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OS PENSADORES .

IV

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ARISTÓTELES

TOPICOS

DOS ARGUMENTOS SOFÍSTICOS

Tradução de LEONEL VALLANDRO e GERD BORNHEIM da versão inglesa de W. A. Pickard Cambridge

METAFÍSICA ( LIVRO le LIVRO II)

Tradução direta do grego por VINCENZO Cocco e notas de, JOAQUIM DE CARVALHO

ÉTICA A NICÔMACO

Tradução de LEONEL VALLANDRO e GERD BORNHEIM da versão inglesa de W. D. Rosá

POÉTICA

Tradução, comentários e índices analítico e onomástico de EUDORO DE SOUZA

ABAL Currurar

EDITOR: VICTOR CIVITA

Titulos originais: Tomuxá (Tópicos) Zoprorixol théyxo: (Dos Argumentos Sofísticos) verà Dvorxd (Metafísica) Hepl Honrucis (Poética) *Hvixá Nuouaxeta (Ética a Nicômaco) -

1.º edição Janeiro 1973

(o) Copyright desta edição, 1973,

ABRIL S/A CULTURAL E INDUSTRIAL, São Paulo.

Traduções publicadas sob licença de: Editora Globo S/A, Porto Alegre (Tópicos, Dos Argumentos Sofísticos, Ética a Nicômaco e Poética) e Editora Atlântica, Coimbra, Portugal (Metafísica Livros Ie II).

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SUMARIO

TOPICOS ..cicccscsecsesresaer ee renaerenaero Do e Ea Dos ARGUMENTOS SOFÍSTICOS ......ciiiciicciios EE A ás qr e ..: 159 METARÍSICA. CET RO SEO adorar ani, PRO ara O RAE DI pa RR Érica a NIGOMACO ........ DR Cb RR RR RARE DAS POETICA TRADUCÃO: na ai Abr oa a OR A cd tc O 443 COMENTARIO Ed EUDES de EN Rn AU RARO ta RR a RPE EUR PE vo SE DA EO ERES CER ; 473 IDG APARTE NES Rai ea RUPEES SRD DDS e EAD A RAR pt ao SOS INDICE DHOMASLICO 44025 duras ide Si to oe DR pagã PED a À RR cd BinLidiaR AP IA SR RO O OL RR RCE NRP A jo OND AGR O RE ER CR O Ps

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Nosso tratado se propõe encontrar um método de investigação graças ao qual possamos raciocinar, partindo de opiniões geralmente aceitas, sobre qualquer problema que nos seja pro- posto, e sejamos também capazes; quando replicamos a um argumento, de evitar dizer alguma coisa que nos cause embaraços. Em primeiro lugar, pois, devemos explicar o que é o racio- cinio e quais são as suas variedades, a fim de entender o raciocínio dialético: pois tal é o objeto de nossa pesquisa no tratado que temos diante de nós.

Ora, o raciocinio é um argumento em que, estabelecidas certas coisas, ou- tras coisas diferentes se deduzem ne- cessariamente das primeiras. (a) O raciocínio é uma “demonstração” quando as premissas das quais parte são verdadeiras e primeiras, ou quando o conhecimento que delas temos pro- vém originariamente de premissas pri- meiras e verdadeiras: e, por outro lado (b), o raciocínio é “dialético” quando parte de opiniões geralmente aceitas.

São “verdadeiras” e “primeiras” aque- las coisas nas quais acreditamos em

virtude de nenhuma outra coisa que não seja elas próprias; pois, no tocante aos primeiros princípios da ciência, é descabido buscar mais além o porquê e as razões dos mesmos; cada um dos primeiros princípios deve impor a con- vicção da sua verdade em si mesmo e por si mesmo. São, por outro lado, opi- niões “geralmente aceitas” aquelas que todo mundo admite, ou a maioria das

pessoas, ou os filósofos em outras palavras: todos, ou a maioria, ou os mais notáveis e eminentes.

O raciocínio (c) é “contencioso” ou “erístico” quando parte de opiniões que parecem ser geralmente aceitas, mas não o são realmente, ou, então, se apenas parece raciocinar a partir de opiniões que são ou parecem ser geral- mente aceitas. Pois nem toda opinião que parece ser geralmente aceita o é na realidade. Com efeito, em nenhuma das opiniões que chamamos geral- mente aceitas, a ilusão é claramente visível, como acontece com os princí- pios dos argumentos contenciosos, nos quais a natureza da falácia é de uma evidência imediata, e em geral atê mesmo para as pessoas de pouco entendimento. Assim, pois, dos argu- mentos erísticos que mencionamos, os primeiros merecem realmente ser cha- mados “raciocínios”, mas aos segun- dos devemos reservar o nome de “raciocínios erísticos” ou “contencio- sos”, e não simplesmente ““racioci- nios”, visto que parecem raciocinar, mas na realidade não o fazem.

Mais ainda (d): além de todos os raciocínios que mencionamos existem os paralogismos ou falsos raciocínios, que partem de premissas peculiares às ciências especiais, como acontece, por exemplo, na geometria e em suas ciên- cias irmãs. Com efeito, esta forma de raciocínio parece diferir das que indi- camos acima; o homem que traça uma figura falsa raciocina a partir de coisas que nem são primeiras e verdadeiras,

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nem tampouco geralmente aceitas.

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Com efeito, o modo de proceder desse homem não se ajusta à definição; ele não pressupõe opiniões. que sejam admitidas por todos, Ou pela maidria,

ou pelos filósofos isto é, por todos,:

pela maioria ou pelos mais eminentes -—, mas conduz o seu raciocínio com base em pressupostos que, embora apropriados à ciência em cáusa, não são verdadeiros; e seu paralogismo se fundamenta ou numa falsa descrição dos semicírculos, ou no traçado errô- neo de certas linhas.

Depois do que precede, devemos dizer para quantos e quais fins é útil este tratado. Esses fins são três: o ades- tramento do intelecto, as disputas casuais e as ciências filosóficas. Que ele é útil como forma de exercício ou adestramento, é evidente à primeira vista. A posse de um plano de investi- gação nos capacitará para argumentar mais facilmente sobre o tema proposto. Para as conversações é disputas ca- suais, é útil porque, depois de haver- mos considerado as opiniões defendi- das pela maioria das pessoas, nós as enfrentaremos não nos apoiando em convicções alheias, mas nas delas pró- prias, e abalando as bases de qualquer argumento que nos pareça mal formu- lado. Para o estudo das ciências filosó-

ficas é útil porque a capacidade de sus-

Estaremos em plena posse da manei- ra como dêvemos proceder quando nos encontrarmos numa posição seme- lhante à que ocupamos face a retórica, à medicina e outras ciências ou artes desse tipo: refiro-me à. capacidade de fazer o que nos propomos mediante o

O que precede deve entender-se

"como uma visão sinóptica das espécies

de raciocínio. De um modo geral, tanto no que se refere às que discutimos comio às que discutiremos mais tarde, podemos dizer que -as distinções ja fei- tab entre elas serão suficientes, pois não é nosso propósito dar a definição exata de cada uma delas. Desejamos apenas descrevê-las em linhas gerais, e cremos que, do ponto de vista do nosso

método de investigação, basta que pos-

samos reconhecer de algum modo cada uma delas.

citar dificuldades significativas sobre ambas as faces de um assunto nos per- mitirá detectar mais facilmente a ver- dade e o erro nos diversos pontos e questões: que surgirem. Tem ainda uti- lidade em relação às bases últimas dos princípios usados nas diversas ciên- cias, pois é completamente impossível discuti-los a partir dos princípios pecu- liares à ciência particular que temos diante de nós, visto que os princípios são anteriores a tudo mais; é à luz das opiniões geralmente aceitas sobre as questões particulares que eles devem ser discutidos, e essa tarefa compete propriamente, ou mais apropriada- mente, à dialética, pois esta é um pro- cesso de crítica onde se encontra o caminho que conduz aos princípios de todas as investigações.

uso dos materiais disponíveis. Pois o retórico não lançará mão de qualquer método para persuadir, nem o médico para curar; entretanto, se não omite nenhum dos meios disponíveis, dire-

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mos que o seu domínio da ciência é 10

adequado.

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Em primeiro lugar, pois, devemos ver de que partes consta a nossa inves- tigação. Se compreendêssemos (a) a respeito de quantas coisas e que espé- cie de coisas se argumenta, e de que materiais partem as argumentações, e (b) de que maneira poderémos estar bem supridos desses materiais, teria- mos alcançado suficientemente a nossa meta.

Pois bem: os materiais de que par- tem os argumentos são iguais em nú- mero e idênticos aos temas sobre os quais versam os raciocínios. Com efei- to, os argumentos partem de “proposi- ções”, enquanto os temas sobre os quais versam os raciocínios são “pro- blemas”?. Ora, toda proposição e todo problema indicam ou um gênero, ou uma peculiaridade, ou um acidente que também a diferença, aplicando- se como se aplica a uma classe (ou gê- nero), deve ser equiparada aqui ao gê- nero. Entretanto, como daquilo que é peculiar a uma coisa qualquer uma parte significa a sua essência e outra parte não, vamos dividir o “peculiar” nas duas partes mencionadas e chamar “definição” à que indica a essência, quanto ao restante adotaremos a termi- nologia geralmente usada a respeito

Devemos dizer agora o que sejam “definição”, “propriedade”, “gênero” e “acidente”. Uma definição é uma frase que significa a essência de uma coisa. Apresenta-se ou sob a forma de uma frase em lugar de um termo, ou de uma frase em lugar de outra frase; pois às vezes também é possível definir o significado de uma frase. Aqueles cuja

explicação consiste apenas num termo,

dessas coisas, referindo-nos a ele como uma “propriedade”. O que acabamos de dizer torna pois claro que, de acor- do com nossa presente divisão, os ele- mentos são quatro ao todo, a saber:

- definição, propriedade, gênero e aci-

dente.

Não suponha que com isto quei- ramos dizer que cada um desses ele- mentos enunciado isoladamente cons- titua por si mesmo uma proposição ou um problema, mas apenas que é deles que se formam tanto os problemas como as proposições. A diferença entreum problema e uma proposição é uma diferença na construção da frase. Porque, se nos expressarmos assim: “um animal que caminha com dois pés” é a definição do homem, não é?”, ou: animal” é o gênero do homem, não é?”, o resultado é uma proposição; mas se dissermos: “é “animal que caminha com dois pés” a definição do homem ou não é”, ou: “é “animal” o

seu gênero ou não?”, o resultado é um

problema. E do mesmo modo em todos os outros casos. Naturalmente, pois, os problemas e proposições são iguáis em número, pois de cada proposição pode- remos fazer um problema se mudar- mos a estrutura da frase.

por mais que façam, não conseguem dar a definição da coisa em apreço, porque uma definição é sempre um certo tipo de frase. Pode-se, contudo, aplicar o qualificativo “definitório” a uma observação como “o “decoroso” é

“belo” ”?, bem assim como à pergunta:

“são a mesma coisa ou coisas distintas o conhecimento e a sensação?”, pois os debates a respeito de definições se

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ocupam as mais das vezes com ques- tões de identidade e diferença. Em suma, podemos chamar “definitório” tudo aquilo que pertença ao mesmo ramo de pesquisa que as definições; e que todos os exemplos mencionados acima possuem esse caráter é evidente à primeira vista. Porque, se estamos em condições de afirmar que duas coi- sas são idênticas ou diferentes, esta- mos munidos, pela mesma forma de argumento, de linhas de ataque no que se refere às suas definições: com efeito, quando houvermos mostrado que elas não são idênticas, teremos demolido a definição. Note-se, porém, que o con- trário desta última afirmação não é vá- lido, porquanto mostrar que as coisas são idênticas não basta para estabe- lecer uma definição. Demonstrar, por outro lado, que não são idênticas é suficiente para lançã-la por terra.

Uma “propriedade” é um predicado que não indica a essência de uma coisa, e todavia pertence exclusiva- mente a ela e dela se predica de manei- ra conversível. Assim, é uma proprie- dade do homem o ser capaz de aprender gramática: porque, se A é um homem, é capaz de aprender gramá- tica, e, se é capaz de aprender gramã- tica, é um homem. Com efeito, nin- guém chama de “propriedade” uma coisa que pode pertencer a algo dife- rente, por exemplo, o “sono” no caso do homem, ainda que, em dado mo- mento, se possa predicar dele. Quer dizer, se a alguma coisa desse tipo se chamasse atualmente “propriedade”, ela não receberia tal nome em sentido absoluto, mas como uma propriedade “temporária” ou “relativa”, pois “estar ao lado direito” é uma propriedade temporária, enquanto “bipede” é, em suma, atribuído como propriedade em certas relações: constitui, por exemplo, uma propriedade do homem em rela- ção a um cavalo ou a um cão. É evi-

dente que nada que possa pertencer a alguma outra coisa que não seja A é um predicado conversível de A, pois do fato de alguma coisa estar adorme- cida não se segue necessariamente que seja um homem.

Um “gênero” é aquilo que se predi- ca, na categoria de essência, de várias coisas que apresentam diferenças espe- cíficas. Devemos tratar como predica- dos na categoria de. essência todas aquelas coisas que seria apropriado mencionar em resposta à pergunta: “que é o objeto que tens diante de ti?”; como por exemplo, no caso do homem, se nos fizessem tal pergunta, seria apropriado dizer “é um animal”. A pergunta: “uma coisa pertence ao mesmo gênero que outra ou a um gêne- ro diferente?” também é uma pergunta

“cenérica”, pois uma questão desse tipo também se inclui no mesmo ramo de investigação que o gênero: com efei- to, ao afirmar que “animal” é o gênero do homem assim como do boi, teremos afirmado que eles pertencem ao mesmo gênero; e se mostrarmos, ao contrário, que é o gênero de um, porém não do outro, teremos afirmado que essas coisas não pertencem ao mesmo gênero.

Um “acidente” é (1) alguma coisa que, não sendo nada do que precede isto é, nem uma definição, nem uma propriedade, nem um gênero —, per- tence, no entanto, à coisa; (2) algo que pode pertencer ou não pertencer a al- guma coisa, sem que por isso a coisa

deixe de ser ela mesma, como, por

exemplo, a “posição sentada” pode pertencer ou deixar de pertencer a uma coisa idêntica a si mesma. E do mesmo modo a “brancura”, pois nada impede que uma mesma coisa seja branca em dado momento e em outro momento

não o seja. Das definições de acidente,

a segunda é a melhor, pois todo aquele

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que adotar a primeira deverá saber de antemão, a fim de compreendê-la, o que sejam “definição”, “gênero” e “propriedade”, ao passo que a segunda é por si mesma suficiente para nos ins- truir sobre o significado essencial do termo em questão. À classe de “aci- dente” devem ser também referidas todas as comparações de coisas entre si, quando expressas numa linguagem que, de um modo qualquer, diga res- peito ao que “sucede” ser verdadeiro delas, como, por exemplo, a pergunta: “é preferível o honroso ou o vantajo- so?”, ou “é mais agradável a vida vir- tuosa ou a vida dos prazeres?”, e qual- quer outro problema que seja formulado em termos semelhantes.

Não deve escapar à nossa atenção que todas as observações críticas que se fizerem sobre uma “propriedade” “pênero” ou “acidente” serão também aplicáveis às “definições”. Pois, quan- do houvermos mostrado que o atributo em apreço não pertence unicamente ao termo definido, e do mesmo modo se se tratar de uma propriedade, ou que o gênero indicado na definição não é o

verdadeiro gênero, ou ainda que algu- :

ma das coisas mencionadas na frase não lhe pertencem, como também observariamos no caso de um aciderite, teremos demolido a definição; de modo que, para usar a expressão empregada anteriormente!, todos os pontos que-enumeramos poderiam, em certo sentido, ser chamados “definitó- rios”. Mas nem por isso devemos espe- rar encontrar um método único de

1 102a9.(N. de W. A. P.)

Pois em todos esses casos a questão é: “a qual dos dois sucede que o predi- cado em apreço se aplique mais estrei- tamente?” É evidente, desde logo, que nada impede que um acidente venha a ser uma propriedade temporária ou relativa. Assim, a posição sentada é um acidente, mas será uma proprie- dade temporária sempre que um homem seja a única pessoa sentada; e, embora ele não seja o único que esteja sentado, é ainda assim uma proprie-

dade relativamente aos que não estão.

Nada impede, por conseguinte, que um acidente se torne uma propriedade tanto relativa como temporária; porém jamais será uma propriedade no senti- do absoluto.

investigação que se aplique a todos eles; pois nad é coisa fácil de encon- trar, e, mesmo que o encontrássemos, seria algo extremamente obscuro e de pouca utilidade para o tratado que temos diante de nós. Devemos, pelo contrário, traçar um plano especial de investigação para cada uma das clas- ses que distinguimos, e então, firmados nas regras apropriadas a cada caso, será provavelmente mais fácil dar conta da tarefa que nos propusemos. E assim, como dissemos atrás2, devemos esboçar uma divisão do nosso assunto e relegar outras questões ao ramo par- ticular que mais naturalmente corres- ponda a cada uma delas, tratando-as como questões “definitórias” ou “gené- ricas”. As questões a que me refiro foram praticamente classificadas em seus diferentes ramos.

2 101322.(N.daeW.A.P.)

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Em primeiro lugar, devemos definir os diversos sentidos da palavra “identi- dade”. A identidade se poderia consi- derar de maneira geral, e falando sumariamente, como incluída em três divisões. Em geral, aplicamos o termo ou em sentido numérico, ou específico, ou genérico numericamente, nos casos em que mais de um nome, mas uma coisa só, como “manto” e “capa”; especificamente, quando mais de uma coisa, mas estas não apre- sentam diferenças no tocante à sua espécie, como um homem e outro homem, ou um cavalo e outro cavalo, pois coisas assim pertencem à mesma classe, e delas se diz que são “especifi- camente idênticas”. E, do mesmo modo, chamam-se genericamente idên- ticas aquelas coisas que pertencem ao mesmo gênero, como um cavalo e um

homem. . Poderia parecer que o sentido em

que a água proveniente da mesma fonte se chama “a mesma água” difere de certo modo e se afasta dos sentidos que mencionamos acima; mas, em rea- lidade, um caso como esse deveria ser incluído na mesma classe com aquelas coisas que, de um modo ou de outro, são chamadas “idênticas” em virtude

de uma unidade de espécie. Todas essas coisas, com efeito, se asseme-

lham entre si como se fossem memibros da mesma família. E a razão pela qual se diz que toda água é especificamente idêntica a qualquer outra água é uma certa semelhança que existe entre as duas, e a única diferença no caso da água proveniente da mesma fonte é que aqui a semelhança é mais pronun- ciada: por isso mesmo não a distin- guimos das coisas que, de um modo ou de outro, são chamadas idênticas devi- do à unidade de espécie.

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Supõe-se geralmente que o termo “o mesmo” se emprega sobretudo, num sentido aceito por todo mundo, quando aplicado ao que é numericamente uno. Mas, mesmo assim, pode ser empre- gado em mais de um sentido; vamos encontrar seu uso mais literal e pri- meiro sempre que a identidade diz res- peito a um nome ou definição duplos, como quando se diz que um manto é o mesmo que uma capa, ou que um ani- mal que anda com dois pés é a mesma coisa que um homem; um segundo sen- tido é aquele que se refere a uma propriedade, como quando se diz que aquilo que é capaz de adquirir conheci- mento é o mesmo que um homem, e aquilo que naturalmente se move para cima é o mesmo que o fogo; e encon- tramos ainda um terceiro sentido do termo quando diz respeito a um aci- dente, como quando se diz que aquele que está sentado ou que é músico é o mesmo que Sócrates. Todos estes usos, com efeito, significam identidade nu- mérica.

A verdade do que acabo de dizer pode ver-se mais claramente quando uma forma de apelação é substituída por outra. Muitas vezes, com efeito, quando damos ordem de chamar uma das pessoas que estão sentadas, desig- nando-a pelo seu nome, mudamos de descrição sempre que aquele a quem damos a ordem não nos entende; pare- ce-nos que ele nos compreenderá me- lhor se indicarmos a pessoa por algum aspecto acidental, e assim mandamo-lo chamar “o homem que está sentado”, ou “aquele que está conversando ali” na suposição evidente de que esta- mos designando o mesmo indivíduo pelo seu nome e pelo seu acidente. - |

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É preciso, pois, distinguir, como

se disse, três sentidos da palavra.

“identidade”. Ora, uma das maneiras de confirmar que os elementos mencio- nados acima são aqueles a partir dos quais, por meio dos quais e para Os quais procedem os argumentos é por indução: porque, se alguém exami- nasse as proposições e os problemas um por um, veria que cada um deles parte ou da definição de alguma coisa, ou de uma propriedadé sua, ou do seu gênero, ou de um seu acidente. Outra maneira de confirmá-lo é pelo racioci- nio. Com efeito, todo predicado de um sujeito deve necessariamente ser ou

não ser conversível com ele: e, se é

conversível, será a sua definição ou

3 1032 7.(N. de W. A. P.)

A seguir, pois, devemos distinguir entre as classes de predicados em que se encontram as quatro ordens de predicação em apreço. São elas em nú- mero de dez: Essência, Quantidade, Qualidade, Relação, Lugar, Tempo, Posição, Estado, Ação, Paixão. Por- quanto o acidente, o gênero, a proprie- dade e a definição do que quer que seja sempre caberão numa destas catego- rias: pois todas as proposições que por

' meio delas se efetuarem ou significarão

a essência de alguma coisa, ou sua qualidade ou quantidade, ou algum dos outros tipos de predicado. Parece pois evidente que o homem que ex- pressa a essência de alguma coisa expressa às vezes uma substância, ou- tras vezes uma qualidade, outras ainda

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uma propriedade-sua, porque, se signi-

fica a essência, é a definição; do contrário, é uma propriedade, pois foi assim que definimos a propriedade, a saber: o que se predica de maneira conversível, porém não significa a essência. Se, por outro lado, não se predica da coisa de maneira conversi- vel, ou é, ou não é um dos termos con- tidos na definição do sujeito; e se é um desses termos, será o gênero ou a dife- rença, porquanto a definição consiste no gênero e nas diferenças; e se, por outro lado, não é um desses termos, evidentemente será um acidente, pGis dissemos* que o acidente é aquilo que pertence como atributo a um sujei- to sem ser nem a sua definição, nem o seu gênero, nem uma propriedade.

* 102b4.(N.de W.A.P)

algum dos outros tipos de predicado. Pois quando se coloca um homem à sua frente e ele diz que o que ali estã colocado é “um homem” ou “um ani- mal”, afirma a sua essência e significa uma substância; mas quando uma cor branca é posta diante dos seus olhos e ele diz que o que ali está é “branco” ou “uma cor”, afirma a sua essência e sig- nifica uma qualidade. E também do mesmo modo, se se coloca diante dele uma grandeza de um côvado e ele diz que o que tem diante de si é “uma grandeza de um cóvado”, estará des- crevendo a sua essência e significando uma quantidade. E por igual em todos os outros casos: pois cada uma dessas espécies de predicados, tanto quando é

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afirmaga de si mesma como quando o seu gênero é afirmado dela, significa uma essência; se, por outro lado, uma espécie de predicado é afirmada de outra espécie, não significa uma essên- cia, mas uma quantidade, uma quali- dade ou qualquer das outras espécies

luaí tomas ARISTÓTELES

de predicado. Tais e tantos são, pois, os sujeitos em tomo dos quais giram os argumentos, e os materiais de que se formam. Como devemos adquiri-los e por que meios chegaremos a estar bem providos deles é o que nos caberá dizer agora.

