas, tivesse assegurado a defesa de todos aqueles amigos seus, OS quais, sendo numerosos, careciam todos de estar com ele. Por meio de tais aliados, o Rer Luís poderia facilmente assegu- rar-se contra aqueles que se ti- nham conservado fortes.

Mas logo que se achou em Milão, fez justamente o contrá- rio, ajudando o Papa Alexandre a ocupar a Romanha. Nem pen- sou que, com essa deliberação, se enfraquecia a si próprio, pois afastava dele os amigos e aqueles que se lhe tinham lançado ao seio, e fortificava a Igreja, ajun-

. tando ao poder espiritual, que

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lhe tanta autoridade, uma tão grande cópia de poder temporal. Cometido o primeiro erro, foi compelido a continuar prati- cando outros, a ponto de, para pôr termo à ambição de Alexan- dre, e para que este não se tor- nasse senhor da Toscana, ser obrigado a vir pessoalmente à Itália. Não lhe bastou fazer forte a Igreja e perder os próprios ami- gos; por querer o reino de Nápo- les, dividiu-o com o rei da Espa- nha”. E de árbitro da Itália como dantes, para levou um sócio ao qual os descontentes e ambicio- sos recorressem contra ele pró- prio. E, em vez de deixar naquele reino um rei que lhe fosse sujeito, tirou-o para colocar um que o podia expulsar dali.

O desejo de conquistar é coisa verdadeiramente natural e ordi- nária e os homens que podem

fazê-lo serão sempre louvados e'

não censurados. Mas se não podem e querem fazê-lo, de qual- quer modo, é que estão em erro, e são merecedores de censura. Se a França tinha forças para assaltar Nápoles, devia fazê-lo; se não podia, não devia dividi-la. E se a divisão que fez da Lombardia com os venezianos mereceu ser desculpada, pois com ela pôs

7 Yer no indice dos nomes citados o nome Fernando, o Católico.

|

na Itália, a divisão de Nápoles - merece censura, porque não tem a escusa da necessidade. | O Rei Luis cometera estes cinco erros: tinha abatido os menos poderosos, aumentado a potência de um poderoso na Itá- lia, trazido um estrangeiro pode- rosíssimo, não tinha vindo habi- tar a Itália e não mandou colônias para aí. Estes erros, em

“vida sua, podiam não prejudicá-

lo, se não tivesse cometido o sexto o de se apoderar de territórios dos venezianos, pois, mesmo que não houvesse fortifi- cado a Igreja e não houvesse intrometido a Espanha nas coisas da Itália, era razoável diminui- los. Mas, tendo tomado essas deliberações, não devia o rei con- sentir na ruína deles, pois manti- . nham a distância os que queriam conquistar a Lombardia. E isso porque, enquanto os venezianos tivessem força, não teriam con- sentido em que outros senão eles próprios tivessem o domínio da província, e os outros não que- riam tirá-la da França para dá-la aos venezianos. E se alguém dis- sesse: o Rei Luís cedeu a Roma- nha a Alexandre e um reino à. Espanha, para evitar uma guerra respondo que não se deve con- sentir em um mal para evitar uma guerra, pois não se evita esta e sim apenas se adia, para pró-

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pria desvantagem. Se alguns ale- gassem a palavra que o rei deu ao papa de empreender aquela con- quista em troca da dissolução do seu matrimônio e do chapéu cardinalício ao arcebispo de Ruão, respondo mais adiante como, na minha opinião, se deve

guardar a palavra dos príncipes.

Assim pois, o Rei Luís perdeu a Lombardia por não haver obser- vado nenhum dos princípios ob- . servados pelos outros que con- quistaram províncias e as conservaram. Não é milagre isso, mas em Nantes, ao arcebispo de Ruãoº, quando Valentino

8 Ver no índice dos nomes citados o nome de Amboise (d”).

nome popular de César Borgia, filho do Papa Alexandre ocu- pava a Romanha, dizendo-me ele que os italianos não entendiam de guerra, expliquei-lhe que os franceses não entendiam do Esta- do, pois se entendessem não te- riam consentido à Igreja tanta grandeza. E por experiência viu- se que a grandeza, na Itália, da Igreja e da Espanha, foi obra da França. E a ruína desta foi cau- sada por ambas.

Conclui-se daí uma regra geral, que nunca ou muito rara- mente falha: quando alguém é causa do poder de outrem, arrui- na-se, pois aquele poder vem de astúcia ou força, e qualquer des- tas é suspeita ao novo poderoso.

CAPÍTULO IV

Por que razão o reino de Dario, ocupado por Alexandre, não se rebelou contra os sucessores deste

Consideradas as dificuldades com que se de contar para conservar um Estado recém-con- quistado, poderia parecer razão de espanto o fato de que, tendo Alexandre Magno ficado, em poucos anos; senhor da Ásia, morrido logo depois de ocupar aqueles Estados, estes não se te- nham rebelado como seria razoá- vel. Os sucessores de Alexandre, contudo, se mantiveram e não tiveram para isso outra dificul- dade senão a que entre eles sur- giu da própria ambição. Replica- rei que os principados cuja memória se conserva foram go- vernados de dois modos diversos: ou por um príncipe ajudado por ministros que no governo não são senão servos que o exercem so- mente por graça .e concessão do senhor; ou por um príncipe e barões, os quais não por graça

daquele, mas por antiguidade de sangue, têm essa qualidade.

Estes barões possuem o domí- nio e súditos próprios, os quais os reconhecem como senhores e lhes votam natural afeição. Na- queles Estados que são governa- dos por um príncipe com seus servidores, o senhor tem mais autoridade, porque em toda a sua província não quem seja reco- nhecido como superior a ele. E se obedecem a outrem, fazem-no por força dos cargos que exerce e não lhe dedicam a menor estima.

Os exemplos destas duas espé- cies: de governo são, em nossos tempos o grão-turco e o reina- do de França. O governo turco é exercido por um senhor que, divi- dindo o seu reino em sandjaks, dispõe de servidores que muda e desloca como bem lhe parece. O rei de França está colocado em

24 MAQUIAVEL

meio de uma multidão de senho- res cujo domínio é tradicional e que são, em seus distritos, reco- nhecidos e amados por seus súdi- tos. São poderosos e o rei não pode privá-los de suas regalias, sem grave perigo para ele pró- prio. Quem considera, pois, estas duas situações, encontrará difi- culdade em conquistar o Estado turco. Sem embargo, uma vez vencedor, ser-lhe-ã muito fácil .conservá-lo. A causa das dificul- dades de ocupá-lo está em que não é possível ser chamado por principes daquele reino, nem es- perar que se possa facilitar a empresa com a rebelião daqueles

que lhes estão ao redor. E isso,

em virtude das razões aponta- das. É que, sendo todos escravos, mais dificilmente podem ser cor- rompidos, e, quando se corrom- pessem, poucas vantagens se po- deriam obter, uma vez que eles não poderiam arrastar a massa popular, o que se explica também pelas razões enunciadas. Con- clui-se daí que quem se puser em marcha contra a: Turquia precisa preocupar-se com o encontrá-la unida, convindo-lhe mais confiar nas próprias forças do que nas desordens dos outros. Mas, ven- cida e desorganizada na luta, de modo que não lhe fosse possível

refazer os exércitos, não seria:

necessário preocupar-se senão

com o sangue do príncipe. Extin- to este, não restaria mais a quem temer, pois os outros não têm domínio sobre o povo. E, assim como o vencedor, antes da vitó- ria, nada podia esperar dele, não deve temê-lo depois da conquista.

Acontece o contrário nos rei- nos governados como a França. É possível entrar-se com facili- dade, conseguindo aliança com algum barão do reino, pois sem-

pre se encontram descontentes ou gente desejosa de fazer inova- ções. Tais elementos poderiam, pelos motivos expostos, abrir-te caminho naquele reino e facili- tar-te a. vitória. Mas, depois, para te manteres, aparecem inúmeras dificuldades criadas não pelos que oprimiste, como também pelos que de início auxiliaram a tua empresa. Não é suficiente o sangue do príncipe. Permanecem aqueles senhores, barões podero-

sos, que se tornam cabeças de novas rebeliões. E, não sendo possível nem contentá-los nem

fazê-los desaparecer, perderás o Estado na primeira oportunidade que se lhes apresente.

Agora, se se considerar a natu- reza do governo de Dario, encon- trar-se-à semelhança com a do sultão da Turquia. Se a Alexan- dre foi necessário desbaratar o inimigo em bloco, depois da vitó-

O PRÍNCIPE 25

ria, morto Dario, teve o Estado seguro, de acordo com as consi- derações que anteriormente ex- pendi. E os sucessores de Alexan- dre, se se houvessem mantido unidos, poderiam gozar ociosos aquele reino; não houve outros

tumultos senão os que eles pró-

prios suscitaram. Quanto aos Estados organizados como o da França, é impossível conquistá- los com tanta facilidade. Expli- cam-se dessa forma as frequentes rebeliões da Espanha, da França e da Grécia quando conquistadas pelos romanos. Existiam nu- - merosos principados, e enquanto perdurou a lembrança deles os romanos nunca puderam estar absolutamente seguros da posse; apagada, porém, a memória da- queles principados, em vista da potência e duração do império,

surgiu a segurança completa dos possuidores. Conseguiram tam- bém os romanos, quando mais tarde lutaram entre si, arrastar parte daquelas províncias, segun- do a autoridade que cada um havia . conseguido impor. E as províncias, pela razão muito sim- ples de que fora extinto o sangue de seus antigos senhores, reco- nheciam apenas os romanos. Consideradas, pois, estas coisas todas, não se. espantará ninguém da facilidade que Alexandre teve em consolidar sua vitória na Ásia, e das dificuldades com que

outros esbarraram para conser-'

var os reinos conquistados, como aconteceu a Pirro. São contin- gências originadas não do valor ou do desvalor do vencedor, mas da diversidade dos povos venci- dos.

CAPÍTULO V

Da maneira de conservar cidades ou principados que, antes da ocupação, se regiam por leis próprias

Quando se conquistam Esta- dos habituados a reger-se por leis próprias e em liberdade, três modos de manter-se a sua posse: primeiro arruiná-los; segundo 1r habitá-los; terceiro dei- xá-los viver com suas leis, arreca-

dando um tributo e criando um.

governo de poucos, que se con- servem amigos. Tendo sido esse governo criado por aquele princi- pe, sabe que não poderá viver sem a sua amizade e o seu poder e, naturalmente, tudo fará para mantê-lo. Por intermédio dos seus próprios cidadãos, muito mais facilmente se conservará o governo duma cidade acostu- mada à liberdade, do que de qualquer outra forma. Sirva-nos de exemplo a história dos espar- tanos e dos romanos. Os primei- ros criaram em Atenas e Tebas um governo oligárquico: perde-

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ram-nas novamente”. Os roma- nos, para manter-se na posse de Cápua, Cartago e Numância, destruíram-nas!º. E não as per- deram. Mas quiseram governar a Grécia como os espartanos, tor- nando-a livre e mantendo-lhe as suas leis. Não o conseguiram e foram obrigados a destruir mui- tas cidades para conservar-se no poder. É que, em verdade, não garantia de posse mais segura do que a ruína. Quem se torna se- nhor de uma cidade tradicional- mente livre e não a destrói será

º Esparta, para assegurar a sua hegemonia sobre os Estados da Grécia, teve de restaurar as oligarquias, isto é, alimentou as antigas fac- ções conservadoras. Assim, em Atenas (404 a.C.), o partido reacionário conseguiu formar um governo provisório composto de trinta membros, o qual inaugurou o terror e era garantido pela ocupação militar espartana. Condições análogas aproximaram Tebas de Atenas, aliaram-se as duas. O exército espar- tano (378) voltou a Esparta, sem vitória.

Episódio das guerras romanas.

e | MAQUIAVEL

destruido por ela. Tais cidades têm sempre por bandeira, nas rebeliões, a liberdade e suas anti- gas leis, que não esquecem nunca, nem com o correr do tempo, nem por influência dos benefícios recebidos. Por muito que se faça, quaisquer que sejam as precauções tomadas, se não se promovem o dissídio e a desagre- gação dos habitantes, não dei- xam eles de lembrar daqueles princípios e, em toda oportuni- dade, em qualquer situação, a eles recorrem, como fez Pisa, cem anos depois de estar sob o Jugo dos florentinos!!. Mas,

11 No mesmo ano em que Carlos VIII inva- dia a península (1494), Pisa rebelava-se, os pisões lançaram ao Arno o “Marzocco” (o es- cudo da República). Durou a guerra entre Flo- rença e Pisa quinze anos, sendo por fim esta obrigada a render-se. Maquiavel teve papel importante nas negociações da paz.

quando as cidades ou as provín- cias estão habituadas a viver sob o domínio de um príncipe, extinta a sua geração como estejam acostumados a obedecer e, ao faltar-lhes o principe antigo, não atinem em eleger, entre eles mes- mos, um novo principe —, não sabem viver livres. São, assim, pouco afeitos a tomar das armas e, nessas coridições, com mais facilidade poder-se-á ganhar a es- tima do povo e assegurar-se sua fidelidade. Nas repúblicas, mais vida, o ódio é mais podero- 80, maior é o desejo de vingança. Não deixam nem podem deixar repousar a memória. da antiga liberdade.

Assim, para conservar uma república conquistada, o cami- nho mais seguro é destruí-la ou habitá-la pessoalmente. |

CaríTULO VI Dos principados novos que se conquistam pelas armas e-nobremente

Não deve causar estranheza a ninguém o fato de eu citar longos exemplos, muitas vezes a respeito dos principes e dos Estados, durante a exposição que passo a fazer dos principados absoluta- mente novos. Os homens trilham quase sempre estradas percor- ridas. Um homem prudente deve assim escolher os caminhos percorridos pelos grandes ho-

mens e imitá-los; assim, mesmo

que não seja possivel seguir fiel- mente esse caminho, nem pela imitação alcançar totalmente as virtudes dos grandes, sempre se aproveita muita coisa. Deve pro- ceder como os seteiros prudentes que, querendo atingir um ponto muito distante, e conhecendo a capacidade do arco, fazem a mira em altura superior à do

ponto visado. Não o fazem, evi-

dentemente, para que a flecha atinja tal altura: valem-se da mira elevada apenas para ferir

com segurança o lugar designado muito mais abaixo.

Nos principados novos, gover- nados por príncipes novos, na luta pela conservação da posse, as dificuldades estão na razão di- reta da capacidade de quem os conguistou. E porque o fato de elevar-se alguém a príncipe pres- supõe valor ou boa sorte, eviden- temente qualquer destas razões

tem a propriedade de mitigar

muitas dificuldades. Todavia, é comum observar que muitos que foram menos afortunados se mantiveram mais tempo no poder. Traz muitas facilidades, ainda, o fato de o principe novo ser obrigado a habitar o Estado conquistado por não ter outros: domínios. E para exemplo dos - que foram príncipes pelo seu valor e não por boa sorte, .cito como maiores Moisés, Ciro, Rô- mulo; Teseu. E se bem que Moi- sés não deva ser mencionado por

30

ter sido um mero executor das or- dens de Deus, deve, contudo, ser admirado unicamente pela graça que o fazia digno de falar ao Criador. Consideremos, porém, Ciro e outros que adquiriram e fundaram reinos. Haveis de achá-los todos admiráveis. E se se considerarem os seus atos e or- dens particulares, eles não são discrepantes daqueles de Moisés, que teve tão alto preceptor. E examinando-lhes a vida e as ações, conclui-se que eles não receberam da fortuna mais do que a ocasião de poder amoldar as- coisas como melhor lhes aprouve. Sem aquela ocasião, suas qualidades pessoais se te- riam apagado, e sem essas virtu- des a ocasião lhes teria sido va. Portanto, era necessário a Moisés encontrar o povo de Israel, no Egito, escravizado e oprimido pelos egípcios, a fim de que, para se libertar da escravidão, dispusesse a segui-lo. Convinha que Rômulo não encontrasse re- fúgio em ' Alba e tivesse sido exposto ao nascer, para que se tornasse rei de Roma e fundador de uma pátria.

Era necessário que Ciro en- contrasse os persas descontentes do império dos medas e os medas muito efeminados e amolecidos por uma longa paz. Teseu não teria podido revelar suas virtudes se não tivesse encontrado os ate-

Se !

MAQUIAVEL

nienses dispersos. Tais oportuni- dades, portanto, tornaram felizes a esses homens; e foram as suas virtudes que lhes deram o conhe- cimento daquelas oportunidades. Graças a isso, a sua pátria honrou e se tornou feliz.

Aqueles que, por suas virtudes, semelhantemente a estes, se tor- nam príncipes, conquistam o principado com dificuldade, mas se mantêm facilmente. As dificul- dades que encontram na con- quista do principado nascem, em parte, da nova ordem legal e cos- tumes que são forçados a intro- duzir para a fundação do seu Es- tado e da sua própria segurança. Deve-se considerar aqui que não coisa mais difícil, nem de êxito mais duvidoso, nem mais , perigosa, do que o estabeleci- . mento de novas leis. O novo” legislador terá por inimigos todos aqueles a quem as leis antigas

beneficiavam, e terá timidos de- fensores nos que forem benefi- ciados pelo novo estado de coi-

sas. Essa fraqueza nasce parte do medo. dos adversários, parte da incredulidade dos homens, que não acreditam na verdade das coisas novas senão depois de uma firme experiência. Daí resul- ta que os adversários, quando têm ocasião de assaltar, o fazem fervorosamente, como sectários,

e os outros o defendem sem entu-

O PRÍNCIPE ça 31

siasmo e periclita a defesa do príncipe.

É necessário, pois, querendo expor bem claramente esta parte, examinar se esses inovadores agem por si próprios, firme- mente, ou se dependem de ou- trem, isto é, se para conduzir sua obra precisam de rogar ou se, verdadeiramente, podem forçar. No primeiro caso, são sempre mal sucedidos e não conseguem coisa alguma. Mas, quando não dependem de ninguém, contam apenas consigo mesmos e podem forçar, raramente deixam de al- cançar êxito. Destarte todos os profetas armados venceram e os desarmados fracassaram. Por- que, além do que se disse, a natureza dos povos é vária, sendo fácil persuadi-los de uma coisa, mas sendo dificil firmá-los na persuasão. Convém, pois, provi- denciar para que, quando não acreditarem mais, se possa fazê- los crer à força. Moisés, Ciro, Teseu e Rômulo não teriam con- seguido fazer observar por muito tempo suas constituições se esti- vessem desarmados. É o que, nos tempos que correm, aconteceu a Frei Girolamo Savonarola, o qual fracassou na. sua tentativa de reforma quando o povo come- çou a não lhe dar crédito. E ele não tinha meios para manter fir- mes aqueles que haviam acredi- tado, nem para fazer com que os

rão de

incrédulos acreditassem. Pessoas nessas condições lutam com grandes dificuldades para condu- zir-se, estando no seu caminho todos os perigos que pela coragem podem ser superados. Vencidas as dificuldades, come- çam a ser venerados, e, extermi- nados os que invejavam suas qualidades, tornam-se potentes, seguros, honrados, felizes. A tão altos exemplos quero juntar

outro menor, mas que tem rela- ção com aqueles e bastará para todos os semelhantes. É o de Hie-

- Siracusa. Tornando-se de Siracusa, está entre da sorte, não tiveram

mais do que a ocasião. Estando OS siracusanos oprimidos, elege- ram-no para seu capitão. Nesse posto mereceu tornar-se príncipe. E foi de tanta virtude, mesmo na vida privada, que dele se disse: “quod nihil illi deerat regnandum praeter regnum!? ”.

Extinguiu a antiga milícia, or- ganizou a nova, deixou as amiza- des antigas, conquistou outras, e, como tivesse amizades e solda- dos seus, pôde, sobre tais alicer- ces, edificar as obras que quis, tanto que teve muito trabalho para conquistar, mas pouco para manter-se.

principe os que,

12 “Que não lhe faltava para ser rei senão um remo.”

.CapíTuLO VII

Dos principados novos que se conquistam com armas e virtudes de outrem |

Aqueles que somente por for- tuna se tornam príncipes pouco trabalho têm para isso, é claro, mas se mantêm muito penosa- mente. Não têm nenhuma dificul- dade em alcançar o posto, porque para voam; surge, porêm, toda sorte de dificuldades depois da chegada. É o que acontece quan- do o Estado foi concedido ao principe, ou por dinheiro, ou por graça de quem o concede. Assim foi na Grécia, nas cidades da Jônia e do Hejesponto, onde houve príncipes feitos por Dario para manterem sua glória e segu- rança. É ainda como se faziam

aqueles imperadores que, de sim-

ples cidadãos, subiam ao trono pela corrupção dos soldados.

Tais príncipes estão na depen- dência exclusiva da vontade e boa fortuna de quem lhes conce- deu o Estado, isto é, de duas coi- sas extremamente volúveis e ins- táveis. E não sabem -ou não

podem manter o principado: não sabem porque; se não são ho- mens de grande engenho e virtu- de, não é razoável que, tendo vi- vido sempre em condições diferentes, saibam comandar; não podem, porque não contam com forças que lhes sejam ami-

“gas e fiéis. Além disso, os Esta-

dos que surgem de súbito, como todas as outras coisas da natu- reza que se desenvolvem muito depressa, não podem ter raizes ou membros proporcionados, e, ao primeiro golpe da adversi- dade, aniquilam-se; a não ser que aqueles príncipes, como se disse, saibam preparar-se para conservar aquilo que a sorte lhes pôs no regaço, e estabeleçam solidamente as bases fundadas anteriormente por outros.

Destes dois meios de se tornar príncipe pelo valor ou pela fortuna quero apresentar dois exemplos atuais: Francesco Sfor-

34 MAQUIAVEL

za e César Bórgia. Francesco, pelos meios devidos, e por grande valor, de simples particular se tornou duque de Milão e pôde manter facilmente aquilo que havia conquistado à custa de afa- nosos trabalhos. Por outro lado, César Bórgia, chamado pelo povo Duque Valentino, adquiriu o Estado com a fortuna do pai e sem esta o perdeu, não obstante houvesse feito tudo quanto devia fazer um homem prudente e valo- roso a fim de que criasse raizes nos Estados que as armas a for- tuna de outrem lhe haviam con- cedido.

