OS PENSADORES

PLATÃO

DEFESA DE SÓCRATES

XENOFONTE

DITOS E FEITOS MEMORÁVEIS DE SÓCRATES

*

CA POLOCIASDE SOCRATES

ARISTÓFANES

“AS NUVENS

EDITOR: VICTOR CIVITA

Títulos originais:

'Amohoyia rod Ewxpárous (Defesa de Sócrates)

'Aroumuoveúuara (Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates) “Asrohoyia rob Bwepárous (Apologia de Sócrates) Nepéxal (As Nuvens)

1.3 edição Dezembro 1972

o - Copyright desta edição, 1972, Abril S.A. Cultural e Industrial, São Paulo. Traduções publicadas sob licença de: Editora Cultrix Ltda.. São Paulo (Defesa de Sócrates) Cia. Brasil Editora, Rio de Janeiro (Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates e Apologia de Sócrates) Difusão Européia do Livro, São Paulo (As Nuvens)

iss SUMARIO

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As NUVENS

Nora DO EDITOR

Sócrates não deixou nenhum escrito. Tudo o que sabemos sobre ele sobre sua vida e sobre seu pensamento provém de depoimentos de discípulos ou de adversários. Os historiadores da filosofia são unânimes em considerar que os principais testemunhos sobre Sócrates são fornecidos por Platão e Xenofonte, que o exaltam, e por Aristófanes, que o combate e satiriza. Do confronto desses diferentes retratos é que se pode tentar extrair a verdadeira fisionomia de Sócrates.

Como outros textos de escritores antigos, os de Platão, Xenofonte e Aristó- fanes são tradicionalmente divididos em passagens identificadas, em todas as edições, através de números e/ou letras colocadas nas margens laterais.

PLATÃO

a DERESA. ves, E Db E SOCRATES |

Tradução de JAIME BRUNA

I7a.

I

Exórdio

Não sei, Atenienses, que influência exerceram meus acusadores em vosso espírito; a mim próprio, quase me fize- ram esquecer quem sou, tal a força de persuasão de sua eloguência. Verdade. porém, a bem dizer, não proferiram nenhuma. Uma, sobretudo, me assom- brou das muitas aleivosias que assaca- ram: a recomendação de cautela para não vos deixardes embair pelo orador formidável que sou. Com efeito, não corarem de me haver eu de desmentir prontamente com os fatos, aos mos- trar-me um orador nada formidável, eis O que me pareceu o maior de seus descaramentos, salvo se essa gente chama formidável a quem diz a verda- de; se é o que entendem, eu admiti- ria que, em contraste com eles, sou um orador. Seja como for, repito-o, verda- de eles não proferiram nenhuma ou quase nenhuma; de mim, porém, vós ides ouvir a verdade inteira. Mas não, por Zeus, Atenienses, não ouvireis dis-

cursos como os deles, aprimorados em.

nomes e verbos, em estilo florido; serão expressões espontâneas, nos ter- mos que me ocorrerem, porque depo-

sito confiança na justiça do que digo; nem espere outra coisa quem quer de vós. Deveras, senhores, não ficaria

bem, a um velho como eu, vir diante de vós plasmar seus discursos como um rapazola. Faço-vos, no entanto, um

pedido, Atenienses, uma súplica pre- mente; se ouvirdes, na minha defesa, a mesma linguagem que habitualmente emprego na praça, junto das bancas, onde tantos dentre vós me tendes escu- tado, e noutros lugares, não a estra- nheis nem vos amotineis por isso. Acontece que venho ao tribunal pela primeira vez aos setenta anos de idade; sinto-me, assim, completamente es- trangeiro à linguagem do local. Se eu fosse de fato um estrangeiro, sem dúvi- da me desculparíeis o sotaque e o lin-

guajar de minha criação; peço-vos.

nesta ocasião a mesma tolerância, que é de justiça a meu ver, para minha lin- guagem que poderia ser talvez pior, talvez melhor e que examineis com atenção se o que digo é justo ou não. Nisso reside o mérito de um juiz; o de um orador, em dizer a verdade.

Duas Classes de Acusadores

Cumpre, Atenienses, me defenda, acusadores; depois, das recentes e dos

em primeiro lugar, das primeiras alei- vosias contra mim e dos primeiros

recentes. Com efeito, muitos acusado- res tenho junto de vós, muitos anos,

I8a

b

12 PLATÃO

que nada dizem de verdadeiro. A esses tenho mais medo que aos da roda de Ânito!, posto que estes também são temíveis. Mais temíveis, porém, senho- res, sao aqueles, que, encarregando-se da educação da. maioria de vós desde meninos, fizeram-vos crer, com acusa- ções inteiramente falsas, que existe certo Sócrates, homem instruído, que estuda os fenômenos celestes, que investigou tudo o que debaixo da terra e que faz prevalecêr a razão mais - fraca. Por terem espalhado esse boato, Atenienses, são esses os meus acusado- res temíveis, porque os seus ouvintes acham que os investigadores daquelas matérias não crêem tampouco nos deu- ses. Depois, esses acusadores são nu- merosos. e vêm acusando muito tempo; mais ainda, falavam convosco na idade em que mais crédulos podiíeis ser, quando alguns de vós éreis crian- ças ou rapazes, a acusação era feita a inteira revelia, sem defensor algum. De tudo, o que tem menos sentido é não se poderem dizer nem saber os seus

* Ânito, rico industrial e político, fracassou como general no ano 409 a.C. e, processado por isso, sal- vou-se corrompendo os juízes. Passando ao partido popular, cooperou na derrubada da tirania dos Trin- ta e tornou-se muito influente. Figura, com Meleto e Licão, entre os acusadores de Sócrates no processo. (N. do T.)

|

nomes, salvo quando se trata, porven- tura, de um autor de comédias. Os que, por inveja, ou malquerença, vos procu- ravam convencer, mais os que, conven- cidos, por sua vez convenciam a outros, todos esses são os mais emba- raçosos; nem sequer é possível citar aqui em juízo nenhum deles e refutá-lo; o defensor é inevitavelmente obrigado a combater como que sombras, a repli- car sem tréplica. Em conclusão, con- cordai comigo em que meus acusado- res são de duas classes: os que acabam de acusar-me e os de antanho, a quem aludi; admiti, também, que destes me deva defender em primeiro lugar, pois que a suas acusações destes ouvido primeiro e muito mais que às dos últimos.

Bem, Atenienses, é mister que apre- sente minha defesa, que empreenda delir em vós os efeitos dessa calúnia, a que destes guarida por tantos anos, e isso em prazo tão curto. Eu .quisera que assim acontecesse, para o meu e para o vosso bem, e que lograsse êxito a minha defesa; considero, porém, a empresa dificil e não tenho a mínima ilusão a esse respeito. Seja como for, que tomem as coisas o rumo que aprouver ao deus, mas cumpre obede- cer à lei e apresentar defesa.

“Acusações Antigas

Recapitulemos, portanto, desde o começo, qual foi a acusação donde procede a calúnia contra mim, dando crédito à qual, me moveu Meleto? o presente processo. Vejamos: que é mesmo o que afirmam os caluniadores

2 Meleto, ou Melito, poeta de segunda ordem, cuja obra não chegou até nós. (N. do T.)

em sua difamação? Como se faz com o texto das acusações, leiamos o das suas: “Sócrates é réu de pesquisar indiscretamente o que sob a terra e nos céus, de fazer que prevaleça a razão mais fraca e de ensinar aos ou- tros o mesmo comportamento.” É mais ou menos isso, pois é o que vós pró-

19a

DEFESA DE SÓCRATES 13

prios víeis na comédia de Aristófanes? um Sócrates transportado pela cena, apregoando que caminhava pelo ar e proferindo muitas outras sandices sobre assuntos de que não entende nada. Dizendo isso, não desejo menos- cabar tais conhecimentos, se é que os possui alguém não será desse crime que me de processar Meleto mas a verdade é que não tenho deles, Atenienses, a mais vaga noção. Invoco o testemunho da maioria de vós mes- mos, pedindo que vos informeis mu- tuamente e digam aqueles que alguma vez ouviram minhas conversas muitos deles entre vós. Dizei-o, pois,

mutuamente, a ver se algum de vós me -

ouviu alguma vez discorrer, por pouco que fosse, sobre tais assuntos. Assim ficareis sabendo que é do mesmo esto-

fo tudo o mais que por se fala de mim.

“Na realidade, não têm fundamento nenhum essas balelas; tampouco falará verdade quem vos disser que ganho dinheiro lecionando. Sem embargo, acho bonito ser capaz de ensinar, como Górgias de Leontino *, Pródico

3 Aristófanes, célebre e grande comediógrafo; punha em cena personagens e temas da época, pole- mizando a respeito de política, costumes e idéias. Na comédia das Nuvens, ridiculariza e calunia a Sócrates, apresentando-o como um charlatão. (N. do T.)