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Em primeiro lugar, pois, devemos definir o que seja uma “proposição dialética” e um “problema dialético”. Pois nem toda proposição, nem tam- pouco todo problema podem ser apre- sentados como dialéticos: com efeito, ninguém que estivesse no seu juízo per- feito faria uma proposição de algo que ninguém admite, nem tampouco faria um problema do que é evidente para todo mundo ou para a maioria das pes- soas: pois este último não admite dúvi- da, enquanto à primeira ninguém daria assentimento.

Ora, uma proposição dialética con- siste em perguntar alguma coisa que é admitida por todos os homens, pela maioria deles ou pelos filósofos, isto é, ou por todos. ou pela maioria, ou pelos mais eminentes, contanto que não seja contrária à opinião geral; pois um homem assentirã provavelmente ao pontó de vista dos filósofos se este não contrariar as opiniões da maioria das pessoas. As proposições dialéticas também incluem opiniões que são semelhantes às geralmente aceitas; e também proposições que contradizem os contrários das opiniões que se con- sideram geralmente aceitas, assim como todas as opiniões que estão em

harmonia com as artes acreditadas.'

Assim, supondo-se seja opinião geral que o conhecimento dos contrários é o mesmo, é provável que também pudes- se passar por uma opinião geral que a

percepção dos contrários é a mesma; e.

do mesmo modo, supondo-se seja opi- nião geral que uma ciência da gramática, poderia passar por uma opinião geral que uma ciência de tocar flauta; e, por outro lado, se for opinião geral que mais de uma ciên-

cia da gramática, poderia passar por .

uma opinião geral que igualmente mais de uma ciência de tocar flauta; porque todas essas coisas parecem assemelhar-se e têm entre si um certo ar de parentesco.

Do mesmo modo, também as opi- niões que contradizem os contrários das opiniões gerais passarão por ópi- niões gerais; porque, se é opinião geral que se deve fazer bem aos seus amigos, será também opinião geral que não deve fazer nada que os prejudique. Aqui, que se deva causar dano aos seus amigos é contrário à opinião geral, e que não se deve causar-lhes dano é a contraditória desse contrário. E da mesma forma, se se deve fazer

bem aos amigos, não se deve fazer bem aos inimigos; esta é também 'a contra- ditória da opinião contrária à opinião geral: a contrária seria que se devesse fazer bem aos inimigos. E analoga- mente nos demais casos.

Comparando entre si estas razões, parecerá também uma opinião geral que o predicado contrário pertence ao sujeito contrário; por exemplo, se se deve fazer bem aos amigos, deve-se também fazer mal aos inimigos, talvez

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pareça também que fazer bem aos ami- gos seja o contrário de fazer mal aos inimigos; mas se isso é ou não assim em realidade se decidirá durante nossa discussão acerca dos contrários º.

É também evidente que todas as proposições que se harmonizam com

5 LIVRO II, cap. 7. (N. de W.A.P)

as artes são proposições dialéticas; pois os homens estão predispostos a dar seu assentimento aos pontos de

vista daqueles que estudaram essas 35

coisas: por exemplo, numa questão de medicina concordarão com o médico, numa questão de geometria, com o geometra; e da mesma forma nos ou- tros casos.

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Um problema de dialética é um tema de investigação que contribui para a escolha ou a rejeição de alguma coisa, ou ainda para a verdade e o conhecimento, e isso quer por si mesmo, quer como ajuda para a solu- ção de algum outro problema do mesmo tipo.

Deve, além disso, ser algo a cujo respeito os homens não tenham opi- nião num sentido ou noutro, ou o vulgo tenha uma opinião contrária à dos filósofos, ou a destes seja contrária à daquele, ou a de alguns filósofos seja contrária à de outros. Quanto a alguns problemas, com efeito, é útil conhecê- los com vistas na escolha ou na rejei- ção como, por exemplo, se o prazer deve ou não ser escolhido —, en- quanto a outros é útil conhecer tendo unicamente em mira o próprio conhe- cimento por exemplo, se o universo é ou não eterno; e outros, finalmente, não são úteis em si e por si mesmos para qualquer desses fins, mas nos aju- dam a solucionar outros problemas da mesma espécie; pois muitas coisas que não desejamos conhecer em si e por si mesmas, porém com a mira em outras coisas e a fim de que, através delas, possamos vH a conhecer essas outras.

Os problemas também incluem questões em relação às quais os racio- cínios se chocam (consiste então a difi-

culdade em se tal ou tal coisa é ou não assim, havendo argumentos convin-

centes a favor de ambos os pontos de 15

vista); e outros, finalmente, a res- peito dos quais não possuímos nenhum argumento, por serem extremamente vastos, e temos dificuldade em expor nossas razões, como a questão sobre se o universo é eterno ou não: pois tam- bém é possível investigar questões desta classe.

Os problemas, pois, e as proposi- ções devem ser definidos como

acima *. Uma “tese” é uma suposição 20

de algum filósofo eminente que esteja em conflito com a opinião geral: por exemplo, a idéia de que a contradição é impossível, como disse Antístenes; ou o ponto de vista de Heráclito, de que todas as coisas estão em movimento; ou de que o ser é um, como afirma Melisso; pois ocupar-nos com uma pessoa comum quando expressa pon- tos de vista contrários às opiniões usuais dos homens seria tolice. Ou tal- vez se trate de uma concepção sobre a quai tenhamos uma teoria raciocinada contrária às opiniões usuais dos ho- mens, pcr exemplo, a concepção defen-

dida pelos sofistas, de acordo com a 2s

qual o que é nem sempre necessita ter sido gerado ou ser eterno, pois um mú- sico que é também gramático “é” tal

8 104hb 1;104a8.(N. de W.A.P.)

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sem jamais ter “vindo a ser” tal nem ser tal eternamente. Porquantq, mesmo que um homem não aceite tal teoria, poderia aceitá-la fundando-se em que é razoável.

Ora, uma “tese” é também um pro- blema, ernbora um problema nem sem- pre seja uma tese, visto serem certos problemas de tal espécie que não temos sobre eles nenhuma opinião num sentido ou noutro. Que uma tese, por outro lado, também constitui um problema, é evidente: pois do que dis- semos acima deduz-se necessariamente que ou a grande maioria dos homens discorda dos filósofos no tocante à tese, ou uma ou a outra classe está em desacordo consigo mesma, que a tese é uma suposição em conflito com a opinião geral. Em verdade, quase todos os problemas dialéticos são hoje em dia chamados “teses”. Mas não se deve dar muita importância à denomi-

ARISTÓTELES

nação que se usar, pois o nosso obje- tivo ao distingui-los não foi criar uma terminclogia, e sim reconhecer as dife- renças que podem ser encontradas entre essas duas formas.

Não se deve examinar todo pro- blema nem toda tese, mas apenas aque- les que possam causar embaraço aos que necessitam de argumento, e não de castigo ou percepção. Pois um homem que não sabe se devemos ou não hon- rar os deuses e amar nossos genitores necessita de castigo, e aqueles que não sabem se a neve é ou não é branca necessitam de percepção. Os temas não devem aproximar-se, demasiada- mente da esfera da demonstração, nem tampouco estar excessivamente afasta- dos dela, pois os primeiros não admi- tem nenhuma dúvida, enquanto os segundos envolvem dificuldades dema- siado grandes para a arte do instrutor.

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Estabelecidas estas distinções, deve- mos distinguir agora quantas são as espécies de argumentos dialéticos. Temos por um lado a indução e por outro o raciocínio. dissemos antes”? o que é o raciocínio; quanto à indução, é a passagem dos individuais aos universais, por exemplo, o argumento seguinte: supondo-se que o piloto ades-

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Assim, pois, as classes de coisas a respeito das quais e a partir das quais se constroem os argumentos devem ser distinguidas da maneira que indicamos atrás. Os meios pelos quais lograremos estar bem supridos de raciocínios são

trado seja o mais eficiente, e da mesma forma o auriga adestrado, segue-se que, de um modo gera!, o homem ades- trado é o melhor na sua profissão. A indução é, dos dois, a mais convin- cente e mais clara; aprende-se mais facilmente pelo usc dos sentidos e é aplicável à grande massa dos homens em geral, embora o raciocínio seja mais potente e eficaz contra as pessoas incimadas a contradizer.

quatro: (1) prover-nos de proposições; (2) a capacidade de discernir em quan- tos sentidos se emprega urna determi- nada expressão; (3) descobrir as dife- renças das coisas, e (4) a investigação da semelhança. Os últimos três são

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também, em certo sentido, proposi- ções, pois é possível formar uma proposição correspondente a cada um deles, por exemplo: (1) “o desejável pode significar tanto o honroso como o agradável ou o vantajoso”; (2) “a sen- sação difere do conhecimento em que o segundo pode ser recuperado depois

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As proposições devem ser escolhi- das de um número de maneiras corres- pondente ao número de distinções esta- belecidas no tocante à proposição: assim, podem-se tomar primeiro as opiniões sustentadas pela totalidade dos homens, pela maioria deles, ou pelos filósofos, isto é, por todos, pela maioria ou pelos mais eminentes; ou opiniões contrárias aquelas que pare- cem ser geralmente admitidas; e, final- mente, todas as opiniões que estão em harmonia com as artes. Devemos tam- bém formar proposições com as con- traditórias das opiniões contrárias às que parecem ser geralmente aceitas, segundo se estabeleceu anteriormente. É igualmente útil formá-las selecio- nando não apenas aquelas opiniões que são atualmente aceitas, mas tam- bém as que se assemelham a estas, por exemplo: “a percepção dos contrários é a mesma” (já que o conhecimento deles é o mesmo), e “vemos pela admissão de alguma coisa em nós mes- mos, não por uma emissão” pois assim acontece no que se refere aos ou- tros sentidos: ao ouvir, admitimos al- guma coisa dentro de nós mesmos, não emitimos nada; e é da mesma maneira que sentimos o gosto das coisas. E analogamente nos demais casos.

Além disso, todos os juízos que parecem ser verdadeiros em todos ou na maioria dos casos devem tomar-se

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que o perdemos, enquanto a primeira não o pode”; e. (3) “a relação entre o saudável e a saúde é semelhante à que existe entre o vigoroso e o vigor”. A primeira proposição depende do uso do termo em diferentes sentidos, a segunda das diferenças entre as coisas, e a terceira da sua semelhança.

como um princípio ou posição aceita, pois são emitidos por aqueles que não vêem ao mesmo tempo nenhuma exce- ção. Devemos fazer também nossa escolha nos manuais escritos de argu- mentação e organizar listas sumárias de tais argumentos sobre cada espécie de assunto, classificando-os em capitu- los separados, como: “Do Bem” ou “Da Vida” e esse “Do Bem” deve tratar de toda forma de bem, come- çando pela categoria da essência. E convém indicar também, à margem, as opiniões de diversos pensadores, como, por exemplo: “Empédocles disse que os elementos dos corpos são quatro”, pois qualquer um pode dar seu assenti- mento ao que disse alguma autoridade geralmente aceita.

Das proposições e problemas encarando-se a questão em linhas ge- rais existem três grupos: algumas são proposições éticas, outras versam sobre a filosofia natural e outras,

enfim, são lógicas. Proposições como a seguinte são éticas: “deve um homem

obedecer antes aos seus genitores ou às leis, quando estão em desacordo?”; um

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exemplo de proposição lógica é: “o conhecimento dos opostos é ou não é o mesmo??, enquanto proposições como esta dizem respeito à filosofia natural: “é ou não é eterno o universo?” E do mesmo modo no que tange aos proble-

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mas. A natureza de cada uma das supraditas espécies de proposição não se expressa facilmente: numa definição, mas devemos esforçar-nos por reco- nhecer cada uma delas graças a uma familiaridade conquistada através da indução, examinando-as à luz: dos exemplos dados acima.

Para os fins da filosofia devemos tratar dessas coisas de acordo com a sua verdade, mas para a dialética basta que tenhamos em vista a opinião geral. Todas as proposições devem ser toma-

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as em sua forma mais universal, -. onvertendo-se, depois, uma em mui- as. Por exemplo: “o conhecimento dos opostos é o mesmo”, e a seguir: “o conhecimento dos contrários é o mesmo”, e depois, “dos termos relati- vos”. E, do mesmo modo, estes dois devem ser novamente divididos até onde possa ir a divisão, por exemplo: o conhecimento “do bem e do mal”, “do branco e do preto” ou “do frio e do quente”. E de maneira análoga em todos os outros casos.

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Sobre a formação das proposições, são suficientes as observações feitas acima. No tocante ao número de senti- dos que um termo comporta, não deve- mos limitar-nos a tratar daqueles ter- mos que possuem diferentes sentidos, mas também esforçar-nos por defini- los; por exemplo, não devemos dizer apenas que a justiça e a coragem são chamadas “bens” num sentido e o que favorece o vigor e o que favorece a saúde são assim chamados em outro sentido, mas também que as primeiras recebem essa denominação em virtude de uma qualidade intrínseca que pos- suem em si mesmas e os segundos por- que produzem um certo resultado e não por possuírem em si mesmos algu- ma qualidade intrínseca. E de modo análogo nos demais casos.

Se um termo comporta vários signi- ficados específicos ou apenas um, deve ser considerado pelos meios seguintes. Procure-se ver primeiro, caso o seu contrário tenha vários significados, se a discrepância entre estes é de espécie ou de nomes. Pois em alguns casos a diferença se manifesta imediatamente nos próprios nomes: por exemplo, o contrário de “agudo”, tratando-se de uma nota, é “grave”; e, tratando-se de

um ângulo sólido, é “obtuso”. É evi- dente, pois, que o contrário de “agudo” tem vários significados, e, assim-sendo, o mesmo acontece com “agudo”, pois, correspondendo a cada um dos termos acima, O significado do seu contrário será diferente. Com efeito, “agudo” não será a mesma coisa quando con- trário a “grave” e quando contrário a “obtuso”, embora “agudo” seja O con- tário de ambos. E também gapú (grave, pesado) no caso de uma nota tem como contrário “agudo”, mas no caso de uma massa sólida, “leve”, de modo que fapú é usado em várias acepções, que isso acontece também com o seu contrário. E, do mesmo modo, “belo” aplicado a uma pintura tem como contrário “feio”, mas, apli- cado a uma casa, “arruinada”; portan- to, “belo” é também um termo ambí- guo.

Em certos casos não nenhuma discrepância nos termos usados, mas uma diferença de espécie entre as acep- ções.é evidente à primeira vista:. por exemplo, no uso de “claro” e “escuro”, pois tanto um.som como uma cor são chamados “claros” ou “escuros”. Quanto aos norrtes, portanto, não discrepância, mas a diferença de espé-

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cie entre os significados é óbvia: pois não chamamos uma cor de “clara” no mesmo sentido que um som. Isto se manifesta também por meio da sensa- ção: porque, das coisas que são idênti- cas em espécie temos a mesma sensa- ção, ao passo que não aquilatamos a clareza pela mesma sensação no caso do som e da cor, uma vez que a segun- da é julgada pela visão e a primeira pela audição. E da mesma forma com “agudo” e “obtuso”. no tocante aos sabores e aos ângulos sólidos*: aqui, no segundo caso julgamos pelo tato, no primeiro pelo paladar. Também neste caso: não qualquer discre- pância nos nomes usados, tanto no que toca aos termos originais como aos seus contrários, pois o contrário de “agudo” é também, em qualquer das acepções, “obtuso”.

É preciso verificar, além disso, se uma acepção de um termo tem um contrário, enquanto outra não tem absolutamente nenhum; por exemplo, o prazer de beber tem seu contrário no desprazer da sede, enquanto o prazer de descobrir que a diagonal é incomen- surável com o lado não tem nenhum contrário, de modo que “prazer” é usado em mais de um sentido. Tam- bém “amar”, quando se refere ao esta- do de ânimo, tem como contrário “odiar”, ao passo que quando se aplica à atividade física não tem nenhum; evidentemente, pois, “amar” é um termo ambíguo.

Mais ainda: no tocante aos interme- diários, é preciso ver se alguns signifi- cados e seus contrários têm um inter- mediário, enquanto outros não os têm, ou se ambos têm um intermediário, porém não o mesmo, como, por exem- plo, “claro” e “escuro” no concernente

s As mesmas palavras gregas que correspondem a “agudo” e “obtuso” são também usadas, respec- tivamente, nas acepções de “picante” e “insípi- do”. (N. do T.).

a cores têm como intermediário “cin-.

zento”, embora no caso dos sons não tenham nenhum, a menos que se consi- dere como ial “áspero”, pois algumas pessoas dizem que um som áspero é intermediário. “Claro” é, pois, um termo ambíguo, como também o ê o termo “escuro”. Veja-se, igualmente, se alguns deles têm mais de um inter- mediário enquanto outros não têm nenhum, como sucede com “claro” e “escuro”, que em referência a cores têm muitos intermediários, ao passo que no capítulo dos sons existe um, a saber: “áspero”.

No caso de um oposto contradi- tório, é preciso ver igualmente se ele tem mais de um significado. Porque, se assim for, o seu oposto será também usado em mais de uma acepção: por exemplo, “não ver” é uma expressão que tem mais de um significado, a saber: (1) não possuir o sentido da vista, e (2) não fazer uso ativo dessa capacidade. Mas, se “não ver” tem mais de um significado, segue-se neces- sariamente que “ver” também tem mais de um, pois haverá um oposto para cada sentido de “não ver”; por exemplo, o oposto de “não possuir o sentido da visão” é possui-lo, enquanto o oposto de “não fazer uso ativo do sentido da visão” é fazer uso ativo dele.

Examine-se, além disso, o caso dos termos que denotam a privação ou a presença de um certo estado: porque, se um dos termos tem mais de uma acepção, o mesmo acontecerá com o outro: por exemplo, se “ter sensibili- dade” se usa em mais de um sentido, conforme se aplique à alma ou ao corpo, “estar privado de sensibilidade” também será usado em mais de um sentido, segundo se referir à alma ou ao corpo. Que a oposição entre os ter- mos agora examinados depende da presença ou privação de um certo esta-

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do é evidente, pois os animais possuem naturalmente ambas as espécies de “sensibilidade”, tanto no que se refere à alma como ao corpo.

Examinem-se igualmente as formas derivadas. Pois, se “justamente” tem mais de um sentido, “justo” também será usado em mais de um significado, porquanto haverá um acepção de “justo” correspondente a cada acepção de “justamente”; por exemplo, se a palavra “justamente” se emprega no sentido de julgar de acordo com a sua própria opinião, e também no de julgar como se deve, então “justo” será usado de igual maneira. Analogamente, se “saudável” tem mais de um signifi- cado, “saudavelmente” também será usado em mais-de uma acepção; por exemplo, se “saudavel” significa tanto o que produz saúde e o que a conserva como o que mostras de saúde, “sau- davelmente” também será usado nos sentidos: “de maneira a produzir”, ou a “conservar”, ou a “dar mostras de” saúde. E do mesmo modo nos outros casos, sempre que o termo original comporte mais de um significado, o termo que dele se deriva será usado em mais de um significado, e vice-versa.

Considerem-se também as classes de predicados que o termo significa, pro- curando ver se são as mesmas em todos os casos. Porquanto, se não forem as mesmas, o termo será eviden- temente ambíguo; por exemplo: “bom”, no caso de alimentos, significa “que causa prazer”; e, no caso de medicamentos, “que promove a saúde”, ao passo que, se o aplicarmos à alma, significará a posse de certa qualidade, como a de ser temperante, corajoso ou justo; e do mesmo modo quando aplicado a “homem”. Por vezes significa o que acontece em determinada ocasião, como, por exem- plo, o “bom” que acontece na ocasião oportuna, pois ao que acontecena oca-

sião oportuna chamamos “bom”. Não raro significa o que existe em determi- nada quantidade, por exemplo, quando se aplica à quantidade apropriada; pois a quantidade apropriada também é chamada boa. Por tudo isso se que o termo “bom” é ambíguo. E, analoga- mente, “claro”, quando aplicado a um corpo, significa uma cor, mas em refe- rência a uma nota designa o que é “fácil de ouvir”. “Agudo” é também um caso que tem estreita semelhança com este, pois o mesmo termo não pos- sui O mesmo significado em todas as suas aplicações; com efeito, uma nota aguda é uma nota rápida, como nos ensinam todos os teóricos matemáticos da harmonia, ao passo que um ângulo agudo é aquele que é menor do que um ângulo reto, enquanto um punhal agudo é o que possui uma ponta pene- trante (pontiagudo).

Atenda-se também aos gêneros dos objetos designados pelo mesmo termo, e veja-se se são diferentes sem ser subordinados um ao outro, como, por exemplo, “gato”, que designa tanto o animal como o utensílio. Com efeito, as definições correspondentes ao nome são diferentes em cada caso: num deles se dirá que é pm animal de determi-

nada espécie, e no outro um utensílio.

usado para certo fim. Se, contudo, houver subordinação entre os gêneros, não é necessário que as definições sejam diferentes. Assim, .por exemplo, “animal”? é o gênero de “corvo” e tam- bém de “ave”. Por conseguinte, sempre que dizemos que o coryo é uma ave, também dizemos que ele é uma deter- minada espécie de animal, de modo que ambos os gêneros se predicam dele. E igualmente, sempre que dize- mos que o corvo é um “animal bípede voador”, classificamo-lo como ave; e assim, também desta maneira ambos os gêneros se prédicam de corvo, bem como a sua definição. Isso, porém, não

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prias definições,

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acontece no caso dos gêneros que são subalternos, pois sempre que chama- mos uma coisa de “utensílio” não a chamamos de animal, e vice-versa.

É também preciso prestar atenção e ver se não somente os gêneros dos ter- mos que temos diante de nós são dife- rentes sem ser subalternos, mas tam- bém se isso acontece com os seus contrários: pois, se o contrário com- porta diversas acepções, evidentemente o termo que temos diante de nós tam- bém as comporta.

É igualmente útil examinar a defini ção que cabe ao termo usado em combinação, por exemplo, de um “corpo claro” e de uma “nota clara”. Porque se'abstrairmos aqui o que é peculiar a cada caso, a mesma expres- são deve permanecer. Isso não acon- tece no caso dos termos ambíguos como os que acabamos de mencionar. Porque o primeiro será “um corpo que possui tal e tal cor”, enquanto o segun- do será “uma nota fácil de ouvir”. Retiremos, pois, “um corpo” e “uma nota”, e o que resta não é o mesmo em cada caso. Deveria, contudo, ser o mesmo se as acepções de “claro” fos- sem sinônimas em ambos os casos.