É que, como disse acima, quem não prepara as bases antes, poderá fazer depois esse traba- lho, se tem grande capacidade, anda que com aborrecimento para o arquiteto e perigo para o edifício. Se se considerarem, então, todos os progressos do duque, ver-se-ã que ele traçou grandes alicerces para a sua futu- ra potência. Não julgo que seja supérfluo discorrer a respeito, porque eu não saberia regras melhores para oferecer a um principe novo do que o exemplo das ações do duque. E se seu modo de agir não lhe aproveitou não foi sua culpa e sim por força de extremos reveses da sorte. Alexandre VI encontrou grandes dificuldades imediatas e remotas

para o engrandecimento do filho. Primeiro, não encontrava meio de poder torná-lo senhor de algum Estado que não fosse Esta- do da Igreja, e sabia que, se ten- tasse apoderar-se de um destes, o duque de Milão e os venezianos não lho consentiriam, uma vez que Faenza e Rimini estavam sob a proteção dos venezianos. Via, além disso, as tropas da Itá- lia e especialmente aquelas de que se teria podido servir estarem em mãos de quem devia temer a grandeza do papa; e nelas não podia fiar-se, pertencendo todas aos Orsini e Colonna e seus partidários. Era necessário, por- tanto, que se perturbasse aquela ordem e fossem desorganizados os Estados destes para se tornar possível a conquista de um deles. Isto não lhe foi dificil, pois os venezianos, movidos por outras razões, se decidiram a facilitar a volta dos franceses à Itália, a que não fez oposição, e até tornou mais fácil com a dissolução do primeiro matrimônio do Rei Luís. O rei entrou, portanto, na Itália com o auxílio dos venezia- nos e consentimento de Alexan- dre. Logo que o rei chegou a Milão, o papa teve tropa para a conquista da Romanha, empresa tornada possível pela fama do rei. Tendo o duque conquistado a Romanha e batido os Colonna,

O PRÍNCIPE 35

querendo manter aquela e prosse- guir, encontrava dois impedimen- tos: um, as suas tropas que não lhe pareciam fiéis, e o outro, a vontade da França. Temia o duque lhe faltassem as tropas dos Orsini, das quais se valera, e não o impedissem de conquistar como lhe arrancassem a terra conquistada, e, além disso, que o rei não lhe fizesse o mesmo. Dos Orsini confirmaram-se as suas suspeitas quando, depois de ter entrado em Faenza, assaltou Bo- lonha, e notou a sua frieza naque- le assalto. Relativamente as in- tenções do rei, conheceu-as quando, conquistado o ducado de Urbino, assaltou a Toscana: o rei fez com que desistisse dessa empresa. Por isso o duque delibe- rou não depender mais das armas e fortuna de outrem. E a primeira coisa que fez foi enfraquecer as facções dos Orsini e Colonna em Roma. De todos os aderentes destes, que fossem gentis-ho- mens, procurou o apoio, tornan- do-os gentis-homens seus e lhes dando grandes pensões em di nheiro, e honrou-os, - segundo suas qualidades, com postos de comando e de governo, de modo que, em poucos meses, a afeição que nutriam pelos partidos se extinguiu totalmente, passando toda para o duque. Depois, espe- rou a ocasião de extinguir os che-

fes dos Orsini, estando disper- sos os da casa de Colonna. Não tardou a se apresentar tal oportu- nidade e o duque soube bem aproveitar-se dela. Com efeito, os Orsini, tendo-se apercebido tarde demais que o poder do duque e o da Igreja trariam a sua ruína, realizaram um conselho em Ma- gione, no Perugino. Daí surgiram a rebelião de Urbino e os tumul- tos da Romanha, com inúmeros perigos para o duque, que a todos superou com o auxilio dos fran- ceses. Tendo readquirido com isso sua reputação, e não se fian- do mais da França nem de outros agentes externos, para não ter de acrescer-lhes as forças, recorreu à astúcia. E tão bem soube dissi- mular as suas intenções que os Orsini se reconciliaram com ele, por intermédio do Signor Pago- lo'%. Para assegurar-se melhor deste, o duque não omitiu nenhu- ma prova de amizade, dando-lhe dinheiro, roupas < cavalos; 'tanto assim que a ingenuidade dos Or- sini levou-os a Sinigaglia, à dis- crição do-duque. Extintos, pois esses chefes, e reduzidos os seus correligionários a amigos do duque, havia este conseguido muito bons alicerces para o seu poder, conquistando toda a Ro-

13 Ver no indice dos nomes citados o nome Orsini.

JE MAQUIAVEL

manha com o ducado de Urbino,

parecendo-lhe, além disso, ter ganho a amizade da Romanha e todos aqueles povós, que haviam começado a gozar de prosperi- dade. | Como esta parte da ação do - duque é digna de registro e de imitação, não quero silenciar a respeito. Logo que se apoderou da Romanha, tendo-a encon- trado, em geral, sujeita a fracos senhores, que mais espoliavam do que governavam os seus súdi- tos, dando-lhes apenas motivo de desunião (tanto que aquela pro- víncia estava cheia de latrocínios, de tumultos e. de toda sorte de violências), julgou o duque que era necessário, para torná-la pa- ciífica e obediente ao braço régio, dar-lhe bom governo. E ali colo- cou, então, Ramiro de Orco, homem cruel e expedito, ao qual outorgou plenos poderes; Este, em pouco tempo, conseguiu fazer com que a Romanha se tornasse pacífica e unida, tendo alcançado ele mesmo grande reputação. O duque julgou depois que não era necessária tanta autoridade, pois temia que se tornasse odio- sa. E constituiu um juizo civil no centro da província, com um pre- sidente ilustre e benquisto, e onde cada cidade estava representada. Sabendo que os rigores passados haviam criado ódios contra ele

próprio, para apagá-los do ânimo daqueles povos e conquistá-los a todos, definitivamente, em tudo, quis demonstrar que, se haviam sido cometidas crueldades, não procediam dele e sim da dureza de caráter do ministro. E, em vista disso, tendo ocasião, man- dou exibillo certa manhã, em Cesena, em praça pública, corta- do em dois pedaços, tendo ao lado um pedaço de pau e uma faca ensangúentada. A feroci- dade desse espetáculo fez com que o povo ficasse a um tempo satisfeito e espantado.

Voltemos, porém, ao ponto de partida. Encontrando-se o duque bastante poderoso e a coberto, em parte, de perigos presentes, por terem tropas suas extin- guido em grande parte as forças vizinhas que o poderiam incomo- dar, restava-lhe, querendo prosse- guir nas conquistas, o temor ao rei da França. Sábia que os seus progressos não seriam suporta- dos pelo rei, o qual se apercebera tarde do seu erro. Começou, por isso, a procurar amizades novas a tergiversar com a França, na incursão que os franceses leva- ram a efeito no reino de Nápoles contra os espanhóis que assedia- vam Gaeta. Queria assegurar-se contra a França, o que lhe teria sido fácil conseguir se Alexandre vivesse. Esta foi a sua política

O PRÍNCIPE

quanto às coisas presentes. Mas, -com relação ao futuro, tinha a temer, primeiro, que o novo papa lhe fosse hostil e procurasse tirar-lhe o que. Alexandre lhe dera. Pensou agir de quatro modos: primeiro extinguir a linha de todos aqueles senhores que despojara, para evitar protes- tos de intervenção do papa; se- gundo conquistar todos os gentis-homens de Roma, como foi dito, para poder, com seu auxílio, enfrentar o papa; terceiro aumentar o mais possível a própria influência no Sacro Colé- gio; quarto conquistar a maior soma de poder antes da morte do papa, a fim de poder resistir por si mesmo a um Ppri- meiro ataque. Dessas quatro coi- sas, realizara três, por ocasião da morte de Alexandre. A quarta estava quase terminada. Dos se- nhores espoliados matou quantos pôde alcançar, e foram pouquis- simos os que se salvaram; havia alcançado o apoio dos gentis-ho- mens romanos e, no Sacro Colé- gio, tinha formado um grande partido. Quanto à nova conquis- ta, havia designado tornar-se se- nhor da Toscana e possuia Perúgia e Piombino e tomara a si a proteção de Pisa. E logo que não o preocupasse mais o temor da França (por terem sido expulsos os franceses do reino de

37.

- Nápoles pelos espanhóis, de modo que a ambos era necessário procurar sua amizade), o duque se precipitaria sobre Pisa. Depois disso, Luca e Siena cederiam logo, em parte movidas pelo ódio aos florentinos, em parte pelo medo. Os florentinos, então, não teriam recurso algum. Se tivesse conseguido isso (o que se daria no ano mesmo em que Alexandre morreu), conquistava o duque tanta força e reputação que por si mesmo se teria mantido e não dependeria mais da fortuna e da força de outrem e sim da sua pró- pria força e capacidade. Mas Alexandre morreu cinco anos de- pois que César desembainhara a espada. Deixou-o apenas com o Estado: da Romanha consoli- dado, e todos os outros no ar, sob a pressão de dois poderosíssimos exércitos inimigos, e doente de morte. Havia, porém, no duque tão grande energia e valor, bem sabendo ele que os homens se conquistam ou se exterminam, eram tão sólidos os alicerces construídos para o seu poderio, que, se não fora a pressão daque- les exércitos, ou se ele estivesse são, teria vencido qualquer difi- culdade. De que as bases que pre- parara eram boas teve as provas: a Romanha esperou-o fielmente mais de um mês; em Roma,

ainda que meio morto, esteve a

38 MAQUIAVEL

salvo; e se bem que os Baglioni,.

os Vitell e os Orsini para tivessem acorrido, não puderam organizar partido contra ele; e se não póde fazer com que fosse eleito papa'um partidário seu, pôde pelo menos impedir que o fosse um inimigo. Se não esti- vesse doente quando Alexandre morreu, tudo lhe teria sido fácil. Disse-me ele, quando da eleição de Júlio II, que pensara em tudo que podia acontecer com a morte do pai e para tudo encontrara remédio. não previra, naquela ocasião, que ele próprio estivesse para morrer.

"Nas ações do duque, das quais escolhi as que expus acima, não encontro motivo de censura; pa- rece-me, pelo contrário, que se deve propó-lo como exemplo a todos os que por fortuna e com as armas de outrem ascendérem ao poder. Pois, sendo ele de ânimo forte e de alta ambição, não podia governar de outra forma. Aos seus desígnios se opuseram apenas a brevidade da vida de Alexandre e a sua própria moléstia. Portanto, se julgas ne- cessário, num principado novo, assegurar-te contra os inimigos, conquistar amigos, vencer ou pela força ou pela astúcia, fazer- te amado e temido do povo, ser seguido e respeitado pelos solda- dos, extinguir os que podem ou

devem ofender, renovar as anti- gas instituições por novas leis, ser severo grato, magnânimo e liberal, dissolver a milícia infiel, criar uma nova, manter amizades dos reis e dos príncipes, de modo que te sejam solícitos no benefi- cio e tementes de ofender-te, repi- to que não encontrarás melhores exemplos que nas ações do duque. é possivel acusá-lo quanto à criação de Júlio ponti- fice, a qual escolha foi má, pois, como se disse, não podendo fazer papa a quem queria, podia evitar que o fosse quem não quisesse. Não deveria ele ter consentido ja- mais no papado de um dos car- deais a quem tivesse ofendido ou que, feito pontífice, tivesse de temê-lo. Pois os homens ofendem ou por medo ou por ódio. Aqué- les a quem ele ofendera eram, entre outros, os cardeais de San Pietro ad Vincula, Colonna, San Giorgio, Ascânio!*. Todos os outros, se se tornassem papas, ti- nham por que temê-lo, exceto o de Ruão e os espanhóis; estes por força de aliança e obrigação, aquele pela força do rei de Fran- ça. O duque devia, portanto, fazer com que fosse eleito papa um espanhol; não o podendo, devia consentir em que o papa

14 Ver no índice dos nomes citados os nomes Júlio II, Colonna (Giovanni), Riario di Savona (Raffaele) e Sforza (Ascânio).

k

O PRÍNCIPE 39

fosse o cardeal de Ruão e não de San Pietro ad Vincula. Engana-se quem acreditar que nas grandes personagens os novos benefícios

fazem esquecer as antigas injú- rias. O duque errou, pois, nessa eleição, e foi ele mesmo o causa- dor de sua ruína definitiva.

CapíruLO VIII

Dos que alcançaram o principado pelo crime

duas maneiras de tornar-se príncipe e que não se podem atri- buir totalmente à fortuna ou ao mérito. Não me parece bem, por- tanto, deixar de falar nestes casos, se bem que deles se pudes- se falar mais detidamente onde se trata das repúblicas. Estas ma- neiras são: chegar ao principado pela maldade, por vias celeradas, contrárias a todas as leis huma- nas e divinas; e tornar-se príncipe por mercê do favor de seus conterrâneos. Para nos referir- mos ao primeiro destes modos, apresentarei dois exemplos, um antigo e outro moderno, sem entrar, contudo, no mérito desta parte, pois julgo que bastaria a alguém imitá-los se estivesse em condição de devê-lo fazer.

Agátocles Siciliano tornou-se rei de Siracusa, sendo não de impura mas também de condição abjeta. Filho de um oleiro, teve sempre vida criminosa na sua mocidade. Acompanhava as suas

maldades de tanto vigor de ânimo e de corpo que, ingres- sando na milícia, chegou a ser pretor de Siracusa, por força daquela maldade. Neste posto, deliberou tornar-se príncipe e manter, pela violência e sem favor de outros, aquele poder que lhe fora concedido por acordo entre todos.

Acerca deste seu desígnio, en- tendeu-se com Amilcar, cartagi- nês, que estava com seus exérci- tos na Sicília, e, certa manha, reuniu o povo e o Senado de Sira- cusa, como se ele tivesse de consultá-lo sobre os negócios pú- blicos. E a um sinal combinado fez que seus soldados matassem todos os senadores e os homens mais ricos da cidade. Mortos estes, apoderou-se do governo daquela cidade e o conservou sem nenhuma hostilidade por parte dos cidadãos. E apesar de os cartagineses haverem rompido com ele duas vezes e, por fim,

42 MAQUIAVEL

assediado a cidade, pôde não defendê-la, como, deixando parte de sua gente para garanti-la con- tra os inimigos, com outra parte assaltou a África; em breve tempo libertou Siracusa do assé- dio e reduziu os cartagineses a uma condição miserável. Foram estes coagidos a entrar em acor- do com Agátocles, deixando-lhe a Sicília e contentando-se com a posse da África. Consideradas, pois, suas ações e méritos, não se encontrará coisa, ou, senão, muito pouca, que se possa atri- buir à fortuna. Como acima se disse, não por favor de quem quer que fosse, mas passando por todos os postos conquistados na milícia através de inúmeros dis- sabores e perigos é que alcançou o principado que manteve depois, à força de tantas decisões auda- zes e chejas-de perigo. Ainda que não. se possa considerar ação meritória a matança de seus concidadãos, trair os amigos, não ter fé, não ter piedade nem reli- gião, com isso pode-se conquistar o mando, mas não a glória: Mas, considerada a habilidade de Agá- tocles no entrar e sair dos peri- gos, e sua fortaleza de ânimo no suportar superar as coisas ad- versas, não por que se deva jJulgá-lo inferior a qualquer dos mais ilustres capitães. Todavia, a sua bárbara crueldade e desuma-

nidade e os seus inúmeros crimes não permitem seja celebrado entre os mais ilustres homens da História. Não se pode, pois, atri- buir à fortuna ou ao valor aquilo que ele conseguiu sem uma e sem outro.

Em nossos tempos, sob o rei- nado de Alexandre VI, Oliverotto da Fermo, que ficara órfão al- guns anos antes, fora criado por um tio materno, chamado Gio- vanni Fogliani. Nos primeiros tempos de sua juventude, dedi- cou-se à vida militar, sob a dire- ção de Paulo Vitelli, a fim de que, afeito aquela disciplina, alcan- çasse algum alto posto na mili- cia. Morto Paulo, esteve sob o comando de Vitellozzo, seu irmão. E dentro de pouco tempo, como fosse engenhoso, forte e valoroso, tornou-se o primeiro homem de sua corporação. Pare- ceu-lhe, porém, coisa abjeta con- tinuar a servir com outros, e, auxiliado por alguns cidadãos de Fermo, que preferiram a servidão à liberdade de sua pátria, e com a ajuda de Vitellozzo, quis ocupar aquela cidade. E escreveu a Gio- vanni Fogliani dizendo que, como estivera muitos anos fora de casa, desejava ir visitá-lo.e à sua cidade para conhecer o seu patrimônio; e como não traba- lhara. senão para conseguir hon- ras, a fim de que seus concida-

O PRÍNCIPE 43

dãos vissem que não perdera o tempo em vão, queria ir em gran- de pompa e acompanhado de cem cavaleiros seus amigos e servidores. Rogava ao tio que se servisse de ordenar aos cidadãos de Fermo que o recebessem com homenagens; isso representaria uma honra para o tio que o tinha educado. Giovanni não deixou de atender na menor coisa ao seu sobrinho. Fê-lo receber com grandes festas, alojou-o e à sua comitiva na própria casa. Passa- dos alguns dias, estando tudo pronto para que ordenasse o necessário à sua futura perfídia, organizou um banquete solenis- simo, para o qual convidou Gio- vanni Fogliani e todos os homens de maior destaque da cidade de Fermo. Terminado o banquete e os divertimentos da praxe, Olive- rotto, propositadamente, encetou uma conversa a respeito de as- suntos graves, da grandeza do Papa Alexandre e de César, seu filho, e dos seus empreendi- mentos.

Tendo Giovanni e os outros expendido também considerações a respeito, ele, a um dado mo- mento, levantou-se e disse que aquilo era coisa que se devia dis- cutir em lugar mais reservado, dirigindo-se a seguir para um aposento ao lado. Todos os ou- tros o seguiram. Logo que se

assentaram, saíram de esconde- rjos soldados que mataram Gio- vanni e todos os outros. Depois desse homicídio coletivo, Olive-. rotto montou a cavalo e percor- reu a cidade e assediou o supre- mo magistrado em seu palácio. Aterrorizados, foram obrigados a obedecê-lo e a formar um gover- no do qual ele era o chefe. E, mortos todos os que por descon- tentes poderiam prejudicá-lo, re- forçou-se por novas leis civis e militares, de modo que, durante o ano em que governou a proviín- cia, não conseguira assegu- rar-se da cidade de Fermo, mas também tornar-se temido por todos os seus vizinhos. E seria difícil tomar-lhe a cidade, como aconteceu com Agatocles, se não se tivesse deixado enganar por César Bórgia, quando este, em Sinigaglia, como: se disse antes, aprisionou os Orsini e os Vitelli. Assim, um ano depois de haver cometido o parricídio, foi estran- gulado juntamente com Vitel- lozzo, que fora o mestre de suas virtudes e ignomínias.

Poderia alguém surpreender-se pelo fato de que Agátocles e semelhantes, depois de tantas traições e crueldades, pudessem viver tranquilamente e a salvo em sua pátria, e defender-se dos ini- migos externos e de que os cida- dãos não conspirassem contra

44

eles considerando-se tanto mais que muitos outros não pu- deram, por. sua crueldade, con- servar o mando, nem nos tempos

n

de paz, nem nos tempos duvido-.

sos de guerra. Creio que isto seja consequência de serem as cruel- dades mal ou bem praticadas. Bem usadas se podem chamar aquelas (se é que se pode dizer

bem do mal) que são feitas, de.

uma vez, pela necessidade de prover alguém à própria seguran- ça, e depois são postas à mar- gem, transformando-se o mais possível em vantagem para os sú- ditos. Mal usadas são as que, ainda que a princípio sejam pou- cas, em vez de extinguirem-se, crescem com o tempo. Os que observam a primeira destas li-

nhas de conduta podem, com a.

ajuda de Deus'e dos homens, encontrar remédio às suas conse- quências, como aconteceu com Agátocles. Aos outros é impos- sível manter-sé. É de notar-se, aqui, que, ao -apoderar-se dum Estado, o conquistador deve de- terminar as injúrias que precisa

MAQUIAVEL

levar a efeito, e executá-las todas de uma vez, para não ter que renová-las dia a dia. Deste modo, poderá incutir confiança nos ho- mens e conquistar-lhes o apoio beneficiando-os. Quem age por outra forma, ou por timidez ou por força de maus conselhos, tem sempre necessidade de estar com a faca na mão e não poderá nunca confiar em seus súditos, porque estes, por sua vez, não se podem fiar nele, mercê das suas recentes e contínuas injúrias. As injúrias devem ser feitas todas de uma vez, a fim de que, tomando- se-lhes menos o gosto, ofendam menos. E os benefícios devem ser realizados pouco a pouco, para que sejam mais bem saboreados. Sobretudo, um príncipe deve viver com seus súditos de modo que nenhum acidente, bom ou mau; o faça variar, porque, vindo, com tempos adversos, as necessidades, não terás tempo de fazer o mal; e o bem que fazes não te beneficia, pois julga-se for- çado, e ninguém te agradecerá a sua prática. à

CAPÍTULO IX

Do principado civil

Mas, analisando outro caso, quando um cidadão, não por suas crueldades ou outra qual- quer intolerável violência, e sim pelo favor dos concidadãos, se torna príncipe de sua pátria o

que se pode chamar principado

civil (e para chegar a isso não é necessário grandes méritos nem muita sorte, mas antes uma astú- cia feliz), digo que se chega a esse principado ou pelo favor do povo ou pelo favor dos poderosos. É que em todas as cidades se encontram estas duas tendências diversas e isto nasce do fato de que o povo não deseja ser gover- nado nem oprimido pelos gran- des, e estes desejam governar e oprimir o povo. Destes dois ape- tites diferentes nasce nas cidades um destes três efeitos: princi- pado, liberdade, desordem.