* Górgias, Pródico e Hípias eram sofistas, isto é, professores; propunham-se a tornar seus discípulos sophói, ou seja, hábeis, preparados. O primeiro ensinou filosofia e retórica; o segundo, moral e gramática; o terceiro, de tudo. (N. do T.)

de Ceos e Hípias de Élis. Cada um deles, senhores, é capaz de ir de cidade em cidade, persuadindo os moços que podem fregientar um de seus concidadãos a sua escolha e de graça -—— a deixarem essa companhia e virem para a sua, pagando e ficando-lhes, anda, agradecidos. Por sinal, encon- tra-se entre nós outro sábio, um de Paros; veio para uma temporada segundo soube. Fui, por acaso, visitar um homem, que tem pago a sofistas mais dinheiro que todos os outros reu- nidos; trata-se de Cálias, filho de Hiponico. Eu lhe perguntava (ele tem dois filhos): “Cálias, dizia eu, se teus filhos fossem potros ou garrotes, sabe- riamos a quem ajustar como treinador

para lhes aprimorar as qualidades ade- .

quadas; seria um adestrador de cava- los ou um lavrador; como, porêm, eles são homens, quem pensas tomar como

seu treinador? Quem é mestre nas qua- lidades de homem e de cidadão? Supo- nho que pensaste nisso, por teres filhos. Existe algum, dizia eu ou não existe? Existe, sim, disse ele. Quem é? tornei eu; de onde é? quanto cobra? É Eveno, ó Sócrates, respondeu ele de Paros, por cinco minas.” Fiquei, então, com inve- ja desse Eveno, se é que é senhor dessa arte e leciona a tão bom preço. Por mim, bem que me orgulharia e enso- berbeceria de ter a mesma ciência! Pena é que não a tenho, Atenienses.

20

2la

ESA

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14 PLATÃO

Ciência e Missão de Sócrates

Um de vós poderia intervir: “Afinal, Sócrates, qual é a tua ocupação? Donde procedem as calúnias a teu res- peito? Naturalmente, se não tivesses uma ocupação muito fora do comum, não haveria esse falatório, a menos que praticasses alguma extravagância. Di- ze-nos, pois, qual é ela, para que não façamos nós um Juízo precipitado.” Teria razão quem assim falasse; tenta- rei explicar-vos a procedência dessa reputação caluniosa. Ouvi, pois. Al- guns de vós achareis, talvez, que estou gracejando, mas não tenhais dúvida: eu vos contarei toda a verdade. Pois eu, Atenienses, devo essa reputação exclusivamente a uma ciência. Qual vem a ser a ciência? A que é, talvez, a ciência humana. É provável que eu a possua realmente, os mestres mencio- nados pouco possuem, quiçá, uma sobre-humana, ou não sei que diga, porque essa eu não aprendi, e quem disser o contrário me estará calu- niando. Por favor, Atenienses, não vos amotineis, mesmo que eu vos pareça dizer uma enormidade; a alegação que vou apresentar nem é minha; citarei o autor, que considerais idôneo. Para testemunhar a minha ciência, se é uma ciência, e qual é ela, vos trarei o deus de Delfos 5. Conhecestes Querefonte, decerto. Era meu amigo de infância e também amigo do partido do povo e seu companheiro naquele exílio de que

5 Em Delfos havia um templo, onde Apolo dava oráculos, predizendo o futuro. A alusão é ao exílio sofrido pelos partidários da democracia, no ano 404 a.C., quando se instalou em Atenas a tirania dos Trinta. (N. do T.)

voltou conosco. Sabeis o tempera- mento de Querefonte, quão tenaz nos. seus empreendimentos. Ora, certa vez, indo a Delfos, arriscou esta consulta ao oráculo repito, senhores; não vos amotineis ele perguntou se havia alguém mais sábio que eu; res- pondeu à Pítiaê que não havia nin- guém mais sábio. Para testemunhar isso, tendes o irmão dele, porque ele morreu.

Examinai por que vos conto eu esse fato; é para explicar a procedência da calúnia. Quando soube daquele orácu- lo, pus-me a refletir assim: “Que quere- dizer o deus? Que sentido oculto pôs na resposta? Eu não tenho consciência de ser nem muito sábio nem pouco; que quererá ele, então, sig- nificar declarando-me o mais sábio? Naturalmente, não está mentindo, por- que isso lhe é impossível.” Por longo

tempo fiquei nessa incerteza sobre o sentido; por fim, muito contra meu gosto, decidi-me por uma investigação, que passo a expor. Fui ter com um dos que passam por sábios, porquanto, se havia lugar, era ali que, para rebater o oráculo, mostraria ao deus: “Eis aqui um mais sábio que eu, quando tu dis- seste que eu o era!” Submeti a exame essa pessoa é escusado dizer o seu nome; era um dos políticos. Eis, Atenienses, a impressão que me ficou do exame e da conversa que tive com ele; achei que ele passava por sábio aos olhos de muita gente, principal-

8 Assim se chamava a sacerdotisa do templo de Delfos, que formulava as oráculos. (N. do T.)

DEFESA DE SÓCRATES 15:

mente aos seus próprios, mas não Oo era. Meti-me, então, a explicar-lhe que supunha ser sábio, mas não o era. A consequência foi tornar-me odiado dele e de muitos dos circunstantes.

Ao retirar-me, ia concluindo de mim para comigo: “Mais sábio do que esse homem eu sou; é bem provável que ne- nhum de nós saiba nada de bom, mas ele supõe saber alguma coisa e não sabe, enquanto eu, se não sei, tam- pouco suponho saber. Parece que sou um nadinha mais sábio que ele exata- mente em não supor que saiba o que não sei.” Daí fui ter com outro, um dos que passam por ainda mais sábios e tive a mesmissima impressão; também ali me tornei odiado dele e de muitos outros.

Depois disso, não parei, embora sentisse, com mágoa e apreensões, que me ia tornando odiado; não obstante, parecia-me imperioso dar a máxima innportânéia ao serviço do deus. Cum- pria-me, portanto, para averiguar O sêntido do oráculo, ir ter com todos os que passavam por senhores de algum saber. Pelo Cão, Atenienses! que vos devo a verdade, juro que se deu co- migo mais ou menos isto: investigando de acordo com o deus, achei que aos mais reputados pouco faltava para serem os mais desprovidos, enquanto outros, tidos como inferiores, eram os que mais visos tinham de ser homens

de senso. Devo narrar-vos os meus vai-

véns nessa faina de averiguar o orácu- lo.

Depois dos políticos, fui ter com os poetas, tanto os autores de: tragédias como os de ditirambos e outros, na esperança de me apanhar em fla- grante inferioridade cultural. Levando em mãos as obras em que pareciam ter posto o máximo de sua capacidade, interrogava-os minuciosamente sobre o que diziam, para ir, ao mesmo

tempo, aprendendo deles alguma coisa. Pois bem, senhores, coro de vos dizer a verdade, mas é preciso. A bem dizer, quase todos os circunstantes poderiam falar melhor que eles próprios sobre as obras que eles compuseram. Assim, logo acabei compreendendo que tam-

pouco os poetas compunham suas obras por sabedoria, mas por dom natural, em estado de inspiração, como os adivinhos e profetas. Estes também dizem muitas belezas, sem nada saber

do que dizem; o mesmo, apurei, se com os poetas; ao mesmo tempo, notei que, por causa 'da poesia, eles supõem ser os mais sábios dos homens em ou- tros campos, em que não o são. Saí,

pois, acreditando superá-los na mesma particularidade que aos políticos.

Por fim, fui ter com os artífices;

tinha consciência de não saber, a bem dizer, nada, e certeza de neles desco-

brir muitos belos conhecimentos. Nisso não me enganava; eles tinham conhecimentos que me faltavam; eram,

assim, mais sábios que eu. Contudo, Atenienses, achei que os bons artesãos têm o mesmo defeito dos poetas; por

praticar bem a sua arte, cada qual ima- ginava ser sapientissimo nos demais assuntos, os mais dificeis, e esse enga- no toldava-lhes aquela sabedoria. De sorte que perguntei a mim mesmo, em

nome do oráculo, se preferia ser como sou, sem a sabedoria deles nem sua ignorância, ou possuir, como eles, uma

e outra; e respondi, a mim mesmo ao oráculo, que me convinha mais ser como sou.

Dessa investigação é que procedem, Atenienses, de um lado, tantas inimiza- des, tão: acirradas e maléficas, que deram nascimento a tantas calúnias, e, de outro, essa reputação de sábio. E que, toda vez, os circunstantes supõem

23a

16 PLATÃO

que eu seja um sábio na matéria em que confundo a outrem. O provável, senhores, é que, na realidade, o sábio seja o deus e queira dizer, no seu orá- culo, que pouco valor ou nenhum tem a sabedoria humana; evidentemente se terá servido deste nome de Sócrates para me dar como exemplo, como se dissesse: “O mais sábio dentre vós, homens, é quem, como Sócrates, com-

preendeu que sua sabedoria é verdadei- ramente desprovida do mínimo valor.” Por isso não parei essa investigação até hoje, vagueando e interrogando, de acordo com o deus, a quem, seja cida-

dao, seja forasteiro, eu tiver na conta de sábio, e, quando julgar que não o é, coopero com o deus, provando-lhe que não é sábio. Essa ocupação não me permitiu lazeres para qualquer ativi- dade digna de menção nos negócios públicos nem nos particulares; vivo numa pobreza extrema, por estar ao serviço do deus.