Muitas vezes a ambiguidade. tam- bém se insinua sem ser notada nas pró- motivo pelo qual cumpre examinar também estas. Se, por exemplo, alguém definir o que mostras de saúde e o que a promove como “relacionado comensura- velmente com a saúde”, não devemos dar isso de barato, mas examinar em que sentido nosso adversário usou o termo “comensuravelmente” em cada caso, por exemplo, se no segundo sig- nifica “que é em quantidade adequada para promover a saúde”, e no primeiro “que é de indole a manifestar que espé- cie de estado prevalece”.

Além disso, é preciso ver se os ter- mos não podem ser comparados como

as

“mais ou menos” ou “de igual manei- ra”, como sucede, por exemplo, com um som “claro” e uma roupa “clara”, ou uma nota “aguda” e um sabor “agudo” (isto é, picante). Com efeito, não se diz que essas coisas sejam “cla- ras” ou “agudas” em grau igual, nem que uma é mais clara ou mais aguda do que a outra. Donde se segue que “claro” e “agudo” são ambíguos, dado que os sinônimos são sempre compará- veis: sempre se empregam da mesma maneira, ou então em grau maior num dos casos.

Ora bem: como nos gêneros que são diferentes sem ser subalternos as dife- renças também são diferentes em espê- cie, por exemplo, as de “animal” e de “conhecimento” (pois as diferenças destes dois gêneros são, com efeito, diferentes), é preciso ver se os signifi- cados compreendidos sob o mesmo termo são diferenças de gêneros que diferem entre si sem ser subalternos, como, por exemplo, “agudo” o é de uma nota e de um sólido. Porque o ser “agudo” diferencia uma nota de outra, e de igual modo um sólido de outro. “Agudo” é, pois, um termo ambíguo, por exprêssar diferenças de gêneros que diferem entre si sem ser subalter- nos.

É preciso ver também se os próprios significados incluidos sob o mesmo termo têm diferenças distintas, como a “cor” nos corpos e a “cor” ou “croma- tismo” nas melodias, pois as diferenças da “cor” nos corpos se distinguem e se comparam por meio da vista, ao passo que a “cor” nas melodias não possui as mesmas diferenças.

Além disso, como a espécie nunca é a diferença de coisa alguma, deve-se examinar atentamente se um dos signi- ficados incluídos sob o mesmo termo é uma espécie e o outro uma diferença, como, por exemplo, “claro” (isto é, “branco”) aplicado a um corpo é uma

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espécie de cor, ao passo que no caso de uma nota é uma: diferença, pois uma

nota se diferencia de outra pelo fato de ser “clara”.

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A presença de vários significados num termo pode, pois, ser investigada por estes meios e outros semelhantes. As diferenças que 'as coisas apresen- tam entre si devem ser examinadas dentro do mesmo gênero, por exemplo: “em que a justiça difere da coragem a sabedoria da temperança?” pois

todas essas coisas pertencem ao mesmo gênero; e também um gênero de outro, contanto que não estejam muito afastados, por exemplo: “em que a sensação difere do conhecimento?”, pois no caso dos gêneros muito. afasta- dos um do outro as diferenças são perfeitamente óbvias.

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A semélhança deve ser estudada, em primeiro lugar, nas coisas que perten- cem a gêneros diferentes, segundo a fórmula: A:B = C:D (por exemplo, o conhecimento relaciona-se com o obje- to de conhecimento assim como a sen- sação se relaciona com o objeto de sensação), e “assim como A está em B, do mesmo modo C está em D” (por exemplo, assim como a visão está no olho, a razão estã na alma, e assim como a calma está no mar, estã a falta de vento no ar). À prática se faz espe-

cialmente necessária quando os termos estão muito afastados entre si, pois nos outros poderemos ver mais facilmente, de um relance, os pontos de seme- lhança. Devemos também examinar as coisas que pertencem a um mesmo gê- nero para ver se todas elas possuem um atributo idêntico por exemplo, um homem, um cavalo e um cão —.

, pois, na medida em que possuem algum atributo idêntico, são seme- lhantes entre si.

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É útil ter examinado a pluralidade de significados de um termo, tanto no interesse da clareza (pois um homem estã mais apto a saber o que afirma quando tem uma noção nítida do nú- mero de significados que a coisa pode comportar), como para nos certifi- carmos de que o nosso raciocínio esta- de acordo com os fatos reais e não se referirã apenas aos termos usados. Pois, enquanto não ficar bem claro em quantos sentidos se usa um termo,

pode acontecer que o que responde e o que interroga não tenham suas mentes dirigidas para a mesma coisa; ao passo que, depois de se haver esclarecido quantos são os significados, e também qual deles o primeiro tem em mente quando faz a sua asserção, o que per- gunta pareceria ridículo se deixasse de dirigir seus argumentos a esse ponto. Isso também nos ajuda a evitar que nos enganem e que enganemos os ou- tros com. falsos raciocínios; porque, se

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conhecemos o número de significados de um termo, certamente nunca nos deixaremos enganar por um falso ra- ciocínio, pois perceberemos facilmente quando o que interroga deixa de enca- minhar seus argumentos ao mesmo ponto: e, quando somos nós mesmos que interrogamos, poderemos induzir nosso adversário em erro se ele não conhece o número de significados do termo. Isso, todavia, não é sempre pos- sível, mas somente quando, dos múlti- plos sentidos, alguns são verdadeiros e outros são falsos. Entretanto, essa forma de argumentar não pertence propriamente à dialética; os dialéticos devem abster-se por todos os meios desse tipo de discussão verbal, a não ser que alguém seja absolutamente incapaz de discutir de qualquer outra maneira o tema que tem diante de si. Descobrir as diferenças das coisas nos ajuda tanto nos raciocínios sobre a identidade e a diferença, como também a reconhecer a essência de cada coisa particular. Que nos ajuda a raciocinar sobre a identidade e a diferença, é evi- dente: pois, após descobrirmos uma diferença qualquer entre os objetos que

temos diante de nós, teremos mos-

trado que eles não são o mesmo; e aju- da-nos a reconhecer o que é uma coisa, porque geralmente distinguimos a ex- pressão própria da essência de cada coisa particular por meio das diferen- ças que lhe são próprias.

O exame da semelhança é útil tanto para os argumentos indutivos como para os raciocínios hipotéticos, bem assim como para a formulação de defi- nições. É útil para os argumentos indu- tivos, porque é por meio de uma indu- ção de casos individuais semelhantes que pretendemos pôr em evidência o universal; e isso não é fácil quando ignoramos os pontos de semelhança. E útil para os raciocínios hipotéticos porque, entre semelhantes, de acordo

com a opinião geral, o que é verda- deiro de um é também verdadeiro dos demais. Se, pois, êm relação a qual- quer deles estivermos bem supridos de materiais para discussão, garantiremos a aceitação preliminar de que, como quer que seja nesses casos, também assim será no caso que temos diante de nós; portanto, quando tivermos de- monstrado o primeiro, teremos tam- bém demonstrado, em virtude da hi- pótese, o caso que nos interessa particularmente; pois primeiro havia- mos estabelecido a hipótese de que, como quer que fosse nesses casos, tam-

bém seria no caso que tínhamos diante de nós, a seguir provamos nossa tese no tocante aqueles casos. E é útil na formulação de definições porque, se

podemos ver num relance de olhos o que é idêntico em cada caso individual do sujeito, não nos dará nenhum traba- lho determinar o gênero em que deve ser incluído o objeto que temos diante de nós quando se tratar de defini-lo: com efeito, dentre os predicados co- muns, o que pertence de maneira mais definida à categoria da essência é provavelmente o gênero. E, do mesmo modo, também no caso de objetos que divergem largamente uns dos outros, o exame da semelhança é útil para os

fins da definição, como, por exemplo, a identidade da calma no mar e da ausência de vento no ar (pois cada uma delas é uma forma de repouso), de um ponto na linha e da unidade num número, por ser cada um deles um ponto de origem. Se, pois, dermos como o gêntro o que é comum a todos os casos, ninguém poderá objetar que definimos de maneira inadequada. É, aliás, dessa maneira que os amigos de definições as fazem quase sempre, afir- mando, por exemplo, que a unidade é o ponto de partida do número e que o ponto é o ponto de origem da linha. É

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evidente, pois, que tomam como gêne- ro dessas coisas aquilo que é comum a

ambas. São estes, por conseguinte, os meios

pelos quais se efetuam os raciocínios; os tópicos, ou lugares para cuja obser- vância são úteis os argumentos men- cionados acima: são os seguintes.

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LIVRO II

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Dos problemas, alguns são univer-

sais e outros são particulares. Proble-

mas universais são, por exemplo: “todo prazer é bom” e “nenhum prazer é bom”; e problemas particulares: “al- guns prazeres são bons” e “alguns pra- zeres não são bons”.

Os métodos para estabelecer e lan- çar por terra universalmente uma opi- nião são comuns a ambas as espécies de problemas; pois, quando demons-

tramos que um predicado se aplica a .

todos os casos de um sujeito, também demonstramos que ele se aplica a al- guns casos. E do mesmo modo, quan- do demonstramos que ele não se aplica a algum caso, também demonstramos que não se aplica a todos os casos. Em primeiro lugar, pois, falaremos dos mé- todos de rebater universalmente um ponto de vista, pois esses são comuns tanto aos problemas universais como aos particulares, e porque as pessoas mais comumente estabelecem teses afirmando predicados do que negan- do-os, enquanto os que discutem com elas procuram rebaté-los.

A conversão de um nome apro- priado que se deriva do elemento “aci- dente” é uma coisa extremamente pre- cária, pois no caso do acidente, e em nenhum outro, é possível que uma coisa seja condicional e não universal-

mente verdadeira. Os nomes derivados

dos elementos “definição”, “proprie- dade” e “gênero” são necessariamente conversíveis; por exemplo, se “ser um animal que anda com dois pés é um atributo de S”, também será verda-

deiro dizer, por conversão, que “S é um animal que anda com dois pés”. E do mesmo modo quando se deriva do gênero; porque, se “ser um animal é um atributo de S”, então “S é um ani- mal?, E igualmente no caso de uma propriedade, pois se “ser capaz de aprender gramática é um atributo de S”?, então “S será capaz de aprender gramática”. Com efeito, nenhum des- tes atributos pode pertencer ou deixar de pertencer ao seu sujeito em parte: devem pertencer ou não pertencer de forma absoluta. No caso dos acidentes, por outro lado, nada impede que um atributo (a brancura ou a justiça, por exemplo) pertença em parte ao seu sujeito, de modo que não basta mos- trar que a brancura ou a justiça é um atributo de um homem para provar que ele é branco ou justo, pois isso fica sujeito a contestação e a dizer-se que ele é branco ou justo apenas em parte. A conversão, por conseguinte, não se necessariamente no caso dos aci- dentes.

Devemos também definir os erros que ocorrem nos problemas. São eles de duas espécies, causados ou por um Juízo falso, ou por uma transgressão da linguagem corrente. Porquanto aqueles que formulam juízos falsos, afirmando que um atributo pertence a uma coisa quando não lhe pertence, cometem um erro; e aquele que chama os objetos pelos nomes de outros obje- tos (por exemplo, chamando homem a um plátano) transgride a terminologia estabelecida.

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Ora bem: uma regra ou tópico é exa- minar se um homem atribuiu como acidente o que pertence ao sujeito de alguma outra maneira. Esse erro se co- mete mais comumente no que se refere aos gêneros das coisas, como, por exemplo, se alguém: dissesse que o branco é acidentalmente uma cor, pois ser uma cor não é um acidente do branco, mas sim o seu gênero. O que afirma pode, naturalmente, defini-lo assim, usando essas mesmas palavras e dizendo, por exemplo, que “a justiça é acidentalmente uma virtude”; muitas vezes, porém, mesmo sem tais defini- ções, é evidente que ele apresentou o gênero como se fosse um acidente; suponha-se, por exemplo, que alguém dissesse que a brancura é colorida ou que o passear estã em movimento. Com efeito, um predicado derivado do gênero nunca se aplica à espécie sob uma forma derivada ou inflectida, mas os gêneros sempre se predicam literal- mente das espécies, que as espécies assumem tanto o nome como a defini- ção de seus gêneros. Portanto, o homem que diz que o branco é “colori- do” não apresentou “colorido” como o gênero do branco, visto ter usado uma forma derivada, nem tampouco como

uma propriedade sua ou como a sua,

definição; pois a definição e a proprie- dade de uma coisa pertencem a ela e a nada mais, ao passo que muitas coi- sas, além do branco, que são coloridas, como um lenho, uma pedra, um homem, um cavalo. É evidente, pois, que ele o expressa como um acidente.

Outra regra é examinar todos os

casos em que se afirmou ou se negou universalmente que um predicado per- tence a alguma coisa. É preciso enca- rá-las espécie por espécie, e não em sua

infinita multidão, pois assim a pes- quisa será mais direta e mais rápida. Deve-se considerar primeiro os grupos mais primários e começar por eles,

avançando 'em ordem até aqueles que.

não são divisíveis. Se, por exemplo, um homem disse que o conhecimento dos opostos é o mesmo, deve-se exami- nar se assim é no tocante aos opostos relativos, aos contrários, aos termos que significam a privação ou a pre- sença de certos estados, e aos termos contraditórios. Depois, se a considera- ção desses casos não nos forneceu ne- nhum resultado evidente, devemos di- vidi-los novamente até chegar aos.que não são divistveis, e examinar, por exemplo, se assim acontece com os atos justos: e injustos, ou com o dobro e a metade, ou com a cegueira-e a visão, Ou com O ser O não-ser; por- que, se em qualquer desses casos se demonstra que o conhecimento que se tem dos opostos não é o mesmo, tere- mos demolido o problema. E com tanto mais razão se o predicado não pertence ao sujeito em nenhum caso. Esta regra é conversível com fins tanto destrutivos como construtivos; porgue, se depois de termos sugerido uma divisão, o predicado parece ser válido em todos os-casos ou em grande número deles, podemos exigir que o outro o afirme universalmente, ou

então apresente um exemplo negativo

para mostrar em que caso o predicado não é válido, que, se ele não fizer nenhuma dessas coisas, O negar-se a afirmar o colocará numa posição ab- surda.

Outra regra é dar definições tanto de:

um acidente como do seu sujeito, quer de ambos separadamente, quer de um deles. só, e depois examinar se alguma

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falsidade foi admitida como verdadeira nas definições. Assim, por exemplo, para ver se é possível fazer injustiça a um deus, pergunte-se o que é “fazer injustiça”. Porque, se é “causar dano deliberadamente”, é evidente que não se pode fazer injustiça a um deus, por- que Deus não é passível de qualquer espécie de dano. Ou, então, para ver se o homem bom é invejoso, pergunte-se quem é o homem “invejoso” e o que é “inveja”. Porque, se a “inveja” é a dor causada pelo êxito aparente de uma pessoa de boa conduta, evidentemente o homem bom não é invejoso, porque, nesse caso, seria mau. Ou ainda, para ver se o homem indignado é invejoso, pergunte-se o que é cada um deles, pois

desse modo será posto em evidência se a afirmação é verdadeira ou falsa: por exemplo, se é “invejoso” aquele que se desgosta com os êxitos dos bons e fica “indignado” o que se magoa com os êxitos dos maus, é evidente que o homem indignado não será invejoso. Devemos também substituir os ter- mos contidos em nossas definições por outras definições, e não nos determos até que cheguemos a um termo fami-

liar; porque muitas vezes, se a defini- ção se formula inteira, o ponto em questão não fica aclarado, mas, se substituirmos um dos termos usados

Além disso, se o termo é usado em diversos sentidos e se estabeleceu que ele é ou não é um atributo de S, deve-se demonstrar o argumento pelo menos num dos vários sentidos, se não é pos- sível fazê-lo em todos. Esta regra deve ser observada nos casos em que a dife- rença de significados passa desperce- bida; pois, supondo-se que ela seja evi- dente, o adversário objetará que o

na definição pela sua própria defini- ção, ele se tornará evidente.

Além disso, devemos: nós mesmos apresentar o problema sob a forma de uma proposição e depois aduzir um exemplo negativo contra ela, pois esse exemplo negativo será uma base de ataque à asserção. Esta regra é quase idêntica aquela que nos manda exami- nar Os casos em que um predicado foi afirmado ou negado universalmente, mas difere dela no arranjo do argu- mento.

Deve-se, também, definir que espéê- cies de coisas devem ser chamadas como as chama a maioria dos homens, e quais as que devem receber outro nome. Porque isso é útil tanto para estabelecer como para rebater um ponto de vista: por exemplo, diriamos que nossos termos devem ser usados para significar as mesmas coisas que a maioria das pessoas significam com eles, mas quando perguntamos que classe de coisas são de tal ou tal espé- cie, não devemos acompanhar aqui a multidão: por exemplo, é acertado cha- mar de “saudável” tudo que tende a promover a saúde, como faz a maioria dos homens; mas ao dizer se o objeto que temos diante de nós tende ou não a promover a saúde, não convém ado- tar a linguagem da multidão, e sim a do médico.

ponto que ele pôs em questão não foi discutido, mas sim um outro ponto. Este tópico ou lugar é conversível tanto com o fim de estabelecer um ponto de vista como de lançá-lo por terra. Porque, se queremos estabelecer uma afirmação, mostraremos que num dos sentidos o atributo pertence ao sujeito, se não pudermos demonstrâ-lo em ambos os sentidos: e, se estivermos

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rebatendo uma afirmação, demonstra- remos que num sentido o atributo não corresponde ao sujeito, se não puder- mos demonstrá-ilo em ambos os senti- dos. É claro que ao rebater um juízo não nenhuma necessidade de come-

-Çar a discussão levando o interlocutor

a admitir o que quer que Seja, tanto se O juízo afirma como se nega o atributo universalmente; porque, se mostrar- mos que num caso qualquer o atributo não pertence ao sujeito, teremos demo- lido a afirmação universal, e, do mesmo modo, se mostrarmos que ele pertence num caso que seja, teremos demolido a negação universal. Ao estabelecer uma proposição, pelo con- trário, teremos de garantir a admissão preliminar de que, se ele é atribuível num caso qualquer, é atribuível univer- salmente, contanto que essa pretensão seja razoável. Porquanto não basta discutir um caso único para demons- trar que um atributo se predica univer- salmente: para argumentar, por exem- plo, que se a alma do homem é imortal, toda alma é imortal, é preciso ter obti- do a admissão prévia de que, se uma alma qualquer é imortal, toda alma é

“Imortal. Isto não se deve fazer em

todos os casos, mas apenas naqueles em que não podemos apontar facil- mente um argumento único que seja aplicável a todos os casos em comum, como, por exemplo, o geômetra pode argumentar que o triângulo tem seus ângulos iguais a dois ângulos retos.

Se, por outro lado, a variedade de acepções do termo é evidente, cumpre distinguir quantos significados ele tem antes de passar a refutar ou a estabele- cer: supondo-se, por exemplo, que “o correto” signifique “o conveniente” ou “9 honroso”, procurar-se-á estabelecer ou rebater ambas as descrições do sujeito em questão, mostrando, por exemplo, que ele é honroso e conve- niente, ou que nem é honroso, nem

ARISTÓTELES

conveniente. Mas, na eventualidade de que seja impossível demonstrar ambas as coisas, deve-se demonstrar uma delas, acrescentando que a predicação é verdadeira num sentido e não no outro. A mesma regra vale também para quando o número de acepções em que se divide o termo é superior a dois.

Considerem-se, por outro lado, aquelas expressões cujos significados são muitos, porém não diferem devido a ambigiidade de um termo e sim de outra maneira. Por exemplo: “a ciên- cia de muitas coisas é uma só”; aqui, “muitas coisas” pode significar tanto o fim como os meios que conduzem a esse fim, como, por exempio, a medi- cina tanto é a ciência de produzir a saúde como da maneira de observar uma dieta; ou ambas podem ser fins, como quando se diz que a ciência dos contrários é a mesma (pois, entre os contrários, um deles não é mais fim do que o outro); ou, então, pode tratºr-se de um atributo essencial e de outro aci- dental, como, por exemplo, o fato essencial de que o triângulo tem seus ângulos iguais a dois ângulos retos, e o fato acidental de que a figura equilá- tera também possua essa propriedade, pois é devido ao acidente de ser o eqgjuii- látero um triângulo que sabemos que ele tem seus ângulos iguais a dois àn- gulos retos. Se, pois, não é possível em qualquer sentido do termo que a ciên- cia de muitas coisas seja a mesma, evidentemente é de todo impossível que seja assim; ou, se é possível em algum sentido, então evidentemente é possível. Distingam-se tantos signifi- cados quantos forem necessários: por exemplo, se queremos estabelecer um ponto de vista, devemos pôr em evi- dência todos aqueles significados que admitam esse ponto de vista, e dividi- lo apenas naqueles significados que são necessários para estabelecer a nossa tese; ao passo que, se queremos

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rebater um ponto de vista, devemos trazer à luz todos os que não admitem esse ponto de vista e deixar o resto de lado. Nesses casos é também neces- sário levar em conta qualquer incer- teza a respeito do número de signifi- cados envolvidos. Além disso, que uma coisa é ou não é “de” outra deve ser estabelecido por meio das mesmas normas ou lugares: por exemplo. que uma determinada ciência é de uma determinada coisa, tratada como um fim, coro meio para alcançar um fim, ou como acidentalmente relacionada com ela; ou, então, que não é “de” tal coisa em nenhum dos seniidos ou

“maneira indicados acima. À mesma

regra vale também para o desejo e

É bom, além disso, trocar um termo por outro mais familiar substituir, por exemplo, “exato” por “claro” ao descrever uma concepção, e “estar ocupado” por “estar atrapalhado”, pois quando a expressão é mais fami- liar torna-se mais fácil atacar a tese. Esta norma é também utilizável para ambos os fins, isto é, tanto para estabe-

lecer como para lançar por terra um.

ponto de vista.

A fim de mostrar que atributos contrários pertencem à mesma coisa, atente-se no seu gênero; por exempio, se queremos demonstrar que a exati- dão e o erro são possíveis no que se re- fere à percépção sensível, e perceber é Julgar, dado que é possível julgar exata ou erroneamente, também no tocante à percepção devem ser possíveis a exati- dão e o erro. No exemplo presente a prova procede do gênero e passa deste à espécie, porquanto “julgar” é o gêne- ro de “perceber”, e o homem que per- cebe julga de certa maneira. Mas pode seguir a direção contrária e ir da espé-

todos os outros termos que têm mais de um objeto. Porquanto o “desejo de X” pode significar o desejo dele como um fim (como o desejo da saúde), ou como um meio para a consecução de um fim (como o desejo de ser medica- do), ou como uma coisa desejada acidentalmente, como acontece no caso do vinho, que a pessoa gulosa de- seja não por ser vinho, mas por ser

doce. Com efeito, essa pessoa deseja

essencialmente o doce, e apenas aci- dentalmente o vinho: porque, se este for seco, não o desejará. Seu desejo pelo vinho é, portanto, acidental. Esta regra é útil ao tratar com termos relati- vos, pois os casos deste tipo são geral- mente casos de termos relativos.

cie para o gênero, pois todos os atribu- tos que pertencem à espécie pertencem igualmente ao gênero; por exemplo, se um conhecimento mau e um conhe- cimento bom, também uma boa e uma disposição, porquanto “dispo- sição? é o gênero de conhecimento. Ora, o primeiro argumento tópico é falaz quando se trata de estabelecer um ponto de vista, ao passo que o segundo é verdadeiro. Com efeito, não é neces- sário que todos os atributos perten- centes ao gênero também pertençam à espécie: “animal”, por exemplo, é volá- til e quadrúpede, porém não assim “homem”. Por outro lado, todos os atributos que pertencem à espécie devem necessariamente pertencer tam- bém ao gênero; porque, se “homem” é bom, então “animal” também é bom. E, ao contrário, para o fim de demolir uma opinião, o primeiro tópico é verdadeiro, enquanto o segundo é falaz, que todos os atributos que não pertencem ao gênero não pertencem tampouco à espécie, ao passo que

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todos os que faltam à-espécie não fal- tam necessariamente ao gênero.