O principado é estabelecido pelo povo ou pelos grandes, se- gundo a oportunidade que tiver uma destas partes; percebendo os

grandes que não podem resistir ao povo, começam a dar reputa- ção a um dos seus elementos e o fazem principe, para poder, sob sua sombra, satisfazer seus apeti- tes. O povo também, vendo que não pode resistir aos grandes, reputação a um cidadão e o elege principe para estar defendido com a sua autoridade. O que ascende ao principado com a ajuda dos poderosos se mantém com mais dificuldade do que aquele que é eleito pelo próprio povo; encontra-se aquele. com muita gente ao redor, que lhe pa- rece sua igual, e por isso não a pode comandar nem manejar como entender. Mas o que alcan- ça o principado pelo favor popu- lar encontra-se sozinho e, ao redor, ou não tem ninguém, ou muito poucos que não estejam preparados para obedecê-lo. Além disso, não se pode honesta- mente satisfazer aos grandes sem injúria para os outros, mas O

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povo pode ser satisfeito. Porque o objetivo do povo é mais hones- to do que o dos poderosos; estes querem oprimir e aquele não ser oprimido. Contra a hostilidade do povo o príncipe não se pode assegurar nunca, porque são mui- tos; com relação aos grandes, é possível porque são poucos. O pior que um principe pode espe- rar do povo hostil é ser abando- nado por ele. Mas, da inimizade dos grandes, não deve temer que o abandonem, como também que o ataquem, pois têm estes maior alcance de vistas e maior astúcia, e têm sempre tempo de salvar-se, procurando aproxi- mar-se dos prováveis vitoriosos. Precisa ainda o principe de viver sempre com o povo, mas pode prescindir perfeitamente dos grandes, pois pode fazer e desfa- zer, cada dia, e dar-lhes ou fazer-lhes perder influência, à sua vontade.

E, para esclarecer melhor esta parte, direi dos dois grupos prin- cipais em que se podem classi- ficar os grandes: os que proce- dem de tal modo que se ligam em tudo à tua fortuna, ou os que agem diversamente. Aqueles que se obrigam para contigo e não são rapaces devem ser respei- tados e amados. Os que não se obrigam daquela forma devem

ser examinados sob dois aspec-:

tos; se agem assim por pusilani- midade e defeito natural de cará- ter, deverás servir-te deles, especialmente se podem dar-te bons conselhos, porque em tem- pos felizes isso te honrará e nos adversos nada terás que temer. Mas, quando não se obrigam para contigo, deliberadamente e pór ambição, é sinal de que pen- sam mais em si próprios do que em ti. O príncipe deve, então, manter-se em guarda e temê-los como se fossem inimigos desco- bertos, porque sempre, na adver- sidade, ajudarão a arruinar-te. Quem se torna príncipe me- diante o favor do povo deve man- ter-se seu amigo, o que é muito fácil, uma vez que este deseja apenas não ser oprimido. Mas quem se tornar príncipe contra a opinião popular, por favor dos -

grandes, deve, antes de mais nada, procurar conquistar o povo.

Ser-lhe-ã fácil isso, uma vez que se tenha ocupado em prote- gê-lo. E como os homens, quando recebem beneficios de quem esperavam mal, se obrigam mais para com o benfeitor, torna-se o povo logo mais seu amigo do que se o príncipe houvesse sido leva- do ao poder por favor seu. Isso pode ser conseguido pelo prin- cipe de muitas maneiras, das quais não se pode traçar uma

O PRÍNCIPE 47

regra certa porque elas variam conforme as circunstâncias. Dei- xà-la-ei de parte, por isso. Con- cluirei somente que é necessário a um príncipe que o povo lhe vote amizade; do contrário, fra- cassará nas adversidades. Nábis, príncipe dos espartanos, supor- tou o longo assédio de toda a Grécia e de um exército. romano

fendeu a pátria e o Estado. Bas- tou-lhe apenas, quando o perigo sobreveio, assegurar-se de pou- cos; não lhe bastaria isso, se o povo fosse seu inimigo. E a quem estiver contra esta minha opl- nião, baseado naquele velho pro- vérbio que diz que quem se apóia no povo tem alicerces de barro, direi que isso é verdade quando um cidadão acredita que o povo o liberte quando estiver, por acaso, oprimido pelos inimigos ou pelos magistrados. Nesse caso, são frequentes os enganos, como os Gracos em Roma e Messer! * Giorgio Scali em Flo- rença. Tratando-se, porém, dum principe que saiba comandar e seja homem de coragem, que não se abata nas adversidades, não se esqueça das outras precauções e tenha com seu próprio valor -e conduta incutido confiança no

15 Título que se dava a senhores, prelados e Juristas até o século XVI. (N. do E.)

povo, jamais será enganado por este e verá que reforçou os seus alicerces.

Principados dessa espécie cor- rem perigo quando estão a pique de mudar de um governo civil para um absoluto; porque esses príncipes ou governam por si próprios ou por intermédio de

“magistrados. poderosíssimo, e contra eles de-.

Neste último caso, a sua esta- bilidade é precária e incerta, por-

' que dependem completamente da

vontade dos cidadãos prepostos. nas magistraturas, os quais, mã- xime em tempos adversos, podem lhe arrebatar'o Estado com gran- de facilidade, movendo-lhe guer- ra ou não lhe prestando obediên- cia. E o príncipe não poderá, nos perigos, reconquistar a auto- ridade absoluta, porque os cida- daos e os súditos, habituados a

' seguir as ordens dos magistrados,

não estão, naquela emergência, para obedecer à sua. E o prínci- pe, nos tempos incertos, quase não'terá gente em que se possa fiar, não podendo basear-se no que observa em ocasiões nor- mais, quando os cidadãos têm necessidade do Estado. Então, todos correm ao seu encontro, todos prometem, e não quem não queira morrer por ele, quan- do a morte, está longe; mas na adversidade, quando o Estado necessita dos cidadãos, encon-

48 MAQUIAVEL

tram-se poucos. E essa expe- riência é tanto mais perigosa quando é certo que não é possível fazê-la senão uma vez. Conclui- se dai que um príncipe prudente

deve cogitar da maneira de fa- zer-se sempre necessário aos seus súditos e de precisarem estes do Estado; depois, ser-lhe-ão sempre fiéis.

CAPÍTULO X

Como se devem medir as forças de todos os principados

Convém fazer, ao se examina- rem as qualidades destes princi- pados, uma outra consideração: “se um príncipe possui tanta força em seu Estado que se possa man- ter por si mesmo em caso de necessidade, ou se precisa do auxílio de terceiros. Para bem esclarecer esta parte, direi que Julgo capazes de se manter por si os príncipes que podem, em vista de ter abundância de homens ou de dinheiro, formar um exército forte e fazer frente a qualquer

assaltante, e que também julgo.

terem sempre necessidade de ou- trem os que não podem enfrentar o inimigo em campo aberto, pre- cisando de refugiar-se por detrás dos muros da cidade para poder defendê-la. se falou do pri- meiro caso, e mais adiante ajun- taremos o que é necessário. No segundo caso, não se pode fazer mais do que exortar esses prínci- pes a fortificar e municiar o pró-

prio Estado sem se preocupar com o resto. E quem estiver bem fortificado e se tenha conduzido

com relação aos governados como acima.se expôs e se falará ainda sempre será ata-

cado com hesitação. Os homens são sempre contrários aos em- preendimentos onde exista difi- culdade; e não se pode ver facili- dade no assalto a quem possui um Estado forte e não é odiado pelo povo. As cidades da Alemanha são extremamente livres, têm pouco

território e obedecem ao impera-

dor quandô querem, e não temem nem a ele nem a qualquer outro poderoso que lhes esteja - ao redor, pois estão fortificadas de forma que obriga a refletir que expugná-las deve ser tarefa abor- recida e dificil. Todas possuem ao redor valas e muros adequa- dos, possuem boa artilharia e têm. sempre nos celeiros públicos o

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que comer e beber e combustível para um ano. Além disso, para que a plebe nunca sofra fome, têm sempre, em comum, por um ano, trabalho para lhe dar naque- las atividades que sejam o nervo e a vida da cidade e indústrias das quais a plebe se sustente. Mais ainda: estimam grande- mente os exercícios militares que são regidos por boas leis.

Assim, um príncipe que tenha uma cidade forte e não se torne odiado não pode ser atacado, e, mesmo que o fosse, o atacante regressaria de cabeça baixa. Por- que .as coisas do mundo são assim tão variadas que seria impossível que alguém permane- cesse ociosamente um ano a asse- diá-lo. A quem replicasse que, se O povo tem suas propriedades fora da cidade e as visse arder, não haveria paciência capaz de resistir, e que o longo assédio e o próprio egoismo dos súditos fa- riam com que se esquêcessem do príncipe, responderia eu que um príncipe corajoso e forte superará sempre todas aquelas dificulda-

des, ora dando aos súditos a

esperança de que o mal não se prolongará, ora incutindo-lhes o temor da crueldade do inimigo, e assegurando-se com destreza dos que lhe parecessem muito teme- rários. Além disso, é razoável considerar que o inimigo deverá incendiar e arruinar o país logo depois de sua chegada, quando o ânimo do povo está ainda aque- cido e decidido à defesa; por isso, o príncipe deve ter tanto menos dúvida, porque depois de alguns dias os ânimos se arrefecem, os danos são uma realidade e não mais remédio; então o povo vem unir-se mais ao príncipe, parecendo-lhe que este lhe deve uma obrigação, pois arderam as casas e arruinaram-se as proprie- dades em benefício dele. E a natureza dos homens faz com que se obriguem tanto - pelos benefícios feitos como pelos rece- bidos. Em conclusão, consideran- do-se bem tudo, não será dificil a um príncipe prudente assegurar- se do seu povo, durante um cerco, quer antes, quer depois deste, uma vez que não lhe faltem viveres nem meios de defesa.

CapíTULO XI

Os principados eclesiásticos

Resta-nos somente, agora, falar dos principados eclesiás- ticos. Diante destes, surge toda sorte de dificuldades, antes de que se possuam, porque são conquistados ou pelo mérito ou por fortuna. Mantêm-se, porém, sem qualquer das duas, porque são sustentados pela rotina da religião. As suas instituições tor- nam-se tão fortes e de tal natu- reza que sustentam os seus prin- cipes no poder, vivam e procedam eles como bem enten- derem. estes possuem Estados e não os defendem; estes pos- suem súditos que não governam. E os seus Estados, apesar de indefesos, não lhes são arrebata- dos; os súditos, embora não sejam governados, não cuidam de alijar o príncipe nem o podem fazer. Somente esses principados, portanto, São, por natureza, segu- ros e felizes. E sendo eles regidos por poderes superiores, aos quais a razão humana não atinge, dei-

xarei de falar a respeito; estabele- cidos e mantidos por Deus tais Estados, seria de homem presun- çoso e temerário agir de outra forma. Contudo, se alguém me

perguntasse dos motivos por que . “a Igreja alcançou tanta grandeza

no poder temporal, diria que, antes de Alexandre, os potenta- dos italianos (e não somente potentados, mas qualquer barão ou senhor, apesar de insignifi- cante) pouca importância davam ao poder temporal da Igreja. E agora até um rei de França o re- ceia e foi expulso da Itália pelo papa, que conseguiu ainda arruil- nar OS venezianos, o que apesar de conhecido não é inoportuno relembrar. .

Antes que Carlos, rei da Fran- ça, invadisse a Itália, esta provín- cia estava sob o império do'papa, venezianos, rei de Nápoles, duque de Milão e florentinos. Estes. governos deviam ter dois cuidados principais: um que o

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-

estrangeiro não entrasse na Itália com tropas; outro que ne- nhum deles estendesse os seus domínios. Aqueles que mais se deviam vigiar eram o papa e os venezianos. E para deter a estes era necessária a união de todos os outros, como aconteceu na de- fesa de Ferrara; e para pôr em xeque o poder do papa, haveriam de servir os barões de Roma, os quais, por estarem divididos em duas facções Orsini e Colon- na —, viviam em constante disputa. E estando sempre de armas na mão, aos olhos do pró- prio pontífice, tornavam o papa- do fraco e inseguro. E se bem que às vezes surgisse um papa animo- so, como foi Xisto, a sua fortuna e o seu saber não bastavam para livrá-lo dessa dificuldade. A bre- vidade dos pontificados é a razão disso, pois nos dez anos que, em média, um papa reinava, conse- guia, embora à custa de grande trabalho, rebaixar uma das fac- ções. Não obstante, se um deles havia conseguido quase que ex- tinguir os Colonna, por exemplo, seguia-se um outro papa, inimigo dos Orsini, que favorecia a volta dos Colonna, e não tinha tempo também de destruir os Orsini. Por isso o poder temporal do papa foi pouco estimado na Itá- lia. Surgiu depois Alexandre VI, o qual, de todos os pontífices que

existiram, demonstrou como um papa se podia fazer valer, pelo dinheiro e pela força, e, valendo-se do Duque Valentino como instrumento, e quando da vinda dos franceses, fez tudo quanto referi acima, a respeito da ação do duque. É apesar de o seu intento não ser o de tornar a Igreja poderosa, tudo quanto o duque realizou foi pela grandeza desta, a qual, depois da morte de Alexandre e morto também o duque, foi a herdeira dos traba- lhos que este realizara. Veio de- pois o Papa Júlio e encontrou a Igreja forte, na posse de toda a Romanha, sendo que, pelas in- vestidas de Alexandre, haviam

sido extintos os barões de Roma e anuladas as facções referidas. Encontrou ainda o caminho aber- to para acumular dinheiro, o que

nunca fora feito antes de Alexan- dre. Julio não prosseguiu em tais trabalhos, como ainda os acresceu. E pensou em conquis- tar Bolonha, liquidar os venezia-

nos e expulsar os franceses da Itália. Alcançou êxito em todas essas empresas, e é tão mais digno de louvor quanto se sabe

que fez tudo isso com a preocu- pação de engrandecer a Igreja e não um determinado indivíduo. Manteve ainda os dois partidos dos Orsini e dos Colonna, nas

O PRÍNCIPE 53

mesmas condições em que os encontrou; e apesar de que entre eles houvesse alguns chefes capa- zes de provocar alterações; nada fizeram; duas coisas os mantive- ram inativos: o poder da Igreja, que os abatia, e o fato de não

terem eles partidários no Sacro '

Colégio, pois os cardeais são ori- gem dos tumultos entre as fac- ções. Não haverá paz entre estas se tiverem cardeais, porque estes, tanto em Roma como fora da

cidade, fomentam os partidos e

“os barões são forçados a defen-

dé-los. Assim, da ambição dos prelados, nascem as discórdias e os tumultos entre os barões. Sua Santidade, o Papa Leão, encon- trou, pois, o pontificado podero- síssimo. E espera-se que, se al- guns tornaram o papado poderoso pelas armas, o atual pontífice, pela sua bondade e inú- meras outras virtudes, o torne ainda mais forte e venerando.

CaPpíTULO XII

Dos gêneros de milícia e dos soldados mercenários

Tendo eu falado com porme- nor de todas as causas da boa ou sorte dos principados, e con- siderado as causas da sua boa ou sorte, demonstrando os meios por que se puderam conquistar e manter, resta-me agora falar a respeito dos meios ofensivos e defensivos que neles se podem achar necessários. Dissemos acima que é necessário a um príncipe estabelecer sólidos fun- damentos; sem isso, é certa a sua ruína. E as principais bases que os Estados têm, sejam novos, ve- lhos ou mistos, são boas leis e boas armas. E como não podem existir boas leis onde não armas boas, e onde boas armas convém que existam boas leis, referir-me-ei apenas às armas. Direi, pois, que as forças com que um príncipe mantém o seu Estado são próprias ou mer- cenárias, auxiliares ou mistas. As mercenárias e auxiliares são inú- teis e perigosas. Se alguém tiver o

seu Estado apoiado em tal classe de forças, não estará nunca segu- ro; não são unidas aos príncipes, são ambiciosas, indisciplinadas, infiéis, insolentes para com os amigos, mas covardes perante os inimigos, não temem a Deus, nem dão aos homens, e o prin- cipe adia a própria ruína na medida em que adia o ataque. Assim, o Estado é espoliado por elas na paz, e, na guerra, pelos inimigos. A razão disso é que não têm outro amor nem outra força que as mantenha em campo, senão uma pequena paga, o que não basta para fazer com que queiram morrer por ti. Que- rem muito ser teus soldados enquanto não fazes a guerra, mas, se esta vier, fogem ou se despedem. Não me será muito difícil explicá-lo, pois a atual ruína da Itália não é causada por outra coisa senão porque durante muitos anos esteve apoiada em armas mercenárias. Estas chega-

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ram a fazer algo em benefício de alguns e pareciam valorosas quando combatiam umas às ou- tras, mas, chegado o estrangeiro, logo mostraram ' o que eram. Facilimo foi, por isso, a Carlos, rei de França, conquistar a giz a Kália inteira! º; dizia a verdade quem dizia que a culpa toda era

nossa, mas não a que pensava e

sim a de que foram causa os erros expostos acima. E como “eram culpados os príncipes, foram eles que sofreram a pena. Quero, contudo, demonstrar mais claramente a qualidade destas tropas. Os capitães merce- nários ou são grandes militares ou não são nada; se o forem, não te poderás fiar neles, porque aspi- rarão sempre à própria glória, ou abatendo a ti, que és o seu patrão, ou oprimindo a outrem contra a tua vontade. Se não forem grandes capitães, arrui- nar-te-ão por isso mesmo. E se alguém responder que, merce- nário ou não, quem estiver com a força agirá sempre da mesma forma, replicarei que as tropas devem ser usadas por um priín- cipe ou por uma república. O

8 Commines, cronista francês, refere que ao Papa Alexandre VI se atribuía o dito segundo o qual “os franceses ao invadir a Itália toma- ram do giz para marcar os: seus acampamen- tos, e não de espadas para combater”, que- rendo significar a falta de resistência dos Estados italianos. '

príncipe em pessoa é quem deve constituir-se capitão, a república deve mandar para esse posto um de seus cidadãos e, quando for mfeliz na escolha, deve iogo substituí-lo. E, se se revelar um homem de valor no seu posto, deve a república assegurar-se, mediante leis, contra o Capitão, para que não exorbite ele das suas funções. À experiência ensi-

na que os príncipes, agindo por si '

mesmos, e as repúblicas armadas alcançam prandes progressos, ao passo que as armas mercenárias causam danos. Mais dificil- mente um cidadão de uma repú- blica que tenha tropa própria alcança o poder absoluto do que caso da república apoiada em tropa mercenária. Roma e Espar- ta estiveram durante muitos sécu-

los armadas e livres. Os suíços '

são armadíssimos e libérrimos. Exemplo das forças mercenárias antigas são os cartagineses, que quase foram abatidos pelos mer- cenários, quando terminou a pri- meira guerra com os: romanos, conquanto os exércitos cartagi- neses tivessem por chefes cida- daãos de Cartago. Filipe da Mace- dônia foi feito pelos tebanos capitão da sua gente, depois da morte de Epaminondas; e depois da vitória tirou-lhes a liberdade. Os milaneses, morto o Duque Filipe, assalariaram Francesco

O PRÍNCIPE 57

Sforza para que atacasse os vene- zianos; e, vencido o inimigo em Caravaggio, Sforza juntou-se aos inimigos para oprimir os milane- ses, seus patrões. Muzio Sfor- za, seu pai, servindo à Rainha Joana de Nápoles, deixou-a, em certo momento, sem exército. Para não perder o reino, foi ela obrigada a lançar-se aos braços do rei de Aragão. E se os vene- zianos é florentinos, pelo contrá- rio, alargaram seu império com tropas mercenárias, seus capitães

não se tornaram príncipes e os

defenderam sempre, tem-se que os florentinos, neste caso, foram favorecidos pela sorte, pois dos capitães de valor a quem podiam temer, alguns não venceram, ou- tros tiveram de lutar contra ti- vais, outros ainda dirigiram a ambição em outros rumos. O que não venceu foi Giovanni Aucut! ?, do qual, por não ter vencido, não se pôde conhecer a fidelidade, mas ninguém deixará de reconhecer que, se vencesse, os florentinos estariam à sua mercê. Sforza teve sempre contra si os partidários de Braccio, vigiando-se eles mutuamente. Francesco voltou sua ambição para a Lombardia; Braccio, con- tra a Igreja e o reino de Nápoles.

17 Ver no indice dos nomes citados o nome Hawkwood (Sir John).

Vejamos, porém, o que aconte- ceu pouco tempo. Os floren- tinos fizeram Paulo Vitell seu capitão, homem muito prudente e que, de simples particular, alcan- çara altíssima reputação. Se este conquistasse Pisa, não haverá quem negue que ele teria opri- mido os florentinos; porque, se tivesse ficado servindo aos seus inimigos, aqueles não teriam re- médio contra isso; e, se o manti- vessem, teriam de obedecer-lhe. Se considerarmos os progressos dos venezianos, ver-se-á que ope- raram segura e gloriosamente,

enquanto eles mesmos fizeram a

guerra, o que se deu antes de a sua atenção voltar-se para as conquistas em terra firme. Aí, com o auxílio dos gentis-homens e com a plebe armada, operaram valorosamente, mas, quando co-: meçaram a combater em terra, deixaram essa excelente regra e seguiram os costumes de guerra da Itália. E no princípio de sua ação em terra, por. não terem muito Estado e por terem grande reputação, não tinham muito que temer de seus capitães. Am- pliando os seus domínios sob a direção de Carmignola, tiveram a prova desse erro. Pois que, ten- do-o como grande capitão, quan- do venceram sob o seu comando o duque de Milão, e vendo depois que estava arrefecendo nas coisas

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de guerra, julgaram que sob o seu comando não mais poderiam ter vitórias, pois lhe faltava a vonta- de de vencer; e como não pudes-

sem pô-lo em disponibilidade,

para não perder o que haviam conquistado, tiveram de matá-lo

para assegurar-se contra ele. Ti-: veram depois, por capitães, Bar- :

tolomeu de Bérgamo, Roberto de Sao Severino, Conde de Piti- gliano e outros que tais; quanto a estes, tinham que temer as suas derrotas, não suas conquis- tas, como aconteceu depois em Vailá, onde, em um dia, perde- “ram o que, em oitocentos anos, à custa de tantos trabalhos, haviam conquistado. Essas tropas dão apenas lentas, tardias e precárias conquistas, mas rápidas e espan- tosas perdas. E como citei estes exemplos da Itália, que foi gover- nada muitos anos com armas mercenárias, continuarei a discu- tir o assunto sob um aspecto mais geral, a fim de que, conhe- cendo-se as suas origens e o seu desenvolvimento, seja possível corrigir melhor o erro de usar essas tropas. Deveis saber então que, começando nestes últimos tempos o império a ser repelido da Itália, e tendo o papa maior autoridade no poder temporal, o país foi retalhado em mais Esta- dos; porque muitas das maiores cidades tomaram armas contra a

nobreza que as tinha subjugado, ajudada pelo imperador. Ao passo que a Igreja favorecia as cidades para aumentar o seu poder temporal. Assim, em mui- tas cidades, simples particulares se tornaram príncipes. O resul- tado é que, tendo a Itália ficado, quase toda, em poder da Igreja e de algumas repúblicas, e os pa- dres e os cidadãos destas não estando habituados a manejar armas, começaram a aliciar mer- cenários estrangeiros para o ser- viço militar. O primeiro que granjeou fama no comando dessa espécie de tropa foi Alberico da Conio, romanholo. Braccio e Sforza, que, em seus tempos, foram árbitros da Itália, foram saídos, como muitos, da escola daquele. Depois vieram todos os outros que têm comandado estas . milícias até nossos tempos. E como consequência disso, a Itália foi invadida por Carlos, depre- dada pór Luís, atacada por Fer- nando e infamada pelos suíços. A primeira coisa que fizeram os condottieri foi procurar anular a importância da infantaria, para realçar a importância própria. Agiram assim porque, não tendo Estado próprio e dependendo sempre da sua profissão, se tives- sem pouca infantaria, não conse- guiriam fama, e se muita, não poderiam sustentá-la. Reduzi-

O PRÍNCIPE 59

ram-se portanto quase exclusiva- mente à cavalaria, pois, com pequeno número de cavaleiros, achavam apoio e honras, sem grandes encargos. Isso chegou a - tal ponto que, num exército de vinte mil homens, não havia dois mil infantes.