Além disso, os moços que esponta- neamente me acompanham e são os que dispõem de mais tempo, os das famílias mais ricas sentem prazer em ouvir o exame dos homens; eles próprios imitam-me muitas vezes; nes- sas ocasiões, metem-se a interrogar os

outros; suponho que descobrem uma multidão de pessoas que supõem saber alguma coisa, mas pouco sabem, quiçã nada. Em consequência, os que eles examinam se exasperam contra mim e não contra si mesmos, e propalam que

existe um tal Sócrates, um grande miserável, que corrompe a mocidade. Quando se lhes pergunta por quais atos ou ensinamentos, não têm o que responder; não sabem, mas, para não mostrar seu embaraço, aduzem aque- las acusações contra todo filósofo, sempre à mão: “os fenômenos celestes o que sob a terra —a descrença dos deuses o prevalecimento da razão mais fraca”. Porque, suponho, não estariam dispostos a confessar a verdade: terem dado prova de que fin- gem saber, mas nada sabem. Como são ciosos de honrarias, tenazes, e numerosos, persuasivos no que dizem de mim por se confirmarem uns aos outros, não é de hoje que eles têm enchido vossos ouvidos de calúnias assanhadas. Dai a razão de me ataca- rem Meleto, Ânito e Licão tomando Meleto as dores dos poetas; Anito, as dos artesãos e políticos; e Licão, as dos oradores. Dessarte, como dizia ao começar, eu ficaria surpreso se logras- se, em tão curto prazo, delir em vós os efeitos dessa calúnia assim avolumada. Ai tendes, Atenienses, a verdade; em meu discurso não vos oculto nada que tenha alguma importância, nada vos dissimulo. Sem embargo, sei que me estou tornando odioso por mais ou menos os mesmos motivos, o que com- prova a verdade do que digo, que é mesmo essa a calúnia contra mim são mesmo essas as suas causas. É o que haveis de descobrir, se investi- gardes agora ou mais tarde.

2d4a

DEFESA DE SÓCRATES 17

A Denúncia de Meleto

Nada mais preciso dizer para defen- der-me, diante de vós, das mentiras de meus primeiros acusadores. Tentarei, em seguida, defender-me de Meleto, esse honrado e prestante cidadão, como se proclama, e dos acusadores recentes. Novamente, que se trata de outros acusadores, tomemos também o texto de sua acusação. Reza ele mais ou menos assim: “Sócrates é réu de corromper a mocidade e de não crer nos deuses em que o povo crê e sim em outras divindades novas.” Essa a natu- reza da queixa; examinemo-la parte por parte.

Diz que sou réu de corromper a mocidade. Mas eu, Atenienses, afirmo que Meleto é réu de brincar com assun- tos sérios; por leviandade, ele traz a gente à presença dos juízes, fingindo-se profundamente interessado por ques- tões de que jamais fez o mínimo caso. Vou também procurar demonstrar-vos que assim é.

Dize-me cá, Meleto: Dás muita importância a que os jovens sejam quanto melhores?

Dou, sim.

Faze, então, o favor de dizer a estes senhores quem é que os torna melhores; evidentemente o sabes, pois que te importa. Descoberto o corrup- tor, segundo afirmas, tu me conduzes à presença destes senhores e me acusas; portanto, faze o favor de dizer quem os torna melhores; conta-lhes quem é. Estás vendo, Meleto, que te calas e não

sabes o que dizer? Com efeito, não achas que isso é feio e prova que não

fazes o mínimo caso, como eu disse? Vamos, bom rapaz, fala; quem é que os tona melhores”?

São as leis.

Não é isso o que estou pergun- tando, excelente rapaz; pergunto que homem é, o qual, para começar, sabe exatamente isso, as leis.

Às pessoas presentes, Sócrates; OS Juízes.

—— Que dizes, Meleto? Os presentes são capazes de educar os moços e os tornam melhores?

Sem dúvida.

Todos? Ou uns sim e outros não?

"Todos.

Boa notícia nos dás, por Hera! Sobejam os benfeitores! Que mais? E esses da assistência os tornam melho- res ou não?

Eles também.

Que dizer dos conselheiros? Também os conselheiros.

Mas, então, Meleto, acaso os homens da assembléia, os eclesiastas corrompem a mocidade? Ou eles todos

- também a tornam melhor?

Também eles.

Logo, não é assim? todos os ate- nienses a tornam gente de bem, menos eu; eu sou o único a corrompê-la! É isso O que dizes?

Exatamente isso é o que digo.

Que imensa desdita apontas em mim! Responde também a esta per- gunta: no teu entender, com os cavalos sucede o mesmo? Toda gente os melhora e um os vicia? Ou se

250

18 PLATÃO

inteiramente o contrário: quem os sabe melhorar é um só, ou muito poucos, os adestradores; a maioria, quando trata de cavalos e os monta, vicia-os? Não é assim, Meleto, com os cavalos e com todos os outros animais? Sem dúvida, quer o negueis tu e Ânito, quer o afir- meis. Que bom para os moços, se um a corrompê-los e os outros todos a fazer-lhes bem! Ora, Meleto, estás dando provas acabadas de que nunca te preocupaste com a mocidade e reve- lando claramente a tua indiferença para com o crime de que me acusas! Por Zeus, Meleto, dize-nos mais uma

coisa; é melhor habitar entre cidadãos prestimosos ou entre daninhos? Meu caro, responde; minha pergunta é faci- lima! Não é verdade que sempre os

daninhos acabam fazendo mal a quem estã perto, e os prestimosos algum bem?

Decerto.

Haverá, então, quem queira re- ceber de seus companheiros antes

danos que beneficios? Responde, bom homem; a lei manda que respondas. quem prefira o dano?

Não, é claro.

Adiante. Trouxeste-me aqui como alguém que corrompe e perverte a mocidade por querer ou sem querer?

Por querer, ora essa!

Como assim, Meleto? Tu na tua idade me superas tanto a mim na minha, que tu sabes que os maus sem- pre acabam fazendo algum mal a seus mais próximos e os bons algum bem, e eu sou tão ignorante que nem mesmo sei que, se tornar malfazejo alguém do meu convívio, me arrisco a receber dele algum dano? E, segundo dizes, tamanho mal eu o faço por querer? A mim não me convences disso, Meleto;

nem creio que convenças outra pessoa.

26: Não; Ou não corrompo, ou, se corrom-

po, é sem querer; numa suposição como na outra, estás mentindo. Se, porém, corrompo sem querer, a lei não manda trazer-me aqui por semelhante erro involuntário, mas tomar-me de

parte, ensinar-me, ralhar comigo; evi-

dentemente, depois de aprender, deixa- rei de fazer o que sem querer ando

fazendo. Tu, porém, evitaste, não esta- vas disposto a ajudar-me com teus ensinamentos e me trouxeste aqui, para onde a lei manda trazer quem precisa de castigo e não de lições. Ora, Atensenses, está demonstrado o que eu dizia: Meleto jamais fez o mínimo caso dessa questão. Sem embargo, dize-nos, Meleto: por que processo corrompo eu

4

a mocidade, segundo afirmas? Ou é claro que, segundo a tua denúncia, ensinando-os a não crer nos deuses em

que o povo crê e sim em outras divin- dades novas? Não afirmas que os cor- rompo ensinando isso?

E exatamente isso que proclamo em alto e bom som.

Então, Meleto, por esses mes-

mos deuses de que agora se trata, fala

com mais clareza ainda, a mim e a estes senhores; não consigo entender se

afirmas que ensino a crer na existência de certos deuses nesse caso admito a existência de deuses, absolutamente

não sou ateu, nem é esse o meu crime, se bem que não sejam os deuses do povo, mas outros, e por serem outros é

que me processas ou se afirmas que não creio mesmo em deus nenhum €& ensino isso aos outros.

Isso é o que afirmo, que não crês mesmo em deus nenhum.

Meleto, tu és um assombro! Com que intuito dizes isso? Então eu não creio, como toda gente, que o sol e a lua são deuses?

Por Zeus, senhores juízes, ele

27ar

DEFESA DE SÓCRATES 19

não crê, pois afirma que o sol é pedra e a lua é terra.

Tu supões estar acusando o Anaxágoras”, meu caro Meleto ! Dessa forma, subestimas os presentes, julgan- do-os tão iletrados que ignorem que os

“livros de Anaxágoras de Clazômenas é

que andam cheios dessas teorias. Logo de mim é que os moços aprendem liga- ções que eles podem, vez por outra, comprar na orquestra, quando muito por três dracmas e depois rir de Sócra- tes se as quiser impingir como suas, tanto mais umas tão originais! Enfim, por Zeus, é isso o que pensas de mim? que não creio em deus algum?

Não crê, por Zeus; ele não crê em deus algum !

-— Tu não mereces fé, Meleto, nem mesmo a tua própria, ao que parece. Este homem, Atenienses, acho que é por demais temerário e estouvado e me fez esta denúncia apenas por temeri- dade e estouvamento de juventude; ele a impressão de estar propondo uma adivinha para me experimentar: “Será que o sábio Sócrates vai perceber que estou brincando e me contradizendo, ou será que o vou lograr com os de- mais ouvintes?” Penso que ele se con- tradiz na denúncia, como se dissesse: “Sócrates é réu de crer nos deuses em vez de crer nos deuses.” Isso é de quem está brincando. |

Examinai comigo, senhores, por que penso que ele diz isso; tu, -Meleto, responde-nos. Vós, de vossa parte, lembrai-vos do que vos pedi no come- ço e não vos amotineis se eu arranjar a discussão à minha maneira-habitual.

Existe, Meleto, uma pessoa que

7 Anaxágoras, filósofo da escola jônica, mestre e conselheiro de Péricles, célebre por ter concebido a

- existência duma Mente, Nous, ordenadora do Uni- .

verso. Por dar explicações naturalistas dos fenôme- nos celestes, foi condenado por impiedade a exilar- se de Atenas em 432 a.C. Suas obras, como as de

outros autores, podiam ser compradas no local do :

teatro destinado ao coro, denominado orquestra. (N. do To)

acredite na existência de coisas huma- nas e não na dos homens? Que ele res- ponda, senhores, e não levante protes- tos sobre protestos! alguém que não acredite em cavalos e sim na equi- tação? não creia em flautistas, e sim na arte de tocar flauta? Não há, excelente

- homem; se não queres tu responder, eu

o direi a ti e aos demais presentes. Res- ponde, porém, à pergunta que vem, após aquelas: quem acredite em poderes demoníacos, mas não que exis-

“tam demônios?

Não há.