Como aquelas coisas das quais se predica o gênero devem necessaria- mente ter também uma das espécies deste que se predique delas, e como aquelas coisas que estão na posse do gênero em questão ou são descritas por termos derivados desse gênero devem também necessariamente estar na posse de uma de suas espécies e ser descritas por termos derivados de uma dessas espécies (por exemplo, se a al- guma coisa se aplica o termo “conheci- mento científico”, então se aplicará também a ela o conhecimento “grama- tical” ou “musical”, ou o conheci- mento de uma das outras ciências; e se alguém possui conhecimento científico ou é descrito por um termo derivado de “ciência”, esse alguém também possui- o conhecimento gramatical, o musi- cal, ou o conhecimento de alguma das demais ciências, ou será descrito por um termo derivado de uma delas, como, por exemplo, “gramático” ou “músico”) por conseguinte, se se afirma que uma expressão qualquer é de algum modo derivada do gênero (por exemplo, que a alma está em movimento), procure-se ver se a alma pode ser movida com alguma das espé- cies de movimento se, por exemplo, ela pode crescer, ser destruída ou gerar-se, e do mesmo modo com res- peito a todas as demais espécies de movimento. Porque, se a alma não se move de nenhuma dessas maneiras, evidentemente não se move em absolu- to. Este tópico serve para ambos os propósitos, tanto .para desbaratar como para estabelecer uma opinião: pois, se a almã se move com alguma das espécies de movimento, é evidente que se move; e, se não se move com nenhuma das espécies de movimentos, é evidente que não se move.

Se alguém não estiver bem provido de um argumento contra a afirmação, procure entre as definições, reais ou aparentes, da coisa que tem diante de si, se uma não for suficiente, lance mão de várias. Com efeito, será mais fácil rebater uma pessoa quando presa a uma definição, pois as definições são

sempre mais fáceis de atacar.

Examine-se além disso, com respeito à coisa em questão, que é aquilo cuja realidade condiciona a realidade da mesma, ou: cuja realidade se segue necessariamente da realidade da coisa em questão: se se deseja estabelecer um ponto de vista ou opinião, é preciso investigar que coisa existe de cuja rea-

lidade se seguirá a realidade da coisa, em questão (porque, se demonstrarmos

que a primeira é real, também teremos demonstrado que a coisa em questão é real). Se, pelo contrário, se deseja desmantelar uma opinião, deve-se per- guntar que coisa é real se a coisa em questão é real, porque, se demons- trarmos que o que se segue da coisa em questão é irreal, teremos rebatido essa mesma coisa. Considere-se também o tempo im- plicado, para ver se discrepância em alguma parte: suponha-se, . por exemplo, que um homem afirmou que o que é alimentado cresce necessaria- mente: pois os animais estão sempre sendo necessariamente alimentados, mas nem sempre crescem. E também

da mesma forma se ele disse que

conhecer é lembrar-se: porque uma dessas coisas diz respeito ao tempo passado, enquanto. a outra tem que ver

igualmente com o presente e com o

futuro. Diz-se, com efeito, que conhe- cemos as coisas presentes e futuras

(por exemplo, que haverá um eclipse),

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ao passo que. é impossível lembrar-se 30

de nada que não pertença ao passado.

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TÓPICOS-I 3

Existe, além disso, o desvio sofístico do argumento, mediante o qual leva- mos nosso adversário a fazer a espécie de afirmação contra a qual estamos bem providos de linhas de argumenta- ção. Esse procedimento é por vezes uma necessidade real, outras vezes uma necessidade aparente e outras, ainda, não é uma necessidade em abso- luto, nem aparente, nem real. E real- mente necessário sempre que o que res- ponde tenha negado algum ponto de vista -que seja útil no ataque à tese, e O que pergunta dirige então os seus argu- mentos no sentido de apoiar o seu ponto de vista, sendo este um daqueles sobre os quais ele está bem provido de tópicos. E também realmente neces- sário sempre que ele (o que interroga), tendo chegado previamente a uma certa afirmação por meio de uma indu- ção feita a partir da opinião expressa, procure depois demolir: essa afirma- ção: porque, uma vez demolida esta, a opinião expressa originalmente fica também refutada.

É uma necessidade aparente quando o ponto para o qual passa a dirigir-se a discussão parece ser útil e relevante para a tese sem o ser realmente, quer porque o homem que se opõe ao argu- mento se tenha recusado a conceder al- guma coisa, quer porque ele (o que per- gunta)' tenha. previamente chegado a ela por uma indução plausível baseada na tese, e trate então de demoli-la.

O caso restante é quando o ponto a que a discussão passou a dirigir-se não

é nem realmente, nem aparentemente necessário, e, por sorte do contendente, é refutado numa simples questão se- cundária. Deve-se ter cautela com o últimoidos métodos mencionados, pois parece estar completamente desvincu- lado da arte da dialética e ser total- mente estranho a ela. Por essa mesma razão, o contendente não deve perder a calma, mas dar seu assentimento a afirmações que nenhuma utilidade têm no ataque à tese, acrescentando uma

indicação sempre que assente, embora não esteja concorde com o ponto de

vista. Porquanto, em via de regra, a confusão dos que perguntam torna-se maior se, depois de lhes terem sido concedidas todas as proposições dessa espécie, não podem chegar a conclusão alguma. Além disso, quem tenha feito uma afirmação qualquer fez, em certo senti- do, várias afirmações, dado que cada afirmação tem um número de conse- quências necessárias: por exemplo, quem disse “X é um homem?” também disse que ele é um animal, que é um ser animado e um bípede, e que é capaz de adquirir razão e conhecimento, de forma que, pela demolição de uma destas consequências, seja ela qual for,

“a afirmação original é igualmente

demolida. Mas aqui também é preciso acautelar-se para não passar a um argumento mais difícil: pois às vezes é a consequência e outras vezes a tese original a mais fácil de refutar.

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Com respeito aos sujeitos que devem ter um, e apenas um, dentre dois predicados, como, por exemplo, um homem deve ter ou bem doença, ou bem saúde, supondo-se que no tocante a um deles estejamos bem providos de argumentos para afirmar a sua pre- sença ou ausência, estaremos igual- mente bem documentados no que se re- fere ao outro. Este tópico é conversível para ambos os fins: pois, quando hou- vermos demonstrado que um dos argu- mentos pertence ao sujeito, teremos demonstrado também que o outró não lhe pertence; e, se demonstrarmos que um dêles não lhe pertence, teremos demonstrado outro. Evidentemente, pois, a regra é útil para ambos os fins.

Além disso, pode-se adotar uma linha de ataque que consiste em rein- terpretar um termo no seu Sentido lite- ral, implicando que é mais adequado tomá-lo assim do que no sentido esta- belecido: por exemplo, a expressão “de coração forte” não sugerirá o homem corajoso, de acordo com o uso presen- temente estabelecido, mas o homem cujo coração se acha em ótimo estado; assim como também a expressão “de boa esperança” se pode entender no sentido de um homem que espera boas coisas. E analogamente, “de boa estre- la” se pode tomar no significado do homem cuja estrela é boa, como diz Xenócrates: “de boa estrela é aquele que possui uma alma nobreº?. Pois a estrela de um homem é a sua alma.

Algumas coisas acontecem por ne- cessidade, outras habitualmente, ou- tras por acaso; se, portanto, se afirmou que um acontecimento necessário

s Fragmento 81, Heinze. (N. de W. A. P.)

a predicabilidade do.

ocorre habitualmente, ou que um acon- tecimento usual (ou, na falta de tal acontecimento, o seu contrário) ocorre

necessariamente, isso sempre fornece 5

um ensejo para atacar. Porque, se alguém afirmou que um acontecimento necessário ocorre habitualmente, é claro que esse homem negou a univer- salidade de um atributo universal, cometendo, pois, um erro; e da mesma forma se declarou que o atributo usual é necessário, pois então declara que ele se predica universalmente, quando não é assim. E analogamente se sustenta ser necessário o contrário do que é habitual. Porque o contrário de um atributo usual é sempre um atributo relativamente raro: por exemplo se os homens são habitualmente maus, é relativamente raro encontrar um homem bom, de modo que o erro do contendor.é ainda pior se afirmou que eles são necessariamente bons. O mesmo é verdadeiro se ele afirmou que uma simples questão de acaso ocorre necessária ou habitualmente, pois um fato eventual não acontece nem neces- sária, nem habitualmente. Se a coisa acontece habitualmente, então, mesmo supondo-se que sua afirmação não deixe bem claro se ele entende que a coisa em questão sucede habitualmente ou de forma necessária, margem a que a contestemos na suposição de que o caso seja este último; por exemplo, se ele afirmou, sem fazer distinção alguma, que as pessoas deserdadas são más, podemos supor, na discussão, que ele quis dizer que. tais pessoas são assim necessariamente.

É preciso também verificar se ele por acaso afirmou que uma coisa é um acidente de si mesma, tomando-a por algo diferente poque tem um nome dis-

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tinto, como Pródico, que dividia os prazeres em alegria, deleite e regozijo, pois todos estes são sinônimos da mesma coisa, isto é, prazer. Se, pois,

Visto que os contrários podem ser ligados uns aos outros de seis maneiras e quatro dessas uniões formam uma contrariedade, devemos entender o as- sunto dos contrários a fim de que isso nos possa ajudar tanto a estabelecer como a demolir uma opinião.

Ora bem: que os modos de conjun- ção são seis é evidente: pois (1) ou cada um dos verbos contrários será li- gado a cada um dos objetos contrários, e isso nos fornece dois modos, por exemplo: fazer bem aos amigos fazer mal aos inimigos, ou, inversamente, fazer mal aos amigos e bem aos imimi- gos; ou, então, (2) ambos os verbos podem ser unidos a-um objeto, e isto também nos fornece dois modos, por exemplo: fazer bem aos amigos e fazer mal aos amigos, ou fazer bem aos ini- migos e fazer mai aos inimigos. Qu, ainda, (3) um verbo pode ser ligado a ambos os objetos, e isto nos fornece igualmente dois modos, por exemplo: fazer bem aos amigos fazer bem aos inimigos, ou fazer mai aos amigos fazer mal aos inimigos.

Às duas primeiras das conjunções supramencionadas não constituem, pois, nenhuma contrariedade, por- quanto fazer bem aos amigos não é contrário a fazer mal aos inimigos, uma vez que ambas essas maneiras de proceder são desejáveis e corres- pondem a uma mesma disposição. Nem tampouco fazer mal aos amigos & contrário a fazer bem aos inimigos, pois ambas essas coisas são reprová- veis e pertencem à mesma disposição; e não se pensa geralmente que uma

alguém disser que a alegria é um atri- buto acidental de regozijo, estará di- zendo que ela é um atributo acidental de si mesma.

coisa reprovável seja contrária a outra, a menos que uma denote um excesso e a outra uma deficiência; pois um excesso é geralmente incluído na classe das coisas reprováveis, e da mesma forma uma deficiência. Mas todas as outras quairo constituem uma contra- riedade. Com efeito, fazer bem aos amigos é o contrário de fazer mal aos amigos, pois essas coisas procedem de disposições contrárias, e uma delas é desejável enquanto a outra é reprová- vel. O caso é semelhante no que tange às outras conjunções, pois em cada uma dessas combinações um modo de proceder é desejável e o outro reprová- vel, e um corresponde a uma disposi- ção razoável e o outro a uma disposição. Pelo que ficou dito torna- se, pois, claro que o mesmo modo de proceder tem mais de um contrário. Com efeito, fazer bem aos amigos tem como contrários tanto fazer mal aos amigos como fazer bem aos inimigos. E, se os examinarmos do mesmo ângu- lo, veremos que os contrários de cada um dos outros também são em número de dois. Escolha-se, portanto, quaiquer dos dois contrários que seja útil para atacar uma tese.

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Além disso, se o acidente de uma 20

coisa tem um contrário, é preciso veri- ficar se este pertence ao sujeito a que foi atribuído o acidente em apreço; porque, se o segundo lhe perience, não pode pertencer-lhe o primeiro, visto ser impossível que predicados contrários pertençam simultaneamente à mesma coisa.

Deve-se examinar, por outro lado, se

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de alguma coisa foi dita outra coisa de tal índole que, se for verdadeira, predi- cados contrários devem necessaria- mente pertencer à primeira: por exem- plo, se o contendor afirmou que as “idéias” existem em nós. Pois daí resultará que elas estão ao mesmo tempo em movimento e em repouso, e, além disso, que são objetos tanto de sensação como de conhecimento. Com efeito, de acordo com as opiniões dos que afirmam a existência de idéias, essas idéias estão em repouso e são objetos de conhecimento; ora, se elas existem em nós, é impossível que este- jam imóveis; pois quando nos move- mos, segue-se necessariamente que tudo que em nós existe se move junta- mente conosco. Não é menos evidente que também são objetos de sensação, se existem em nós, pois é pela sensação da vista que reconhecemos a forma presente-em cada indivíduo.

Se se afirmou um acidente que tem um contrário, é preciso ver se aquilo que admite o acidente admite também o seu contrário; pois uma mesma coisa admite contrários. Assim, por exem- plo, se o contendor afirmou que o ódio se segue à cólera, o ódio pertenceria, nesse caso, à “faculdade emotiva”, pois é a essa que pertence a cólera. Deve-se, por conseguinte, verificar se o

Dado que os modos de oposição são:

em número de quatro, devemos procu- rar argumentos entre as contraditórias de nossos termos, invertendo a ordem de sua segiência, tanto ao rebater uma opinião como ao estabelecê-la. Nós os obteremos por meio da indução argumentos tais como, por exemplo, “se o homem é um animal, o que não é um animal não é um homem”; e de maneira análoga nos outros casos de

seu contrário, a saber, a amizade, tam- bém pertence à “faculdade emotiva”; porque se assim não for se a amiza- de pertence à faculdade do desejo —, então o ódio não pode seguir-se à cóle- ra. E de maneira análoga se o outro afirmou que o desejo é ignorante. Por- que, se ele fosse capaz de ignorância, seria também capaz de conhecimento, e não é esta a opinião geral isto é, que a faculdade do desejo seja capaz de conhecimento. A fim, pois, de reba- ter uma opinião, como se disse, deve-se observar esta regra; mas quan- do, pelo contrário, se trata de estabe- lecer um ponto de vista, embora a regra não ajude a afirmar que o aci- dente pertence atualmente ao sujeito, ajuda a defender a possibilidade de tal predicação. Pois ao demonstrar que a coisa em questão não admite o aci- dente que lhe foi atribuído, teremos demonstrado que o acidente não lhe

pertence, nem é possível que lhe per- tença; e, por outro lado, se demons- trarmos que o contrário lhe pertence, ou que a coisa comporta o contrário, não teremos, em verdade, demonstrado anda que o acidente afirmado também

lhe pertence; nossa prova não terá ido além desse ponto: a possibilidade de que ele lhe pertença.

contraditórias. Com efeito, nestes casos a sequência é invertida, porque “animal”? se segue de “homem”, mas “não-animal” não se segue de “não-ho- mem?, antes, pelo contrário, “não-ho- mem” segue-se de “não-animal”. Em todos os casos, por conseguinte, deve- se fazer um postulado desta espécie; por exemplo, que “se o honroso é agra- dável, o que não é agradável não é honroso: e, se este último é falso, tam-

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bém o serã o primeiro”. E, do mesmo modo: “se o que não é agradável não é honroso, então o que é honroso é agra- dável”. Evidentemente, pois, a inver- são da sequência formada pela contra- dição dos termos' é um método conversível para ambos os fins. Examine-se, a seguir, o caso” dos contrários de S e P na tese para ver se o contrário de um se segue ao contrá- rio do outro, quer diretamente, quer por conversão, tanto quando se rebate como quando se estabelece uma opi- nião; convém munir-se de argumentos desta espécie também por meio da indução, na medida em que isso for necessário. Ora, a sequência é direta num caso como o da coragem e da covardia, pois de uma delas se segue a virtude e da outra o vício; e de uma se segue que é desejável, enquanto da outra se segue que é reprovável. Por- tanto, a sequência é também direta no segundo caso, pois o desejável é o con- trário do reprovável. E do mesmo modo nos outros casos. Por outro lado, a sequência é inversa num caso como o seguinte: a saúde é conse- quência do vigor, mas a doença não é consequência da fraqueza; seria mais certo dizer que a fraqueza é conse- quência da doença. Neste caso, pois, é evidente que a sequência é inversa. Esta é, todavia, rara no caso dos

- contrários: aí, habitualmente, a se-

quência é direta. Se, pois, o contrário de um dos termos não se segue do con- trário do outro nem direta, nem inver- samente, é evidente que tampouco um dos termos se segue do outro na afir- mação feita, ao passo que, se um é conseguência do outro no caso dos

contrários, também deve necessaria-

mente ser assim na afirmação inicial.

Devem-se também examinar os casos de privação ou presença de um estado do mesmo modo que no caso dos contrários. Acontece, apenas, que em tais casos não ocorre a sequência inversa; ela é, forçosamente, sempre direta: por exemplo, a sensação é consequência da vista, ao passo que a ausência de sensação é consequência da cegueira. Com efeito, a oposição entre sensação e ausência de sensação é uma oposição entre a presença e a privação de um estado: pois um deles é

um estado, e o outro é a privação do

mesmo. O caso dos termos relativos também deve ser estudado da mesma maneira

que o de um estado e da sua privação,

pois aqui a sequência também é direta: por exemplo, se 3/1 é um múltiplo, então 1/3 é uma fração, pois 3/1 é rela- tivo a 1/3 assim como um múltiplo é relativo a uma fração. E igualmente, se o.conhecimento é um modo de conce- ber, o objeto do conhecimento também será um objeto de concepção; e se a vista é uma. sensação, também o objeto da vista será um objeto de sensação. Poder-se-ia levantar aqui a objeção de que, no caso dos termos relativos, não nenhuma necessidade de ocor- rer a sequência da maneira descrita, pois o objeto de sensação é um objeto de conhecimento, ao passo que a sen- sação não é conhecimento. Essa obje- ção, contudo, não se admite em geral como realmente válida, pois muitos

- negam que haja um conhecimento de

objetos de sensação. Além disso, o princípio formulado não tem menos utilidade para o propósito contrário, isto é, para demonstrar que o objeto de sensação não é um objeto de conheci- mento, apoiando-se em que tampouco a sensação é conhecimento.

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Convém examinar também os coor- denados e as formas derivadas dos ter- mos que constituem a tese, tanto ao refutá-la como ao estabelecê-la. Enten- dem-se por “coordenados” termos como os seguintes: “ações justas” e “homem justo” são coordenados de “Justiça”, e “atos corajosos” e “homem corajoso” são coordenados de “coragem”. Analogamente, também as coisas que tendem para produzir e conservar alguma coisa chamam-se coordenadas daquilo que tendem a produzir ou conservar, como, por exemplo, “hábitos saudáveis” são coordenados de “saúde”, e um “exer- cício vigoroso” de uma “constituição vigorosa”, e de modo análogo também em outros casos. “Coordenado”, pois, designa geralmente casos como os que acabamos de mencionar, enquanto “formas derivadas” são “justamente”, corajosamente”, “saudavelmente” e outras formadas da mesma maneira. Em geral se admite que as palavras usadas em suas formas derivadas são também coordenadas, como, por exemplo, “justamente” em relação a “justiça” e “corajosamente” a “cora- gem”; segundo este ponto de vista, “coordenado” designa todos os mem- bros da mesma série de termos afins, como, por exemplo, “justiça”, “justo” aplicado a um homem ou a um ato, “justamente”. É evidente, pois, que quando se demonstra que é bom e

digno de louvor um membro qualquer .

de uma série de termos afins, o mesmo fica demonstrado de todos os demais. Por exemplo: se “justiça” é algo digno de louvor, também “justo”, tanto apli- cado a um homem como a um ato, e “justamente”, conotarão algo digno de louvor. Portanto, “justamente” será

ARISTÓTELES

também expresso por louvavelmente”, derivado de “louvável” por meio da mesma inflexão que de “justiça” for- mou “justamente”.

Deve-se procurar o predicado con- trário não apenas no caso do sujeito mencionado, como também no do sujeito. contrário. Sustente-se, por exemplo, que o bem não é necessaria- mente agradável, pois tampouco o mal é doloroso; ou, se este último é assim, também será agradável o primeiro. Por outro lado, se a justiça é conheci- mento, então a injustiça é ignorância; e, se “justamente” significa “sabia- mente” e “habilmente”, então “injusta- mente” significa ignorantemente” e “inabilmente”; ao passo que, se o últi- mo não é verdadeiro, tampouco o será O primeiro, como no exemplo dado acima; pois é mais provável que “mjustamente” pareça equivaler a “ha- bilmente” do que a “inabilmente”. Este tópico foi explanado atrás, quando tratamos da segiência dos contrá- rios!º; pois tudo o que pretendemos agora é que o contrário de P se siga ao contrário de S.

Examinem-se, além disso, os modos de geração de uma coisa, e aquelas coi- sas que tendem a produzila ou a corrompê-la, tanto ao refutar como ao

- estabelecer uma opinião. Porque aque-

las coisas cujos modos de geração se classificam entre as coisas boas são também boas. elas mesmas; e, se elas

eu End I o mesmas sao boas, também o são os

seus modos de geração. Se, por outro lado, seus modos de geração forem

“maus, elas próprias também serão

más. Quanto aos modos de corrupção,

10 113b27;e 114 a 6.(N. de W. A. P)

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o inverso é verdadeiro; porque, se os modos de corrupção se classificam como coisas boas, então as coisas mes- mas se classificarão como más, ao passo que, se os modos de corrupção sao considerados maus, elas mesmas aparecem comôó boas. O mesmo argu-

Devem-se examinar também as coi- sas que se assemelham ao sujeito em questão e ver se se encontram num caso semelhante; por exemplo, se um ramo de conhecimento tem mais de um objeto, também o terá uma opinião; e, se possuir visão é ver, então possuir audição é ouvir. E de maneira análoga com as demais coisas, tanto as que são semelhantes como as que são geral- mente consideradas como tais. O tópi- co de que falamos é comum para os dois fins, porque, se se afirmou algo de alguma coisa particular, a mesma afir- mação se aplicará também às outras coisas semelhantes, ao passo que, se a afirmação não é verdadeira de uma delas, também não o será das outras.