Empregavam, ademais, os ca- pitães todos os meios para afas- tar, de si e dos soldados, o medo e o trabalho, poupando-se nos

combates e fazendo-se prender uns aos outros sem resgate. Não atacavam as cidades de noite e os que defendiam as cidades não atacavam os sitiantes, e nem que- riam combater no inverno. Tudo isso lhes era permitido pelo seu código militar, que, como se disse, tinha o objetivo de evitar trabalhos e perigos. E assim escravizaram e infamaram a Itá- lia.

CarpíruLo XIII

“Das tropas auxiliares, mistas e nativas

As tropas auxiliares, que não.

são mais do que armas inúteis, são as que manda em teu auxílio algum poderoso, como fez em tempos não muito remotos o Papa Júlio; tendo ele tido, na expedição contra Ferrara, triste prova dos exércitos mercenários, voltou-se para as tropas auxilia- res, combinando com Fernando, rei de Espanha, que os infantes e cavaleiros deste fossem ajudá-lo. Tais tropas podem ser úteis e boas por si próprias, mas quase sempre acarretam prejuízos ao que as solicita, pois, se perderem, estará anulado, se vencerem, es- tará seu prisioneiro. E, muito em- bora a história antiga esteja cheia destes exemplos, eu não quero sair deste, ainda recente, do Papa Júlio II, cuja decisão de abando- nar-se nas mãos de um estran- geiro, pela vontade de con- quistar Ferrara, não se pode considerar uma boa deliberação.

Mas a boa fortuna do papa origi- nou um terceiro acontecimento, a fim de que ele não colhesse os frutos da sua escolha; é que tendo sido as forças auxiliares desbaratadas em Ravena, e sur- gindo os suíços, que expulsaram os vencedores, excedendo qual- quer. expectativa do papa e de outros, não ficou ele preso pelos inimigos, que haviam fugido, nem pelos seus aliados, tendo vencido com outras forças que não as próprias. Os florentinos, que estavam desarmados, leva- ram dez mil franceses a Pisa, para expugná-la: e nisso encon- traram mais perigo do que em quaisquer de seus próprios traba- lhos, em todos os tempos. O imperador de Constantinopla, para opor-se aos seus vizinhos, pôs dez mil turcos na Grécia, os quais, terminada a guerra, não mais quiseram partir, o que foi o começo da servidão da Grécia

62 MAQUIAVEL

aos infiéis! 8. Valha-se, portanto, destas tropas quem não quiser vencer, porque são muito mais perigosas do que as mercenárias.

Com aquelas, a ruína é certa; são unidas e votadas inteira- mente à obediência a outros. Quanto as forças mercenárias, depois da vitória, precisam de mais tempo e de melhor oportu- nidade de prejudicar-te, pois não constituem um corpo perfeita- mente unido e, além disso, foram organizadas e são pagas por ti; nestas, se constituíres chefe a um terceiro, não poderá este ter desde logo tanta autoridade que te possa ofender gravemente. Em resumo, nas tropas mercenárias, o que é perigoso é a covardia; nas auxiliares, 0 valor.

Os príncipes prudentes repeli- ram sempre tais forças, para valer-se das suas próprias, prefe- rindo antes perder com estas a vencer com auxílio das outras, considerando falsa a vitória con- quistada com forças alheias. Não deixarei nunca de ter em mente o exemplo de César Bórgia e suas ações. Este duque entrou na Romanha à custa de armas auxi- liares, conduzindo tropas france- sas, com as quais tomou Ímola e

18 O Imperador João Cantacuzene, em guerra contra a facção dos Paleólogos, akou-se, em 1346, com o Sultão Orchan. Finda a guerra, os turcos estabeleceram-se em Gallipoli.

Forli. Depois, como essas tropas não lhe inspirassem confiança, voltou-se às mercemárias, que, Julgou, eram menos perigosas. E tomou a seu serviço os Orsini e Vitelli. Quando, tendo usado as destes últimos, julgou-as dúbias e infiéis, extinguiu-as, dedicando-se às que eram verdadeiramente suas. Pode-se daí concluir facil- mente a diferença entre umas e outras, considerada a transfor- mação na fama do duque, de quando tinha apenas os france- ses, para quando empregava os Orsini e Vitelli, e quando afinal ficou com soldados seus e sob seu próprio comando. Ver-se-á que sua fama foi aumentando sempre e nunca foi tão estimado como quando se viu que ele era senhor absoluto de suas tropas. Eu não queria senão citar exem- plos italianos ou recentes; apesar disso, não quero deixar de falar de Hierão Siracusano, acima referido. Este, como disse, inves- tido das funções de chefe dos exércitos siracusanos, percebeu logo que a milícia mercenária

não era boa, por serem os chefes

semelhantes aos nossos, italia- nos. Parecendo-lhe que não podia mantê-los nem desfazer-se deles, fé-los cortar em pedaços. Assim, pôde fazer guerra, depois, com tropas próprias. Quero ainda re- cordar uma passagem do Antigo

O PRÍNCIPE 63

Testamento, referente a este as- sunto. Oferecendo-se Davi a Saul, para ir combater contra Golias, grande provocador filis- teu, Saul, para animá-lo, quis que ele fosse com a armadura real. Davi, logo que a pós sobre si, repeliu-a, dizendo que não pode- ria usar bem da sua própria força, pois queria encontrar-se com o inimigo valendo-se apenas da funda e da faca para comba- tê-lo. Enfim, as armas de outrem ou te caem pelas costas, ou pesam sobre ti, ou ainda te sufo- cam. Carlos VII, pai do Rei Luís XI, tendo, com a sua boa sorte e valor, livrado a França do jugo dos ingleses, conheceu a necessi- dade de se armar com forças que fossem suas, realmente, e tornou obrigatório, no seu reino, o servi- ço militar. O Rei Luís extinguiu, depois, a arma de infantaria e começou a ter suíços a soldo. Esse erro, seguido de outros, foi, como se agora, o motivo dos perigos daquele reino. Tendo dado reputação aos suíços, avil- tou as próprias tropas, porque desapareceu a infantaria e a sua cavalaria foi subordinada à tropa estrangeira, e, acostumando-se elã a militar com suíços, não lhe parece possível vencer sem eles,

Da nao bastarem os franceses

contra Os suíços, e sem Os suíços, contra outros, não conseguiram

vencer. Os exércitos de França, pois, têm sido mistos, compostos de mercenários e soldados pró- prios. São eles muito melhores que as simples tropas auxiliares ou mercenárias e muito inferiores aos exércitos próprios.

Basta o exemplo dado, porque o reino de França seria inven- cível se se tivesse desenvolvido ou pelo menos conservado o regulamento militar de Carlos. Mas a pouca prudência dos ho- mens não descobre o veneno que está escondido nas coisas que bem lhes parecem ao princípio, conforme disse acima, a respeito das febres éticas.

Portanto, aquele que, num principado, não conhecer os males na sua origem não é verda- deiramente sábio, o que é dado a poucos. Se se considerar o come- ço da decadência do Império Romano, achar-se-á que foi moti- vada somente por ter começado a ter a soldo mercenários godos. Desde então começaram a decli- nar as forças do império e todo o: valor dele lhes era levado à conta. Concluo, pois, que, sem possuir armas próprias, nenhum principado está seguro," antes, está à mercê da sorte, não exis- tindo virtude que o defenda nas adversidades. Foi sempre opinião e sentença dos homens sábios “quod nihil sit tam infirmum aut

64 MAQUIAVEL

instabile quam fama potential non sua vi nixa!'º” E as forças próprias são aquelas compostas de súditos ou de cidadãos, ou de servos teus; todas as outras são mercenárias ou auxiliares. E o

18 “Nada é tão instável quanto a fama de poderio de um príncipe quando não apoiada na própria força.”

modo de regulamentar os exérci- tos próprios será fácil de encon- trar-se se se analisarem os regula- mentos dos quatro a quem me referi, e se se considerar como

Filipe, pai de Alexandre Magno,

- e muitas repúblicas e principes se

armaram e regeram: e é a essas ordens que me reporto inteira- mente, durante esta exposição.

CapítuLo XIV

Dos deveres do principe para .com as suas tropas

Deve, pois, um príncipe não ter outro objetivo nem outro pensamento, nem ter qualquer outra coisa como prática a não ser a guerra, O seu regulamento e sua disciplina, porque essa é a única arte que se espera de quem comanda. É ela de tanto poder que não mantém aqueles que nasceram príncipes, mas muitas vezes faz com que cidadãos de condição particular ascendam aquela qualidade. Ao contrário, vê-se que perderam os seus Esta- dos os príncipes. que se preocu- param mais com os luxos da vida do que com as armas. À primeira causa que te fará perder o gover- no é descurar desta arte e a razão de poderes conquistá-lo é o pro- fessá-la. Francesco Sforza, de simples particular tornou-se duque de Milão, pelo fato de ter-

Nie armado; ao passo que os seus

filhos, por fugir aos deveres das armas, de duques passaram a simples cidadãos. Porque, entre

at

as outras razões que te acarretam males; o estar desarmado te obri- ga a ser submisso, e isso é uma das infâmias de que um príncipe se deve guardar, como adiante se dirá. Não proporção alguma entre um príncipe armado e um desarmado, e não é razoável que quem estã armado obedeça com gosto a quem não está, e que o principe desarmado viva seguro entre servidores em armas. Ha- vendo desdém, por parte de um, e suspeita, de outro lado, não é possivel que ajam de acordo. Um príncipe que não entenda de mili- cia, além de outras infelicidades, como se disse, não pode ser esti-

'“mado pelos seus soldados nem

ter confiança neles.

Um príncipe, deve, pois, não deixar nunca de se preocupar coma arte da guerra e praticá-la na paz ainda mais mesmo que na guerra, e isto pode ser conse- guido por duas formas: pela ação ou apenas pelo pensamento.

66 MAQUIAVEL

Quanto à ação, além de manter os soldados disciplinados e cons-

tantemente em exercício, deve:

estar sempre em grandes caça- das, onde deverá habituar o corpo aos incômodos naturais da vida em campanha e aprender a natureza dos lugares, saber como surgem os montes, como afun- dam os vales, como Jjazem as planícies, e saber da natureza dos rios e dos pântanos, empregando nesse trabalho os melhores cuida- dos. Esses conhecimentos são úteis sob dois aspectos princi- pais: primeiro, aprende o prin- cipe a conhecer bem o seu país ficará conhecendo melhor os seus meios de defesa; segundo, pelo conhecimento e prática daqueles sítios, conhecerá facilmente qual- quer outro, novo, que lhe seja necessário especular, pois que os montes, os vales, as planícies, os rios OS pântanos que existem na Toscana, por exemplo, apresen- tam certas semelhanças com os de outras províncias. Assim, pelo conhecimento da geografia de uma província, pode-se facil- mente chegar ao conhecimento de outra. E o príncipe que falha nesse particular falha na primeira

qualidade que deve ter um capi-

tão, porque é esta que ensina a entrar em contato com o inimigo, acampar, conduzir os exércitos, traçar os planos de batalha, e

assediar ou acampar com vanta- gem. Filopêmenes, principe dos aqueus, entre as outrás qualida- des que lhe deram os escritores, tinha esta de, nos tempos de paz, não deixar de pensar nunca em coisas de guerra. Quando pas- seava no campo, com os amigos, parava às vezes e os interrogava: “Se OS inimigos estivessem sobre aquele monte, e nós estivéssemos aqui, com nossos exércitos, quem teria maiores vantagens? Como se poderia ir ao seu encontro, observando a nossa formação? Se nós quiséssemos retirar, como deveríamos fazer? Se eles se reti- rassem, como fariamos para se- gui-los?” Enfim, formulava todas as hipóteses que podem ocorrer em campanha, ouvia-lhes a opi- nião, dava a sua, corroborava-as com razões e exemplos, de modo que, mercê dessas contínuas cogi- tações, quando estava à frente dos exércitos, nunca surgia um acidente que ele não tivesse previsto e para o qual, portanto, não tivesse remédio.

Agora, quanto ao exercício do pensamento, o príncipe deve ler histórias de países e considerar as ações dos grandes homens, observar como se conduziram nas guerras, examinar as razões de suas vitórias e derrotas, para poder fugir destas e imitar aque- las; sobretudo, deve fazer como

O PRÍNCIPE 67

teriam feito em tempos idos cer- tos grandes homens, que imita- vam os que antes deles haviam sido glorificados por suas ações, como consta que Alexandre Magno imitava a Aquiles, César a Alexandre, Cipião a Ciro. E quem ler a vida de Ciro, escrita por Xenofonte, reconhecerá, de- pois, na vida de Cipião, quanto lhe foi valiosa aquela imitação e

quanto se assemelhava ele, na abstinência, afabilidade, humani- dade, liberalidade, ao que Xeno- fonte disse de Ciro. Um príncipe sábio deve observar estas coisas e nunca ficar ocioso nos tempos de paz; deve, sim, inteligentemente, ir formando cabedal de que se possa valer nas adversidades, para estar sempre preparado a resistir-lhes.

CapíTULO XV

Das razões por que os homens e, especialmente,

os principes são louvados ou vituperados

Resta examinar agora como deve um principe comportar-se com os seus súditos e seus ami- gos. Como sei que muita gente escreveu a respeito desta matéria, duvido que não seja considerado presunçoso propondo-me exami- ná-la também, tanto mais quanto, ao tratar deste assunto, não me afastarei grandemente dos princi- pios estabelecidos pelos outros. “Todavia, como é meu intento escrever coisa útil para os que se interessarem, pareceu-me mais conveniente procurar a verdade pelo efeito das coisas, do que pelo que delas se possa imaginar. E muita gente imaginou repú- blicas e principados que nunca se viram nem jamais foram reco- nhecidos como verdadeiros. Vai “tanta diferença entre o como se vive e o modo por que se deveria viver, que quem se preocupar - com O que se deveria fazer em vez do que se faz aprende antes a

ruína própria, do que o modo de se preservar; e um. homem que quiser fazer profissão de bondade é natural que se arruíne entre tan- tos que são maus.

Assim, é necessário a um prín- cipe, para se manter, que aprenda a poder ser mau e que se valha ou deixe de valer-se disso segundo a necessidade.

Deixando de parte, pois, as coisas ignoradas relativamente aos príncipes e falando a respeito das que são reais, digo que todos os homens, máxime os príncipes,

-por. estarem mais no alto, se

fazem notar através das qualida- des que lhes acarretam reprova- ção ou louvor. Isto é, alguns são tidos como liberais, outros como miseráveis (usando o termo tos- cano misero, porque avaro, em nossa língua, é ainda aquele que deseja possuir pela rapinagem, e miseri chamamos aos que se abs- têm muito de usar o que pos-

70 MAQUIAVEL

suem); alguns são tidos como pródigos, outros como rapaces; alguns são cruéis e outros piedo- sos; perjuros ou leais; efemina- dos e pusilânimes ou truculentos e animosos; humanitários ou so- berbos; lascivos ou castos; estú- pidos ou astutos; enérgicos ou indecisos; graves ou levianos; religiosos ou incrédulos, e assim por diante. E eu sei que cada qual reconhecerá que seria muito de louvar que um príncipe pos- suísse, entre todas as qualidades referidas, as que são tidas como boas; mas a condição humana é tal, que não consente a posse completa de todas elas, nem ao menos a sua prática consistente; é necessário que o príncipe seja

tão prudente que saiba evitar os defeitos que lhe arrebatariam o governo praticar as qualidades próprias para lhe assegurar a posse deste, se lhe é possível; mas, não podendo, com menor preocupação, pode-se deixar que as coisas sigam seu curso natu- ral. E ainda não lhe importe incorrer na fama de ter certos defeitos, defeitos estes sem os quais dificilmente poderia salvar O governo, pois que, se se consi- derar bem tudo, encontrar-se-ão coisas que parecem virtudes e que, se fossem praticadas, lhe acarretariam a ruína, e outras que poderão parecer vícios que, sendo seguidas, trazem a segu- rança e o bem-estar do gover- nante.

CapíTULO XVI

Da liberalidade e da parcimônia

Começando, portanto, pela primeira das qualidades enume- radas, direi em que condições o ser julgado liberal é um bem. A liberalidade usada para que gozes da fama de liberal não é uma virtude; se é ela praticada virtuosamente e como devido, será ignorada e não te livrarás da fama do seu contrário. Assim, se se quiser manter entre os homens a fama de liberal, é necessário não omitir nenhuma demonstração de suntuosidade, de tal-ríodo que, nessas condi- ções, consumirá sempre um prín- cipe, em semelhantes obras, todas as suas rendas. E, no fim, se quiser manter aquela fama, precisará de gravar O povo ex- traordinariamente, proceder cruelmente no fisco e fazer tudo o que se pode fazer para ter dinhei- ro. Isso começará a torná-lo odioso aos olhos dos súditos, e uma vez empobrecido cairá na desestima dos outros; de forma

que, tendo a sua liberalidade acarretado prejuízo a muitos e beneficiado a outros, começa o principe a sentir os primeiros reveses e periga em qualquer circunstância que ócorra. Perce- bendo isso, e querendo retrair-se, o- príncipe é logo tachado de avaro. Assim, pois, não podendo usar dessa virtude sem dano pró- prio, de modo que seja conheci- da, deve ele, se é prudente, des- prezar a pecha de avarento, porque, com o tempo, poderá demonstrar que é cada vez mais liberal, pois o povo verá que a parcimônia do príncipe faz com que a sua receita. lhe baste, podendo ele defender-se de quem lhe move guerra, e também lan- çar-se em empreendimentos sem gravar o povo, e assim está sendo: liberal para todos aqueles de quem nada tira, os quais são inú- meros, e miserável para aqueles a quem não nada, que são muito poucos. Em nossos tempos, não

ED) MAQUIAVEL

vimos que fizessem grandes coi- sas senão os que foram conside- rados miseráveis; Os outros arrui- naram-se. O Papa Júlio II, como se houvesse servido da fama de liberal para chegar ao papado, não pensou depois em mantê-la, e isso para poder fazer guerra con- tra o rei de França; entrou em muitas campanhas sem onerar os “seus com qualquer taxa extraor- dinária, porque, para atender às despesas supérfluas, bastou-lhe a sua grande parcimônia. O atual rei da Espanha, se fosse conside- rado liberal, não teria começado nem vencido tantos empreendi- mentos.

Portanto, um príncipe deve gastar pouco para não ser obri- gado a roubar seus súditos; para poder defender-se; para não se empobrecer, tornando-se despre- zivel; para não ser forçado a tor- nar-se rapace; e pouco cuidado lhe a pecha de miserável; pois esse é um dos defeitos que lhe dão a possibilidade de bem rei- nar. E se alguém disser que César, com sua liberalidade, as- cendeu ao império, e muitos outros, por serem considerados liberais, alcançaram altos postos, résponderei que ou és príncipe ou estás no caminho de o ser. No primeiro caso, esta liberalidade é prejudicial; no segundo caso, é necessário ser considerado libe-

ral. E César era um dos que que- riam alcançar o poder em Roma, mas se, depois que o alcançou, tivesse vivido mais tempo e pros- seguido naquelas despesas e não as tivesse reduzido, teria des- truído o império. Se alguém repli- casse que houve muitos príncipes que fizeram grandes coisas com os seus exércitos e têm fama de liberais, responderia eu que ou o principe gasta o que é seu, ou dos seus súditos, ou o que é de outrem. No primeiro caso deve ser sóbrio, no outro, não deve ' esquecer nenhuma liberalidade. E ao príncipe que marcha com seus exércitos e que vive à custa de presas de guerra, de saques e de reféns, e maneja o que é dos outros, é necessária essa liberali- dade, porque de outra forma não seria seguido pelos seus soldados. E é possível seres muito mais pródigo com aquilo que te não pertence nem aos teus súditos, como fizeram Ciro, César e Ale- xandre, pois gastar o que é de ou-

trem não rebaixa, pelo contrário,

eleva a reputação. Gastar o que é seu mesmo, isso sim, é nocivo. E não coisa que se destrua por si própria como a liberalidade, pois com seu uso continuado vais per- dendo a faculdade de usá-la e te tornas ou pobre e necessitado, ou, para fugir da pobreza, rapace e odioso. E dentre as:coisas de

O PRÍNCIPE

que um príncipe se deve guardar. estão o ser necessitado ou odioso. E a liberalidade conduz a uma ou a outra coisa. Assim, pois, é mais prudente ter fama de miserável, o

que acarreta fama sem ódio, do que, para conseguir a fama de liberal, ser obrigado a incorrer também na de rapace, o que constitui uma infâmia odiosa.'