Obrigado por teres respondido, embora contrariado, sob a coação: do tribunal. Por conseguinte, afirmas que eu acredito e ensino que poderes demoniacos; sejam novos, sejam anti- gos, segundo dizes, acredito em pode- res demoniacos; foi o que juraste na denúncia. Ora, se acredito em seus poderes, força é concluir que acredito em demônios. Não é assim? Sem dúvi- da; faço de conta que concordas, que não respondes. Os demônios, não é verdade que os consideramos deuses ou filhos de deuses? Sim ou não?

Por certo. | Logo, se acredito em demônios, estes ou são uma sorte de deuses e

eu teria razão afirmando que estás pro- pondo uma adivinha por brincadeira, dizendo que eu creio em deuses em vez de crer em deuses, pois que acredito em demônios ou são filhos de deu- ses, uma sorte de bastardos, nascidos de ninfas ou de outras mulheres a quem os atribui a tradição e que homem pode acreditar em filhos de deuses e não em deuses? Seria a mesma aberração de quem acreditasse

“Serem os machos filhos de éguas e

jumentos, sem crer em éguas e jumen- tos. Não, Meleto, não é admissível que tenhas apresentado essa denúncia sem o propósito de nos pôr à prova, salvo se foi à falta de um crime real por que

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me processes; de convenceres alguém, por estúpido que seja, de que uma mesma pessoa possa acreditar em poderes demoníacos e divinos, mas sem acreditar em demônios, deuses e heróis, não existe a mínima possibili- dade. Por conseguinte, Atenienses, a ausência da culpa a mim imputada na denúncia de Meleto não parece deman- dar longa defesa; basta o que foi dito.

PLATÃO

Ficai, porém, certos de que é verda- de o que eu dizia pouco, que muita gente me ficou querendo muito mal. O que me vai condenar, se eu for conde- nado, não é Meleto, nem Ânito, mas a calúnia e o rancor de tanta gente; é o que perdeu muitos outros homens de

bem e ainda os de perder, pois não é de esperar que pare em mim.

Justificação de Sócrates

Alguém, talvez, pergunte: “Não te pejas, ó Socrates, de te haveres dedi- cado a uma ocupação que te põe agora em risco de morrer?” Eu lhe daria esta resposta justa: “Estás enganado, homem, se pensas que um varão de algum préstimo deve pesar as possibili- dades de vida e morte em vez de consi- derar apenas este aspecto de seus atos: se o que faz é justo ou injusto, de homem de brio ou de covarde. No teu entender, não teriam méritos os semi- deuses que pereceram em Tróia; entre eles o filho de Tétis?, que desdenhava tanto o perigo em confronto com o passar por uma vergonha. Querendo ele matar a Heitor, sua mãe, uma deusa, lhe disse parece que mais ou menos estas palavras: “Filho, se mata- res a Heitor para vingar a morte de teu amigo Pátroclo, tu próprio morrerás;

pois, dizia ela, o teu destino te espera:

logo depois de Heitor.” Ele, apesar de ouvir a advertência, fez pouco caso do perigo de morte e, porque temia muito mais viver com desonra, respondeu:

8 Tétis, nereida, divindade' marinha, foi mãe de Aquiles, herói da Ilíada; aqui, alude-se a uma cena do canto XVIII, desse poema. (N. do T.)

“Morra eu assim que castigue o culpa- do, mas não fique por aqui, alvo de risos junto das curvas naus, como um fardo da terra.” Cuidas que ele se preo- cupou com o perigo de morte?” A ver- dade, Atenienses, é esta: quando a gente toma uma posição, seja por a considerar a melhor, seja porque tal foi a ordem do comandante, aí, na minha opinião, deve permanecer diante dos perigos, sem pesar o risco de morte ou qualquer outro, salvo o da desonra.

Grave falta, Atenienses, teria come- tido eu, que, em Potidéia, em Anfípolis e Délio, permaneci, como qualquer outro, no posto designado pelos chefes por vós eleitos para me comandar e ali enfrentei a morte, se, quando um deus, como eu acreditava e admitia, me mandava levar vida de filósofo, subme- tendo a provas a mim mesmo e aos outros, desertasse o meu posto por temor da morte ou de outro mal qual- quer. Seria grave e então deveras côm Justiça me haveriam trazido ao tribu- nal pelo crime de não crer nos deuses, pois teria desobedecido ao oráculo por temor da morte e supondo ser sábio sem que o fosse.

29a

DEFESA DE SÓCRATES 21

Com efeito, senhores, temer a morte é o mesmo que supor-se sábio quem não o é, porque é supor que sabe o que não sabe. Ninguém sabe o que é a morte, nem se, porventura, será para O homem o maior dos bens; todos a temem, como se soubessem ser ela o maior dos males. A ignorância mais condenável não é essa de supor saber o que não sabe? É talvez nesse ponto, senhores, que difiro do comum dos homens; se nalguma coisa me posso dizer mais sábio que alguém, é nisto de, não sabendo o bastante sobre o Hadesº, não pensar que o saiba. Sei, porém, que é mau e vergonhoso prati- car o mal, desobedecer a um melhor do que eu, seja deus, seja homem; por isso, na alternativa com males que conheço como tais, Jamais fugirei de medo do que não sei se será um bem.

Portanto, mesmo que agora me dispensásseis, desatendendo ao parecer de Ânito, segundo o qual, antes do mais, ou eu não devia ter vindo aqui, ou, que vim, é impossível deixar de condenar-me à morte, asseverando ele que, se eu lograr absolvição, logo todos os vossos filhos, pondo em prá- tica os ensinamentos de Sócrates, esta- rão inteiramente corrompidos; mesmo que, apesar disso, me dissésseis: “Sócrates, por ora não atenderemos a Ânito e te deixamos ir, mas com a con- dição de abandonares essa investiga- ção e a filosofia; se fores apanhado de novo nessa prática, morrerás”; mesmo, repito, que me dispensásseis com essa condição, eu vos responderia: “Atenienses, eu vos sou reconhecido e vos quero bem, mas obedecerei antes ao deus que. a vós; enquanto tiver alen-

º Segundo criam os gregos, após a morte, iam as almas para o Hades, espécie de limbo, lugar escuro e frio, situado no âmago da terra, onde continuavam a viver, como sombras. (N. do T.)

to e puder fazê-lo, jamais deixarei de filosofar, de vos dirigir exortações, de ministrar ensinamentos em toda oca- sião àquele de vós que eu deparar, dizendo-lhe o que costumo: “Meu caro, tu, um ateniense, da cidade mais importante e mais reputada por sua cultura e poderio, não te pejas de cui- dares de adquirir o máximo de rique- zas, fama e honrarias, e de não te importares nem cogitares da razão, da verdade e de melhorar quanto mais a tua alma? ? E se algum de vós redar- guir que se importa, não me irei embo- ra deixando-o, mas o hei de interrogar, examinar e confundir e, se me parecer que afirma ter adquirido a virtude e não a adquiriu, hei de repreendê-lo por estimar menos o que vale mais e mais o que vale menos. É o que hei de fazer a quem eu encontrar, moço ou velho, forasteiro ou cidadão, principalmente aos cidadãos, porque me estais mais próximos no sangue. Tais são as or- dens que o deus me deu, ficai certos. E eu acredito que jamais aconteceu à ci- dade maior bem que minha obediência ao deus.

Outra coisa não faço senão andar por persuadindo-vos, moços e ve- lhos, a não cuidar tão aferradamente do corpo e das riquezas, como de melhorar o mais possível a alma, dizendo-vos que dos haveres não vem a virtude para os homens, mas da vir- tude vêm os haveres e todos os outros bens particulares e públicos. Se com esses discursos corrompo a mocidade, seriam nocivos esses preceitos; se alguém afirmar que digo outras coisas e não essas, mente. Por tudo isso, Atenienses, diria eu, quer atendais a Ânito, quer não, quer me dispenseis, quer não, não hei de fazer outra coisa, anda que tenha de morrer muitas vezes.

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22 PLATÃO

Quem Perderia Mais com a Condenação

Não vos amotineis, Atenienses; mantende o favor que vos pedi, não vos amotinando com o que digo, mas ouvindo-me; acredito que ouvir-me vos serã realmente proveitoso. Estou, é verdade, para dizer outras coisas que talvez vos façam gritar, mas não façais isso de modo algum. Ficai certos de uma coisa: se me condenardes por ser eu como digo, causareis a vós próprios maior dano que a mim. A mim dano algum podem causar Meleto e Ânito; eles não têm forças para tanto; não creio que os céus permitam que um homem melhor sofra danos de um pior. Eles podem, sim, mandar-me matar, exilar-me, privar-me dos direitos; tal- vez eles e outros pensem que essas são grandes desgraças; eu não; eu penso que muito pior é fazer o que ele está fazendo, tentando a execução injusta de um homem. Neste momento, Ate- nienses, longe de atuar na minha defe- sa, como poderiam crer, atuo na vossa, evitando que, com a minha condena- ção, cometais uma falta para com a dádiva que recebestes do deus. Se me matardes, não vos será fácil achar outro igual, outro que embora seja engraçado dizê-lo por ordem divina se aferre inteiramente à cidade, como a um cavalo grande e de raça, mas um tanto lerdo por causa do tamanho e precisado de um tavão que o espevite; parece-me que o deus me impôs à cida-

de com essa incumbência de me assen- tar perto, em toda parte, para não ces- sar de vos despertar, persuadir e repreender um por um. Outro igual não tereis facilmente, senhores, mas, se me crerdes, vós me poupareis. Bem pode ser que, aborrecidos como quem dormia e foi despertado, deis ouvidos a Ânito e, repelindo-me, me condeneis levianamente à morte; depois, passa- reis o resto da vida a dormir, salvo se o deus, cuidadoso de vós, vos enviar algum outro. Podeis reconhecer que sou bem um homem dado pelo deus à cidade por esta reflexão: não é con- forme à natureza do homem que eu tenha negligenciado todos os meus interesses, sofrendo, tantos anos, as consequências desse abandono do que é meu, para me ocupar do que diz res- peito a vós, dirigindo-me sem cessar a cada um em particular, como um pai ou um irmão mais velho, para o per- suadir a cuidar da virtude. Se auferisse proveito, se meus conselhos fossem pagos, meu procedimento teria outra explicação; mas vós mesmos o estais vendo: meus acusadores, tão descara- dos em todas as outras acusações, não

foram capazes da extrema impudência

de exibir testemunha de que alguma vez tenha recebido ou pedido remune- ração. Porque da verdade de minhas alegações exibo, suponho, uma prova cabal: minha pobreza.