Procure-se ver também se os casos são semelhantes com respeito a uma coisa e com respeito a várias coisas, pois às vezes deparamos com uma discrepância. Assim, se “conhecer” al- guma coisa é “pensar?” nela, então “co- nhecer muitas coisas” é “estar pen- sando em muitas coisas”; mas isto não é verdadeiro, pois se pode conhecer muitas coisas sem estar pensando nelas. Se, pois, a última proposição não é verdadeira, tampouco o era a primeira, que se referia a uma coisa só, a saber: que “conhecer” uma coisa é “pensar” nela.

Argumente-se, além disso, partindo dos graus maiores ou menores. No que toca aos graus maiores, existem quatro regras ou tópicos. Uma delas é: exami-

mento se aplica também ac que tende a produzir e a corromper: porque as coi- sas produzidas por causas boas são também boas elas mesmas; ao passo que, se as causas que as corrompem são boas, elas mesmas se classificam como mãs.

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nar se a um grau maior do predicado

- se segue um grau maior do sujeito; por exemplo, se o prazer é um bem, veja-se

também se um prazer maior é um bem maior; e, se fazer uma injustiça é um mal, veja-se se fazer uma injustiça maior é um mal maior. Esta regra é útil para ambos os fins, pois, se um acréscimo do acidente se segue a um incremento do sujeito, como dissemos, evidentemente o acidente pertence ao sujeito, ao passo que se uma coisa não se segue da outra, o acidente não per- tence ao sujeito. Isto deve ser estabele- cido por indução.

Outra regra é:'se um predicado é atribuído a dois sujeitos, supondo-se que ele não pertença ao sujeito ao qual é mais provável que pertença, tam- pouco deverá pertencer aquele a que é menos provável que pertença; e, inver- samente, se pertence ao sujeito a que é menos provável que pertença, deverá pertencer igualmente ao outro. E, por outro lado: se dois predicados são atri- buídos a um sujeito, então, se acontece não lhe pertencer o que mais geral- mente se acredita que lhe pertença, tampouco lhe pertencerá o outro; ou, se lhe pertence o que menos geralmente se acredita que lhe pertença, com mais forte razao lhe pertencerá o outro. Mais ainda: se dois predicados são atribuídos a dois sujeitos, então, se aquele que mais geralmente se acredita pertencer a um dos sujeitos não lhe pertence, tampouco o predicado res-

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44º ARISTÓTELES

tante pertence ao sujeito restante; ou,

se o que menos geralmente se acredita

pertencer a um dos sujeitos lhe perten- ce, com maior razão pertencerá o outro ao sujeito restante.

Além disso, pode-se argumentar partindo do fato de que um atributo pertence (ou se supõe geralmente que pertença) em grau igual ao sujeito, de três maneiras, correspondentes aos três últimos tópicos dados em relação a um grau maior!!. Porque, admitindo-se que um predicado pertence, ou supõe- se que pertença a dois sujeitos em grau igual, então, se ele não pertence a um deles, tampouco pertence ao outro; ao passo que, se pertence a um dos dois, deverá pertencer também ao outro. Ou, supondo-se que dois predicados per- tencem em grau igual ao mesmo sujei- to, então, se um deles não lhe pertence, tampouco lhe pertencerá o outro; ao passo que, se um dos dois realmente lhe pertence, pertencerá. O caso também é o mesmo se dois predicados pertencem em grau igual a dois sujeitos, porque, se um dos predicados: não pertence a um dos sujeitos, tampouco o outro predicado pertencerã ao outro sujeito, ao passo que se um dos predicados pertence a um dos sujeitos, o outro predicado também pertencerá ao outro sujeito.

Pode-se, pois, argumentar partindo de graus maiores, menores ou iguais de verdade, do número de maneiras que acabamos de indicar. Deve-se, além disso, argumentar partindo da adição de uma coisa a outra.

Se a adição de uma coisa a outra faz com que esta outra se torne boa ou branca, quando anteriormente não era boa nem branca, então a coisa acres- centada será branca ou boa isto é, possuirá o caráter que comunica .ao

todo. Por outrp lado, se a adição de al-

11 Linhas 6-14.(N. de W. A. P)

o outro também lhe.

guma coisa à um dado objeto intensi- fica o caráter que ele possuía tal como foi dado, então a coisa acrescentada possuirá, ela mesma, esse caráter. E analogamente quanto aos demais atri- butos. Esta regra não é aplicável a todos os casos, mas apenas aqueles em que se veja realmente que ocorre o excesso descrito por nós como “inten- sidade aumentada”. Não é esta regra, no entanto, conversível para o fim de refutar uma opinião. Porque, se a coisa acrescentada não torna a outra boa, nem por isso é evidente que ela mesma não seja boa: com efeito, a adição do bom ao mau não faz necessariamente com que o mau se torne bom, como a adição do branco ao preto não faz com que o preto se torne branco.

Por outro lado, qualquer predicado de que possamos expressar graus maiores ou menores de inerência per- tence também absolutamente ao sujei-

to, pois graus maiores de bom ou bran-

co não se atribuirão ao que não é bom ou branco: de uma coisa nunca se dirá que possui um grau maior qu menor de bondade do que outra, mas

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sempre de maldade. Esta regra tam- .

pouco é conversível para o fim de. refu- tar uma predicação, porquanto vários predicados dos quais não. podemos expressar um grau maior pertencem aos seus sujeitos de maneira absoluta: o termo “homem”, por exemplo, não é atribuido em grau maior ou menor, mas «um homem é um homem de maneira absoluta.

Devem-se examinar do e o modo os predicados que .se atribuem sob um aspecto determinado e num

tempo e lugar dados: porque, se o pre-

dicado é possível sob determinado aspecto, é também possível absoluta- mente. E do mesmo modo quanto ao que é predicado num tempo ou lugar dado; pois aquilo que é absolutamente

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impossível tampouco é possível sob qualquer aspecto, nem em qualquer

“tempo ou lugar. Neste ponto pode-se

levantar uma objeção, dizendo que sob um determinado aspecto as pessoas podem ser boas por natureza, por exemplo, podem ser inclinadas à gene- rosidade ou à temperança, mas de um modo absoluto não são boas por natu- reza, pois ninguém é prudente por natureza. E, do mesmo modo, também é possivel que uma coisa corrompível escape à corrupção numa ocasião

'determmada, não sendo, todavia, pos-

sível que escape absolutamente a ela. E, por outro lado, também é uma boa coisa, em certos lugares, observar tal ou tal dieta ou regime, como, por exemplo, em zonas contaminadas, em- bora não seja uma coisa boa em senti- do absoluto. Além disso, em certos lugares é possível viver isolado e só,

“mas, falando de modo absoluto, não é

possível viver isolado e só. Do mesmo modo, também em certos lugares é honroso sacrificar o próprio pai, como entre os Tribalos, ao passo que falando de modo absoluto, isso não é honroso. Ou talvez isso indique uma relativi- dade não a lugares, mas a pessoas, pois onde quer que elas se encontrem

acontece o mesmo. Em toda parte esse ato será considerado honroso entre os

Tribalos, simplesmente porque são Tri- .

balos.

Mais ainda: em certas ocasiões é

uma boa coisa tomar medicamentos, por exemplo, quando se está doente, mas não é assim de modo absoluto. Ou talvez isso possa indicar uma relativi- dade não a uma ocasião determinada, mas a um determinado estado de saúde, pois não importa quando isso

ocorra, se a pessoa se encontra em tal .

estado.

Uma coisa é “absolutamente” assim se.estamos dispostos a dizer dela, sem qualquer adição, que é honrosa ou o contrário. Negaremos, por exemplo, que seja honroso sacrificar o próprio pai: isso é honroso para determi- nada gente; não é, por conseguinte, honroso em sentido absoluto. Em compensação, diremos que honrar os deuses é honroso sem acrescentar mais nada, porque é honroso em sentido absoluto. E assim, de tudo aquilo que, sem qualquer “adição, se considere geralmente honroso ou desonroso, ou de qualquer outra coisa da mesma espécie, se dirá que é assim “absoluta- mente”.

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A questão sobre qual é a mais dese- Jável ou a melhor entre duas ou mais coisas deve ser examinada da maneira seguinte; mas, antes de mais nada, devemos deixar bem claro que a inves-

-tigação que estamos fazendo não diz

respeito a coisas que divergem larga- mente e mostram grandes diferenças umas das outras (pois ninguém ex- pressa a menor dúvida sobre se é mais desejável a felicidade ou a riqueza), mas a coisas que se relacionam estrei- tamente entre si e sobre as quais costu- mamos discutir para saber qual das duas deveremos preferir, por não ver- mos nenhuma vantageni de um lado ou de outro ao compará-las. É evidente, pois, que se em tais casos pudermos mostrar uma única vantagem, ou mais de uma, nosso juízo será o nosso assentimento àquela parte que possui a vantagem, como sendo a mais desejá- vel. j ;

Em primeiro lugar, pois, o que é mais duradouro e seguro é preferível aquilo que o é menos; e, do mesmo modo, o que tem mais probabilidades de ser escolhido pelo homem sábio ou prudente, pelo homem bom ou pela lei Justa, por homens que são hábeis num campo qualquer, quando fazem sua escolha como tais, e pelos peritos em determinadas classes de coisas: isto é, o que a maioria ou o que todos eles escolheriam; por exemplo, em medi- cina ou em carpintaria, são mais dese- jáveis as coisas que escolheria a maio- ria dos médicos ou carpinteiros, ou todos eles; ou, de modo geral, o que

"escolheria a maioria dos homens, ou

todos os homens, ou todas as coisas pois todas as coisas tendem para o bem. Deve-se orientar o argumento que se pretende empregar para qual- quer fim que se necessite. O padrão absoluto do que é “melhor” ou “mais desejável” é o ditame da melhor ciên- cia, se bem que relativamente a um indivíduo dado o padrão possa ser a sua ciência particular.

Em segundo lugar, aquilo que é conhecido como “um X” é mais dese- jável do que aquilo que não se inclui no gênero “X?: por exemplo, a justiça é mais desejável do que um homem justo, porque a primeira se inclui no gênero “bem”, o que não acontece com

o segundo, e a primeira é chamada .

“um bem”, ao passo que o segundo não o é; pois nada que não pertença ao gênero em causa é chamado pelo nome genérico, como, por exemplo, um “homem branco” não é uma “cor”. E analogamente nos demais casos.

E também o que se deseja por si mesmo é preferível áquilo que se deseja com vistas noutra coisa: por exemplo, a saúde é preferível à ginástica, porque a primeira é desejada por si mesma,

enquanto a segunda é desejada com.

vistas noutra coisa. E do mesmo modo, o que é desejável por si mesmo é mais desejável do que aquilo que se deseja por acidente; por exemplo, a justiça é mais desejável em nossos amigos do que em nossos inimigos, pois a pri- meira é desejável em si mesma e a segunda por acidente: com efeito, dese-

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jamos que nossos inimigos sejam jus- tos por acidente, a fim de que não nos causem dano. Este princípio é o mesmo que o precedente, embora ex- presso de outro modo. Porquanto dese- jamos a justiça em nossos amigos por si própria, mesmo que isso não faça nenhuma diferença para nós e ainda que eles estejam na Índia, ao passo que em nossos inimigos nós a desejamos por outra coisa e a fim de que ejes não nos causem dano.

Por outro lado, aquilo que em si mesmo é causa do bem é mais desejá- vel do que aquilo que o é por acidente, por exemplo, a virtude é mais desejável do que a sorte (pois a primeira é por si mesma causa de coisas boas, ao passo que a segunda o é acidentalmente); e do mesmo modo nos outros casos da mesma espécie. E analogamente tam- bém no caso contrário, pois aquilo que é em si mesmo a causa do mal é mais reprovável do que aquilo que o é acidentalmente, por exemplo, o vício e o acaso, pois o primeiro é mau em si mesmo e o segundo por acidente.

Mais ainda: o que é bom de maneira absoluta é ímais desejável do que aqui- lo que é bom para uma pessoa particu- lar: por exemplo, recuperar a saúde é mais desejável do que uma operação cirúrgica, pois a primeira é boa de maneira absoluta e a segunda o é para uma pessoa particular, a saber: o homem que precisa de ser operado. Assim também, ó que é um bem por natureza ê mais desejável do que o bem que não é tal por natureza: por exemplo, a justiça é mais desejável do que o homem justo, pois a primeira é boa por natureza, ao passo que no segundo a bondade é adquirida. E tam- bém é mais desejável o atributo que pertence ao melhor e mais honroso sujeito; por exemplo, o que pertence a um deus é mais desejável do que o que pertence a um homem, e o que pertence

à alma, mais desejável do que o que pertence ao corpo. Do mesmo modo, a propriedade de uma coisa melhor é mais desejável do que a propriedade de uma coisa pior, por exemplo: a pro- priedade de um deus do que a preprie- dade do homem; porque, assim como no tocante ao que é comum a ambos não diferem absolutamente entre si, no que respeita às suas propriedades um sobrepuja o outro. Também é melhor o que é inerente a coisas melhores, ante- riores ou mais honrosas: assim, por exemplo, a saúde é preferível à força e à beleza, pois a primeira é inerente tanto ao úmido como ao seco, tanto ao quente como ao frio em suma, a todos os constituintes primários de um animal ao passo que as outras são ine- rentes ao que é secundário, sendo a força uma característica dos tendões e dos músculos, enquanto a beleza, se- gundo se supõe geralmente, consiste numa certa simetria dos membros. Também se supõe geralmente que o fim ê mais desejável do que os meios, e, de dois meios, o que mais se apro- xima do fim. E, em geral, um meio que tende para a finalidade da vida é mais desejável do que um meio que se dirige a qualquer outra coisa; por exemplo, o que contribui para a felicidade é mais

desejável do que aquele que contribui

para a prudência. O apto é também .

mais desejável do que o imepto. Do mesmo modo, de dois agentes produto- res é mais desejável aquele cujo fim é melhor; ao passo que entre um agente produtor e um fim podemos decidir

mediante uma soma proporcional sem- pre que o excesso de um dos fins sobre o outro seja maior do que o do segun- do sobre o seu agente produtor; por exemplo, supondo-se que o excesso da felicidade sobre a saúde seja maior do que o da saúde. sobre aquilo que a pro- duz, então o que produz a felicidade é

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melhor do que a saúde. Com efeito, o que produz a felicidade excede o que produz a saúde mesma proporção em que a felicidade excede a saúde. Mas a saúde excede aquilo que a pro- duz por uma quantidade menor; logo, o excesso do que produz a felicidade

sobre o que produz a saúde é maior do

que o excesso da saúde sobre este últi- mo. É evidente, 'pois, que o que produz a felicidade é mais desejável do que a saúde, pois supera o mesmo termo de referência por uma quantidade maior.

Além disso, o que em si mesmo é mais nobre, mais precioso e digno de

Além disso, sempre que duas coisas se assemelhem muito entre si e não podemos ver nenhuma superioridade numa delas sobre a outra, devemos examiná-las sob o ponto de vista de suas conseguências. Porquanto a que tem como conseguência o bem maior é a mais desejável; ou, se as conse- quências forem más, serã mais desejá- vel a que for seguida de um mal menor. Com efeito, embora ambas sejam dese- jáveis, pode haver entre elas alguma consequência desagradável que faça

- pender a balança. Nosso exame a par-

tir das conseglências segue duas dire- ções, pois consegiuências anteriores e consequências posteriores; por exem- plo se um homem aprende, segue-se que antes era ignorante e depois sabe. Como regra geral, a consequência pos- terior é a que mais deve entrar em consideração. Cumpre escolher, por- tanto, aquela das conseglências que melhor servir aos nossos fins.

Além disso, um: grande número de boas coisas é mais desejável do que um número menor, quer absolutamente, quer quando um está incluído no outro, a saber: o número menor no

louvor é mais desejável do que aquilo que o é menos; por exemplo, a amizade é mais desejável do que a saúde e a jus- tiça do que a força. Porquanto os pri- meiros pertencem em si mesmos à clas- se das coisas preciosas e dignas de

“louvor, ao passo que os segundos

pertencem a ela em virtude de outra coisa, não por si mesmos; com efeito, ninguém apreço à riqueza por si mesma, mas sempre em virtude de

outra coisa, enquanto a amizade nos é

preciosa em si mesma, ainda quando não é provável que nos advenha dela qualquer outro proveito.

maior. Pode-se levantar aqui uma obje-

ção supondo-se que, num caso particu-

“lar, uma delas seja apreciada por causa

da outra, pois nesse caso as duas jun- tas não são mais desejáveis do que uma só; por exemplo, a recuperação da saúde e a saúde não são mais desejá- veis do que a saúde por si só, visto que desejamos recuperar a saúde precisa- mente por causa da saúde. Também é

perfeitamente possível que aquilo que: - não é bom, juntamente com o que o é,

sejam mais desejáveis do que um gran-

- de número de boas coisas: por exem-

plo, a combinação da felicidade com algo que não seja bom pode ser mais desejável do que a combinação da jus- tiça e da coragem. Além disso, as mes- mas coisas são mais valiosas quando acompanhadas de prazer do que quan- do este está ausente, e da mesma forma quando são isentas de dor do que quando acompanhadas de dor.

Todas as coisas são também mais desejáveis na ocasião em que assumem maior importância; por exemplo, estar isento de dor é mais desejável na velhi- ce do que na juventude, porque se reveste de maior importância na velhi-

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ce. Dentro do mesmo princípio, tam- bém a prudência é mais desejável na velhice; com efeito, ninguém escolhe os Jovens para guiá-los, pois não se es- pera que eles sejam prudentes. Com a coragem dá-se o caso inverso, pois é na mocidade que se requer de maneira mais imperativa o exercício dessa vit- tude. E da mesma forma no que toca à temperança, porquanto os jovens so- frem mais do que os velhos 'as conse- quências de suas paixões.

Além disso, é mais desejável aquilo que é mais útil em todas as ocasiões ou na maioria delas, por exemplo, a justi- ça e a temperança mais do que a cora- gem, pois as primeiras são sempre úteis, enquanto a segunda o é em determinadas ocasiões. E dentre duas coisas, aquela que, se todos a possuís- sem, tornaria desnecessária a outra é mais desejável do que aquela que todos poderiam possuir e, ainda assim, sentir falta da outra. Considere-se a esta luz o caso da justiça e da coragem: se todos fossem justos, não haveria neces- sidade de coragem, ao passo que. se todos fossem corajosos, ainda assim haveria necessidade de justiça.

Deve-se também julgar pelas cor- rupções e perdas, pelas gerações e aquisições, bem como pelo contrário das coisas: pois aquelas coisas cuja

- corrupção é mais reprovável são, em si

mesmas, mais desejáveis. Com a gera- ção ou a aquisição de coisas dá-se o contrário, pois-aquelas cuja geração ou aquisição é mais desejável são, em si mesmas, mais desejáveis.

Outra regra ou tópico é que aquilo que está mais próximo do bem: em outras palavras, o que mais de perto se assemelha ao bem é melhor e mais desejável; assim, a jústiça é melhor do que um homem justo. E do mesmo modo, o que mais se assemelha a algo

“supérior a ele próprio é mais desejável

do que aquilo que menos se assemelha;

por exemplo, dizem alguns que Ajax era um-homem superior a Ulisses por- que se assemelhava mais a Aquiles. A isto pode-se objetar que não é verdade, pois é bem possível que Ajax não se assemelhasse mais do que Ulisses a Aquiles naqueles pontos que faziam deste o melhor de todos eles, e que Ulisses fosse um homem de valor, em- bora não se parecesse com Aquiles. Examine-se também se a semelhança não é uma espécie de caricatura, como a de um macaco com um homem, enquanto um cavalo não tem qualquer semelhança com este: porque o maca- co não é o mais belo desses dois ani- mais, apesar de sua semelhança mais estreita com o homem. Por outro lado, se de duas coisas uma se assemelha mais a uma cóisa melhor enquanto a outra se assemelha mais a uma coisa pior, é provável que a. primeira seja melhor do que a segunda. Isto, no entanto, também admite uma objeção, pois é possível que uma se pareça de leve com a melhor, enquanto a outra se parece fortemente com a pior: supo- nha-se, por exemplo, que a semelhança de Ajax com Aquiles seja pequena, ao passo que a de Ulisses com Nestor seja grande. Pode suceder também que o que se assemelha ao tipo melhor: pos- sua uma semelhança de certo modo degradante e que, pelo contrário, a semelhança da outra com o tipo pior seja no sentido de melhorá-lo, como é o caso da semelhança entre um cavalo e um jumento em comparação com a semelhança entre um homem e um macaco. au Outro tópico é que o bem mais evi- dente é mais desejável do que o menos evidente, e o mais dificil do que o mais fácil. poisídamos maior valor à posse de coisas que não podem ser adquiri- das com facilidade. Do mesmo modo, a posse mais pessoal é mais desejável do que aquela que é mais amplamente

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compartilhada. E também o que está mais livre de conexões com o mal, pois o que não é acompanhado de nada desagradável é mais desejável do que aquilo que possui tais conotações.

Além disso, se A é melhor do que B em sentido absoluto, também o melhor dos componentes de À é superior ao melhor dos componentes de B; por exemplo, se “homem? é melhor do que “cavalo”, tambêm o melhor dos ho- mens é superior ao melhor dos cavalos. E inversamente, se o melhor integrante de A é superior ao melhor integrante de B, então A é melhor do que B em sentido absoluto; por exemplo, se o melhor dos homens é superior ao me- lhor dos cavalos, então “homem” é melhor do que “cavalo” em sentido absoluto.

Ainda mais: as coisas que nossos amigos podem compartilhar conosco

-são melhores do que aquelas que eles

não podem compartilhar. E do mesmo modo, aquelas coisas que preferi- riamos fazer a nossos amigos são melhores do que aquelas que gosta- riamos de fazer a qualquer um: per exemplo, praticar a justiça e fazer o bem do que simplesmente aparentar essas coisas: pois prefeririamos fázer bem aos nossos amigos a aparentar fazê-lo, ao passo que, tratando-se de um homem qualquer a quem encon- tremos na rua, acontece o contrário. Do mesmo modo, às superfluidades

' são melhores do que as necessidades, e

com frequência são também mais dese- jáveis: viver bem, com efeito, é uma superfluidade, ao passo que a simples

Além disso, de duas coisas que per- tencem à mesma espécie, a que possui

vida é uma necessidade. Às vezes, porém, o melhor não é também mais desejável, pois do fato de ser melhor não decorre necessariamente que seja mais desejável: pelo menos, ser filó- sofo é melhor do que ganhar dinheiro, porém não é mais desejável para um homem que carece das coisas necessá- rias à vida. A expressão “superflui- dade” aplica-se sempre que um homem possui o necessário para a vida e esfor- ça-se por adquirir também outras coi- sas nobres. Grosso modo, talvez as coisas necessárias sejam mais desejá- veis, enquanto as supérfluas são me- lhores.