CapíruLo XVII

Da crueldade e da piedade se é melhor ser amado ou temido

Continuando na exposição das qualidades acima referidas, tenho a dizer que cada príncipe deve desejar ser tido como piedoso e não como cruel: apesar disso, deve cuidar de empregar conve- nientemente essa piedade. César Bórgia era considerado cruel, e, contudo, sua crueldade havia reerguido a Romanha e conse- guido uni-la e conduzi-la à paz e à fé. O que, bem considerado, mostrará que ele foi muito mais piedoso do que o povo florentino, o qual, para evitar a pecha de cruel, deixou que Pistóia fosse destruída?2º. Não deve, portanto, importar ao príncipe a qualifica- ção de cruel para manter os seus súditos unidos e com fé, porque, com raras exceções, é ele mais

Florença fomentava a discórdia entre as

facções rivais de Pistóia (Panciatichi e Cancel- leri). Em 1502, uma série de motins determi-

nou a ocupação da cidade pelo governo florentino.

piedoso do que aqueles que por muita clemência deixam aconte- cer desordens, das quais podem nascer assassínios ou rapinagem. É que estas consequências preju- dicam todo um povo, as execu- ções que provêm do príncipe ofendem apenas um indivíduo. E, entre todos os príncipes; os novos são os que menos podem fugir à fama de cruéis, pois os Estados novos são cheios de perigo. Diz Virgílio, pela boca de Dido:

Res dura, et regni novitas me talia cogunt Moliri, et late fines custode tueri? 1.

Não deve ser, portanto, cré- dulo o principe, nem precipitado, e não deve amedrontar-se a si próprio, e proceder equilibrada- mente, com prudência e humani- dade, de modo que a confiança

21 “A dura condição das coisas e o fato mesmo de ser recente o meu reinado obrigam- me ao rigor e a fortificar as fronteiras.”

76 | MAQUIAVEL

demasiada não o torne incauto e a desconfiança excessiva não Oo faça intolerável.

Nasce dai esta questão debati-

da: se será melhor ser amado que

temido ou vice-versa. Respon- der-se-à que se desejaria ser uma e outra coisa; mas como é dificil reunir ao mesmo tempo as quali- dades que dão aqueles resultados, é muito mais seguro ser temido que amado, quando se tenha que falhar numa das duas. É que os homens geralmente são ingratos, volúveis, simuladores, covardes e ambiciosos de dinheiro, e, en- quanto lhes fizeres bem, todos estão contigo, oferecem-te san- gue, bens, vida, filhos, como disse acima, desde que a necessi- dade esteja longe de ti. Mas, quando ela se avizinha, voltam-se para outra parte. E o príncipe, se confiou plenamente em palavras e não tomou outras precauções, estã arruinado. Pois as amizades conquistadas por interesse, e.não por grandeza e nobreza de cará- ter, são compradas, mas não se pode contar com elas no momen- to necessário. E os homens hesi- tam menos em ofender aos que se fazem amar do que aos que se fazem temer, porque o amor é mantido por um vínculo de obri- gação, o qual, devido a serem os homens pérfidos, é rompido sem- pre que lhes aprouver, ao passo

que o temor que se infunde é ali- mentado pelo receio de castigo, que é um sentimento que não se abandona nunca. Deve, portanto, o príncipe fazer-se temer de ma- neira que, se não se fizer amado, pelo menos evite o ódio, pois é fácil ser ao mesmo tempo temido e não odiado, o que sucederá uma vez que se abstenha de se apoderar dos bens e das mulheres dos seus cidadãos e dos seus sú- ditos, e, mesmo sendo obrigado a derramar o sangue de alguém, poderá fazê-lo quando houver Justificativa conveniente e causa manifesta. Deve, sobretudo, abs- ter-se de se aproveitar dos bens dos outros, porque os homens esquecem mais depressa a morte do pai do que a perda de seu - patrimônio. Além disso, não fal- tam nunca ocasiões para pilhar o que é dos outros, e aquele que co- meça a viver de rapinagem sem- pre as encontra, o que não su- cede quanto às ocasiões de derramar sangue.

Mas quando o principe está em campanha e tem sob seu comando grande cópia de solda- dos, então é absolutamente ne- cessário não se importar com a fama de cruel, porque, sem ela, não se conseguirá nunca manter um exército unido e disposto a qualquer ação. Entre as admirá- veis ações de Aníbal, enumera-se

O PRÍNCIPE 77

esta: tendo um exército muito

numeroso, composto de homens de todas as idades e nacionali- dades, e militando em terras alheias, não surgiu nunca desin- teligência alguma no seu seio, nem com relação ao príncipe, tanto nos bons como nos tempos adversos. Isso não se pode atri- buir senão à sua desumana cruel- dade, a qual, juntamente com infinitas virtudes, o tornou sem- pre venerando e terrível no con- ceito de seus soldados. E estas virtudes, por si sós, não basta- riam para produzir aquele efeito, se não fora aquela desumana crueldade. E entre escritores pouco comedidos, alguns se con- tentam com admirar e louvar esta sua qualidade, outros atribuem a ela todos os triunfos que conquis- tou. E para provar que as outras virtudes, por si sós, não basta- riam, pode-se tomar como exem- plo Cipião, homem excepcional, não somente nos seus tempos, mas também na memória dos fatos que a história conserva, cujos exércitos se revoltaram quando na Espanha; e este fato tem a explicação na sua dema- siada bondade, que havia conce- dido aos soldados mais liberdade

- Outros.

do que a que convinha à disci- plina militar. Foi, por isso, ad- moestado severamente no Senado

por Fábio! Máximo, que O cha-.

mou “dê “corruptor da milícia romana. Os locrenses, tendo sido barbaramente abatidos por um legado de Cipião, não foram vin- gados pelo chefe romano, nem a insolência daquele legado foi cas- tigada, fatos esses que nasciam do caráter bondoso de Cipião. E, querendo alguém desculpá-lo no Senado, disse haver muitos ho- mens que sabiam mais não errar do que corrigir os erros dos Esse traço de caráter teria, côm o tempo, destruído a fama e a glória de Cipião se ele tivesse continuado no comando, mas, vivendo sob a direção do Senado, esta sua qualidade preju- dicial não somente foi anulada, mas se lhe tornou benéfica.

Concluo, pois (voltando ao assunto sobre se é melhor ser te- mido ou amado), que um prin- cipe sábio, amando os homens como eles querem e sendo por eles temido como ele quer, deve basear-se sobre o que é seu e não sobre o que é dos outros. Enfim, deve somente procurar evitar ser odiado, como foi dito.

CapítruLo XVIII

De que forma os principes devem guardar a

Quanto seja louvável a um

principe. manter a e viver com -

integridade, não com astúcia, todos o compreendem; contudo, observa-se, pela experiência, em nossos tempos, que houve prínci- pes que fizeram grandes coisas, mas em pouca conta tiveram a palavra dada, e souberam, pela astúcia, transtornar a cabeça dos homens, superando, enfim, os que foram leais.

Deveis saber, portanto, que existem duas formas de se com- bater: uma, pelas leis, outra, pela força. A primeira é própria do homem; a segunda, dos animais. Como, porém, muitas vezes a pri- meira não seja suficiente, é preci- so recorrer à segunda. Ao prin- cipe torna-se necessário, porém, saber empregar conveniente- mente o animal e o homem. Isto foi ensinado à socapa aos prínci- pes, pelos antigos escritores, que

relatam o que aconteceu com Aquiles e outros .príncipes anti- gos, entregues aos cuidados do centauro Quiron, que os educou. É que isso (ter um preceptor me- tade animal e metade homem) significã que o príncipe sabe empregar uma e outra natureza. E uma sem a outra é a origem da instabilidade. Sendo, portanto, um príncipe obrigado a bem ser- vir-se da natureza da besta, deve dela tirar as qualidades da raposa e do leão, pois este não tem defe- sa alguma contra os laços, e a raposa, contra os lobos. Precisa, pois, ser raposa para conhecer os laços e leão para aterrorizar os lobos. Os que se fizerem unica- mente de leóes não serão bem sucedidos. Por isso, um príncipe prudente não pode nem deve guardar a palavra dada quando isso se lhe torne prejudicial e quando as causas que o determi-

80 dae MAQUIAVEL

naram cessem de existir. Se os homens todos fossem bons, este preceito seria mau. Mas, dado que são pérfidos e que não a observariam a teu respeito, tam- bém não és obrigado a cumpri-la para com eles. Jamais faltaram aos principes razões para dissi- mular quebra da jurada. Disto poder-se-iam dar inúmeros exem- plos modernos, mostrando quan- tas convenções e quantas pro- messas se tornaram irritas e vas pela infidelidade dos príncipes. E, dentre estes, o que melhor soube valer-se das qualidades da raposa saiu-se melhor. Mas é necessário disfarçar muito bem esta quali dade e ser bom simulador e dissi- mulador. E tão simples são os homens, e obedecem tanto às necessidades presentes, que aque- le que engana sempre encontrará quem se deixe enganar. Não quero deixar de falar pelo menos de um dos exemplos novos. Ale- xandre VI não pensou e não fez outra coisa Senão enganar os homens, terído sempre encon- trado ocasião para assim proce- der. Jamais existiu homem que possuísse maior segurança em asseverar, e que afirmasse com Juramentos mais solenes o que, depois, não observaria. No en- tanto, os enganos sempre lhe cor- reram à medida dos seus desejos,

pois ele conhecia muito bem este lado da natureza humana??2. , Contudo, o príncipe não preci- sa possuir todas as qualidades acima citadas, bastando que apa- rente possuí-las. Antes, teria eu a audácia de afirmar que, possuin- do-as e usando-as todas, essas qualidades seriam prejudiciais, ao passo que, aparentando pos- suí-las, são benéficas; por exem- plo: de um lado, parecer ser efeti- vamente piedoso, fiel, humano, integro, religioso, e de outro, ter o ânimo de, sendo obrigado pelas circunstâncias a não o ser, tor- nar-se o contrário. E de se entender o seguinte: que um priín- cipe, e especialmente um príncipe novo, não pode observar todas as

Coisas a que são obrigados os ho-

mens considerados bons, sendo frequentemente forçado, para manter O governo, a agir contra a caridade, a fé, a humanidade, a religião. É necessário, por isso, que possua ânimo disposto a vol- tar-se para a direção a que os ventos e as variações da sorte o impelirem, e, como disse mais acima, não partir do bem, mas, podendo, saber entrar para o mal, se a isso estiver obrigado. O

22 Dizia-se de Alexandre VI que ele nunca fazia o que dizia, ao passo que César Bórgia nunca dizia O que ia fazer.

O PRÍNCIPE 81

príncipe deve, no entanto, ter muito cuidado em não deixar escapar da boca expressões que não revelem as cinco qualidades acima mencionadas, devendo aparentar, à vista e ao ouvido, ser todo piedade, fé, integridade, hu- manidade, religião. Não quali- dade de que mais se careça do que esta última. É que os ho- mens, em geral, julgam mais pelos olhos do que pelas mãos, pois todos podem ver, mas pou- cos são os que sabem sentir. Todos vêem o que tu pareces, mas poucos o que és realmente, e estes poucos não têm a audácia de contrariar a opinião dos que têm por si a majestade do Estado. Nas ações de todos os homens, máxime dos príncipes, onde não tribunal para que recorrer, o

que importa é o êxito bom ou mau. Procure, pois, um príncipe, vencer e conservar o Estado. Os meios que empregar serão sem- pre Julgados honrosos e louvados por todos, porque o vulgo é leva- do pelas aparências e pelos resul- tados dos fatos consumados, e o mundo é constituído pelo vulgo, e não haverá lugar para a minoria se a maioria não tem onde se apoiar. Um príncipe de nossos tempos, cujo nome não convém declarar, prega incessantemente a paz e a fé, sendo, no entanto, ini- migo acérrimo de uma e de

outra?* E qualquêr delas, se ele

efetivamente a observasse, ter- lhe-ia arrebatado, mais de uma vez, a reputação ou o Estado.

23 Alusão a Fernando, o Católico.

CAPÍTULO XIX

De como se deve evitar o ser desprezado e odiado

Uma vez que me referi às mais importantes das qualidades acima mencionadas, das outras quero falar ligeiramente, de um modo geral. O príncipe procure evitar, como foi dito anterior- mente, o que o torne odioso ou desprezível e, sempre que assim agir, terá cumprido o seu dever não encontrará nenhum perigo nos outros defeitos. O que princi- palmente o torna odioso, como disse acima, é o ser rapace e usurpador dos bens e das mulhe- res dos seus súditos. Desde que não se tirem aos homens os bens e a honra, vivem estes satisfeitos e se deverá combater a ambi- ção de poucos, a qual se pode sofrear de muitos modos e com facilidade. Fá-lo desprezível o ser considerado volúvel, leviano, efe- minado, pusilânime, irresoluto. E essas são coisas que devem ser evitadas pelo príncipe como o

nauta evita um rochedo. Deve ele procurar que em suas ações se reconheça grandeza, coragem, gravidade e fortaleza, e quanto às ações privadas de seus súditos deve fazer com que à sua sen- tença seja irrevogável, conduzin- do-se de tal forma que a ninguém passe pela mente enganá-lo ou fazê-lo mudar de idéia.

O príncipe que conseguir for- mar tal opinião de si adquire grande reputação; e contra quem é reputado dificilmente se cons- pira e dificilmente é atacado enquanto for tido como excelente e reverenciado pelos seus. Um príncipe deve ter duas razões de receio: uma de ordem interna, por parte de seus súditos, outra de ordem externa, por parte dos poderosos de fora. Defender-se-á destes com boas armas e com bons aliados; e se tiver armas

“terá sempre bons amigos. As coi-

84 MAQUIAVEL

"sas internas, por sua vez, estarão sempre estabilizadas se estabili- zadas estiverem as de fora, salvo

se aquelas não estiverem per-

turbadas por uma conspiração. Mesmo quando as de fora se agi- tassem, se o príncipe tivesse agido e vivido como escrevi, e

não desalentasse, resistiria sem-

pre a qualquer ataque, como nar- rei acima, relativamênte ao es- partano Nábis. A respeito dos súditos, porém, quando as ques- tões externas estão em calma deve sempre recear que conspi- rem secretamente, perigo de que o príncipe-se afasta se não se tor- nou odiado ou desprezado, e se tiver feito com que o povo esteja satisfeito com ele: e isso é neces- sário conseguir pelas formas a que acima se fez.longa referência. Ora, um dos remédios mais efica- zes que um príncipe possui con- tra as conspirações é não se tor- nar odiado pela população, pois quem conspira julga sempre que vai satisfazer os desejos do povo com a morte principe; se jul- gar, porém, que com isso ofende- o povo, não terá coragem de tomar tal partido, porque as difi- culdades com que os conspira- dores teriam que lutar seriam infinitas. Vê-se, pela experiência, que muitas têm sido as conspira- ções, mas que poucas delas tive- ram êxito, pois quem conspira

não pode estar só, nem pode ter como companheiros senão aque- les que estiverem desgostosos. E logo que revelas as tuas intenções a um descontente, dar-lhe-ás mo- tivo de contentamento, pois ele pode esperar qualquer vantagem de traição do segredo, e de forma que, vendo deste lado ganhos certos, e, de outro, vendo dúvi- das e muitos perigos, somente um amigo, como raros, ou um inimi- go implacável do principe se conservará fiel à conspiração. Em suma, direi que, por parte do conspirador, não senão medo, inveja e a suspeita da punição, que o atormenta; por parte do principe existe a majestade do principado, as leis, a defesa dos amigos e do Estado, que o res- guardam: tanto que, acrescen- tando a tudo isso a estima popu- lar, é impossível que exista alguêm tão temerário que se aba- lance a conspirar. Ordinaria-. mente, o que um conspirador re- ceia antes de levar a efeito o mal deverá recear também depois, tendo o povo por inimigo, depois do fato consumado, e não poderá por isso esperar qualquer refúgio.

Poderia eu citar numerosos exemplos desta matéria: limitar- me-ei, porém, a um só, que nos foi legado pela recordação de nossos pais. Tendo sido assassi- nado pelos Canneschi o senhor

O PRÍNCIPE 85

de Bolonha, Messer Aníbal Ben- tivoglio, avó: do atual Messer Aníbal, não ficando da família senão Messer Giovanni, criança de colo, O povo, logo depois do homicídio, sublevou-se & matou todos os Canneschi. Isso foi devi- do à benevolência popular com a

qual a casa dos Bentivoglio con-

tava naquela época, benquerença essa tão grande que, não tendo restado em Bolonha um mem-

bro daquela família, que pudesse, .

morto Aníbal, governar o Esta- do, e havendo indício de que havia em Florença um jovem pertencente aquela família, e tido, até então, como filho de um fer- reiro, os bolonheses ali foram procurá-lo e lhe entregaram o governo da cidade, que foi gover- nada por ele até que Messer Gio-

vanni alcançasse idade suficiente

para reinar.

Concluo, portanto, afirmando que a um príncipe pouco devem importar as conspirações se é amado pelo povo, mas quando este é seu inimigo e o odeia, deve temer tudo e a todos. Os Estados bem organizados e os príncipes prudentes preocuparam-se sem- pre em não reduzir os grandes ao desespero e satisfázer e contentar o povo, porque essa é uma das

questões mais importantes que .

um principe deve ter em mente. Em nossos tempos, entre es rei-

nos bem organizados e governa- dos, deve-se enumerar o de Fran- ça. Encontram-se nele numerosas boas instituições, das quais de- pendem a liberdade e a segurança do rei. A primeira delas é o Par- lamento e a autoridade que pos- sui, pois o homem que organizou aquele reino, conhecendo, de um lado, a ambição e a insolência dos poderosos, e julgando neces- sário pór-lhes um freio à boca para corrigilos, e, de outro, conhecendo o ódio do povo con- tra os grandes, motivado pelo medo, e querendo protegê-los, não permitiu que essa tarefa ficasse a cargo do rei, para desculpá-lo da acusação dos grandes quando favorecesse o povo, e do povo quando favore- cesse os poderosos. Por isso constituiu um terceiro juízo que fosse aquele que, sem responsabi- lidade do rei, deprimisse os gran- des e favorecesse: os menores. Essa organização não podia ser melhor nem mais prudente, nem se pode negar que seja a melhor causa de segurança do rei e do reino. Pode-se daí tirar notável instituição; os príncipes devem encarregar a outrem da imposi- ção de penas; os atos de graça, pelo contrário, a eles mesmos, em pessoa, devem estar afetos. Concluo novamente que um prín- cipe deve estimar os grandes,

86 MAQUIAVEL

mas não se tornar odiado pelo povo.

Poderia parecer a muitos, con-

siderando-se a vida e morte de certos imperadores romanos, que constituíssem exemplos contrá- rios a esta minha opinião, sendo que alguns deles, apesar de terem vivido sempre exemplarmente e demonstrado possuir grandes vir- tudes, perderam o poder, ou foram mortos pelos seus, que contra ele conspiraram. Dese- jando responder a estas objeções, narrarei as causas da sua ruína, que são diferentes das que aduzi, procurando tomar particular- mente em consideração aquelas que parecem notáveis a quem as ações daqueles tempos. Bas- ta-me citar todos os imperadores que se sucederam no governo, desde o filósofo Marco Aurélio até Maximino, os quais foram Marco, seu filho Cômodo, Perti- nax, Juliano, Severo, o filho deste Antonino, Caracala, Macrino, Heliogábalo, Alexandre e Maxi- mino. - Deve-se primeiramente atentar em que, enquanto nos ou- tros principados é necessário lutar apenas contra a ambição dos grandes e a insolência do povo, os imperadores romanos ti- nham pela frente uma terceira dificuldade, que era a de ter que suportar a crueldade e a rapaci- dade dos soldados. Esta dificul-

dade era tão grande que se tor- nou a causa da ruína de muitos, pois é difícil satisfazer a um tempo aos soldados e ao povo, pois que este, amante da paz, amava, consequentemente, os principes modestos, e os soldados estimavam o príncipe que pos- suísse ânimo guerreiro e que fosse insolente, cruel e rapace. Queriam que ele usasse dessas qualidades contra o povo para

"poder ganhar soldo dobrado e

dar largas à sua rapacidade e crueldade. Isso fez com que os imperadores que, por natureza ou por habilidade, não tinham repu- tação suficiente para refrear os soldados nem o povo sempre se arruinassem. E a maior parte deles, especialmente os novos que conquistavam o principado, ao conhecerem a dificuldade desses dois elementos, procuravam sa- tisfazer aos soldados, não dando

- importância às ofensas ao povo;

era necessário tomar esse parti- do, pois, não -sendo possivel aos principes deixar de ser odiados por alguém, deviam eles esfor- çar-se antes de mais nada por não ser odiados pela maioria. E quando não o podem conseguir, devem procurar, com muita habi- lidade, fugir ao ódio das maiorias mais poderosas. Por isso; os imperadores que, por serem novos, precisavam de favores

O PRÍNCIPE 87

extraordinários, aderiram aos soldados antes de aderir ao povo, o que se lhes tornava útil ou não, conforme esse principe soubesse manter à reputação entre eles. Por estas causas referidas é que Marco, Pertinax e Alexandre, ho- mens de vida modesta, amantes da justiça, inimigos da crueldade, humanos e benignos, todos, com exceção de Marco, tiveram triste fim. este viveu e morreu honradíssimo porque chegou ao poder jure hereditario? * e não lhe era necessário fazer reconhecer o seu poder, nem pelo povo, nem pelos soldados. Ademais, sendo portador de muitas virtudes, que o tornavam venerando, enquanto viveu, sempre manteve a ambos, povo e exército, em ordem, nos seus justos termos, e nunca foi

odiado nem desprezado. Perti--

nax, porém, foi feito imperador contra a vontade dos soldados, os quais, tendo sido habituados a viver licenciosamente sob o do- mínio de Cômodo, não puderam suportar a vida honesta que Per- tinax tencionava impor-lhes. Por isso, tendo ele despertado ódio, e tendo-se ao ódio juntado o des- prezo, pelo fato de ser velho, Per- tinax arruinou-se logo nos princi- pios de sua administração. E é de notar-se aqui que o ódio se