3la

J2a

DEFESA DE SÓCRATES 23

Abstenção da Política

Pode parecer esquisito que eu me azafame por todo canto a dar conse- lhos em particular e não me abalance a

subir diante da multidão para dar con- selhos públicos à cidade. A razão disso em muitos lugares e ocasiões ouvistes

em minhas conversas: uma inspiração .

que me vem de um deus ou de um gênio, da qual Meleto fez caçoada na denúncia. Isso começou na minha infância; é uma voz que se produz e, quando se produz, sempre me desvia do que vou fazer, nunca me incita. Ela

é que me barra a atividade política. E barra-me, penso, com toda razão; ficai certos, Atenienses: se muito eu me

tivesse votado à política, muito estaria morto e não teria sido nada útil a vós nem a mim mesmo. Por favor,

não vos doam as verdades que digo; ninguém se pode salvar quando se opõe bravamente a vós ou a outra mul-

tidão qualquer para evitar que aconte- çam na cidade tantas injustiças e ilega- lidades; quem se bate deveras pela

Justiça deve necessariamente, para estar a salvo embora por pouco tempo, atuar em particular e não em público.

Disto vos posso dar provas valiosas; não argumentos, mas fatos, que é o que acatais. Ouvi o que me sucedeu, para saberdes que não tenho, por medo da morte, transigência nenhuma com a injustiça e que, por não ceder, teria perecido. O que vou dizer é banal, é de leguleio, mas é verdade.

Com efeito, Atenienses, jamais exer-

ci um cargo público; apenas fiz parte

do Conselho. Calhou que a pritania!º coube à minha tribo, a Antióquida, quando do processo dos dez capitães

que deixaram de recolher os mortos da batalha naval; vós os querieis julgar

em bloco, o que era ilegal, como todos reconhecestes depois. Naquela ocasião

fui o único dos prítanes que me opus a qualquer ação ilegal vossa, votando

contra; os oradores estavam prontos a processar-me, a mandar-me prender;

vós os incitáveis a isso aos brados. Embora! Achei de meu dever correr

perigo ao lado da lei e da justiça, em vez de estar convosco numa decisão injusta, por medo da prisão ou da morte.

Isso foi ainda no regime democrá- tico. Doutra feita, após a instauração da oligarquia, fui chamado com outros quatro à Rotunda pelos Trinta e estes

nos ordenaram que fôssemos a Sala- mina buscar a Leão Salamínio para morrer; a muitas outras pessoas eles

davam ordens semelhantes, no intuito de comprometer o maior número pos-

sível. Nessa ocasião, de novo, por atos, não por palavras, demonstrei que à morte desculpai a rudeza da expres- são não ligo mais importância que a um figo podre, mas a não cometer nenhuma injustiça ou impiedáde, a isso sim dou o máximo valor. A mim, aque-

Os delegados das tribos, em que se dividia o povo ateniense, ao Conselho dos Quinhentos, espé- cie de câmara deliberativa, chamavam-se pritanes. Alude-se ao processo dos comandantes da batalha naval de Arginusas, em 406 a.C. (N. do T.)

24 PLATÃO

le governo, poderoso como era, não conseguiu forçar-me a uma injustiça; ao deixarmos a Rotunda, os quatro seguiram para Salamina e trouxeram

Leão, mas eu voltei para casa. Bem podia ter morrido por isso, se aquele

governo tardasse a cair. muitas

testemunhas desses fatos. Pensais, acaso, que eu teria vivido tantos anos,

se houvesse tomado parte na política e, obrando como homem de bem, me

houvesse batido pela justiça, dando a

essa atitude a máxima importância que lhe é devida? Que esperança, Atenien- ses! Nem “eu, nem outro homem nenhum! Pois bem, em toda minha vida, em minha pouca intervençã. nos negócios públicos, deixei patente que sou assim, como também sou assim nos negócios. particulares, jamais as- sentindo com quem quer que seja no que quer que seja fora dos limites da Justiça, principalmente com qualquer daqueles que os caluniadores chamam discípulos meus.

A Escola de Sócrates

Eu nunca fui mestre de ninguém, conquanto nunca me opusesse a moço ou velho que me quisesse ouvir no desempenho de minha tarefa. Tam- pouco falo se me pagam, e se não pagam, não; estou igualmente à dispo- sição do rico e do pobre, para que me interroguem ou, se preferirem ser inter- rogados, para que ouçam o que digo. Se algum deles vira honesto ou não, não é justo que eu responda pelo que jamais prometi nem ensinei a ninguém.

Quem afirmar que de mim aprendeu |

ou ouviu em particular alguma coisa que não todos os demais, estai certos de que não diz a verdade.

Então, por que será que alguns gos- tam de se entreter comigo tanto tempo? Vós o ouvistes, Atenienses; eu vos disse toda a verdade; eles gostam de me ouvir examinar os que supõem ser sábios e não o são; e isso não deixa de ter o seu gosto. Mas, repito, faço-o por uma determinação divina, vinda

não através do oráculo, mas tam- bém de sonhos e de todas as vias pelas

“quais O homem recebe ordens dos deu-

ses. É fácil de comprovar essa verdade; se moços que estou corrompendo e outros que corrompi, forçosamente, decerto, alguns deles amadurecidos compreenderam que outrora, na sua mocidade, eu lhes dera maus conselhos e podem levantar-se para me acusar e punir; se não o quiserem eles fazer, alguém da família, o pai, os irmãos, outros parentes, se os seus familiares sofreram qualquer influência

minha, podem lembrá-la agora e pu- nir-me. um bem grande número deles que estou vendo aqui, a começar por Criton, que é da minha idade e do meu bairro, pai de Critobulo aqui pre- sente; em seguida, Lisânias de Esfetos, pai Je Ésquines, que está; depois, Antifonte de Cefísia, pai de Epígenes; estão outros, cujos irmãos freqiien- taram aqueles entretenimentos: Nicós-

33a

Jda

DEFESA DE SÓCRATES 25

trato, filho de Teozótides e irmão de Teódoto Teódoto, por sinal, morreu e não poderia estorvá-lo com sua inter- cessão; mais Páralo, filho de Demó- doco, de quem era irmão Teages; esse outro é Adimanto, filho de Aristão, de quem é irmão Platão aqui presente; esse é Ajantodoro, de quem é irmão Apolodoro, também presente. Posso citar muitas outras pessoas, uma das quais de preferência devia Meleto ter apresentado como testemunha da acu- sação; se então se esqueceu, faça-o

agora, com minha licença, e diga se tem algum testemunho daquela nature- za. Bem ao contrário, senhores, acha- reis todos prontos a acudir-me a mim, o corruptor, que faço mal a seus paren- tes no dizer de Meleto e Anito. Talvez tivessem razões para me apoiar os corrompidos; mas os que não corrom- pi, mais idosos, parentes daqueles, que motivo terão para apoiar-me, senão o reto e justo de reconhecerem que Meleto mente e eu digo a verdade?

O Estilo da Defesa

Basta, senhores; o que eu poderia alegar em minha defesa é, em suma, isso mesmo e quiçá argumentos do mesmo gênero. Algum de vós talvez se indigne com a recordação do seu caso, se ele próprio, às voltas com uma lide, embora menos grave que esta, teve de pedir, de suplicar aos juizes com lâgri- mas copiosas, de trazer, para melhor movê-los à piedade, os filhos, outros parentes, muitos amigos, ao passo que eu não é? não vou fazer nada disso, apesar de estar correndo, como posso imaginar, o extremo perigo. Pode ser que alguém, com esse senti- mento, seja mais duro para comigo e, raivoso do contraste, um voto de raiva. Se algum de vós estiver nesse caso o que não creio mas se esti- ver, eu me acharia no direito de lhe dizer: “Eu também, meu caro, não deixo de ter parentes.” Como diz Homero,

não nasci dum carvalho ou dum penedo, mas de seres humanos; portanto, Ate- nienses, tenho parentes e filhos; estes são três, um taludo e dois pequeni- nos. Não obstante, não trouxe nenhum deles para aqui com o fito de vos pedir absolvição. Por que razão não hei de

' fazê-lo? Não por presunção, Atenien-

ses, nem por menosprezo vosso; minha calma ou perturbação em face da morte é questão à parte; mas em face da honra, minha, vossa e de toda a cidade, eu considero uma nódoa aquele procedimento na minha idade e com a reputação adquirida; certa ou errada, sempre é opinião corrente que Sócrates nalguma coisa se distingue do comum dos homens. Se, quem passa por distin- guir-se entre vós pela sabedoria, pela coragem ou qualquer outro mérito, é uma pessoa daquelas atitudes, que ver- gonha! Como vi tantas vezes pessoas, embora tidas como homens de valor,

SJsa

26 PLATÃO

fazer em juizo cenas de causar espan- to, persuadidos de que seria um horror terem de morrer, como se houvessem de ser imortais se vós não os condenás- seis à morte; eles são, a meu ver, uma vergonha para a cidade, dando ao

forasteiro a impressão de que os ho- mens distinguidos entre os atenienses pelos seus merecimentos e escolhidos por eles para o governo e cargos hono- ríficos em nada diferem das mulheres. Nós que passamos; não importa como, por ter algum valor, não devemos, Atenienses, adotar aquele procedi- mento, nem deveis vós consentir nele, caso o adotemos, e sim mostrar-vos mais decididos a condenar quem, ence- nando desses dramas lamurientos, lança o ridículo sobre a cidade, do que um de comportamento decente.