Igualmente, o que não se pode con- seguir de outrem é mais desejável do que aquilo que também se pode conse- guir de outrem, como sucede, por exemplo, no caso da justiça em compa- ração com a coragem. Do mesmo modo, A é mais desejável se A é dese- jável sem B, porém não B sem A: o poder, por exemplo, não é desejável sem a prudência, mas a prudência é desejável sem o poder. Assim, também, se de duas coisas repudiamos uma a fim de que nos considerem possuidores da outra, é mais desejável essa outra de que desejamos nos considerem possui- dores; é assim, por exemplo, que repu- diamos o amor ao trabalho duro a fim de - que os outros nos considerem geniais.

E, por fim, são mais desejáveis aquelas coisas com cuja ausência é menos reprovável que nos aflijamos, e também aquelas com cuja ausência é mais reprovável que deixemos de nos afligir.

a virtude peculiar à espécie é mais desejável do que aquela que carece

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dessa virtude. Se ambas a possuem, aquela que a possui em maior grau é mais desejável.

Se uma coisa torna bom tudo aquilo em que toca, enquanto outra não o faz, a primeira é mais desejável, exata- mente como aquilo que aquece as ou- tras coisas é mais quente do que aquilo que não as aquece. Se ambas o fazem, é mais desejável aquela que o faz em grau maior, ou a que torna bom o obje- to melhor e mais importante se, por exemplo, uma torna boa a alma e a outra O corpo.

Deve-se julgar, além disso, as coisas peios seus derivados, seus usos, suas ações e suas cbras, e estes por aquelas, que ambos andam juntos. Por exem- plo, se “justamente” significa algo mais desejável do que corajosamente”, então também a justiça é algo mais desejável do que a coragem; e, se a jus- tiçã é mais desejável do que a coragem, “Justamente” significa algo mais dese- jável do que “corajosamente”. E do mesmo modo nos outros casos.

E igualmente, se uma coisa ultra- passa enquanto outra não alcança Oo mesmo padrão de bondade, aquela que

-o ultrapassa é a mais desejável, como

também o é aquela que ultrapassa um padrão ainda mais elevado. Mais ainda: se duas coisas são preferíveis a uma terceira, a que é preferível em grau maior é mais desejável, e a que O é em grau menor é menos desejável. E também quando o excesso de uma coisa é mais desejável do que o excesso de outra, a primeira em si mesma é mais desejável do que a outra: por exemplo, a amizade do que o dinheiro, pois um excesso de amizade é mais desejável do que um excesso de dinhei- ro. E, do mesmo modo, aquilo que um homem preferiria possuir pelo seu pró- prio esforço é mais desejável do que aquilo que ele preferiria possuir pelo esforço alheio: assim, os amigos são mais desejáveis do que o dinheiro. ;

ARISTÓTELES |

Deve-se julgar também pelo método de adição e ver se a adição de A à mesma coisa a que se adiciona B torna o todo mais desejável do que o faz a adição de B. Convém acautelar-se, no entanto, para não aduzir algum caso em que o termo comum utilize ou de outra forma qualquer favoreça uma das coisás que lhe são acrescentadas, porém não a outra, como, por exem- plo, se comparássemos uma serra uma foice em relação à arte da carpin- taria: porquanto nessa relação a serra é a mais desejável das duas, sem que, no entanto, seja mais desejável de maneira absoluta. Uma coisa é tam- bém mais desejável se, quando acres- centada a um bem menor, faz com que o todo se tome um bem maior. E deve-se julgar igualmente pelo sistema da subtração, pois aquela coisa em resultado de cuja subtração o resto se torna um bem menor pode considerar- se como um bem maior, seja qual for essa coisa cuja subtração faz com que o resto seja um bem menor.

E também, se uma coisa é desejável por si mesma e a outra pela sua aparência, a primeira é mais desejável do que a segunda: por exemplo, a saúde do que a beleza. Diz-se que uma coisa é mais desejável pela sua aparên- cia se, na suposição de que ninguém tivesse conhecimento dela, não nos interessássemos em possuí-la. Além disso, é ainda mais desejável se o é tanto por si mesma como pela sua aparência, enquanto a outra coisa é desejável por uma dessas razões. E da mesma forma, o que é mais precioso

por si mesmo é também melhor e mais

desejável. Uma coisa pode ser julgada mais desejável em si mesma quando a escolhemos por ela própria, sem que daí nos advenha nenhuma outra vanta- gem provável. |

Além disso, deve-se distinguir em quantos sentidos se usa o termo “dese-

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javel” e com que fins em vista, por

exemplo: a conveniência, a honra ou O prazer. Com efeito, o que é útil para todas essas coisas ou para a maioria delas pode ser encarado como mais desejável do que aquilo que não é útil de igual maneira. Se ambas as coisas possuem essas características, deve-se examinar qual das duas as possui de maneira mais assinalada, isto é, qual das duas é mais agradável, ou mais honrosa, ou mais conveniente. É tam- bém mais desejável o que serve uma finalidade melhor, por exemplo: aquilo que contribui para promover a virtude

As comparações de coisas umas com as outrãs devem, pois, ser feitas. da maneira indicada. As mesmas re- gras ou tópicos são também úteis para mostrar que uma coisa qualquer é simplesmente desejável ou reprovável,

pois para isso basta subtrair o excesso de uma coisa sobre a outra. Com efei- to, se o que é mais precioso é mais desejável, então o que é simplesmente precioso é desejável; e, se o que é mais

Os tópicos ou lugares referentes a quantidades e graus comparativos devem tomar-se da forma mais geral possível, porque, assimi tomados, serão provavelmente mais úteis num número maior de casos. É possível tornar mais universais alguns dos tópicos dados acima alterando ligeiramente a sua expressão, por exemplo: que “aquilo que por natureza mostra tal e tal quali- dade manifesta-a em grau maior do que aquilo que não a manifesta por natureza. E também, se uma coisa

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do que aquilo que promove o prazer. É analogamente no caso das coisas re- prováveis: pois é mais reprovável o que mais impede a consecução do que é desejável, por exemplo: a doença é mais reprovável ou indesejável do que a fealdade, por ser um empecilho maior tanto ao prazer como à virtude. Deve-se argumentar, além disso, mostrando que a coisa em apreço é em

igual medida desejável e reprovável, .

pois uma coisa de tal índole que se possa desejá-la e opor-se a ela por igual é menos desejável do que outra que seja somente desejável.

útil é mais desejável, o que é simples- mente útil é desejável. E analogamente no caso das outras coisas que admitem comparações: desta espécie. Porque, em alguns casos, ao comparar as coisas entre si estamos afirmando que cada uma delas, ou pelo menos uma delas, é desejável: por exemplo, sempre que chamamos uma coisa “boa por natureza” e a outra “não por nature- za”; pois, evidentemente, o que é bom por natureza é desejável.

comunica tal e tal qualidade áquilo que a possui ou a que ela pertence,

enquanto outra coisa não faz tal, a pri-

meira possui essa qualidade em maior grau do que aquela que não a cornuni- ca; e, se ambas a comunicam, então manifesta-a em grau maior aquela que a comunica em maior grau.

Além disso, se no que se refere a determinada característica uma coisa excede é a outra não alcança o mesmo padrão; e também .se uma delas supera algo que. supera um dado padrão,

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56 ARISTÓTELES

enquanto a outra não alcança esse padrão, é evidente que a primeira manifesta essa característica em maior

grau. Deve-se julgar também por meio :

da adição e ver se À, quando acrescen- tado à mesma coisa que B, comunica ao todo tal e tal caráter em grau mais assinalado do que B, ou se, quando acrescentado a uma coisa que mani- festa esse caráter em grau menor, o comunica ao todo em grau maior. E, de maneira análoga, também se pode Julgar por meio da subtração: pois uma coisa tal que, quando subtraída, o resto manifesta tal ou tal caráter em grau menor, possui ela mesma esse

Se a questão for expressa de forma particular e não universal, podem apli- car-se em primeiro lugar os tópicos ou lugares universais, tanto construtivos como destrutivos, que foram dados. Porque, ao refutar ou estabelecer uma coisa universalmente, também a de- monstramos em particular: com efeito, se ela é verdadeira de todos, também é verdadeira de alguns; e, se é falsa de todos, é falsa de alguns. Especialmente prestimosos e de aplicação muito geral são os tópicos baseados nos opostos, coordenados e derivados de uma coisa, pois a opinião pública concede por igual que, se todo prazer é bom, então toda dor é má; e que, se algum prazer é bom, então alguma dor é má.

Além disso, se alguma forma de sen- sação não é uma capacidade, segue-se que alguma forma de carência de sen- sação não é tampouco uma carência de capacidade. E igualmente, se alguma

forma de concepção é em alguns casos

um objeto de conhecimento; então al- guma forma de conceber é também conhecimento. Por' outró lado, se o injusto é em alguns casos bom, então o

caráter em grau maior. Além disso, as coisas manifestam tal ou tal caráter em

grau maior quando mais isentas de mistura com os seus contrários; por exemplo, é mais branco aquilo que está

mais isento de. mistura com o preto. Acresce que, além das regras dadas acima, possui tal ou tal caráter em

grau maior aquilo que admite em maior grau a definição própria do

caráter em apreço; por exemplo, se a definição do branco é “uma cor que

traspassa a visão”, será mais branco aquilo que em maior grau for uma cor que traspassa a visão.

que é justo também é em alguns casos mau; e, se o que acontéce justamente é em alguns casos mau, também o que acontece injustamente é em alguns casos. bom. E, da mesma forma, se o que é agradável é em alguns casos responsável, também o prazer é em al- guns casos uma coisa reprovável. E, apoiando-nos no mesmo princípio, se o agradável é em alguns casos benéfico, então o prazer também é em alguns casos uma coisa benéfica. O mesmo se

“aplica no que respeita às coisas destru-

tivas e aos processos de geração e corrupção. Porque, se alguma coisa que destrói o prazer ou o conheci- mento é em alguns casos boa, então podemos admitir que o prazer ou o conhecimento é em alguns casos uma coisa má. E analogamente, se a des- truição do conhecimento é em alguns casos uma boa coisa, ou sua produção uma coisa má, então o. conhecimento será, em alguns casos, uma coisa má: por exemplo, se é bom para um homem esquecer a sua conduta desairosa .e lembrá-la: é uma coisa má, então o conhecimento da ' sua conduta desai-

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TÓPICOS-III

rosa pode ser tomado como uma coisá má. O mesmo vale para os demais casos da mesma espécie: em todos eles a premissa e a conclusão têm igual probabilidade de ser aceitas.

Deve-se julgar, além disso, por meio dos graus maiores, menores ou iguais: porque, se algum membro de outro gê- nero manifesta certa característica em grau mais assinalado do que o objeto que temos em vista, ão passo que ne- nhum membro do gênero deste mani- festa em absoluto tal característica, podemos admitir que tampouco o obje- to em questão a manifesta: por exem-

“plo, se alguma fôrma de conhecimento

é boa em maior grau do que o prazer, ao passo que nenhuma forma de conhecimento é boa, então pode-se admitir que tampouco o prazer é bom. E da mesma maneira cabe julgar por um grau menor Ou igual, pois se verá que por esse meio tanto é possível refu- tar como estabelecer uma opinião; que, embora ambos sejam possíveis por meio de graus iguais, por meio de

um grau menor é possível estabele-.

cer, porém não refutar. Porque, se uma determinada forma de capacidade é boa em grau igual ao do conhecimento e uma determinada forma de capaci- dade é boa, então o conhecimento tam- bém o é; ao passo que, se nenhuma forma de capacidade é boa, tampouco o é o conhecimento. E, se uma certa forma de capacidade é boa em grau menor do. que o conhecimento, e uma certa forma de capacidade é boa, então o conhecimento também o é; mas, se nenhuma forma de capacidade é boa, não se infere necessariamente que tam- bém nenhuma forma de conhecimento o seja.

É evidente, pois, que se pode esta- belecer uma opinião ou ponto de vista por meio de um grau menor de predicação.

É possível refutar uma opinião não

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valendo-se de outro gênero, mas também valendo-se do mesmo, quando se toma o exemplo mais assinalado da característica em apreço. Por exemplo, se se afirmar que alguma forma de conhecimento é boa, então, supondo-se tenha sido demonstrado que a prudên- cia não é boa, nenhuma outra forma de conhecimento o será tampouco, visto não o ser aquela espécie de conheci- mento a respeito da qual é mais univer- sal a conformidade. Além disso, deve- se operar por meio de uma hipótese, afirmando que o atributo, se pertence

ou deixa de pertencer ao sujeito num

determinado caso, faz o mesmo em igual grau em todos os outros casos: por exemplo, se a-alma do homem é imortal, igualmente o são todas as ou- tras almas; ao passo que, se aquela não o é, tampouco o são as outras. Se, pois, o adversário sustentar que em algum exemplo o atributo pertence ao sujeito, devemos demonstrar que em outro caso ele não lhe pertence, pois daí se deduzirá, em virtude da hipótese, que não lhe pertence absolutamente em ne- nhum caso. Se, pelo contrário, o outro sustentar que ele não lhe pertence em algum caso, deve-se mostrar que lhe pertence num caso determinado, pois dessa maneira se chegará à conclusão de que lhe pertence em todos os casos. É evidente que o proponente da hipó- tese universaliza a questão que fora expressa sob uma forma particular, pois pretende que aquele que admitiu uma coisa particular admita também a correspondente universal ao afirmar que, se o atributo pertence ao sujeito em um caso, também lhe pertence por igual em todos os casos.

Se o problema é indefinido, um meio de refutar uma afirmação: por exemplo, se. um homem afirmou que o prazer é bom ou que não é bom,

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sem acrescentar nenhuma definição -

ulterior. Porque, se ele queria dizer

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58 ARISTÓTELES

com isso que um prazer particular bom, devemos demonstrar universal- mente que nenhum prazer é bom, caso nosso intento seja demolir a sua tese. E, pelo contrário, se ele queria dizer que algum prazer particular não é bom, devemos demonstrar universal- mente que nenhum prazer é bom, pois é impossível refutá-lo de qualquer

outro modo. Com efeito, se demons- trarmos que algum prazer particular é ou não é bom, a proposição de nosso contendor não estará ainda refutada. Evidentemente, pois, é possível refu- tar de uma maneira um juízo indefi- nido, embora ele possa ser estabelecido de duas maneiras: pois nossa proposi- ção ficará provada quer demonstremos universalmente que todo prazer é bom, quer que um determinado prazer particular o é. E do mesmo modo, supondo-se que tenhamos de argumen- tar que algum prazer particular não é bom, se demonstrarmos que nenhum prazer é bom ou que um determinado prazer particular não é bom, teremos apresentado um argumento de duas maneiras, tanto universalmente como em particular, para demonstrar que um certo prazer particular não é bom.

Se, por outro lado, o juízo expresso é definido, será possível rebatê-lo de duas maneiras; por exemplo, se alguém sustentar que é um atributo de algum prazer particular o ser bom, ao passo que de algum outro não o é: pois, quer demonstremos que todo prazer é bom, quer que nenhum deles o é, teremos demolido a proposição de nosso adver- sário. Se, contudo, ele afirmou que somente um único prazer determinado é bom, é possível refutá-lo de três maneiras: pois, quer demonstrando que todo prazer é bom, quer que ne- nhum o é, quer que alguns mais de um o são, teremos refutado a sua proposição. Se o juízo for ainda mais definido por exemplo, que a

prudência, dentre as virtudes, é conhe- cimento -—, quatro maneiras de refutá-lo: pois, se demonstrarmos que toda virtude é conhecimento, ou que nenhuma virtude o é, ou que alguma outra virtude (como, por exemplo, a Justiça) é conhecimento, ou que a pró- pria prudência não é conhecimento, estará refutado o juizo em questão.

Também é útil examinar exemplos individuais quando se afirmou que algum atributo pertence ou não per- tence a determinado sujeito, como no caso das questões universais. Além disso, convém dar uma vista de olhos

“aos gêneros, dividindo-os em suas

espécies até chegarmos aquelas que não são divisíveis, como dissemos atrás!'2:; pois, quer se verifique que o atributo pertence a todos os casos, quer a nenhum, deveríamos, após adu- zir vários exemplos concretos, “exigir que o contendor admita nosso ponto de vista universalmente, ou então obje- te mostrando a que caso ou casos ele não se aplica. Além disso, quando é

possível tornar definido o acidente,

quer específica, quer numericamente, deve-se averiguar se talvez nenhum deles pertence ao sujeito, demons- trando, por exemplo, que o tempo nem é movido, nem tampouco é movimen- to, mediante uma enumeração das espécies de movimento: porque, se nenhuma delas pertence ao tempo, evidentemente ele não se move, nem tampouco é um movimento. E, de maneira análoga, também se pode mostrar que a alma não é um número dividindo todos os números em pares ou ímpares: porque nesse caso, se a alma não é par nem ímpar, evidente- mente não é um número.

Com respeito, pois, ao acidente, devemos operar servindo-nos de meios como estes e da maneira indicada.

12 109b, 15.(N.de W.A.P)

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LIVRO IV

cede, a

mirim

ix ac

O NES

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Passaremos agora ao exame das questões que dizem respeito ao gênero e à propriedade. Estes são elementos das questões relativas às definições, mas os dialéticos raras vezes procuram investigar estas coisas por si mesmas.

Se, pois, for sugerido um gênero para alguma coisa existente, devemos primeiro considerar todos os objetos que pertencem ao mesmo gênero que a coisa mencionada e ver se o gênero sugerido não se predica de uma delas, como acontece no caso de um aciden- te: por exemplo, se o “bem” é indicado como o gênero de “prazer”, deve-se verificar se algum prazer particular não é bom; porque, se assim acontecer, evidentemente o bem não é o gênero de prazer, dado que o gênero se predica de todos os membros da mesma espé- cie. Em segundo lugar, devemos ver se ele não se predica na categoria de essência, mas como um acidente, como “branco” se predica da neve ou “semo vente” da alma. Com efeito, “neve” não é uma espécie de “branco”, e por- tanto “branco” não é o gênero da neve, nem é a alma uma espécie de “objeto em movimento”: o movimento é um acidente seu, como o é muitas vezes de um animal o andar ou estar andando. Por outro lado, “mover-se” não parece indicar a essência, mas antes um esta- do de atividade ou passividade. E analogamente no que se refere a “bran- co”, pois este termo não indica a essên- cia da neve, mas uma certa qualidade desta. Logo, nem o movimento, nem a

brancura se predicam na categoria de essência.

Deve-se prestar uma atenção espe- cial à definição de acidente e ver se ela se ajusta ao gênero mencionado, como no caso dos exemplos que acabamos de mencionar. Pois é possível que uma coisa seja e não seja semovente, como também que seja e não seja branca. E assim, nenhum destes atributos é o gê- nero, mas sim um acidente, pois dissemos!3 que um acidente é um atri- buto que tanto pode pertencer como não pertencer a uma coisa.

Veja-se, também, se o gênero e a espécie não se encontram na mesma divisão, mas um deles é uma subs- tância e o outro uma qualidade, ou um deles é um relativo enquanto o outro é uma qualidade, como, por exemplo, “neve” e “cisne” são ambos substâr- cias ao passo que “branco” não é uma substância e sim uma qualidade, de modo que “branco” não é o gênero nem de “neve”, nem de “cisne”. E, por outro lado, “conhecimento” é um rela- tivo, enquanto “bom” e “nobre” são ambos qualidades, e, por conseguinte, nenhum deles é o gênero de conheci- mento. Porquanto os gêneros de relati- vos. devem ser eles mesmos também relativos, como sucede com “duplo”: pois “múltiplo”, que é o gênero de “duplo”, é, ele próprio, também um relativo. Em termos gerais, O gênero deve incluir-se na mesma divisão que a

13 102b 6.(N.de W.A.P)

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62 ARISTÓTELES

espécie, de modo que, se a espécie é uma substância, também deve sê-lo o gênero, e se a espécie é uma qualidade, também o gênero será uma qualidade: por exemplo, se o branco é uma quali- dade, também o será a cor. E de maneira análoga nos outros casos.

Veja-se, também, se o gênero parti- cipa necessária ou possivelmente do objeto que nele foi classificado. “Parti- cipar” significa “admitir a definição” daquilo de que se participa. É evidente, pois, que as espécies participam do gê- nero, porém não os gêneros das espé- cies, que a espécie admite a defini- ção do gênero, mas este não admite a definição daquela. Deve-se, pois, veri- ficar se o gênero indicado participa ou pode talvez participar da espécie, como, por exemplo, se alguém propu- sesse alguma coisa como sendo o gêne- ro de “ser” ou de “unidade”, pois daí resultaria que o gênero participa da espécie, uma vez que de tudo que existe se predicam o “ser” e a “unidade”, e, por conseguinte, também as respec- tivas definições:

Veja-se, além disso, se alguma

coisa de que a espécie indicada seja verdadeira, mas não o seja o gênero: como, por exemplo, se alguém afir- masse que “ser” ou “objeto de conheci- mento” é o gênero de “objeto de opinião”. Com efeito, “objeto de opi- nião” também se predica do que não existe, pois muitas coisas que não exis- tem são objetos de opinião, enquanto é evidente que nem “ser”, nem “objeto de conhecimento” se predicam do que não existe. Por conseguinte, nem “ser”, nem “objeto de conhecimento” é o gê- nero de “objeto de opinião”, pois o gê- nero deve predicar-se também dos objetos de que se predica a espécie. Examine-se, também, se o objeto incluído no gênero é totalmente inca- paz de participar de qualquer espécie deste, pois é impossível que ele parti-

cipe do gênero se não participa de al- guma de suas espécies, salvo quando se trata de uma das espécies obtidas na

primeira divisão: estas, com efeito, 30

participam unicamente do gênero. Se, portanto, “movimento” for indicado como o gênero de prazer, deve-se veri- ficar se o prazer não é nem locomoção, nem alteração, nem qualquer outra das modalidades de movimento que enu- meramos: porque, evidentemente, se pode afirmar então que não participa de nenhuma das espécies e, em conse- quência, não participa tampouco do

gênero, que aquilo que participa do 35

genero deve necessariamente participar também de uma das espécies; de modo que o prazer não poderia ser uma espé- cie de movimento, nem tampouco ser

um dos fenômenos individuais com- preendidos sob o termo “movimento”. Porque os indivíduos também partici- pam do gênero e da espécie, como, por exemplo, um indivíduo humano parti- cipa tanto de “homem” como de “animal?.