24 Por direito hereditário.

adquire quer pelas boas, quer pelas más ações. Por isso, um

príncipe, querendo manter o Es-

tado como disse mais acima, é frequentemente obrigado a não ser bom, porque quando aquela maioria, povo, soldados ou gran- des que sejam, de que tu julgas ter necessidade para te manteres no poder, é corrompida, convém: que sigas o seu pendor para satis- fazê-la, e, nesse caso, as boas ações são prejudiciais. Mas fale- mos de Alexandre, que foi tão bondoso que entre os louvores que se lhe atribuem está o de não ter, durante os catorze anos que manteve o império, mandado . executar quem quer que fosse sem prévio julgamento. Apesar disso, sendo considerado efemi- nado e homem que se deixava dominar pela mãe e tendo por isso caído no desprezo, o exército conspirou e ele foi assassinado. Falando, agora, de outro lado, das qualidades de Cômodo, Seve- ro, Antonino, Caracala e Maxi- minó, vereis que foram extrema- mente cruéis e rapaces. Para satisfazer os soldados, não deixa- ram de cometer nenhuma daque- las injúrias que se pudessem cometer contra o povo, e todos, excetuando-se Severo, tiveram triste fim. É que Severo foi tão valoroso que, mantendo a amiza- de dos soldados, embora opri-

88 MAQUIAVEL

mindo o povo, pôde sempre rei- nar com felicidade, porque aquelas suas virtudes o tornavam tão admirável no conceito dos soldados e do povo, que este fica- va, de certa forma, atônito, e aqueles, reverentes e satisfeitos. Conhecendo Severo a ignávia do Imperador Juliano, persuadiu o exército, do qual era capitão na Ilíria, de que era oportuno ir a Roma, para vingar a morte de Pertinax, assassinado pelos pre- torianos, e, sob esse pretexto, sem aparentar que aspirava ao poder, conduziu o seu exército contra Roma, e chegou à Itália antes mesmo da notícia da sua partida. Chegado a Roma, foi ele, pela pressão do medo, eleito impera- dor pelo Senado, e assassinado Juliano. Depois disso, restavam ainda duas dificuldades a Severo para se assenhorear de todo o Estado: uma, na Ásia, onde Pes- cênio Negro, chefe dos exércitos “asiáticos, se proclamara impera-

dor; e outra no Ocidente, onde Albino também queria súbir ao império. E como julgasse peri-'

goso declarar-se inimigo dos dois, deliberou atacar Pescênio Negro e enganar Albino. A este escreveu que, tendo sido eleito imperador pelo Senado, queria “dividir com ele aquela honra; mandou-lhe o título de César e, por deliberação do Senado; tor-

nou-o seu colega. Albino julgou que tais coisas fossem verdade, mas Severo, depois de ter vencido e morto Pescênio Negro e pacifi- cado o Oriente, voltou a Roma e se queixou no Senado de que Albino, esquecido dos benefícios dele recebidos, tentara matá-lo traiçoeiramente e, por isso, era obrigado a ir punir a ingratidão. Depois, foi ao seu encontro, nas Gálias, e lhe tirou o governo e a vida. Quem examinar cuidadosa- mente as ações deste homem aca- bará por julgá-lo um ferocissimo leão e uma astutíssima raposa e verá que foi temido e reveren- ciado por todos e não odiado pelo exército, e não se admirará se ele homem novo pôde manter tão grande poder; é que a sua alta reputação o defendeu sempre daquele ódio que o povo lhe poderia ter votado, em virtu- de das suas rapinagens. E Anto- nino, seu filho, foi também homem que tinha excelente pro- ceder, que o tornava maravilhoso no conceito do povo e benquisto pelos soldados, porque era mili- tar, suportava otimamente qual- quer fadiga e desprezava os man- jares delicados e quaisquer outros elementos de conforto: isso era o suficiente para fazer

' Com que se tornasse estimado por

todos os exércitos. Não obstante, sua ferocidade e crueldade foram

| |

O PRÍNCIPE 89

tão grandes e inauditas, que man- dou matar grande número de particulares e assim sacrificou grande parte do povo de Roma e todo o de Alexandria, de tal modo que se tornou muitíssimo odiado por todos e começou a ser temido também por aqueles que com ele privaram e, afinal, foi assassnado por um centurião, em meio de seu exército. É de notar-se neste ponto que tais assassínios, deliberados por ho-

mens obstinados, são impossíveis

de evitar pelos príncipes, pois que todo aquele que não temer a morte poderá executá-los. Não deve, porém, o principe temori- “zar-se, porque são muito raros. Deve apenas guardar-se de não injuriar gravemente alguma das pessoas de que se serve e que ele tem junto a si, a serviço do seu principado, como fez' Antonino. Havia este assassinado indigna- mente um irmão daquele centu- rião, ainda ameaçava este todo dia; mas, apesar disso, conser- vou-o na.sua guarda, O que vinha a ser coisa-temerária e capaz de arruiná-lo, como aconteceu. Passemos agora a Cômodo, a quem teria sido fácil manter o poder, por tê-lo alcançado jure hereditário, sendo filho de

Marco, e lhe bastava apenas se- guir as pegadas do pai para con- tentar o exército e o povo. Mas,

como era de índole cruel e bes- tial, para poder usar da sua rapa- cidade contra o povo, pôs-se a favorecer os soldados e os tornou licenciosos; por outra parte, não se preocupando com a dignidade, descendo frequentemente às are- nas para combater com os gla- diadores e fazendo outras coisas vis, pouco dignas da majestade. imperial, tornou-se desprezível no conceito dos soldados. Ten- do-se tornado, dessa forma, odia- do por uns e desprezado por outros, conspirou-se contra ele e foi assassinado. Resta-nos narrar as qualidades de Maximino. Este foi homem extraordinariamente belicoso, e, estando os exércitos enfastiados com a passividade de Alexandre, de que falei acima, morto este, elegeram-no para o governo. Maximino, porém, não reinou por muito tempo, porque duas coisas o tornaram odiado e desprezado:. primeiro, ser de baixa extração, pois fora pas- tor na Trácia (fato que era conhe- cido por todos e o rebaixava muito no conceito de toda a gente); segundo, tendo, quando da sua elevação ao império, adia- do a sua ida a Roma para entrar na posse da dignidade imperial, dera de si fama de ser muito cruel, pois, por intermédio dos seus prefeitos, em Roma e em toda a parte, perpetrara numero-

90 MAQUIAVEL

sas perversidades. Assim, movi- do todo o mundo pelo desprezo de sua baixa ascendência e cheio de ódio pelo temor da sua feroci- dade, surgiram as conspirações. Revoltou-se primeiramente a África; depois, o Senado e todo o povo romano, e, mais tarde, toda a Itália esteve contra ele. Juntou- se a esse movimento o seu pró- prio exército, o qual estava em campanha, sitiando Aquiléia, e, tendo encontrado dificuldade para isso, enraivecido pela cruel- dade do príncipe, suprimiu-o, pois o viu cercado de inimigos não o temia.

Não quero falar de Heliogá- balo, nem de Macrino, nem de Juliano, os quais, por terem sido inteiramente menosprezados, ex- tinguiram-se logo; não quero falar destes, dizia, e sin passar à conclusão deste assunto. Assim, digo que os príncipes dos nossos tempos no seu governo não têm esta dificuldade de dar satisfa- ções exorbitantes aos soldados, pois, não obstante se deva ter para com aqueles certa conside- ração, rapidamente resolve-se a situação, por não ter nenhum desses príncipes um exército que se tenha desenvolvido com os governos e administrações das províncias, como era nos exérci- tos do Império: Romano. E, se naquela época era necessário sa-

tisfazer mais aos soldados do que ao povo, agora é mais necessário a todos os príncipes exceto ao grão-turco e ao sultão do Egito satisfazer mais ao povo do que ao exército, porque este é menos poderoso do que aquele. Excetuo o grão-turco pelo fato de conservar este em torno de si

doze mil infantes e quinze mil soldados de cavalaria, sendo que disso dependem a segurança e o poder do seu reino. É necessário,

portanto, que, em lugar de qual- quer outra consideração para com outrem, aquele seja amigo dos exércitos. A mesma coisa su- cede ao reino do sultão do Egito;

estando tudo nas mãos dos solda- dos, convém também a ele man- tê-los como seus amigos, sem se preocupar com o povo.

E deve-se notar que este reina- do do sultão é diferente de todos os outros principados porque é semelhante ao papado, o qual não se pode classificar nem como principado hereditário, nem como principado novo, posto que não são os filhos do príncipe an- tigo que se tornam herdeiros e ficam senhores, mas sim aqueles que são elevados a esse posto por aqueles que têm autoridade. E, como isso seja uma antiga imsti- tuição, não se pode chamar de principado novo; e também por-

!

O PRÍNCIPE 91

que naqueles não existem as difi- culdades existentes nestes, pois, embora o principe seja novo, a organização do Estado é velha. E os govêrnantes são obrigados a recebê-lo como se fossem senho- res hereditários.

Voltemos, porém, ao nosso assunto. Direi que quem conside- rar o que acima referi verá como o ódio ou o desprezo foram cau- sas da ruína dos imperadores mencionados e conhecerá tam- bém os motivos por que, parte daqueles procedendo de uma forma, e outros, de maneira con- trária, alguns deles terminaram bem e outros tiveram triste fim; e também por que a Pertinax e Ale- xandre, por serem principes

novos, foi inútil e danoso querer imitar Marco, que no principado estava jure hereditario. Igual- mente, por que a Caracala, Có- modo e Maximino foi pernicioso imitar a Severo, por não terem possuído tanta virtude que bas- tasse para que pudessem seguir- lhe o caminho. Um príncipe novo, num principado novo, não pode, portanto, imitar as ações de Marco, nem da mesma forma, é necessário imitar as de Severo. Deve, sim, aproveitar de Severo as qualidades que forem necessá- rias para fundar o seu Estado, e, de Marco, aproveitar as que sejam gloriosas e convenham para manter um Estado que es- teja estabelecido e firme.

CAPÍTULO XX

e

Se as fortalezas e muitas outras coisas que dia a dia são feitas pelo principe são úteis ou não

Alguns príncipes, para manter seguramente o Estado, desarma- ram os seus súditos, outros divi- diram as cidades conquistadas conservando facções para com- bater-se mutuamente, outros ali- mentaram inimizades contra si mesmos, outros dedicaram-se à conquista do apoio daqueles que lhes eram suspeitos no início de seu governo, alguns outros edifi- caram fortalezas, outros, ainda, as arruinaram. E, se bem que

todas estas coisas não se possam.

julgar em definitivo se não se examinarem as particularidades dos Estados onde se tivesse que tomar qualquer destas delibera- ções, falarei contudo de um ponto de vista' geral, compatível com a própria matéria.

Nunca um príncipe novo de- sarmou os seus súditos, antes, sempre que os encontrou desar- mados, armou-os. Essas armas

ficarão tuas e se tornarão fiéis aqueles que te eram suspeitos, . mantêm-se fiéis aqueles que o eram, e de súditos se trans- formam em teus auxiliares. E como não se pode armar a todos os súditos, uma vez que benefi- cies aqueles a quem armas, podes

“agir mais seguramente com rela-

ção aos outros. A diferença de tratamento para com aqueles obriga-os para contigo, os ou- tros desculpar-te-ão julgando ne- cessário que maior recompensa tenham os que estão expostos a maiores perigos e estão mais liga- dos a ti por efeito mesmo dessas obrigações.

Desarmando-os, principias por ofendê-los, mostrando que duvi- das deles, seja porque és covarde, seja porque não confias neles. Qualquer destas opiniões criará ódio contra ti. E como não podes ficar desarmado, convém que te

94 | MAQUIAVEL

voltes para a milícia mercenária, cujas qualidades acima referi. Mesmo que fosse boa, não pode ter tanta força suficiente para te defender dos inimigos poderosos, e dos súditos suspeitos. Como disse, um novo príncipe, num principado novo, sempre organi- zou a força armada. Destes exemplos a história está cheia. Mas quando um príncipe con- quista um novo Estado que seja anexado aos domínios, então é necessário desarmar aquele Esta- do, exceto aqueles que tenham colaborado contigo para que o conquistasses, e mesmo a estes é necessário, com o tempo, tornar apáticos e amolecidos, de modo que todas as armas desse Estado estejam com teus próprios solda- dos, que viviam junto de ti no Es- tado antigo.

Os nossos antepassados e aqueles que eram tidos como pru- dentes, costumavam dizer que Pistóia tinha de ser mantida pela divisão dos partidos, e Pisa pelas fortalezas, e assim agiam de maneira diversa nas cidades con- quistadas para poder conservá- las mais facilmente. Essa era a política mais sábia provavel- mente, naqueles tempos em que a Itália estava de certo modo equi- librada, mas não creio que possa servir hoje como preceito; não acredito que as divisões trouxes-

sem qualquer bem; antes, pelo

- contrário, acontece que, quando

o inimigo se avizinha, as cidades divididas perdem-se logo, porque a parte mais fraca aderirá às for- ças externas e a outra não se poderá manter. Os venezianos, obedecendo, como creio, as ra- zoes mencionadas, costumavam fomentar as facções guelfas e gibelinas nas cidades que esta- vam sob o seu domínio. E, se bem que não os deixassem chegar atê à luta, alimentavam essas discordâncias, para que, ocupa- dos os cidadãos naquelas suas diferenças, não se unissem contra eles. Isso, como se viu, não lhes deu bons resultados, porque, tendo os venezianos sido desba- ratados em Vailáã, algumas da- quelas cidades tomaram ânimo e lhes arrebataram todos os territó- rios. Tal política revela, portanto, fraqueza do principe, porque num principado poderoso jamais se permitirão semelhantes divi- soes; elas são proveitosas apenas nos tempos de paz, podendo-se mediante esse sistema governar os súditos mais facilmente. Em vindo a guerra, porém, percebe-se a sua falácia. Os príncipes se tor- nam grandes, sem dúvida, quan- do superam as dificuldades e a oposição que se lhes movem. Assim, a fortuna, máxime quan-

do quer engrandecer a um novo !

O PRÍNCIPE 95

príncipe, o qual tem mais necessi- dade de conquistar reputação do que um hereditário, suscita-lhe inimigos que o guerrejam a fim de que tenha ele a oportunidade de vencê-los e subir mais, valen- do-se daquela escada que os pró- prios inimigos lhe estendem. Muitos julgam, por isso, que um príncipe sábio, quando tiver oca- sião, deve fomentar com astúcia certas inimizades contra ele mesmo, a fim de que pela vitória sobre os inimigos mais se possa engrandecer. Os príncipes, e prin- cipalmente os recentes, têm en- contrado mais e maiores utili- dades nos homens que no início do seu governo lhes eram suspei- tos, do que naqueles que, naquela ocasião, lhes haviam inspirado confiança. Pandolfo Petrucci, se- nhor de Siena, dirigia o Estado mais com o auxílio daqueles de quem suspeitara do que daqueles em que tivera confiança. Mas de tal matéria não é possível estabe- lecer regras gerais, pois variam muito as circunstâncias de cada caso. Direi apenas que os ho- mens que foram hostis à funda- ção de um novo governo, para manter-se, carecem eles mesmos de apoio, e o príncipe sempre poderá conquistá-los com grande facilidade. Eles, por sua vez, são forçados a servilo com tanto maior lealdade quanto reconhe-

çam a necessidade de anular, pelas ações, aquela péssima opi-, nião que tinha o príncipe a seu respeito. Assim, a este aproveil- tam mais os serviços dos antigos adversários do que os daqueles que, por ter demasiada seguran- ça, negligenciam os interesses do príncipe.

Agora, como a matéria mesma o proporciona, não quero deixar de lembrar aos príncipes que te- nham tomado recentemente a direção de um Estado, mediante o favor da população, que consi- derem bem que razão os terá le- vado a favorecê-los: e se ela não for afeição natural para com eles, e sim o descontentamento cóm o antigo governo, ao principe muito dificilmente será possível conservar a amizade daqueles, pois será impossivel satisfazê-los. E considerando bem, com os exemplos que das coisas anti-. gas e modernas, relativamente à razão deste fato, ver-se-á que ao principe é muito mais fácil con- quistar a amizade daqueles ho- mens que estavam contentes com o regime antigo, sendo, portanto, seus inimigos, do que a daqueles que, por descontentes, fizeram-se seus amigos €e aliados, ajudando- o na conquista do Estado.

Tem sido hábito dos príncipes, para poder manter mais segura- mente o seu Estado, edificar for-

96 MAQUIAVEL

talezas que sejam o bridão e o freio dos que tivessem a intenção de atacá-lo, e possuir um refúgio seguro no caso de sofrer um ata- que inesperado. Louvo este modo de agir, porque é usado desde os tempos remotos; apesar disso, Messer Niccolo Vitell, em nos- sos tempos, viu-se na contin- gência de destruir duas fortalezas na Cidade do Castelo para poder manter aquele Estado. Guido Ubaldo, duque de Urbino, recon- quistando o seu domínio, de onde fora expulso por César Bórgia, destruiu, desde os alicerces, todas as fortificações daquela provin- cia, e julgou que sem elas seria mais difícil perder o Estado no- vamente. Os Bentivoglio, regres- sando a Bolonha, tiveram o mesmo procedimento. As fortale- zas, portanto, são úteis ou não segundo as circunstâncias, e se fazem bem, por um lado, arruí- nam-te por outro. Pode-se expli- car este fato da seguinte maneira: o príncipe que tiver mais medo do seu povo do que dos estran- geiros deve construir fortifica- ções, mas aquele que tiver mais temor dos estranhos do que do povo não deve preocupar-se com isso. O castelo de Milão, - edifi- cado por Francesco Sforza, foi e será maior motivo de perturba- ções para a casa dos Sforza do

que outra coisa naquele Estado. Mas ainda a melhor fortaleza que possa existir é o não ser odiado pelo povo, pois que, se tiveres fortificações e fores odiado por ele, elas não poderão salvar-te, pois não faltam nunca aos povos rebelados principes estrangeiros que desejem ajudá-los. Em nos- sos tempos, observa-se que as fortalezas não deram proveito a nenhum principe, a não ser à Condessa de Forli, quando mor- reu o Conde Girolamo?*º, seu esposo, porque graças às fortale- zas ê que pôde escapar à fúria popular e esperar socorros de Milão, conservando assim o seu Estado. E a época era tal que os de fora não podiam socorrer o povo. Sem embargo, também à Condessa de Forh as fortalezas pouco adiantaram, quando César Bórgia lhe assaltou o Estado e o povo, inimigo daquela, formou ao lado do conquistador. Portan- to, quer nessa ocasião, quer antes, teria sido mais seguro para ela não ser odiada pelo povo do que possuir fortalezas. Conside- rando-se, pois, todas estas coisas, louvarei os que construírem for- talezas e também os que não as construírem, e lamentarei aqueles

25 Ver no índice dos nomes citados o nome Senhora de Forli

O PRÍNCIPE 97

que, fiando-se em tais meios de o fato de serem odiados pelo defesa, não se preocuparem com povo.

“CAPÍTULO XXI

O que a um principe convém realizar para ser estimado

Nada faz estimar tanto um principe como os grandes em- preendimentos e o dar de si raros exemplos. “Temos, nos nossos tempos, Fernando de Aragão, atualmente rei de Espanha. A “este príncipe pode-se chamar quase que de novo, porque de um rei fraco se tornou, pela fama .e pela glória, o primeiro rei cristão; e se considerardes as suas ações, vereis que são todas altíssimas, havendo algumas extraordi- nárias. No começo de seu reina- do, assaltou Granada, e esse empreendimento constituiu a base de seu Estado. Primeiro, agiu despreocupadamente e com a certeza de que não seria impe- dido: os barões de Castela, com a atenção presa na guerra referida, não cogitavam de fazer inova- ções. Fernando conquistava, então, naquele meio, reputação e autoridade sobre eles, que disso

não se apercebiam. Com dinheiro da Igreja e do povo, pôde manter exércitos e, por uma longa guer- ra, assentar as bases do seu pró- prio renome como militar. Além

“disso, para poder lançar-se em

maiores empresas, servindo-se sempre da religião, dedicou-se a uma piedosa crueldade expul- sando e livrando seu reino dos marranos, exemplo extremo de piedade. Sob essa mesma capa de religião, assaltou a África; levou a efeito a expedição da Itália; mais tarde, assaltou a França, e assim sempre fez e urdiu grandes coisas, que mantiveram sempre em suspenso e cheios de admira- ção os ânimos de seus súditos, empolgados pela espera do suces- so final desses feitos. E nasceram estas suas ações de tal modo que, entre uma e outra, nunca deu tempo aos homens de poder agir contra ele. É ainda muito conve-

100 MAQUIAVEL

niente a “um principe dar raros exemplos quanto ao seu governo (semelhante aqueles que se nar- ram de Messer Bernabo de Milão); quando alguém tenha realizado qualquer coisa de ex- traordinário, de bem ou de mal na vida civil, para premiá-lo ou punilo o príncipe deve agir de modo tal que margem a largos comentários. E, sobretudo, deve um príncipe trabalhar no sentido de, em cada ação, conquistar fama de grande homem. É ainda estimado um príncipe quando sabe ser verdadeiro amigo e ver- dadeiro inimigo, isto é, quando, sem qualquer preocupação, age abertamente em favor de alguém contra um terceiro. Esse partido será sempre mais útil do que o conservar-se neutro, porque se dois poderosos vizinhos teus se puserem a brigar, ou são de qua- lidade que, vencendo um deles, tenhas que temer o vencedor, ou não. Em qualquer caso ser-te-á sempre mais útil descobrir-te e fazer guerra de fato, porque no - primeiro caso, se não te descobri- res, serás sempre presa de quem vencer, com grande prazer da- quele que foi vencido, e não tens razão nem coisa alguma em tua defesa, nem quem te acolha. Quem vence não quer amigos suspeitos e que não ajudem nas adversidades; quem perde não te

aceitará porque não quiseste, de armas na mão, correr a mesma sorte. Foi Antíoco para a Grécia a chamado dos etólios para ex- pulsar. os romanos. Antioco en- viou embaixadores aos aqueus, que eram aliados dos romanos, para concitá-los a se manterem neutros; por outro lado, os roma- nos tratavam de persuadi-los para que tomassem armas contra aquele. Esta matéria veio a discu- tir-se no concílio dos aqueus, onde o delegado de Antíoco tra- tava de fazer com que se manti- vessem neutros, ao que o dele- gado dos romanos respondeu: Quod autem isti dicunt non inter- ponendi vos bello, nihil magis alienum rebus vestris est; sine gratia, sine dignitate, praemium victoris eritis2 8”. E acontecerá sempre que aquele que não é teu amigo pedir-te-à que sejas neutro e aquele que é teu amigo pedirá que tomes de armas abertamente. E os príncipes irresolutos, para se afastarem destes perigos, seguem, as mais das vezes, aquela linha neutra, e quase sempre são mal sucedidos. Mas quando corajosa- mente tomas partido franco por um dos contendores, se aquele com quem te ligaste vencer,

28 “Quanto à opinião de que não deveis inter- vir na guerra, nada é mais nocivo aos vossos próprios interesses, pois sem compensação e ingloriamente. sereis presa do vencedor.”