À parte a questão da honra, senho- res, não me parece justo pedir e obter

ce dos juízes a absolvição, em vez de

informá-los e corvencê-los. O juiz não toma assento para dispensar o favor da

Justiça, mas para julgar; ele não jurou:

favorecer a quem bem lhe pareça, mas Julgar segundo as leis. Nós não vos devemos habituar ao perjúrio, nem vós deveis contrair esse vício; seria impie- dade nossa e vossa. Portanto, Atenien- ses, não pretendais que eu pratique diante de vós o que não consideró belo, nem justo, nem pio, sobretudo, por Zeus, quando está Meleto acusan- do-me de impiedade! Evidentemente, se, com a força de persuasão de mi- nhas súplicas, vos levasse ao perjúrio, eu vos estaria ensinando a não crer na existência dos deuses e, com tal defesa, simplesmente me estaria acusando de não crer em deuses. Muito ao contrá- rio, Atenienses, eu acredito como ne- nhum de meus acusadores e espero de vós e da divindade que vossã sentença a meu respeito seja a melhor para mim e para vós.

e

J6a

a!

27

Análise da Votação

Para que eu me conforme com o resultado, a minha condenação, con- correm muitas razões; entre elas, a de não se tratar de fato inesperado. Muito mais me espanta o número de votos contados de cada parte. Eu imaginava que a decisão seria essa, não por pequena, mas por grande margem; no

entanto, parece, com uma transposição de apenas trinta votos, estaria absolvi- do. No tocante a Meleto, acho que fui absolvido; mais do que isso, quem

quer pode ver que, não fosse subirem

Anito e Licão para acusar-me, ele seria multado em mil dracmas, por não ter colhido um quinto dos sufrágios.

Discussão das Penas

Ora, o homem propõe a sentença de morte. Bem; e eu que pena vos hei de propor em troca, Atenienses? A que mereço, não é claro? Qual será? Que sentença corporal ou pecuniária mere- ço eu que entendi de não levar uma vida quieta? Eu que, negligenciando o de que cuida toda gente riquezas, negócios, postos militares, tribunas e funções públicas, conchavos e lutas que ocorrem na política, coisas em que me considero de fato por demais pundonoroso para me imiscuir sem me perder não me dediquei áquilo, a que se me dedicasse, haveria de ser completamente inútil para vós e para

mim? Eu que me entreguei à procura de cada um de vós em particular, a fim de proporcionar-lhe o que declaro o maior dos benefícios, tentando persua- dir cada um de vós a cuidar menos do que é seu que de si próprio para vir a ser quanto melhor e mais sensato, menos dos interesses do povo que do próprio povo, adotado o mesmo princi- pio nos demais cuidados? Que sen- tença mereço por ser assim? Algo de bom, Atenienses, se de ser a sen- tença verdadeiramente proporcionada ao mérito; não só, mas algo de bom adequado a minha pessoa. O que é: adequado a um benfeitor pobre, que

37a

28 - PLATÃO

precisa de lazeres para vos viver exor- tando? Nada tão adequado a tal homem, Atenienses, como ser susten- tado no Pritaneu; muito mais do que a um de vós que haja vencido, nas Olim- piadas, uma corrida de cavalos, de bigas ou de quadrigas. Esse vos a impressão da felicidade; eu, a felici- dade; ele não carece de sustento, eu careço. Se, pois, cumpre que me sen- tenciem com justiça e em proporção ao mérito, eu proponho o sustento no Pritaneu.

Dizendo isso pode parecer, como foi a respeito das lamúrias e súplicas, que falo presunçosamente. Não é assim, Atenienses; mas é que estou conven- cido de que não faço mal a ninguém por querer. mas não consigo conven- cer-vos disso. É que conversamos durante pouco tempo; se fosse norma entre vós, como em outros povos, não decidir um processo capital num dia só, mas em muitos, suponho que vos teria convencido; infelizmente, não é fácil em tempo exíguo escoimar-se de calúnias tão fortes. Convencido, por- tanto, de que não faço mal a ninguém, muito menos o farei a mim próprio; não direi eu próprio contra mim que mereça algum mal, nem proporei pena alguma. Que posso temer? Sofrer a pena proposta por Meleto, que declaro ignorar se é um bem, se é um mal? Hei de preferir e propor em troca uma daquelas que sei que são males? Por- ventura a prisão? Para que hei de viver na cadeia, escravizado ao comando sempre reformado dos Onze!'? Ou uma multa, permanecendo preso até

1 Os Onze eram autoridades policiais eletivas. (N. do T.)

pagá-la toda? Daria na mesma, pois,

como disse pouco, não tenho bens com que pagar. Proporei, então, o des- terro, a que possivelmente me senten- ciaríeis? Muito amor à vida deveria eu ter para ficar tão estúpido que não compreendesse que, se vós, sendo meus concidadãos, não pudestes aturar mi- nhas conversas e assuntos, tão impor- tunos e odiosos para vós, que neste momento vos estais procurando livrar deles, outros hão de aturá-los melhor? Que esperança, Atenienses!

Bela vida seria a minha se, homem da minha idade, partisse daqui para viver expulso de cidade em cidade! Estou certo de que, aonde quer que vá, os moços me virão ouvir, como aqui; se os repelir, eles mesmos darão ouvi- dos aos mais velhos para me expulsar; se não os repelir, hão de expulsar-me por causa deles seus pais e parentes.

Pode alguém perguntar: “Mas não serás capaz, ó Sócrates, de nos deixar viver calado e quieto?” De nada eu convenceria alguns dentre vós mais dificilmente do que disso. Se vos disser que assim desobedeceria ao deus e, por isso, impossível é a vida quieta, não me dareis fé, pensando que é ironia; dou- tro lado, se vos disser que para o homem nenhum bem supera o discor- rer cada dia sobre a virtude e outros temas de que me ouvistes praticar quando examinava a mim mesmo e a outros, e que vida sem exame não é vida digna de um ser humano, acredi- tareis ainda menos em minhas pala- vras. Digo a pura verdade, senhores, mas convencer-vos dela não me é fácil. Acresce que não estou habituado a jul- gar-me merecedor de mal nenhum.

J8a

DEFESA DE SÓCRATES 29

Propõe Sócrates uma Muita

Se tivesse dinheiro, estipularia uma multa dentro de minhas posses; não sofreria nada com isso. Infelizmente, não tenho mesmo, salvo se quiserdes estipular tanto quanto possa pagar. Talvez vos possa pagar uma mina de

“prata; é quanto estipulo, portanto. Mas

está Platão, Atenienses, com Criíton, Critobulo e Apolodoro., mandando que estipule trinta minas, sob sua fiança. Estipuio, pois, essa quantia; serão fia- dores da soma essas pessoas idôneas.

c

WI Aos que o Condenaram

Por não terdes esperado mais um pouco, Atenienses, aqueles que deseja- rem injuriar a cidade vos lançarão a fama e a acusação de haverdes matado Sócrates, um sábio. Sim, dir-me-ão sábio, embora não o seja, os que vos quiserem malsinar. Se aguardásseis mais algum tempo, a natureza mesma satisfaria a vossa vontade. Bem vedes a minha idade, distante da vida e próxima da morte. Não dirijo essas, palavras -a todos vós, mas aos que votaram pela minha morte.

Para esses mesmos, acrescento o

seguinte: talvez imagineis, senhores,

que me perdi por falta de discursos com que vos poderia convencer, se na minha opinião se devesse tudo fazer e dizer para escapar à justiça. Engano! Perdi-me por falta, não de discursos, mas de atrevimento e descaro, por me recusar a proferir o que mais gostais de ouvir, lamentos e gemidos, fazendo e dizendo uma multidão de coisas que declaro indignas de mim, tais como costumais ouvir dos outros. Ora, se antes achei que o perigo não justifi- cava nenhuma indignidade, tampouco me pesa agora da maneira por que defendi; ao contrário, muito mais folgo em morrer após a defesa que fiz, do que folgaria em viver após fazê-la daquele outro modo. Quer no tribunal,

quer na guerra, não devo eu, não deve ninguém lançar mão de todo e qual- quer recurso para escapar à morte. Com efeito, é evidente que, nas bata- lhas, muitas vezes se pode escapar à morte arrojando as armas e suplicando piedade aos perseguidores; em cada perigo, tem muitos outros meios de escapar à morte quem ousar tudo fazer e dizer. Não se tenha por difícil esca- par à morte, porque muito mais difícil é escapar à maldade; ela corre mais ligeira que a morte. Neste momento, fomos apanhados, eu, que sou um velho vagaroso, pela mais lenta das duas, e os meus acusadores, ágeis e velozes, pela mais ligeira, a malvadez. Agora, vamos partir; eu, condenado por vós à morte; eles, condenados pela verdade a seu pecado e a seu crime. Eu aceito a pena imposta; eles igualmente. Por certo, tinha de ser assim e penso que não houve excessos.