É preciso ver, além disso, se o termo 121b

incluído no gênero tem uma extensão mais ampla do que este, como tem, por exemplo, “objeto de opinião” compa- rado com “ser”, pois tanto o que existe como o que não existe são objetos de opinião: logo, “objeto de opinião” não pode ser uma espécie de ser, dado que o gênero tem sempre uma extensão

mais ampla do que a espécie. Veja-se,

igualmente, se a espécie e o seu gênero 5'

têm igual extensão: se, por exemplo, dos atributos que se encontram em todas as coisas, um fosse apresentado como uma espécie e outro como o seu gênero, “ser”? e “unidade”; porquanto todas as coisas possuem ser e unidade, de modo que nenhum destes dois é gê- nero do outro, tendo eles, como têm, uma igual extensão. E do mesmo modo se do “primeiro” de uma série e do

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TÓPICOS IV | 63

“começo”, um fosse subordinado ao outro, pois o primeiro é o começo o começo é o primeiro, de modo que ou ambas estas expressões são idênticas, ou, de qualquer forma, nenhuma é o gênero da outra. O princípio elementar referente a todos os casos deste tipo é que o gênero tem uma extensão mais vasta do que a espécie e sua diferença, pois a diferença tem, igualmente, uma extensão mais restrita do que o gênero.

Veja-se também se o gênero mencio- nado não se aplica, ou pode admitir-se geralmente que não se aplique, a algum objeto que não difira especificamente da coisa em questão; ou, pelo contrá- rio, se o nosso argumento é constru-

Examine-se também se existe algum outro gênero da espécie dada que nem abarque o gênero apresentado, nem, tampouco, se inclua nele. Suponha-se, por exemplo, que alguém afirmasse que “conhecimento” é o gênero de jus- tiça. Porquanto a virtude é também o gênero desta, e nenhum destes gêneros abarca o outro, de forma que o conhe- cimento não pode ser o gênero da justi- ça, pois se admite geralmente que, sempre que uma espécie se inclui em dois gêneros, um destes é abrangido pelo outro. Entretanto, um princípio desta classe margem a que se susci- te em certos casos uma dificuldade. Há, por exemplo, quem afirme que a justiça tanto é uma virtude como um conhecimento e que nenhum destes gê- neros é abarcado pelo outro embo- ra, por certo, nem todos admitam que a prudência seja conhecimento. Se, todavia, alguém admitisse a verdade dessa asserção, haveria, por outro lado, o consenso geral de que os gêne- ros do mesmo objeto devem necessa-

riamente ser subordinados um ao outro

tivo, veja-se se ele se aplica dessa maneira. Porquanto todas as coisas que não diferem especificamente per- tencem ao mesmo gênero. Se, por conseguinte, se demonstra que este se aplica a uma delas, então é evidente que se aplica a todas; e se não se aplica a uma, é claro que não se aplica a

nenhuma: por exemplo, se alguém que:

admitisse as “linhas indivisíveis” dis- sesse que “indivisível” é o gênero delas. Porque o termo mencionado não é o gênero das linhas divisíveis, e estas não diferem das indivisíveis quanto à espécie: com efeito, as linhas retas nunca diferem umas das outras no que diz respeito à espécie.

ou ambos a um terceiro, como em ver- dade sucede com a virtude e o conheci- mento. Com efeito, ambos se incluem no mesmo gênero, sendo como é cada um deles um estado e uma disposi- ção. Deve-se verificar, portanto, se nenhuma dessas coisas é verdadeira do gênero apresentado; porque, se nem os

- gêneros são subordinados um ao outro,

nem ambos a um mesmo gênero, o que foi proposto não pode ser o gênero verdadeiro.

Examine-se, também, o gênero do gênero proposto, passando depois ao gênero próximo mais alto, para ver se todos se predicam da espécie, e se pre- dicam na categoria de essência: pois todos os gêneros mais altos devem predicar-se das espécies nessa catego- ria. Se, portanto, houver algures uma discrepância, é evidente que o que se propôs não é o gênero verdadeiro. (Ve- ja-se também se o próprio gênero ou um-dos gêneros mais altos participa da espécie, pois o gênero superior não participa de nenhum dos que lhe são inferiores.) Se, pois, estamos rebatendo

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64 ARISTÓTELES

uma opinião, deve-se seguir a regra conforme foi dada; se, pelo contrário, se trata de estabelecer o nosso ponto de vista, então na hipótese de que se admita que o gênero proposto pertence à espécie, porém não como gênero basta demonstrar que um dos seus gê- neros superiores se predica da espécie na categoria de essência. Porque, se um deles predica nessa categoria, todos os demais, tanto os superiores como os inferiores a ele, se de algum modo se predicam da espécie, de ser na categoria de essência: e assim, O que se propôs como gênero também se predica na categoria de essência. A premissa de que, quando um gênero se predica na categoria de essência, todos os demais, se de algum modo se predi- carem, será nessa categoria, deve ser estabelecida por indução.

Supondo-se, por outro lado, que se conteste que aquilo que foi proposto como gênero pertença em absoluto à espécie, não basta demonstrar que um dos gêneros superiores se predica desta na categoria de essência: por exemplo, se alguém propôs “locomoção” como gênero de “passeio”, não basta de- monstrar que passear é um “é movimen- to” para provar que é “locomoção”, visto existirem também outras formas de movimento; mas é preéiso demons- trar igualmente que o passear não par- ticipa de nenhuma das outras espécies de movimento obtidas pela mesma divisão, exceto a locomoção. Porque necessariamente o que participa do gê- nero também participa de-uma das espécies obtidas pela primeira divisão deste. Se, portanto, o passear não par- ticipa do aumento, nem do decréscimo, nem das demais espécies de movimen- to, é evidente que deve participar da locomoção, e a locomoção será o gêne- ro do passear.

Examinem-se também as coisas de que a espécie dada se predica como gê-

nero para ver se o que é proposto como seu gênero se predica, na categoria de essência, das mesmas coisas de que a espécie é assim predicada, e também se todos os gêneros superiores a esse se predicam também assim. Porque, se houver alguma discrepância, evidente- mente o que se propôs não é o verda- deiro gênero; com efeito, se o fosse, tanto os gêneros superiores a ele quan- to ele próprio se predicariam todos na c:tegoria de essência daqueles objetos de que a própria espécie é predicada em tal categoria. Se, pois, estamos rebatendo um ponto de vista, é útil verificar se o gênero não se predica na categoria de essência daquelas coisas de que também se predica a espécie. Se, por outro lado, estamos estabele- cendo uma opinião, é útil verificar se ele se predica na categoria de essência, pois nesse caso teremos que o gênero e a espécie se predicam do mesmo objeto na categoria de essência, de modo que o mesmo objeto fica incluído em dois gêneros; por conseguinte, os gêneros devem necessariamente subordinar-se um ao outro; e, se demostrarmos que aquele que desejamos estabelecer como gênero não está subordinado à espécie, evidentemente a espécie estará subordinada a ele, e pode dar-se como demonstrado que esse é o gênero.

É preciso considerar também as definições dos gêneros e ver se ambas se aplicam à espécie dada e aos objetos que participam da espécie. Porquanto as definições dos seus gêneros devem necessariamente predicar-se da espécie e dos objetos que dela participam. Se, pois, houver algures uma discrepância, é evidente que o que se propôs não é o gênero. |

Veja-se, por outro lado, se o adver- sário apresentou como gênero a dife- rença: por exemplo, “imortal” como gênero de “deus”. “Imortal”, com efei- to, é uma diferença de “ser vivente”,

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TÓPICOS IV

uma vez que dos viventes alguns são mortais e outros imortais. E evidente, pois, que se cometeu um erro grave, dado que a diferença de uma coisa nunca é o seu gênero. E a verdade disto entra pelos olhos, pois a diferença de uma coisa jamais significa a sua essên- cia, mas antes alguma qualidade, como “semovente” ou “bipede”.

Veja-se também se o contendor colocou a diferença dentro do gênero, tomando, por exemplo, “impar” como um número. Porque “ímpar” é uma diferença de número, e não uma espé- cie. E tampouco se admite geralmente que a diferença participe do gênero, pois o que deste participa é sempre uma espécie ou um indivíduo, ao passo que a diferença não é uma espécie nem um indivíduo. Evidentemente, pois, a diferença não participa do gênero, de modo que “ímpar” tampouco é uma espécie, mas sim uma diferença, visto que não participa do gênero.

Além disso, convém verificar se ele colocou o gênero dentro da espécie, supondo, por exemplo, que “contato” seja uma “união”, que “mistura” seja uma “fusão”, ou, como na definição platônica! *, que “locomoção” seja o mesmo que “transporte”. Pois não é forçoso que um contato seja uma união; antes pelo contrário, a união é que deve ser um contato: pois o que está em contato nem sempre se une, embora o que se une esteja Sempre em contato. E de maneira análoga quanto aos outros exemplos: pois a mistura nem sempre é uma “fusão” (se mistu- rarmos coisas secas, por exemplo, não as fundiremos), nem tampouco a loco- moção é sempre “transporte”. Com efeito, não se pensa geralmente que caminhar seja um transporte: este termo é empregado de preferência com relação ao que muda de lugar involun-

14 Teeteto, 181.(N. de W. A.P.)

65

tariamente, como acontece no caso das coisas inanimadas. E evidente, pois, que a espécie, nos exemplos dados acima, tem uma extensão mais ampla do que o gênero, quando o contrário é que devia acontecer.

É preciso ver também se ele colocou a diferença dentro da espécie, toman- do, por exemplo, “imortal”? no signifi- cado de “um deus”. Pois o resultado será que a espécie tem uma extensão igual ou mais ampla; e isso é impossi- vel, pois acontece sempre que a dife- rença tenha uma extensão igual ou mais ampla que a da espécie. Veja-se, além disso, se ele colocou o gênero dentro da diferença, fazendo com que a “cor”, por exemplo, seja uma coisa que “traspassa”, ou o “número” algo que é “impar”. Ou, então, se ele mencionou o gênero como sendo a diferença, pois é possível que alguém formule também um juízo desta espécie, dizendo, por exemplo, que “mistura”? é a diferença de “fusão”, ou que “mudança de lugar” é a diferença de “transporte”. Todos os casos desta espécie devem ser examinados à luz dos mesmos prin- cípios, pois dependem de regras ou tó- picos comuns: o gênero deve ter um campo de predicação mais amplo do que a sua diferença, e, ao mesmo tempo, não deve participar dela; ao passo que, se for apresentado dessa maneira, nenhum dos requisitos men- cionados será satisfeito, pois o gênero terá ao mesmo tempo um campo de predicação mais estreito do que a sua diferença e participará dela.

Por outro lado, se nenhuma dife- rença pertencente ao gênero se predi- car da espécie dada, tampouco se pre- dicará dela o gênero: por exemplo, se de “alma” não se predica “par” nem “impar”, tampouco se predica “núme- ro”. Veja-se, igualmente, se a espécie é naturalmente anterior ao gênero e o anula ao ser anulada, pois o ponto de

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vista geralmente admitido é o contrá- rio. Além disso, se é possível que o gê- nero proposto ou a sua diferença este- Jam ausentes da espécie alegada, por exemplo, que “movimento” esteja au- sente da “alma”, ou “verdade e falsida-

Examine-se também se o que está colocado no gênero participa ou pode- ria participar também do gênero con- trário. Veja-se, igualmente, se a espécie participa de algum caráter que nenhum integrante do gênero possa absoluta- mente possuir. Assim, por exemplo, se a alma participa da vida, e não é possi- vel que nenhum número viva, a alma não poderá ser uma espécie de número.

Deve-se também examinar se a espé- cie é um homônimo do gênero, e empregar como princípios elementares aqueles que foram estabelecidos

para a homonímia! º: pois o gênero e a

espécie são sinônimos.

Uma vez que de todo gênero mais de uma espécie, verifique-se se é impossível haver alguma outra espécie, além da apontada, que corresponda ao gênero proposto; porque, se não hou- ver nenhuma, evidentemente o que se propôs como gênero não pode sê-lo em absoluto.

Veja-se, também, se o adversário apresentou como gênero uma expres- são metafórica, - descrevendo, por exemplo, a temperança como uma “harmonia”; pois um gênero sempre se predica de suas espécies no sentido literal, ao passo que “harmonia” se predica da temperança num sentido não literal, mas metafórico, pois lite- ralmente uma harmonia consiste sem- pre em notas musicais.

Além disso, se houver algum contrá-

15 106a 9ess.(N.doT) -

ARISTÓTELES

de” de “opinião”, então nenhum dos gêneros propostos pode ser o seu gêne- ro ou a sua diferença; pois a opinião geral é que o gênero e a diferença acompanham. a espécie enquanto esta existe. à

rio da espécie, convém examiná-lo. Esse exame pode assumir diferentes, formas: antes de tudo, veja-se se o con- trário também se encontra no mesmo gênero que a espécie, supondo-se que o gênero não tenha um contrário; pois os contrários devem encontrar-se no mesmo gênero se este não tem um contrário. Supondo-se, por outro lado, que haja um contrário do gênero, deve-se verificar se o contrário da espécie se encontra no gênero contrá- rio: pois necessariamente a espécie contrária deve encontrar-se ali, se o gê- nero tem um contrário. Cada um des- tes pontos se evidencia por meio da indução.

Examine-se também se o contrário da espécie não se encontra absoluta- mente em nenhum gênero, mas é ele próprio um gênero, como, por exem- plo, o “bem”: porque, se ele não se encontra em nenhum gênero, tam- pouco o seu contrário se encontra em nenhum gênero, mas ele próprio é um gênero, como sucede no caso de “bem” e “mal”, nenhum dos quais se encontra num gênero, sendo cada um deles um gênero por si mesmo.

Examine-se, além disso, se tanto o gênero como a espécie são contrários a alguma coisa, e um dos pares de contrários tem um termo intermédio, ao passo que o outro não o tem. Por- que, se os gêneros têm um interme- diário, também devem tê-lo as suas

“espécies; e, se o têm as espécies, tam-

bém seus gêneros o terão, como sucede

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com (1) “virtude” e “vício”, e (2) “jus- tiça” e “injustiça”: pois cada um des- ses pares tem um intermediário. A isto se pode objetar que não interme- diário entre “saúde” e “doença”, mas entre “bem” e “mal”, sim. Ou veja-se, embora haja realmente um interme- diário entre ambos os pares, isto é, tanto entre as espécies como entre os gêneros, se eles não se relacionam da mesma maneira, mas num caso o inter- mediário é uma simples negação dos extremos, enquanto no outro caso é um sujeito. Pois a opinião geral é que a relação deve ser semelhante em ambos os casos, como é nos casos da “virtu- de? e do “vício”, por um lado e da “justiça” e da “injustiça” pelo outro: com efeito, os intermediários entre ambos os pares são simples negações.

Além disso, sempre que o gênero não tenha contrário, convém examinar não apenas se o contrário da espécie se encontra no mesmo gênero, mas tam- bém o intermediário: porque o gênero que contém os extremos contém igual- mente os intermediários, como, por exemplo, no caso do “preto” e do “branco”: pois “cor” é o gênero não destes dois como também de todas as cores intermediárias. Poder-se-ia obje- tar aqui que “deficiência” e “excesso” se encontram no mesmo gênero (pois ambos pertencem ao gênero “mal”, ao passo que “quantidade moderada”, o intermediário entre eles, não é um mal, mas um bem.

Examine-se também se, embora o gênero tenha um contrário, a espécie não o tem; porque, se o gênero é o con- trário de alguma coisa, também a espé- cie o será, como a virtude é o contrário do vício e a justiça, da injustiça. Isto também se nos tornaria evidente se examinássemos outros casos concretos semelhantes a este. É possível levantar uma objeção no caso da saúde e da

doença, pois a saúde em geral é o con- trário da doença, ao passo que uma enfermidade particular, embora seja uma espécie de doença, como, por exemplo, a febre, a oftalmia e qualquer outra espécie particular de doença, não tem contrários.

Se, pois, estamos refutando um ponto de vista, podemos proceder ao nosso exame de todas essas maneiras que acabamos de explicar: porque, se lhe faltam as características menciona- das, evidentêmente o que foi proposto como gênero não é tal. Se, por outro lado, se trata de estabelecer um ponto de vista, três caminhos: primeiro, verificar se o contrário da espécie se encontra no gênero proposto, supon- do-se que este não tenha contrário: porque, se nele se encontra o contrário, evidentemente o mesmo sucede com a espécie em questão. Segundo, ver se a espécie intermediária se encontra no gênero estabelecido, pois todo gênero que contenha o intermediário conterá igualmente os extremos. E terceiro, se o gênero tem um contrário, procure-se ver se a espécie contrária também se encontra neste último; porque, se assim for, é evidente que também a espécie em questão se encontra no gê- nero em questão.

Considere-se também, no caso dos derivados e coordenados da espécie e do gênero, se eles se seguem de igual maneira, tanto ao refutar um ponto de vista como ao estabelecê-lo: pois todo atributo que pertença ou não pertença a um deles pertence ou não pertence ao mesmo tempo a todos. Pór exemplo, se a justiça é uma forma particular de conhecimento, então “justamente” é também “cientemente” e um homem justo é também um homem conhece- dor; ao passo que, se uma dessas coi- sas não for assim, tampouco o será nenhuma das outras.

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Considere-se também o caso das coisas que guardam entre si uma rela- ção semelhante. Assim, por exemplo, a relação do agradável para com o pra- zer é semelhante à relação do útil para com o bem, pois em ambos os casos um gera o outro. Se, portanto, o prazer é uma espécie de “bem”, o agradável também será uma espécie de “útil”: pois evidentemente podemos tomá-lo como algo que produz o bem, dado que o prazer é um bem. Considere-se, do mesmo modo, o caso dos processos de geração e corrupção; se, por exem- plo, edificar é ser ativo, então ter edifi- cado é ter sido ativo; e, se aprender é recordar, então ter aprendido é ter recordado; e, se decompor-se é ser corrompido, então ter-se decomposto é ter sido corrompido, e a decomposição é uma espécie de corrupção. Conside- re-se, ainda, o caso das coisas que geram ou corrompem e das capaci- dades e usos das coisas; e de um modo geral, tanto ao demolir como ao assen- tar um argumento devem-se examinar as coisas à luz de toda espécie de seme- lhança, como diziamos no tocante à geração e à corrupção. Pois, se o que tende a corromper tende a decompor, então ser corrompido é também ser decomposto; e se o que tende a gerar tende a produzir, então ser gerado é ser produzido, e geração é produção. E de maneira análoga no caso das capaci- dades e usos das coisas: porque, se uma capacidade é uma disposição, também ser capaz de alguma coisa é estar disposto para essa mesma coisa, e se o uso de alguma coisa é uma ativi- dade, utilizá-la é ser ativo e tê-la utili- zado é ter sido ativo.

Se ó oposto da espécie é uma priva- ção, dois meios de refutar um argu-

mento. Primeiro, examinando se o oposto se encontra no gênero apresen- tado: porque, ou a privação não será em absoluto encontrada no mesmo gê- nero, ou pelo menos no gênero último: por exemplo, se o gênero último que contém a visão é a sensação, a cegueira não será uma sensação. Se- gundo, se uma privação oposta tanto ao gênero como à espécie, mas o oposto da espécie não se encontra no oposto do gênero, segue-se que tam- pouco 'a espécie proposta pode encon- trar-se no gênero proposto. Se, pois, estamos refutando uma opinião, deve- mos seguir a regra tal como foi estabe- lecida; mas se o que pretendemos é assentar um ponto de vista, não senão um modo de fazê-lo: porque, se a espécie oposta se encontra no gênero oposto, todas as espécies em questão devem encontrar-se também no gênero em questão: por exemplo, se “ceguei- ra” é uma forma de “insensibilidade”, então a vista é uma forma de sensação.

Examinem-se também as negações do gênero e da espécie e inverta-se a ordem dos termos da maneira descrita no caso do acidente! 8: por exemplo, se o agradável é uma espécie de bem, o que não é bom não é agradável. Por- quanto, a não ser assim, também algu- ma coisa que não fosse boa seria agra- dável. Isso, contudo, não pode ser, porque, se o “bem” é o gênero do “agradável”, é impossível que alguma coisa não-boa seja agradável: com efeito, daquelas coisas de que não se predica o gênero, tampouco delas se predica nenhuma das espécies. Ao estabelecer um ponto de vista, deve-se também adotar o mesmo método de

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exame: porque, se o que não é bom não

é agradável, segue-se que o que é agra- .

dável é bom, de modo que “bom” é o gênero de “agradável”.

Se a espécie é um termo relativo, deve-se examinar se também o gênero o é: porque, sendo-o a espécie, também o serã o gênero, como sucede com “duplo” e “múltiplo”, cada um dos quais é um termo relativo. Se, por outro lado, o gênero é um termo relati- vo, não é necessário que a espécie tam- bém o seja: pois “conhecimento” é um termo relativo, mas o mesmo não suce- de com a “gramática”. Ou talvez nem mesmo a primeira afirmação seja ge- ralmente considerada verdadeira: por- quanto a virtude é uma espécie de coisa “nobre” e uma espécie de coisa “boa”; e contudo, embora “virtude” seja um termo relativo, “bom” e “nobre” não são relativos, mas quali- dades. Veja-se também se a espécie deixa de ser usada na mesma relação quando a chamamos pelo seu nome próprio e quando a designamos pelo nome do seu gênero: por exemplo, se o termo “dobro” é empregado para de- signar o dobro de uma “metade”, tam- bém o termo “múltiplo” deveria em- pregar-se no sentido de múltiplo de uma “metade”. De outra forma, “múl- tiplo” não poderia ser o gênero de “dobro”.

Considere-se, além disso, se o termo não se usa na mesma relação tanto quando é designado pelo nome do seu gênero como quando é designado pelos nomes de todos os gêneros do seu gê- nero. Porque, se o dobro é um múltiplo da metade, também a expressão “mais do que” será usada em relação a uma “metade”; e, em geral, o dobro será designado pelos nomes de todos os gê- neros superiores em relação a uma “metade”. Poder-se-ia objetar aqui que um termo não se usa necessariamente na mesma relação quando designado

pelo seu próprio nome e quando desig- nado pelo nome do seu gênero, pois “conhecimento” é chamado conheci- mento “de um objeto”, ao passo que o chamamos “estado” ou “disposição” não de um “objeto”, mas da “alma”.

Veja-se também se o gênero e a espécie se aplicam da mesma maneira nas diversas inflexões que recebem, como o dativo, o genitivo e tudo o mais. Pois, assim como se aplica a espécie, deve também aplicar-se o gê- nero, como no caso de “dobro” e de seus gêneros superiores: com efeito, tanto dizemos “dobro de” como “múl- tiplo de” uma coisa. E do mesmo modo no caso de “conhecimento”, pois tanto do próprio “conhecimento” como dos seus gêneros, como por exemplo “disposição” e “estado”, se diz que são “de” alguma coisa. Pode- se objetar que em alguns casos não é assim, pois dizemos “superior a” e “contrário a” isto ou aquilo, enquanto “outro”, que se inclui no mesmo gêne- ro que estes termos, não exige “a”, mas “que não”, pois dizemos “outro que não isto ou aquilo.