O PRÍNCIPE

ainda que seja poderoso e que fi- ques à sua mercê, terá ele obriga- ções para contigo e é compelido a ter amizade por ti; e os homens não são nunca tão maus que queiram oprimir a quem devem ser gratos. Ademais, as vitórias não são nunca tão completas que o vencedor não tenha que levar em conta outras considerações, principalmente de justiça.

Mas, se aquele a quem ajudas perder, serás socorrido por, ele quando puder, e, nesse caso, fica- rás ligado a uma fortuna que pode ressurgir. No segundo caso, quando os combatentes são tais que não tenhas de te arrecear da vitória de qualquer, a tua aliança com um deles é tanto mais pru- dente quanto assim provocarás a ruína de um com o auxílio de quem o deveria salvar, se fosse sábio, e vencendo tu, o teu aliado ficará à tua discrição é impos- sivel que não vença com a tua ajuda.

Note-se agora que um príncipe

deve ter o cuidado de nao fazer

aliança com um que seja mais poderoso, senão quando a neces- sidade o compelir, como se expôs acima, pois que, vencendo, ficará prisioneiro do aliado; e os prínci- pes devem evitar o mais que pos- sam a situação de estar à mercê de outrem. Os venezianos alia- ram-se à França contra o duque

101

de Milão, e podiam deixar de efe- tuar tal união; e desse fato resul- tou a ruína deles. Mas quando não se pode deixar de fazer alian- ça, como aconteceu com os flo- rentinos quando o papa e a Espa- nha foram assaltar a Lombardia pelas armas, então o príncipe deve aderir, pelas razões acima. Não pense nunca nenhum gover- no poder tomar decisões absolu- tamente certas; pense antes em ter que tomá-las sempre incertas, pois isto está na ordem das coi- sas, que nunca deixa, quando se procura evitar algum inconve- niente, de incorrer em outro. A prudência está justamente em saber conhecer a natureza dos inconvenientes e adotar o menos prejudicial como sendo bom. Deve ainda um principe mos- trar-se amante .das virtudes e honrar os que se revelam grandes numa arte qualquer. Além disso, deve animar os seus cidadãos a exercer livremente as suas ativi- dades, no comércio, na agricul- tura e em qualquer outro terreno,

de modo que o agricultor não

deixe de enriquecer as suas pro-

priedades pelo temor de que lhe sejam arrebatadas e o comer- ciante não deixe de desenvolver o seu negócio por medo de impos- tos. Pelo contrário, deve instituir prêmios para os que quiserem

102 MAQUIAVEL

realizar tais coisas e para todos os que, por qualquer maneira, pensarem em ampliar a sua cida- de ou o seu Estado. Além disso, deve, nas épocas propícias do ano, proporcionar ao povo festas e espetáculos. E como todas as cidades estão divididas em artes

ou corporações de ofício, deve ocupar-se muito destas, indo ao seu encontro algumas vezes: dar provas de afabilidade e munifi- cência, mantendo sempre inte- gral, contudo, a majestade da sua dignidade, a qual não deve faltar em nada.

CapítruLO XXII

Dos ministros dos principes

Não é de pequena importância para um principe a escolha dos seus ministros, os quais são bons ou não segundo a prudência daquele. E a primeira conjetura que se faz, a respeito das qualida- des de inteligência de um priínci- pe, repousa na observação dos

homens que ele tem ao seu redor.

Quando estes são competentes e fiéis, pode-se reputá-lo sábio, porque soube reconhecer as qua- lidades daqueles e mantê-los fiéis. Mas quando não são assim, po- de-se ajuizar sempre mal do senhor, porque o primeiro erro que cometeu está nessa escolha. Não houve ninguém que, conhe- cendo a Messer Antônio da Ve- nafro como ministro de Pandolfo Petrucci, senhor de Siena, não Julgasse a este um homem de muito valor pelo fato de ter esco- lhido Venafro para seu ministro. E como três espécies de cabe- ças uma, que entende as coi-

sas por si mesma, outra que sabe discernir o que os outros enten- dem, e, finalmente, uma que não entende nem por si nem sabe ajuizar do trabalho dos outros (a primeira é excelente, a segunda muito boa e a terceira inútil) —, estavam todos de acordo, neces- sariamente, que,.se Pandolfo não estava no primeiro caso, estava pelo menos no segundo. Umia vez que se tem capacidade para co- nhecer o bem e o mal que outrem diga ou pratique, ainda que não tenha iniciativa própria, reconhe- cem-se as boas e más qualidades do ministro, exaltando as primet- ras e corrigindo as segundas. O ministro, assim, não pode ter esperança de enganar o principe e se conserva bom.

Mas, para que um príncipe possa conhecer bem o ministro, este modo que não falha nunca: quando vires que o minis- tro pensa mais em si próprio do

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que em ti, e que em todas as suas ações procura tirar proveito pes- soal, podes ter a certeza de que ele não é bom, e nunca poderás fiar-te nele; e aquele que tem em mãos os negócios de Estado não deve pensar nunca em si próprio, mas sempre no príncipe, e nunca “lembrar-lhe coisas que estejam fora da esfera do Estado.

Por outra parte, o principe, para assegurar-se do ministro, deve pensar nele, honrando-o,

fazendo-o rico, obrigando-o para consigo, fazendo-o participar de honrarias e cargos, de modo que as muitas honrarias não lhe façam desejar outras, as muitas riquezas não lhe façam desejar maiores, os muitos cargos não lhe façam temer mutações. Quan- do, pois, os ministros, e os prínci- pes com relação a estes, são assim, podem confiar uns nos outros; de outra forma, o fim será sempre mau para uns e outros.

CAPÍTULO XXI

De como se devem evitar os aduladores

Não quero deixar de tratar de um capítulo importante sobre um erro do qual os principes com

dificuldade se defendem, se não.

são muito prudentes ou não fazem boa escolha. Refiro-me aos aduladores de que as cortes estão cheias; porque os homens se comprazem tanto nas coisas próprias e de tal modo se enga- nam nestas, que é com dificul- dade que se defendem dessa peste; querendo-se evitá-la, o perigo de se ser desconsiderado, pois não outro modo de guar- dar-se da adulação, senão fazer com que os homens entendam não fazer-te ofensa por dizer a verdade;, mas, quando todos podem dizer-te a verdade, faltar- te-ão ao respeito. Um principe prudente deve, portanto, condu- zir-se de uma terceira maneira, escolhendo no seu Estado ho- mens sábios, e a estes deve dar o direito de falar-lhe a verdade a

respeito, porém, apenas das coi- sas que ele lhes perguntar. Deve consultá-los a respeito de tudo e ouvir-lhes a opinião e deliberar depois como bem entender e com conselhos daqueles, conduzir-se de tal modo que eles percebam que com quanto mais liberdade falarem, mais facilmente as suas opiniões serão seguidas. Proce- dendo doutro modo, o principe ou é precipitado pelos aduladores ou varia muitas vezes de parecer; daí se origina a falta de confian- ça. Quero, a este propósito, adu- zir um exemplo modemo: o Bispo Lucas, homem de Maximi- liano, o atual imperador, falando de Sua Majestade, disse que este não se aconselhava com pessoa alguma, mas também nunca se fiava unicamente no seu próprio juízo; isso se explica: pelo fato de

ele não seguir nunca o conselho

acima, pois o imperador, sendo homem discreto, não comunica

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os seus desígnios a ninguém a ninguém pede parecer. Mas, na ocasião de pôr em prática as suas decisões, os desígnios começam a ser conhecidos e manifestos, e, pois, a ser contraditos pelos que lhe estão em torno, e compreen- de-se então facilmente que o imperador se afasta do que tenha resolvido. Daí resulta que as coi- sas que faz num dia destrói no outro, e que não se saiba nunca o que ele quer, e ninguém pode pre- ver as suas deliberações.

Um príncipe deve, portanto, aconselhar-se sempre, mas quan- do ele entender e não quando os outros quiserem; antes, deve tirar a vontade a todos de aconselhar alguma coisa sem que ele solicite. Todavia, deve perguntar muito e ouvir pacientemente a verdade acerca das coisas perguntadas. Até, achando que alguém, por qualquer temor, não lhe diga a verdade, não deve o principe dei- xar de mostrar o seu desprazer. Muitos entendem que os princi- pes que granjearam fama de pru- dentes devem-no não à sua natu-

MAQUIAVEL

reza, mas aos bons conselhos dos que lhes estão ao redor. É; um erro manifesto, porque é regra geral, que não falha nunca: um principe que não seja prudente por si mesmo não pode ser bem aconselhado, se por acaso não acatar o juizo de um só, muito sábio, que entenda de tudo. Este caso podia acontecer, mas dura- ria pouco; porque aquele que governasse de fato em breve tempo lhe tomaria o Estado. Mas aconselhando-se com mais de um, um principe que não seja sábio não terá nunca unidade de conselhos e nem saberá por si mesmo harmonizá-los. Cada um dos conselheiros pensará como quiser e ele não saberá corrigi-los nem ajuizar a respeito. E não pode ser de outra maneira, pois os homens sair-te-ão sempre maus, se por necessidade não se fizerem bons. O que se conclui daí é que os bons conselhos, de onde quer que provenham, nas- cem da prudência do príncipe e não a prudência do príncipe dos bons conselhos.

CAPÍTULO XXIV

Por que os príncipes de Itália perderam seus Estados

Se forem observadas prudente- mente as coisas referidas, o prin- cipe novo parecerá de ascen- dência antiga e se tornará assim mais seguro e firme no Estado, do que se ele de fato estivesse muito tempo. Um principe recente é muito mais vigiado em suas ações do que um hereditá- rio, e quando essas ações revelam virtude, atraem muito mais aos homens e os obrigam muito mais do que a antiguidade do sangue. É que os homens são muito mais sujeitos às coisas presentes do que às passadas e, quando encon- tram o bem naquelas, alegram-se e nada mais procuram, antes, tomarão a defesa do príncipe se este não falhar nas outras coisas às suas promessas. E ele dessa forma terá a dupla glória de ter fundado um principado novo e de o ter ornado e fortalecido com

boas leis, boas armas e bons

exemplos, assim como um antigo principe terá a dupla vergonha, por ter, nascendo príncipe, perdi- do o Estado pela sua pouca prudência.

E, se se considerarem aqueles senhores que, em nossos tempos,

na Itália, perderam seus Estados, como o rei de Nápoles, duque de Milão e outros, encontrar-se-ã

neles, primeiro, um defeito comum quanto às armas, pelas razões mencionadas; depois se verá que alguns deles ou foram hostilizados pelo povo ou, no caso contrário, não souberam neutralizar os grandes, porque sem estes defeitos não se perdem Estados tão fortes que possam pôr um exército em campo.

Filipe da Macedônia, não o pai de Alexandre, mas o que foi vencido por Tito Quinto, não tinha domínios muito extensos,

108 MAQUIAVEL

em comparação à grandeza dos romanos e da Grécia, que o assaltaram: apesar disso, por ser um bom militar e homem que sabia não se tornar malquisto do povo e assegurar-se dos podero- sos, fez a guerra muitos anos contra aqueles, e se, afinal, per- deu algumas cidades, ficou-lhe contudo o reino.

Assim, esses nossos príncipes que possuíram, por muitos anos, seus principados, para depois perdê-los, não acusem a sorte, mas sim a sua própria ignávia: porque não tendo nunca nas boas épocas pensado em que os tem- pos poderiam mudar (e é comum nos homens não se preocupar, na bonança, com as tempestades),

quando vieram tempos adversos, pensaram em fugir e não em defender-se e esperaram qué as populações fatigadas da inso- lência dos vencedores os chamas- sem novamente. Esse recurso é bom, mas quando os outros fa- lham; é bem mau, porém, deixar os outros remédios em troca desse.

Não desejarias cair por cre- res que encontrarias quem te

levantasse. Isso ou não acontece,

ou, se acontecer, não te dará segurança, porque é fraco meio de defesa o que não depende de ti. E somente são bons, certos e duradouros os meios de defesa que dependem de ti mesmo e do teu valor.

CAPÍTULO XXV

De quanto pode a fortuna nas coisas humanas e de que modo se deve resistir-lhe

Não me é desconhecido que muitos têm tido e têm a opinião de que as coisas do mundo são governadas pela fortuna é por

Deus, de sorte que a prudência '

dos homens não pode corrigi-las, e mesmo não lhes traz remédio algum. Por isso, poder-se-ia jul- gar que não deve alguém incomo- dar-se muito com elas, mas dei- xar-se governar pela sorte. Esta opinião é grandemente aceita nos nossos tempos pela grande varia- ção das coisas, o que se todo dia, fora de toda conjetura huma- na. Às vezes, pensando nisso, me tenho inclinado a aceitá-la. Não obstante, e porque o nosso livre arbítrio não desapareça, penso poder ser verdade que a fortuna seja árbitra de metade de nossas ações, mas que, ainda assim, ela nos deixe governar quase a outra metade. Comparo-a a um desses rios impetuosos que, quando se

encolerizam, alagam as planícies, destroem as àrvores, os edifícios, arrastam montes de terra de um lugar para outro: tudo foge dian- te dele, tudo cede ao seu ímpeto, sem poder obstar-lhe e, se bem que as coisas se passem assim, não é menos verdade que os homens, quando volta a calma, podem fazer reparos e barragens, de modo que, em outra cheia, aqueles rios correrão por um canal e o seu ímpeto não será tão livre nem tão danoso. Do mesmo modo acontece com a fortuna; o seu poder é manifesto onde não existe resistência organizada, di- rigindo ela a sua violência para onde não se fizeram diques e reparos para contê-la.

E, se considerardes a Itália, que é a sede e a origem destas revoluções, vereis que é ela como uma região sem diques e sem nenhuma barreira; e que, se fos-

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se convenientemente protegida como a Alemanha, a Espanha e a França, ou as cheias não causa- riam as variações que há, ou mesmo não se teriam verificado. E com isso creio ter dito bastante acerca dos obstáculos que se podem opor à sorte, em geral. Mas, restringindo-me aos casos particulares, digo que se hoje o sucesso de um príncipe e amanhã a sua ruína, sem ter ha- vido mudança na sua natureza, nem em algumas das suas quali- dades. Creio que a razão disso, conforme o que se disse anterior- mente, é que, quando um principe se apóia totalmente na fortuna, arruína-se segundo as variações daquela. Também julgo feliz aquele que combina o seu modo de proceder com as particulari- dades dos tempos, e infeliz o que faz discordar dos tempos a sua maneira de proceder. Em relação aos caminhos que os levam à finalidade que procuram, isto é, glória e riquezas, costumam os homens proceder de modos diver- sos: um com circunspecção, outro com impetuosidade, um pela violência, outro pela astúcia, um com paciência, outro com a qualidade contrária, e cada um por estes diversos modos pode alcançar aqueles objetivos. Vê-se que, de dois indivíduos cautelo- sos, um chega ao seu desígnio e

MAQUIAVEL

outro não, e do mesmo modo, dois igualmente felizes, com dois modos diversos de agir, são um circunspecto e outro impetuoso, o que resulta apenas da natureza particular da época, e com a qual se conforma ou não o seu proce- dimento. Assim, como disse, dois agindo diferentemente alcançam o mesmo efeito, e dois agindo igualmente, um vai direto ao fim e o outro não. Disso dependem também as diferenças da prospe- ridade, pois se um se conduz com cautela e paciência e os tempos e as coisas lhe são favoráveis, o seu governo prospera e disso lhe advém felicidade. Mas se os tem- pos e as coisas mudam, ele se arruíina, porque não alterou o modo de proceder. Não se encon- tra homem tão prudente que saiba acomodar-se a isso, quer por não se poder desviar daquilo a que a natureza o impele, quer porque, tendo alguém prosperado num caminho, não pode resig- nar-se a abandoná-lo. Ora, o homem circunspecto, quando chega a ocasião de ser impetuo- so, não o sabe ser, e por isso se arruina, porque, se mudasse de natureza, conforme o tempo e as coisas, não mudaria de sorte. O Papa Júlio II procedeu em todas as coisas impetuosamente, e' en- controu tanto o tempo como as coisas conformes aquele seu

O PRÍNCIPE

modo de proceder, de forma que sempre alcançou êxito. Conside- rai a primeira expedição que rea- lizou em Bolonha quando ainda vivia Messer Giovanni Bentivo- glio. Os venezianos estavam con- tra o papa; o rei de Espanha, também. Enquanto ainda discu- tia com a França a respeito da expedição, começou a executá-la, pessoalmente, com violência e impetuosidade.

Essa atitude fez com que se mantivessem inativos a Espanha e OS venezianos: estes, por medo, e aquela pelo desejo de recuperar todo o reino de Nápoles. De outro lado, fez-se seguir pelo rei de França, porque, tendo visto que ele começara a mover-se e desejando conservar a sua amiza- de para humilhar os venezianos, julgou não poder negar-lhe a sua gente sem com isso cometer uma injúria manifesta. Júlio realizou, portanto, com sua atitude impe- tuosa o que nenhum outro pontt- fice, com toda a humana prudên- cia, poderia realizar, pois se, para partir de Roma, esperasse ter todos os planos assentados e tudo organizado, como qualquer outro pontífice teria feito, jamais teria conseguido o que conseguiu,

AA

porque o rei de França teria: arranjado mil desculpas, e os ou- tros lhe teriam infundido mil receios. Não quero falar das ou-

tras suas ações, todas iguais e todas felizes. A brevidade do seu reinado não lhe fez experimentar reveses; se chegasse o tempo de proceder com circunspecção, ter-se-ia verificado a sua ruína, pois que ele nunca se desviaria do rumo para o qual o impelia sua natureza. Concluo, portanto, por dizer que, modificando-se a sorte, e mantendo os homens, obstinadamente, o seu modo de agir, são felizes enquanto esse modo de agir e as particulari- dades dos tempos concordarem. Não concordando, são infelizes. Estou convencido de que é me- lhor ser impetuoso do que cir- cunspecto, porque a sorte é mu- lher e, para dominá-la, é preciso bater-lhe e contrariá-la. E é geral- mente reconhecido que ela se deixa dominar mais por estes do que por aqueles que procedem friamente. A sorte, como mulher, é sempre amiga dos jovens, por- que são menos circunspectos, mais ferozes e com maior audá- cia a dominam.

CarpíTULO XXVI

Exortação ao príncipe para livrar a Itália das mãos dos bárbaros

Consideradas, pois, todas as coisas acima referidas, e pen- sando comigo mesmo se, na Itá- «lia, os tempos presentes poderiam prometer honras a um príncipe novo e se havia matéria que desse, a um que fosse prudente e valoroso, oportunidade de intro- duzir uma nova ordem que lhe trouxesse fama e prosperidade para O povo, pareceu-me que tantas coisas favoráveis a um principe novo que não sei de época mais propícia para a reali- zação daqueles propósitos. E como disse ter sido necessário, para que se conhecesse a virtude de Moisés, que o povo de Israel estivesse escravizado no Egito; para que se conhecesse a gran- deza de alma de Ciro, que os per- sas estivessem oprimidos pelos medas; e para se conhecer' o valor de Teseu, que os atenienses estivessem dispersos assim, presentemente, querendo-se co-

nhecer o valor de um príncipe ita- liano, seria necessário que a Itá- lia chegasse ao ponto em que se encontra agora. Que estivesse mais escravizada do que os he- breus, mais oprimida do que os persas, mais desunida que os atenienses, sem chefe, sem ordem, batida, espoliada, lacera- da, invadida, e que houvesse, enfim, suportado toda sorte de calamidades. E, se bem que te- nham surgido, até aqui, certas providências por parte de al- guém, que se teria podido julgar fossem inspiradas por Deus, para a redenção do país, viu-se depois como, no mais alto curso de suas ações, foi abandonado pela fortu- na? ”?. Assim, tendo ficado como sem vida, espera a Itália aquele que lhe possa curar as feridas e ponha fim ao saque da Lombar- dia, aos tributos do reino de Ná-

27 Provavelmente, alusão a César Bórgia.

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poles e da Toscana, e que cure as suas chagas muito tempo apodrecidas. Vê-se que ela roga a Deus envie alguém que a redima dessas crueldades e insolências dos estrangeiros. Vê-se, ainda, que se acha pronta e disposta a seguir uma bandeira, uma vez que haja quem a levante. E não se vê, atualmente, em quem ela possa esperar mais do que na vossa ilustre casa, a qual, com a fortuna e valor, favorecida por Deus e pela Igreja a cuja fren- te estã agora —, poderá consti- tuir-se cabeça desta redenção. Isso não será muito dificil se vos voltardes ao exame das ações e vida daqueles de quem acima se fez menção. E se bem que aqueles homens tenham sido raros e maravilhosos, foram, todavia, homens, e as ocasiões que tive- ram todos eles foram menos favoráveis do que a: pre- sente: porque os seus empreendi- mentos não foram mais úteis do que estes nem mais fáceis, nem Deus foi mais amigo deles do que vosso. É muito justa esta minha asserção: “Justum enim est bel- lum quibus necessarium, et pia arma ubi nulla nisi armis spes est?8”. Aqui tudo estã disposto favoravelmente; e onde isto se

28 “Justa, na verdade, é a guerra, quando necessária, e piedosas as armas quando nas armas reside a esperança.”

MAQUIAVEL

nota, não pode existir grande difi- culdade para quem se dispuser a agir como aqueles a que propus como exemplo. Além disso, vêem-se aqui extraordinárias ações de Deus, como ainda não se teve exemplo: o mar se abriu, uma nuvem revelou o caminho, da pedra brotou água, aqui cho- veu o maná; tudo concorreu para a vossa grandeza. O que resta a fazer é tarefa que a vós compete. Deus não quer fazer tudo, para não nos tolher o livre arbítrio e parte da glória que nos cabe. E não é motivo para maravilhar-se se algum dos mencionados ita- lianos não pôde fazer aquilo que se pode esperar da vossa ilustre casa e se, em tantas revoluções da Itália, em tantos trabalhos de guerra, parecer sempre que a vir- tude militar se tenha extinguido no país. A razão disso está em que -as antigas instituições políti- cas não eram boas e não houve ninguém que tivesse sabido ar- ranjar outras; e nuica coisa nenhuma deu tanta honra a um governante novo como as novas leis e regulamentos que elabo- rasse. Quando estes são bem fun- dados e encerram grandeza, fazem com que ele seja reveren- ciado e admirado: e na Itália não faltam motivos para a realização desse trabalho.