Sobre o futuro, porém, desejo fazer- vos um vaticínio, meus condenadores; com efeito, eis-me chegado aquele momento em que os homens vaticinam melhor, quando estão para morrer. Eu vos afianço, homens que me mandais matar, que o castigo vos alcançará logo após a minha morte e será, por Zeus, muito mais duro que a pena capital que me impusestes. Vós o fizes-

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32 | PLATÃO

tes supondo que vos livraríeis de dar

boas contas de vossa vida; mas o resul- tado será inteiramente oposto, eu vo-lo asseguro. Serão mais numerosos os que vos pedirão contas; até agora eu os continha e vós não o percebieis; eles serão tanto mais importunos quanto são mais jovens, e vossa irritação será maior. Se imaginais que, matando

Ãos que O

Com os que votaram pela absolvi- ção, gostaria de conversar a respeito do que se acaba de passar, enquanto estão ocupados os magistrados e antes de seguir para onde devo morrer. Por- tanto, senhores, ficai comigo mais um pouco; nada impede que nos entrete- nhamos enquanto dispomos de tempo. Quero explicar-vos, como a amigos, O sentido exato do que me sucedeu agora.

O que me aconteceu, senhores juízes a vós é que chamo com acerto juí- zes foi uma coisa prodigiosa. A inspiração costumada, a da divindade, sempre foi rigorosamente assídua em opor-se mesmo a ações mínimas, quan- do eu ia cometer um erro; agora, porém, acaba de suceder-me o que vós estais vendo, o que se poderia conside- rar, quem o faça, como o maior dos males; mas a advertência divina não se me opós de manhã, ao sair de casa, nem enquanto subia aqui para O

tribunal, nem quando ia dizer alguma .

coisa; no entanto, quantas vezes ela me conteve em meio de outros discursos! Mas hoje não se me opôs nenhuma vez no decorrer do julgamento, em nenhu-

homens, evitareis que alguém vos repreenda a vida, estais enganados; essa não é uma forma de libertação, nem é inteiramente eficaz, nem honro-

- sa; esta outra, sim, é a mais honrosa e

mais fácil; em vez de tapar a boca dos outros, preparar-se para ser o melhor: possível. Com este vaticínio, despeço- me de vós que me condenastes.

Absolveram

ma ação ou palavra. À que devo atri- buir isso? Vou dizer-vos: é bem possí- vel que seja um bem para mim o que aconteceu e não é forçoso que acerte- mos quantos pensamos que a morte é um mal. Disso tenho agora uma boa prova, porque a costumada adver- tência não poderia deixar de opor-se, se não fosse uma ação boa o que eu es- tava para fazer.

Façamos mais esta reflexão: grande esperança de que isto seja um bem. Morrer é uma destas duas coisas: ou o morto é igual a nada, e não sente nenhuma sensação de coisa nenhuma; ou, então, como se costuma dizer, tra- ta-se duma mudança, uma emigração da alma, do lugar deste mundo para outro lugar. Se não nenhuma sensa- ção, se é como um sono em que o adormecido nada nem sonha, que maravilhosa vantagem seria a morte!

Bem posso imaginar que, se a gente devesse identificar uma noite em que tivesse dormido tão profundamente que nem mesrno sonhasse e, contra- pondo a essa as demais noites e dias de sua vida, pensar e dizer quantos dias e noites de sua existência viveu melhor é

sla

DEFESA DE SÓCRATES 33

mais agradavelmente do que naquela noite, bem posso imaginar que, não digo um particular, mas o próprio rei da Pérsia acharia fáceis de enumerar essas noites entre as outras noites e dias. Logo, se a morte é isso, digo que é uma vantagem, porque, assim sendo, toda a duração do tempo se apresenta como nada mais que uma noite. Se, do outro lado, a morte é como a mudança daqui para outro lugar e está certa a tradição de que estão todos os mor- tos, que maior bem haveria que esse, senhores juízes?

Se, em chegando ao Hades, livre dessas pessoas que se intitulam juízes, a gente vai encontrar os verdadeiros juízes que, segundo consta, distri- buem a justiça, Minos!2?, Radamanto, Éaco, Triptólemo e outros semideuses que foram justiceiros em vida, não valeria a pena a viagem? Quanto não daria qualquer de vós para estar na companhia de Orfeu!?, Museu, He- siodo e Homero? Por mim, estou pron- to a morrer muitas vezes, se isso é ver- dade; eu de modo especial acharia um entretenimento maravilhoso, quan- do encontrasse Palamedes! *, Ajax de Telamão e outros dos antigos, que te- nham morrido por uma sentença iní- qua; não me seria desagradável com- parar com os deles os meus sofrimentos e, o que é mais, passar O tempo examinando e interrogando os de como aos de cá, a ver quem deles é sábio e quem, não o sendo, cuida que

'2 Minos, rei de Creta, Radamanto, Éaco, Triptó-

lemo, heróis mitológicos, foram, segundo a tradição .

conservada nos ritos secretos dos chamados Misté-

“rios, designados juízes das almas no outro mundo.

(N. do T.)

13 Orfeu e Museu são autores lendários dos hinos e cânticos dos ritos dos Mistérios. (N. do T.)

14 Palamedes e Ájax são figuras lendárias; o pri- meiro teria morrido apedrejado, vítima duma calú- nia, no acampamento dos gregos em Tróia; o segun- do, herói duma tragédia de Sófocles, além de o ser da Ilíada, suicidou-se por ter sido fraudado na herança das armas de Aquiles, que deviam caber ao mais valoroso dos guerreiros. (N. do T.)

é. Quanto não se daria, senhores jui- zes, para sujeitar a exame aquele que comandou a imensa expedição contra Tróia, .ou Ulisses,, ou Sísifo milhares de outros se poderiam no- mear, homens e mulheres, com quem seria uma felicidade indizível estar Junto, conversando com eles, sujeitan- do-os a exame! Os de absoluta- mente não matam por uma razão des- sas! Os de são mais felizes que os de càã, entre outros motivos, por serem imortais pelo resto do tempo, se a tra- dição está certa.

Vós também, senhores juízes, deveis bem esperar da morte e considerar particularmente esta verdade: não há, para o homem bom, nenhum mal, quer na vida, quer na morte, e os deuses não descuidam de seu destino. O meu não é efeito do acaso; vejo claramente que era melhor para mim morrer agora

ficar livre de fadigas. Por isso é que a:

advertência nada me impediu. Não me insurjo absolutamente contra os que votaram contra mim ou me acusaram. Verdade é que não me acusaram e con- denaram com esse modo de pensar, mas na suposição de que me causavam dano: nisso merecem censura. Contu- do, tenho um pedido que lhes faça: quando meus filhos crescerem, ,casti- gai-os, atormentai-os com os mesmis- simos tormentos que eu vos infligi, se achardes que eles estejam cuidando mais da riqueza ou de outra coisa que

da virtude; se estiverem supondo ter

um valor que não tenham, repreendei- Os, como vos fiz eu, por não cuidarem do que devem e por suporem méritos, sem ter nenhum. Se vós o fizerdes, eu terei recebido de vós justiça; eu, e meus filhos também.

Bem, é chegada a hora de partirmos, eu para a morte, vós para a vida. Quem segue melhor rumo, se eu, se vós, é segredo para todos, menos para a divindade.

2a

XENOFONTE

DITOS E FEITOS MEMORÁVEIS DE SÓCRATES

Tradução de LÍBERO RANGEL DE ANDRADE através da versão francesa de Eugêne Talbot

a

CAPÍTULO I

Admirou-me muitas vezes por que argumentos, afinal, lograram os acu- sadores! de Sócrates persuadir os ate- nienses de que ele merecia a morte por crime contra o Estado. Com efeito, eis pouco mais ou menos os termos da acusação: Sócrates é culpado de não preitear os deuses que cultua o Estado e introduzir extravagâncias demonia- cas. Culpado ainda de corromper os jovens.

A que testemunho, afinal, recorre- ram para provar que ele não honrava os deuses do Estado; se fazia sacrifi- cios frequentes às abertas, ora em sua casa, ora nos altares públicos; se praceiramente recorria à arte divina tória? Corria a voz, ateada pelo pró- prio Sócrates, de que o inspirava um demônio?: eis, sem dúvida, por que o criminaram de introduzir extrava- gâncias demoniacas. No entanto, não introduzia ele mais novidades do que todos aqueles que crêem na adivinha- ção e interrogam o vôo das aves, as vozes, OS signos e as entranhas das vi- timas: não supõem nas aves nem naqueles com que se encontram o conhecimento do que buscam, mas acreditam que por seu intermédio lho

1 O poeta Meleto, o curtidor Ânito e o orador Licão. (N. do E.)

2 Demônio: gênio bom ou divindade, e não o senti- do posterior de gênio do mal. (N. do E.)

a

revelam os deuses; Sócrates também pensava o mesmo. Diz o vulgo que as aves e os encontros nos advertem se devemos prosseguir ou retroceder no que temos de olho: Sócrates falava o que sentia, dizendo-se inspirado por um demônio. E de acordo com as reve- lações desse demônio aconselhava aos amigos o fazer certas coisas, o abster- se de outras. tinham a ganhar os que o ouviam. Arrependiam-se os que nele não acreditavam. Claro que não havia de querer passar por imbecil nem por impostor aos olhos de seus disci- pulos. E imbecil e impostor ter-se-ia tornado, se predissesse coisas como reveladas por um deus e em seguida fosse desmentido. Evidente, portanto, é que se absteria de predizer caso não estivesse certo de falar verdade. Ora, o que lhe inspiraria esta certeza senão um deus? E se tinha nos deuses, como poderia negar-lhes a existência? Por outro lado, eis como se portava para com os amigos. Em se tratando de coisas de resultado certo, aconse- lhava-os a procederem da maneira que melhor lhe parecia. Quanto às coisas de êxito duvidoso, mandava-os consul- tarem os oráculos. mister ajudar-se da adivinhação, dizia, para bem gerir as casas e os Estados. A arquitetura, a metalurgia, a agricultura, a política e a teoria das ciências que tais, o cálculo,