Convém observar também se os ter- mos usados em relações casuais dei- xam de admitir uma construção igual quando se invertem, como sucede com “dobro” e “múltiplo”, pois estes ter- mos tomam um genitivo tanto em si mesmos como na construção invertida: com efeito, tanto dizemos “metade de” como “uma fração de” alguma coisa. O caso também é o mesmo no que res- peita a “conhecimento” e “concep- ção”, pois ambos estes termos tomam um genitivo, mas, fazendo-se a conver- são, tanto um “objeto de conheci- mento” como um “objeto de conver- são” se usam com um dativo. Se, pois, em alguns casos as construções não são iguais após a conversão, evidente- mente um dos termos não é o gênero do outro.

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Veja-se, por outro lado, se a espécie e o gênero não se usam em relação a um número igual de coisas, pois a opi- nião geral é que os usos de ambos são semelhantes e iguais em número, como sucede com “presente” e “concessão”. Com efeito, faz-se “presente” de algu- ma coisa a alguém, como também se faz “concessão” de alguma coisa a alguém; e “concessão” é o gênero de “presente”, pois um “presente” é uma “concessão que não precisa ser devol- vida”. Em alguns casos, porém, o nú-

mero de relações em que se usam os

termos não é igual, pois, enquanto “dobro” é o dobro de alguma coisa,

falamos de exceder alguma coisa ou

ser maior do que alguma coisa, pois o que excede sempre excede alguma coisa e o que é maior é sempre maior do que alguma coisa, e também o que excede é um excesso de alguma coisa. Por isso os termos em questão (“exces- so” e “maior”) não são os gêneros de “dobro”, visto não serem usados em relação a um número igual de coisas que a espécie. Ou talvez não seja universalmente verdadeiro que a espé- cie e o gênero se usam em relação a um

'número igual de coisas.

Veja-se, também, se o oposto da espécie tem o oposto do seu gênero como gênero próprio: por exemplo, se “múltiplo” é o gênero de “dobro”, “fração” deve ser também o gênero de “metade”. Porquanto o oposto do gê- nero deve ser sempre o gênero da espé- cie oposta. Se, pois, alguém afirmasse que o conhecimento é uma espécie de sensação, daí se seguiria que o objeto de conhecimento também é uma espé- cie de objeto de sensação, o que não é verdade, pois um objeto de conheci- mento nem sempre é um objeto de sen- sação: com efeito, os objetos de conhe- cimento incluem também alguns dos objetos de intuição. Logo, “objeto de sensação” não é o gênero de “objeto de

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conhecimento”; e, assim sendo, tam- pouco é “sensação” o gênero de “co- nhecimento”.

Uma vez que dentre os termos relati- vos alguns se encontram necessaria- mente ou se aplicam em qualquer tempo ou ocasião às coisas em relação as quais são usados (por exemplo, “disposição”, “estado” e “equilibrio”, pois em nenhuma outra coisa podem encontrar-se estes termos, salvo naque- las em relação às quais são usados), enquanto outros não se encontram forçosamente nas coisas em relação às quais são usados em qualquer ocasião, embora isso possa acontecer (por exemplo, se o termo “objeto de conhe- cimento” for aplicado à alma; pois é

perfeitamente possível, porém não ne- cessário, que o conhecimento de si mesma seja possuído pela própria alma, uma vez que esse conhecimento também pode encontrar-se em alguma outra pessoa), ao passo que no tocante

a outros é absolutamente impossível que se encontrem nas coisas em rela- ção às quais são usados em qualquer circunstância (como, por exemplo, que

o contrário se encontre no seu contrá- rio, ou o conhecimento no objeto de conhecimento, a menos que este seja uma alma ou um homem), deve-se

observar, portanto, se o contendor co- loca um termo de determinada espécie dentro de um gênero que não é da mesma espécie se ele diz, por exem- plo, que a “memória” é a “perma- nência do conhecimento”. Por que a “permanência” sempre se encontra naquilo: que permanece, e a ele se apli- ca, de modo que a permanência do conhecimento se encontrará também no conhecimento; a memória, pois, se encontrará no conhecimento, visto ser ela a permanência deste. Mas isso é impossível, que a memória se encon-

tra sempre na alma. Esta regra ou tópi- .

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co se aplica também ao sujeito do aci- dente, porque tanto vale dizer que “permanência” é o gênero da memória como alegar que é um acidente dela.

Veja-se, por outro lado, se ele colo- cou algo que é um “estado” dentro do gênero “atividade” ou uma atividade dentro do gênero “estado”: por exem-

“plo, definindo a sensação como “um

movimento comunicado através do corpo”; porquanto a sensação é um “estado”, enquanto o movimento é uma “atividade”. E do mesmo modo se ele disse que a memória é um “estado retentivo de uma sensação”, pois a memória nunca é um estado, mas antes uma atividade.

Cometem também um erro grave

aqueles que classificam um “estado”.

dentro da “capacidade” que o acompa- nha, definindo, por exemplo, o “bom humor” como o “domínio da cólera”, ou a “coragem” e a “justiça” como o “domínio do medo” e da “ganância”; pois os termos “corajoso” e “bem-hu- morado” se aplicam a um homem que é imune à paixão, enquanto o homem que “se domina” está exposto à pai- xão, mas não se deixa conduzir por ela. É bem possível, aliás, que cada um dos primeiros seja acompanhado de uma capacidade desse tipo, de modo que, quando estivesse exposto à pai-

25 xão, ele a dominaria e não se deixaria

conduzir por ela; entretanto, não é isso,

o que se entende por ser “corajoso” ou.

“bem-humorado”, mas sim uma imuni- dade absoluta a toda e qualquer paixão desse tipo.

Às vezes, também, se propõe como gênero um caráter concomitante qual- quer, como, por exemplo, a “dor”

3o como gênero da “cólera”, ou a “con-

cepção” como gênero da “convicção”.

Com efeito, em qualquer sentido em que a memória seja a permanência do conhecimento, o mesmo argumento se aplicará a ela.

Pois ambas essas coisas se seguem de certo modo à espécie dada, mas nenhu- ma delas é o seu gênero. Com efeito, quando um homem irado sente dor, a dor apareceu nele antes da cólera; pois a cólera não é causa da dor, antes pelo contrário, de modo que positivamente a cólera não é dor. Pelo mesmo racio- cínio, tampouco a convicção é concep- ção, pois se pode ter a mesma concep- ção inclusive sem estar convencido dela, o que seria impossível se a con- vicção fosse uma espécie de concep- ção: com efeito, é impossível que uma coisa continue sendo a mesma se a retirarmos inteiramente fora da sua espécie, assim como o mesmo animal não poderia em dado momento ser, e em outro momento não ser, um homem. Se, por outro lado, alguém disser que o homem que tem uma con- cepção deve necessariamente estar também convencido dela, os dois ter- mos, “concepção” e “convicção”, terão sido usados com a mesma exten- são predicativa, de modo que nem assim poderá o primeiro ser o gênero do segundo, pois a extensão do gênero deve ser mais ampla.

Veja-se, também, se ambos se pro-:

duzem naturalmente em qualquer parte da mesma coisa: pois o que contém a espécie também contém o gênero; por exemplo, o que contém “branco” tam- bém contêm “cor”, e o que contém “conhecimento da gramática” também contém “conhecimento”. Se, portanto, alguém disser que “vergonha” é “medo” ou que “cólera” é “dor”, o resultado será que o gênero e a espécie

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não se encontram na mesma coisa, pois a vergonha se encontra na facul- dade “raciocinante”, ao passo que o medo está na faculdade “emotiva”; e, por outro lado, a “dor” se encontra na faculdade dos “apetites” (pois é tam- bem nesta que se encontra o prazer), enquanto a “cólera” se encontra na,

faculdade “emotiva”. Portanto, os ter- mos propostos não são os gêneros, uma vez que eles não se produzem naturalmente na mesma faculdade que as espécies. E da mesma forma, se a “amizade” se encontrar na faculdade dos apetites, pode-se concluir que ela não é uma forma de “querer”, pois o

querer se encontra sempre na facul- dade “raciocinante”. Este tópico tam- bém é útil ao tratar do acidente, pois o acidente e aquilo de que é um acidente se encontram ambos na mesma coisa, de modo que, se não aparecem na mesma coisa, é obvio que não se trata de um acidente.

Veja-se também se a espécie parti- cipa somente sob um aspecto particu- lar do gênero que lhe é atribuído; pois a opinião geral é que a participação da espécie no gênero não pode limitar-se a isso: com efeito, um homem não é um animal apenas sob um aspecto particu- lar, nem tampouco é a gramática um conhecimento sob tal aspecto. E de maneira .análoga também nos outros

casos. Examine-se, portanto, se no caso de alguma de suas espécies a participação no gênero se somente sob um certo aspecto: por exemplo, se “animal? foi descrito como um “objeto de percepção” ou de “visão”. Porque um animal é um objeto de percepção ou de visão apenas sob um aspecto particular: é por causa de seu corpo

que ele é percebido e visto, e não por causa de sua alma, de modo que “ob- jeto de visão” e “objeto de percepção” não podem ser o gênero de “animal”. Às vezes também uma pessoa colo-

a todo dentro de sua parte sem dar conta disso, definindo, por exemplo, “animal” como “corpo animado”: ora, a parte não se predica em sentido algum do todo, de modo que “corpo” não pode ser o gênero de “animal”, dado que é uma parte dele.

Veja-se, igualmente, se ele colocou alguma coisa que seja condenável ou reprovável na classe de “capacidade” ou “capaz”, definindo, por exemplo, um “sofista”, um “difamador” ou um “ladrão” como “aquele que é capaz de apoderar-se secretamente da proprie- dade alheia”. Porque nenhum dos caracteres mencionados se chama assim por ser “capaz” sob um desses

aspectos: com efeito, o próprio Deus e o homem bom são capazes de fazer coisas más, porém esse não ê& o seu caráter, e é sempre por causa de sua livre escolha que os homens maus são assim chamados. Acresce que uma capacidade é sempre desejável em si mesma, e até as capacidades de fazer

coisas más são desejáveis, e por isso dissemos que até Deus e o homem bom as possuem; pois eles são capazes (di- zemos nós) de fazer mal. Portanto, “capacidade” nunca pode ser o gênero de qualquer coisa digna de censura. Do contrário, resultaria daí que o reprovável é às vezes desejável, pois haveria uma certa forma de capaci- dade que seria reprovável.

Examine-se também se ele colocou alguma coisa que seja preciosa ou desejável por si mesma na classe de “capacidade” ou “capaz” ou “produti- vo” de alguma coisa. Porque a capaci- dade e o ser capaz ou produtivo ide algo é sempre desejável por causa de alguma outra coisa.

Ou, então, veja-se se o adversário colocou alguma coisa que existe em dois ou mais gêneros dentro de um deles somente. Porque coisas que é impossível colocar num único gênero,

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por exemplo, o “trapaceiro” e o “difa- mador”: com efeito, nem aquele que tem a vontade sem a capacidade, nem o que tem a capacidade sem a vontade é um difamador ou um trapaceiro, mas o que possui ambas as coisas. Por conseguinte, ele não deve ser colocado

- num gênero, mas em ambos os gê-

neros mencionados.

Além disso, as pessoas invertem por vezes a ordem natural apresentando o gênero como diferença ou a diferença como gênero e definindo, por exemplo, o pasmo como “excesso de admira- ção” e a convicção como “veemência de concepção”. Porquanto nem “exces- so” nem “veemência” é o-gênero, mas sim a diferença: com efeito, o pasmo é

em geral interpretado como sendo uma

“admiração excessiva” e a convicção como uma “concepção veemente”, de modo que “admiração” e “concepção” são os gêneros, enquanto “excesso” e “veemência” são as diferenças. Acres-

ce que, se “excesso” e “veemência” forem aceitos como gêneros, também as coisas inanimadas estarão conven- cidas e pasmadas. Porque a veemência e O excesso se encontram numa coisa que é tal de forma veemente e em

excesso. Se, portanto, o pasmo é um excesso de admiração, o pasmo se encontrará na admiração, de modo que a admiração estará pasmada! E analo- gamente, a convicção se encontrará na concepção, se é que ela é “veemência de concepção”, de modo que a concep-

ção estará convencida. Além disso, o homem que uma resposta desse fei- tio estará, em suma, chamando a vee- mência de veemente e o excesso de excessivo; pois existem, de fato, con- vicções veementes: se, pois, a convic- ção é veemência, haveria uma “vee- mência veemente?. E também pasmos excessivos, de modo que, se o pasmo é um excesso, haveria um “ex- cesso excessivo”. Mas nenhuma dessas

coisas se admite geralmente, como tampouco se admite que o conheci- mento seja alguém que conhece ou que o movimento seja alguma coisa que se move.

As vezes também se comete o erro grave de colocar uma afecção dentro daquilo que é afetado por ela, como se fosse o seu gênero, como, por exemplo, os que dizem que a imortalidade é a vida eterna: pois a imortalidade parece ser uma certa afecção ou aspecto aci- dental da vida. Que isto é verdade se tornaria evidente se alguém admitisse que um homem pode deixar de ser mortal e tornar-se imortal; pois nin- guém afirmaria que ele assume outra vida, mas que um determinado aspecto ou afecção acidental entram a formar parte da sua vida tal como ela é. Assim, pois, “vida” não é o gênero de “imortalidade”.

Veja-se, também, se ele atribuiu a uma afecção, como gênero. o objeto por ela afetado, definindo,

por exemplo, o vento como “ar em movimento”. Em termos mais exatos, o vento é um “movimento do ar”, pois o mesmo ar persiste quando está em movimento e quando está em repouso. Logo, o vento não é “ar” em absoluto, pois, se assim fosse, também haveria vento quando o ar está em repouso, que persiste o mesmo ar que formava o vento. E do mesmo modo em outros casos dessa espécie. Mesmo, pois, se devêssemos admitir neste caso que o vento é “ar em movimento”, não deve- riamos aceitar uma definição desta espécie em se tratando de coisas das quais o gênero não é verdadeiro, mas apenas nos casos em que o gênero pro- posto fosse um legítimo predicado. Porque em alguns casos, como “lama” ou “neve”, não se admite geralmente que seja verdadeiro. Dizem, com efei- to, que a neve é “água congelada” e a lama é “terra misturada com umida- de”, conquanto a neve não seja água

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nem a lama seja terra, de modo que ne- nhum dos termos propostos poderia ser o gênero: pois o gênero deve ser

verdadeiro de todas as suas espécies. E

da mesma forma, tampouco o vinho é “água fermentada”, segundo a defini-

Veja-se, além disso, se o termo pro- posto não é o gênero de coisa nenhu- ma; pois, nesse. caso, é evidente que tampouco é o gênero da espécie men- cionada. Examine-se este ponto vendo se os objetos que participam do gênero não diferem especificamente uns dos outros, como, por exemplo, os objetos brancos; pois entre estes não nenhu- ma distinção específica, como sempre sucede com as espécies de um gênero, de modo que “branco” não pode ser o gênero de nada. .

Veja-se, também, se foi indicado como gênero ou diferença algum as- pecto que acompanhe todas as coisas, pois o número de atributos que se apli- cam a todas as coisas é relativamente grande: entre eles se contam, por exemplo, o “ser” e a “unidade”. Se, pois, nosso adversário propôs “ser” como gênero, evidentemente seria o gê- nero de todas as coisas, uma vez que de tudo se predica: pois o gênero nunca se predica de coisa alguma que não seja sua espécie. Por conseguinte a unidade, entre outras coisas, seria uma espécie de ser.

Dai resultaria, pois, que de todas as coisas das quais se predica o gênero também se predica a espécie, que “ser? e “unidade” são predicados de absolutamente tudo, ao passo que a predicação da espécie deveria ter um alcance. mais reduzido. Se, por outro lado, nosso adversário indicou como diferença algum atributo que se aplica a todas as coisas, evidentemente o

ção de Empédocles, que o deu como “água fermentada na madeira”" 7; pois o vinho simplesmente não é água de maneira alguma.

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17 Fragmento 81. (N. de W. A. P)

campo de predicação da diferença será igual ao do gênero, ou mais amplo do que ele. Porque se o gênero também é um atributo que acompanha todas as coisas, o campo de predicação da dife- rença será igual ao seu, ou ainda mais amplo se o gênero não se aplica a todas as coisas.

Veja-se, além disso, se a descrição “nerente a S” é aplicada ao gênero proposto em relação à sua espécie, como se diz do “branco” em relação à neve, mostrando assim claramente que esse não pode ser o gênero: porque “verdadeiro de S” é a única fórmula que se aplica ao gênero em relação às suas espécies. Examine-se também se por acaso o gênero não é sinônimo de suas espécies. Pois o gênero sempre se predica sinonimamente das suas espé- cies.

É também preciso observar, sempre que tanto a êspécie como o gênero te- nham um contrário, se nosso conten- dor coloca o melhor dos contrários dentro do pior gênero: pois o resultado seria que a espécie restante se encon- traria no gênero restante, que os contrários se encontram nos gêneros contrários, de modo que o gênero pior conteria a melhor espécie eo melhor conteria a pior: enquanto a opinião comum é que à espécie' melhor corres- ponde o melhor gênero. Veja-se tam- bém se ele colocou a espécie dentro do gênero pior é não do melhor, quando ela se relaciona da mesma maneira com ambos ao mesmo tempo, como,

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por exemplo, se ele definiu a “alma” como uma “forma de movimento” ou “uma forma”de “coisa que se move” Pois se” acredita” geralmente que a pró- -pria alma é um princípio tanto de repouso cômo de movimento, de modo que, se o repouso é o melhor dos dois, esse é o gênero em que deveria ter sido colocada a alma.

Deve-se julgar também por meio dos graus maiores e menores: ao refutar um ponto de vista, examine-se se o gê- nero admite um grau maior, ao passo que nem-a própria espécie o admite, nem qualquer termo que se denomine de acordo com ela: por exemplo, se a virtude admite um grau maior, também o admitem a justiça e o homem justo: pois se diz que um homem é “mais Justo do que outro”. Se, por conse- guinte, o gênero proposto admite um grau maior, ao passo que nem a pró- pria espécie nem qualquer termo deno- minado de acordo com ela o admitem, o que se havia proposto como gênero não pode ser tal.

Por outro lado, se o que mais geral- mente ou por igualdade de vozes se supõe seja o gênero não é tal, tam- pouco o é o gênero proposto. O tópico ou lugar em questão é útil especial- mente nos casos em que a espécie pare- ce ter vários predicados na categoria de essência e não se fez nenhuma dis- tinção entre eles, de modo que não podemos dizer qual deles é o gênero; por exemplo, tanto “dor” como a “concepção de um menosprezo” se consideram geralmente comó predi- cando-se de “cólera” na categoria de essência, pois o homem irado ao mesmo tempo experimenta dor e se Julga menosprezado. A mesma forma de investigação pode também aplicar- se ao caso da espécie, comparando- a com algumas outras espécies, pois, se

aquela que mais geralmente ou “em,

geral se acredita que se encontre'no gê-

-dentemente será o gênero. Se,

nero proposto não se encontrar nele, é evidente que tampouco a espécie pro- posta pode encontrar-se ali.

Ao refutar uma opinião, portanto, deve-se seguir a regra conforme foi exposta. Ao defender ou justificar, por outro lado, de nada valerá a regra ou lugar que manda verificar se tanto o genero proposto como a espécie admi- tem um grau maior: pois, mesmo que ambos o admitam, ainda é possível que um não seja o gênero do outro. Por exemplo, tanto “belo” como “branco” admitem um grau maior, e nenhum deles é o! gênero do outro. Por outro lado, a/comparação dos gêneros e das espéciés entre si tem sua utilidade: supondo-se, por exemplo, que A e B te- nham igual direito ao título de gênero, então, se um deles é um gênero, o outro também o é. E do mesmo modo, se' é um gênero o que tem menos razões para sê-lo, também o é o que mais razões tem para isso; por exemplo, se “capacidade” tem mais razões do que “virtude” para ser o gênero do domínio próprio e “virtude” é o gênero deste, também o é “capacidade”. As mesmas observações valem também para o caso das espécies. Supondo-se, por exemplo, que A e B têm iguais razões para ser uma espécie do gênero em questão e se um deles é uma espécie, também o é o outro; e se é uma espécie aquilo que menos geralmente se pensa que o seja, também o será aquilo que mais geralmente se considera tal.

Além disso, para estabelecer um ponto de vista, deve-se examinar se o gênero se predica na categoria de essência daquelas coisas de que foi proposto como gênero, supondo-se que

se tenham apresentado não uma única

espécie, mas diversas, pois então evi- por outro lado, se apresentar uma espé- cie, deve-se ver se o gênero se predica também de outras espécies na catego-

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ria de essência; pois daí resultará tam- bém que ele se predica de diferentes espécies.

Como algumas pessoas pensam que a diferença também é um predicado das várias espécies na categoria de essência, deve-se distinguir o gênero da diferença recorrendo aos princípios elementares anteriormente menciona- dos: (a) que o gênero tem um campo de predicação mais amplo do que a dife- rença; (b) que ao apresêntar a essência de uma coisa é mais adequado indicar o gênero do que a diferença; pois quem diz que o “homem? é um “animal” manifesta melhor o que e o homem do que aquele que o descreve como “uma coisa que caminha”; e também (c) que a diferença sempre significa uma quali- dade do gênero, enquanto o contrário não é verdade: pois quem diz “algo que caminha” descreve um ânimaãl que possui uma determinada qualidade, enquanto o que diz “animal? não des- creve uma coisa que caminha dotada de certa qualidade. =

É desta maneira, pois, que a dife- rença deve ser distinguida do gênero. Ora, visto ser opinião geral que se“o

que é músico possui, enquanto músico;..

uma certa forma de conhecimento, então a “música”? é uma espécie parti- cular de “conhecimento”; e também que o que caminha se move ao cami- nhar, então o “caminhar” é uma espé- cie particular de “movimento”; deve-se examinar desta mesma maneira todo gênero em que se deseje estabelecer a existência de alguma coisa; por exem-

plo, se desejarnos provar que “conheci- mento” é uma forma de “convicção”, é preciso ver se o que conhece, no pró- prio ato de conhecer, fica convencido; pois nesse caso é evidente que o conhe- cimento seria uma espécie particular de convicção. Deve-se proceder do mesmo modo com respeito aos demais casos desta classe. Finalmente, visto ser difícil distin- guir aquilo que sempre acompanha uma coisa não é conversível com ela do seu gênero, se A segue universal- mente B enquanto B não segue A universalmente como, por exemplo, “repouso” acompanha sempre uma “calma” e “divisibilidade” segue o “número”, porém não inversamente (pois o divisível nem sempre é um nú- mero, nem o repouso é sempre uma calma) —, ao tratar dessas coisas podemos admitir nós mesmos que aquela que sempre acompanha a outra é o gênero, sempre que a outra não seja conversível com ela; se, por outro lado, é o outro que avança esta proposição, não devemos aceitá-la universalmente. A isto pode-se objetar que o “não-ser” acompanha sempre o que se estã gerando (pois o que se está gerando

- não é ainda), e não é conversível com ele (pois o que não é nem sempre se

estã gerando); e, no entanto, “não-ser” não é o gênero de “gerar-se”: pois o “nao-ser” não tem absolutamente espé- cie alguma.

As questões referentes ao gênero devem, pois, ser investigadas das ma- neiras que