Aqui existe bastante valor no

O PRÍNCIPE 115

povo, embora faltem chefes. Ob- servai, nos duelos e nos torneios, quanto os italianos são superio- res em força, destreza e inteli- gência. Mas tratando-se de exér- citos, essas qualidades não chegam a revelar-se. E tudo pro- vém da fraqueza dos chefes, pois aqueles que sabem não são obe- decidos, e todos pensam saber muito, não tendo aparecido até agora nenhum cujo valor ou for- tuna seja de tanto realce que

obrigue os outros a abrir-lhe,

caminho. É por isso que em tanto tempo, em tantas guerras que se fizeram nestes últimos vinte anos, todo exército exclusivamente ita- liano sempre se saiu mal. É o que atestam Taro, depois Alexandria, Câápua, Gênova, Vailá, Bolonha, Mestre.

Querendo, pois, a vossa ilustre casa seguir o exemplo daqueles grandes homens e redimir suas províncias, é necessário, antes de mais nada, como verdadeira base de qualquer empreendimento, prover-se de tropas próprias, por- que não existem outras mais fiéis nem melhores. E embora cada soldado possa ser bom, todos Juntos tornar-se-ão melhores anda, quando se virem coman- dados pelo seu príncipe e por ele honrados e bem tratados. É ne- cessário, pois, preparar essas armas, para se poder defender

dos estrangeiros com a própria bravura italiana. E apesar de serem consideradas formidáveis as infantarias suíças e espanho- las, ambas têm defeitos, de modo que uma terceira potência que se criasse poderia não somente opor-se mas ter confiança na vitória. Os espanhóis não podem fazer frente à cavalaria e os sui- ços deverão ter medo das forças de infantaria quando as encon- trarem tão obstinadas, tão fortes quanto eles nos combates. se viu e de se ver ainda que os espanhóis não podem fazer face a uma cavalaria francesa e os sul-, ços ser derrotados pela infantaria espanhola. E se bem que deste úl-

“timo caso não se tenha tido

exemplo direto, teve-se uma amostra na jornada de Ravena, quando a infantaria espanhola enfrentou a alema, que usa a mesma tática da suíça: os espa- nhóis, valendo-se da sua agilida- de, e com o auxílio dos seus escu- detes, haviam-se posto debaixo das lanças dos alemães e estavam certos de vencê-los, sem que estes pudessem ter salvação. E se não fosse o auxilio da cavalaria, todos eles teriam sido chacina- dos, efetivamente. Pode-se, por- tanto, conhecendo os defeitos destas duas espécies de infanta- ria, Organizar uma terceira que resista à cavalaria e não tema a

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sua igual. E disso resultará a for- mação de uma geração de guer- reiros e a mudança de métodos. E são essas coisas que, reorgani- zadas, dão reputação e grandeza a um príncipe novo.

Não se deve, portanto, deixar passar-esta ocasião a fim de fazer com que a Itália, depois de tanto tempo, encontre um redentor. Não tenho palavras para expri- mir o amor e entusiasmo com que seria ele recebido em todas as províncias que sofreram ata- ques e invasões estrangeiras, nem com que sede de vingança, com que obstinada, com que pieda- de, com que lágrimas. Que portas se lhe fechariam? Que povos lhe negariam obediência? Que inveja se lhe oporia? Qual italiano seria

MAQUIAVEL

capaz de lhe negar o seu favor? estã fedendo, para todos, este domínio de bárbaros. Tome, pois, a vossa ilustre casa esta tarefa com aquele ânimo e com aquela com que se esposam as boas causas, a fim de que, sob o seu

brasão, esta pátria seja enobre-

cida, e sob os seus auspícios se verifique aquele dito de Petrarca:

Virtu contro a furore Prendera l'arme; e fia il com- [batter corto; Ché lantico valore Nelli italici cor non é ancor [morto?º.

29 “A virtude tomará armas contra o furor e será breve o combate, pois o antigo valor ainda não está morto nos corações italianos.”

APENDICE

Carta de Maquiavel a Francesco Vettori

Magnifico oratori Florentino Francesco Vettori apud Summum Pontificem et benefactori suo.

Magnífico embaixador. Tardas jamais foram as graças divinas. Digo isto porque me parecia não ter perdido, mas enfraquecido a vossa graça, tendo estado vós tanto tempo sem escrever-me, e eu estava em dúvida de onde pudesse vir a razão. E a todas as que me vinham à mente dava eu pouca importância, salvo àquela por que duvidava não houvésseis deixado de escrever-me, porque vos houvesse sido escrito que eu não fosse bom conservador de vossas cartas; e eu sabia que, Filippo e Pagolo exclusive, ou- tros por mim não as haviam

Ao magnífico orador e particular benfeitor Florentino Francisco Vettori, Embaixador Junto ao Sumo Pontífice. Roma. (N. do E.)

Romae?º.

visto. Tive pela última vossa de | 23 do mês passado, pelo que fico contentissimo por ver quão orde- nada e sossegadamente desempe- nhais este ofício público e ani- mo-vos a continuardes assim, porque quem deixa seus cômodos pelos dos outros perde os seus, e daqueles não recebe satisfação. E como a fortuna ordena todas as coisas, é preciso deixá-la fazer, deixar-se ficar e não lhe opor embaraço, e esperar o tempo em que ela consinta aos homens fazer qualquer coisa, e então vos ficará bem trabalhar mais, desve- lar-se mais pelas coisas, e a mim partir da cidade e dizer eis-me aqui. Não posso, portanto, dese- Jando render-vos iguais graças, dizer-vos nesta carta outra coisa

118 que não seja a minha vida, e se julgardes que deva trocá-la pela vossa, ficarei contente em mudá- la.

Permaneço na vila, e como seguiram aqueles meus últimos casos, não estive, para ajuntá-los todos, mais de vinte dias em Flo- rença. Tenho, até agora, apa- nhado tordos a mão; levantava- me antes do dia, trabalhava a paina, afastava-me com um feixe de gaiolas sobre mim, que pare- cia o Geta quando ele voltava do porto com os livros de Anfitrião; apanhava pelo menos dois, no máximo seis tordos. E assim esti- ve todo o mês de setembro; de- pois este entretenimento, ainda que desprezível e estranho, fal- tou, com desgosto meu, e dir- vos-ei qual seja minha vida. Le- vanto-me de manhã com o sol vou para um bosque meu onde mando fazer lenha, e ali fico duas horas a inspecionar as obras da véspera, e a passar o tempo com os lenhadores, que têm sempre aborrecimento à mão ou entre si ou com os vizinhos. E a respeito deste bosque eu vos teria a dizer mil belas coisas que me acontece- ram, com Frosino da Panzano e com outros que queriam destas madeiras. E especialmente Frosi- no, que mandou buscar certas quantidades sem dizer-me nada, e ao pagamento queria reter dez

MAQUIAVEL

liras, que dizia tinha a haver de mim faz quatro anos, que me ga- nhou no jogo de cricca em casa de Antônio Guicciardini. Come- cei a fazer o diabo, querendo acu- sar de ladrão o carroceiro, que ali fora mandado por ele, tandem Giovanni Machiavelli entrou no meio, e nos pôs de acordo. Bat- tista Guicciardini, Filippo Gino- rio, Tommaso del Bene e certos outros cidadãos, quando aquela ventania soprava, cada um me encomendou uma medida. Pro- meti a todos e mandei uma a Tommaso, a qual voltou a Flo- rença pela metade, porque para medir havia ele, a mulher, a cria- da, os filhos, que parecia o Gab- bura quando na quinta-feira com seus rapazes bate num boi. De maneira que, visto em quem esta- va o lucro, disse aos outros que não tenho mais madeira; e todos disso fizeram questão impor- tante, e especialmente Battista, que enumera esta entre as outras desgraças de Prato. |

Saindo do bosque vou à fonte, e daqui à caçada; tenho um livro comigo, ou Dante ou Petrarca, Ou um destes poetas menores, como Tibulo, Ovídio e semelhan- tes: leio aquelas suas amorosas paixões e aqueles seus amores, lembro-me dos meus, comprazo- me neste pensamento. Vou depois à hospedaria, à beira da estrada,

!

|

O PRÍNCIPE

falo aos que passam, pergunto pelas novas das suas terras, ouço uma porção de coisas, e noto os vários gostos e diversas fantasias dos homens. Chega enquanto isso a hora de jantar e, com a minha gente, como o que esta minha. pobre vila e fraco patri- mônio comportam. Terminada a refeição, volto à hospedaria onde está o estalajadeiro e, ordinaria- mente, encontro-me com um açougueiro, um moleiro, dois for- neiros. Com estes eu me entrete- nho o dia todo jogando cricca, tric-tac, e depois daí nascem mil contendas e infinitas insolências e injúrias e o mais dás vezes se disputa um quatitrino e somos ouvidos, não raro, a gritar, de San Casciano. Assim mergu- lhado nesta piolheira, estou com a cabeça mofada, desafogo a

malignidade do meu destino, e'

até me contentaria em que me encontrásseis nesta estrada, para ver se ele se envergonha. |

Chegando à noite, de volta a casa, entro no meu escritório: e na porta dispo as minhas roupas cotidianas, sujas de barro e de lama, e visto as roupas de corte ou de cerimônia, e, vestido decen- temente, penetro na antiga convi- vência dos grandes homens do passado; por eles acolhido com bondade, nutro-me daquele ali- mento que é o único que me é

119

apropriado e para Oo qual nasci. Não me envergonho de falar com eles, e lhes pergunto da razão das suas ações, e eles humanamente me respondem; e não sinto du- rante quatro horas aborrecimento algum, esqueço todos os desgos- tos, não temo a pobreza, não me perturba a morte: transfundo-me neles por completo. E, como disse Dante, não pode a ciência daquele que não guardou o que ouviu noto aquilo de que pela sua conversação fiz cabedal e compus um opúsculo, De princi- patibus, onde me aprofundo quanto posso nas cogitações deste tema, debatendo o que é principado, de que espécies são, como eles se conquistam, como eles se mantêm, por que eles se perdem; e se vos agradou alguma vez alguma fantasia minha, esta não vos deveria desagradar; e um principe, e máxime um principe novo, deveria recebê-lo com pra- zer; portanto eu o dedico à magnificência de Juliano. Filippo Casavecchia o viu; poder-vos-á

pôr a par em parte e da coisa em s1, e dos argumentos que tive que suprimir, se bem que ainda eu o aumente e corrija.

Vós desejaríeis, magnífico em- baixador, que eu deixasse esta vida e fosse gozar convosco a vossa. Eu o farei de qualquer

120 MAQUIAVEL

maneira, mas o que me tenta agora são meus negócios certos que dentro de seis semanas terei concluído. O que me deixa em dúvida é que estão aqueles Soderini, aos quais seria forçado, indo aí, a visitá-los e a falar-lhes. Duvidaria que ac meu regresso eu não me pudesse apear em casa, e descavalgasse no Bargel- lo, porque embora este Estado tenha fortissimas bases e grande segurança, tamen ele é novo, e por isto duvidoso, nem faltam sabichões que, para aparecer, como Pagolo Bertini, prejudica- riam a outros e me deixariam as preocupações. Rogo-vos que tranguilizeis este meu temor, e depois irei no tempo mencionado a visitar-vos de qualquer modo. Falei com Filippo sobre este meu opúsculo, se seria conve- niente dá-lo a público ou não; caso conviesse, se seria bom que eu o levasse ou que vó-lo man- dasse. Se o nao desse fazia-me duvidar de que, não Juliano não o lesse, mas também de que este Ardinghelli se fizesse as hon- ras deste meu último trabalho. Se

o desse me satisfaria a necessi- dade que me prende, porque eu me estou consumindo e não posso ficar assim por mais tempo sem me tornar desprezível por pobreza. Ainda desejaria muito que estes senhores Médicis come- çassem a lembrar-se de mim se tivessem que começar a fazer-me voltear uma pedra; porque, se de- pois não ganhasse o seu favor, eu mesmo me lamentaria, pois que quando lido o livro, ver-se-ia que quinze anos que estive em estudo da arte do Estado, não os dormi, nem brinquei; e deveria a cada um ser caro servir-se daquele que às custas de outros fosse cheio de experiência. E da minha não se deveria duvidar, porque tenho sempre observado a fé, não vou agora rompê-la; e quem foi fiel e bom quarenta e três anos, que eu tenho, não deve poder mudar sua natureza; e da minha e bonda- de é testemunho a minha pobre- za. |

Desejaria, portanto, que ainda me escrevêsseis aquilo que sobre esta matéria vos pareça, e a vós me recomendo. Sis felix.

Die 10 Decembris 1513.

NicoLau MAQUIAVEL em Florença.

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PARE

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CRITOS POLÍTICOS

DO MODO DE TRATAR OS POVOS DO VALE DO CHIANA REBELADOS

Nota do Tradutor

Maquiavel, na sua qualidade de Secretário dos Dez, fora mandado, em agosto de 1502, a Arezzo, logo depois da rebelião de que trata o escrito Del Modo di Trattare, etc., a fim de informar-se pessoalmente da situação e de prover à partida das tropas francesas com o auxílio das quais pudera Florença vencer os rebeldes. É nesse breve escrito, o qual Maquiavel supõe ser um discurso dirigido aos supremos magistrados da república, que o secretário florentino tenta, pela pri- meira vez, “erguer-se da prática da burocracia cotidiana às culminân- cias da ciência”. (P. Villari, Niccolô Machiavelli e suoi tempi, Milão, 4.º ed., I, pág. 346.)

Lucio Fúrio Camilo, depois de ter vencido os povos do Lácio, os quais mais de uma vez se ha- viam rebelado contra os roma- nos, regressando a Roma apre- sentou no Senado um projeto sobre o que se deveria fazer das terras e cidades dos latinos. As palavras que ele empregou e a sentença que o Senado deu é esta, quase ad verbum!, como a apre- senta Lívio: “Padres conscritos, aquilo que no Lâcio se deveria fazer com a guerra e com as armas, tudo por bondade dos deuses e pelo valor dos nossos soldados, teve o seu fim. Morre- ram em Peda e Astura os exérci- tos inimigos; todas as terras e cidades dos latinos, e Antium, ci- dade dos volscos, tomadas pela força ou por meio de pactos, guardam-se para vós. Resta-nos agora consultar (porque rebelan- do-se eles frequentemente nos põem em perigo) como devemos segurar-nos para o futuro: ou

Quase literalmente. (N. do E.)

tornando-nos cruéis para com eles, ou perdoando-lhes livre- mente. Deus vos fez todo-pode-: rosos para poder deliberar se se deve manter o Lácio ou não, ou poder perpetuamente dele vos assegurardes. Pensai, pois, se quereis acerbamente corrigir aqueles que vos foram dados; ou se quereis de todo arruinar o Lácio e fazer um deserto daquela região, de onde mais de uma vez tendes tirado exércitos auxiliares nos VOSSOS perigos; ou se quereis com o exemplo dos vossos maio- res aumentar a república romana, fazendo vir habitar em Roma aqueles que havieis vencido. E assim se vos apresenta oportuni- dade de aumentar gloriosamente a cidade: mas eu vos devo dizer isto: que aquele império é firmíssimo, que tem súditos fiéis e afeiçoados ao seu principe. Mas. aquilo que se deve deliberar deve ser deliberado logo, tendo vós tantos povos suspensos entre a esperança e o medo, os quais é preciso tirar desta ambiguidade,

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e preocupá-los com penas ou com prêmio. A minha tarefa foi agir de modo que isso esteja em vosso arbítrio: o que está feito. Em vós está agora o deliberar o que venha a ser cômodo e útil à república”. Os príncipes do Sena- do louvaram o relatório do côn- sul; mas havendo causa diversa nas cidades e terras rebeladas, disseram: que não se podia acon- selhar em geral, mas sim em par- ticular a respeito de cada uma. E tendo sido pelo cônsul proposta a causa de cada uma das cidades, foi deliberado pelos senadores que os lanúvios fossem cidadãos romanos e devolvidas a eles as coisas sagradas que lhes haviam sido tomadas na guerra. Torna- ram, da mesma forma, cidadãos romanos os aricinos, nomentanos e pedanos; aos tusculanos foram conservados os seus privilégios e a culpa de sua rebelião recaiu em poucos dos mais suspeitos. Mas os veliternos foram cruelmente castigados, por serem antigos cidadãos romanos e se haverem rebelado muitas vezes; assim foi destruída a cidade e mandou-se a todos os seus cidadãos que fos- sem habitar em Roma. Em An- tium, para assegurar-se dela, mandaram habitantes novos a seu propósito; tiraram-lhes todos os navios e proibiram-nos de construir outros.

MAQUIAVEL

Pode-se por esta deliberáção considerar como os romanos no julgamento destas suas cidades rebeladas pensaram que fosse preciso ou ganhar a sua con-

fiança pelos benefícios ou tratá-

los de modo a que jamais pudes- sem duvidar; e por isto julgaram danoso qualquer outro caminho que se tomasse. E voltando aque- le Julgamento, usaram eles dum e doutro termo; beneficiando aque- les de quem se podia esperar que fosse possível reconciliar; aque- loutros de quem nada se podia esperar, tratando de maneira que nunca, em tempo algum, pudes- sem incomodar. E quanto a esta última, os romanos tinham dois processos: um era o de arrasar as cidades e mandar os seus habi- tantes residir em Roma; o outro, ou afastar os cidadãos antigos e mandar novos habitantes; ou, deixando os antigos, colocar tan- tos novos, que aqueles nunca pudessem maquinar nem delibe- rar qualquer coisa contra o Sena- do. Estes dois modos de garan- tir-se usaram-nos ainda neste Julgamento, destruindo Velitrae e mandando novos habitantes a Antium. Ouvi dizer que a história é a mestra das nossas ações e má- ximas dos príncipes: e o mundo foi sempre, de certo modo, habi- tado por homens que têm tido sempre as mesmas paixões; e

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sempre existiu quem serve e quem manda, e quem serve de vontade e quem serve de bom grado, e quem se rebela e se rende.

Se alguém não acreditar nisso, que se mire em Arezzo, O ano passado, e em todas as cidades do vale do Chiana, que fazem coisa muito semelhante à que foi praticada pelos povos latinos. Ali se a rebelião e depois a rendi- ção, como aqui; ainda que no modo de rebelar-se e no de ren- der-se haja muitas diferenças: contudo são semelhantes a rebe- lião e a rendição. Portanto, se é verdade que a história ficaria a mestra das nossas ações, não é mal para quem devia punir e jul- gar as cidades do vale do Chiana tomar exemplo e imitar aqueles que foram donos do mundo; má- xime num caso em que eles vos ensinam justamente como vos de- veis conduzir para governar: por- que como eles fizeram Julga- mento diferente, por ser diferente o pecado daqueles povos, assim devíieis fazer vós, encontrando também nos vossos rebelados diferença de pecados. E se dissés- seis: “nós o fizemos”, não nega- ria no que se tivesse feito em parte, mas que se faltou no mais e no melhor. Eu julgo bem julga- do que em Cortona, Castiglione, Borgo, Foiano se hajam seguido

as lições, tenham elas sido adula- das e vos tenhais preocupado em reavê-las pelos benefícios; porque acho semelhança no caso daque- las cidades com os dos lanúvios, arícios, nomentanos, tusculanos e pedanos, os quais por parte dos romanos mereciam tal julga- mento. Mas eu não aprovo que os aretinos, semelhantes aos veliter- nos e anzianos, não tenham sido tratados como eles. E se a sen- tença dos romanos merece ser elogiada, tanto mais a vossa deve ser condenada. Antigamente, os romanos julgaram que os povos rebelados se devem ou beneficiar ou extinguir e que qualquer outro meio seja perigosissimo. A mim não parece que vós aos aretinos tenhais feito qualquer dessas co1- sas. Porque não constitui benefi- cio nenhum o fazê-los vir a Flo- rença, depois de lhes haver tomado as honras, vender as suas propriedades, falar mal deles pu- blicamente, ter mantido sob guar- da as suas casas. Não se chama garantir-se contra eles deixar de os muros da cidade, deixar que ali figuem os cinco sextos da antiga população; não lhes dar companhia de habitantes que os possam subjugar, e não os gover- nar de modo que, nos impedi- mentos e guerras que vos tiverem de ser movidas, não tenhais que contar com maior despesa em

a

Arezzo, que ao encontro de qual- quer inimigo que vos assaltar. A experiência se viu em 1498, quando Arezzo ainda não se havia rebelado nem vos havieis tornado tão cruéis com relação aquela cidade: nem mesmo vindo as forças dos venezianos em Bib- biena, vós terieis a empenhar em Arezzo, para tê-la quieta, as tro- pas do duque de Milão e a com- panhia do Conde Rinuccio. Disso, se vós não houvésseis duvidado, vos podteis servir em Casentino contra os inimigos; e não seria necessário tirar Paolo Vitelli de Pisa para mandá-lo a Casentino: o que, forçando-vos a desconfiar dos aretinos, vos fez levar muito mais perigo e muito maior despesa do que a que teríeis feito se eles vos tivessem permanecido fiéis. Assim, de acordo com aquilo que se viu então, aquilo que se viu depois, e o termo em que vós os trazeis, disso se pode fazer seguramente este juízo, que, se fósseis assalta- dos (do que Deus guarde), ou Arezzo se rebelaria, ou vos apre- sentaria tal impedimento para guardá-la, que a tornaria despesa insuportável para a cidade.

Se vós pudésseis, no presente, ser atacados ou não, e se quem tenha intenções Arezzo ou não, tendo eu a res- peito ouvido falar, não o quero

sobre

MAQUIAVEL

deixar para trás. E deixando de discorrer sobre aqueles temores que podeis ter dos principes ul- tramontanos, conversemos sobre o medo que nos está mais próxi- mo.

Quem observou o duque que ele, para manter os Estados - que tem, nunca pensou fazer base

sobre amizades italianas, tendo sempre estimado pouco os -vene- zianos, e a vós menos: o