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a economia, e todos os conhecimentos

congêneres estão, opinava, ao alcance '

da inteligência humana, porém, agre- gava, o que de mais eminente encerram estas ciências encofram-no os deuses para si, sequer entremostrando-o aos olhos dos homens. Com efeito, ignora aquele que bem plantou um vergel quem lhe colherá os frutos. Quem a capricho construiu uma casa não sabe quem a habitará. Tampouco sabe o general se lhe será vantajoso coman- dar. Tampouco sabe o político se lhe aproveitará governar o Estado. Tam- pouco sabe aquele que, esperando ser feliz, esposa uma bela mulher, se ela não será seu tormento. Tampouco sabe aquele que se alia aos poderosos do Estado se dia virá em que por eles seja banido. Insensatos chamava Sócrates aos que em tudo isso não vêem provi- dência divina e tudo sujeitam à inteli- gência humana. Por igualmente insen- satos, porém, havia os que consultam os oráculos sobre coisas que os deuses nos deram a faculdade de saber por nós próprios. Como se lhes perguntás- semos a quem confiar nosso carro, a cocheiro hábil ou inapto. A quem entregar nosso navio, a bom ou mau piloto. Ou sobre coisas que podemos saber por meio do cálculo, da medida ou da balança. Reputava impiedade consultar os deuses sobre coisas tais: aprendamos o que nos conferiram os deuses a faculdade de aprender, dizia, e deles procuremos saber o que nos é velado. Porque eles o revelam aos que distinguem com seus favores.

No mais, Sócrates sempre viveu à luz pública. Pela manhã saía a passeio e aos ginásios, mostrava-se na ágora à hora em que regurgitava de gente e passava o resto do dia nos locais de maior concorrência, o mais das vezes falava, podendo ouvi-lo quem quisesse. Viram-no ou ouviram-no alguma vez fazer ou dizer algo contrário à moral,

ou à religião? Abstendo-se, ao revés da maioria dos outros filósofos, de disser- tar sobre a natureza do universo, de indagar a origem espontânea do que os sofistas chamam “cosmos” e a que leis fatais obedecem os fenômenos celestes, ia a ponto de demonstrar a loucura dos que vacam a semelhantes especula- ções. Antes de tudo examinava se eles presumiam ter aprofundado suficiente- mente os conhecimentos humanos para se ocuparem de tais assuntos, ou se achavam razoável pôr de parte o que está ao alcance do homem para intro- meter-se no que aos deuses pertence. Admirava-se de que não vissem serem tais segredos intangíveis ao homem, de vez que, longe de concordarem entre si, aqueles mesmos que se gabam de me- lhor falar sobre eles se têm mutua- mente na conta de loucos. EFfetiva- mente, entre os loucos, uns não temem o que é temível, outros temem o que não é de temer. Uns acham poder-se sem pejo tudo dizer e tudo fazer em pú- blico, outros, dever-se fugir todo co- mércio com os homens. Uns não res- peitam nem templos nem altares, nem nada do que é divino, outros reveren- ciam ag pedras as primeiras árvores e animais que lhes aparecem pela frente. Quanto aos que se preocupam com a natureza do universo, estes afirmam a unidade do ser, aqueles sua multipli- cidade infinita. Uns crêem os corpos em perpétuo movimento, outros em inércia absoluta. Aqui se pretende que tudo nasce e tudo morre, ali que nada se criou e nada deve ser destruído. Per- guntava Sócrates ainda se, assim como estudando o que concerne ao homem se espera auferir desse estudo proveito para si e para outros, não imaginam os que estudam o que pertence aos deu- ses, uma vez instruídos nas leis fatais do mundo poder produzir a seu capri- cho os ventos, a chuva, as estações e tudo o de que venham a precisar no gê- t

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MEMORÁVEIS-I 41

nero ou se, sem se abalançarem a

"tanto, contentar-se-ão de saber como

se processa cada um desses fenômenos. Eis .o que dizia dos que Se ingerem

nesta sorte de indagações. Quanto a,

ele, discutia constantemente tudo o que ao homem diz respeito, examinando o que é o piedoso e o ímpio, o belo e o vergonhoso, o justo e o injusto, a sabe- doria e a loucura, o valor e a pusilani- midade, o Estado e o homem de Esta- do, o governo e o governante e mais coisas deste jaez, cujo conhecimento lhe parecia essencial para ser virtuoso e sem o qual se merece o nome de escravo.

Não admira, pois, que seus juízes se hajam enganado quanto a seus pensa- mentos íntimos. Porém o que todos sabiam, não é de estranhar que o te- nham sobreolhado? Membro do sena- do, proferira Sócrates o juramento que aos senadores se exige de desincum- bir-se de suas funções de conformidade com as leis. Eleito epistata do con- gresso popular e querendo o povo, contrariamente: às leis, condenar à

morte, coletivamente e por um único voto, nove generais, entre os quais Tra- silo e Erasínides, recusou a votação, não obstante a cólera do povo e as ameaças de muitos poderosos. Preferiu manter-se fiel ao juramento a cometer uma injustiça para comprazer à multi- dão e pór-se a coberto de ameaças. É que, embora diversamente da maneira como crê a maior parte dos homens, acreditava que os deuses têm olhos fitos nas ações humanas. Crê a média dos homens que os deuses sabem cer- tas coisas e ignoram outras. Achava Sócrates que de tudo estão ao corrente —— palavras, ações, pensamentos secre- tos que estão em toda parte e tudo nos revelam que seja de nossa alçada.

Admira-me, pois, hajam crido os atenienses alimentasse Sócrates opi- niões extravagantes sobre os deuses, ele que jamais coisa alguma disse nem praticou de ímpio, ele cujas palavras e ações sempre foram tais que quem falasse e se portasse do mesmo modo seria reputado o mais pio dos huma- nos.

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CAPÍTULO II

O que igualmente me assombra é o haver-se embrechado em certos espíri- tos que Sócrates corrompia a juventu- de, Sócrates que, à parte o que foi dito, era 6 mais reportado dos mortais nos

prazeres dos sentidos como da mesa, o “mais endurecido contra o frio, o calor, as fadigas de toda espécie e tão sóbrio que lhe sobrebastava seu minguado pecúlio. Com tais qualidades, como poderia ter desencaminhado os outros à impiedade, à libertinagem, à indolên- cia? Pelo contrário, não. divertiu mui- tos homens desses vícios, fazendo-os amantes da virtude e infundindo-lhes a esperança de, mediante a fiscalização de si mesmos, virem a ser um dia vir- tuosos? Nunca se disse, contudo, mes- tre de sabedoria, posto com seu proce- dimento fizesse esperar aos que o frequentaram o dele se aproximarem imitando-o. Não descurava do corpo nem aprovava os que o fazem. Rejei- tava o comer com excesso para ao de- pois fatigar-se outro tanto, recomen- dando um repasto regulado pelo apetite e seguido de exercício modera- do. Este regime dizia conserva a saúde do espírito. Ao demais, não era afetado nem refinado, fosse no vestir, fosse no calçar, fosse em toda a sua maneira de viver. Tampouco fazia de seus discípulos homens cúpidos, pois curando-os das outras paixões não

pedia a menor paga aos que lhe procu- ravam a companhia. Cria, com esta abstenção, melhor resguardar a pró- pria liberdade, chamando escraviza- dores de si mesmos os que reclamam salário por suas palestras, visto se imporem a obrigação de conversar com os que lhes pagam. Admirava-se de que um homem que fizesse profis- são de ensinar a virtude exigisse remu- neração e que em vez de ver na aquisi- ção de um amigo virtuoso a maior das recompensas, temesse que um coração tonverso à virtude não pagasse O maior dos benefícios com o maior reconhecimento. Aliás, Sócrates nunca prometeu nada de semelhante a nin- guém. Porém abrigava a certeza de ganhar, naqueles que lhe seguiam os princípios, bons amigos que o ama- riam e se estimariam reciprocamente para o resto da vida. Como, pois, corromperia um homem desses a ju- ventude? A menos que o incitamento à virtude seja meio de corrupção.

Mas, por Júpiter! diz o acusador instigava seus discípulos ao des- prezo das leis estabelecidas, tachando de estupidez o escolher com uma fava os magistrados de uma república, quando ninguém tiraria à sorte um piloto, um arquiteto, um tocador de flauta, etc., cujos erros são, no entanto, muito menos prejudiciais que os da-

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queles que governam os Estados. Tais falas acresçenta inspiram nos jo-

vens o menosprezo da constituição em.

vigor e os tornam violentos. De mim penso que os que praticam a sabedoria e se crêem capazes de dar conselhos

úteis a seus concidadãos de modo ne-

nhum são violentos, visto saberem que a violência atiça o ódio e acarreta peri- go, enquanto a persuasão elimina os riscos e não prejudica a perfeição.: De fato, o homem a quem constrangemos nos odeia como se o houvéssemos lesa- do. Aquele a quem persuadimos nos preza como se lhe tivéssemos feito um benefício. Não dos que praticam a sabedoria, pois; é própria a violência, porém, dos que'têm força mas não têm

razão. Além do que, na violência hão:

mister numerosos auxiliares. Para per- suadir não se precisa de ninguém: sozi- nho pode-se convencer. Demais, nunca tais homens mancharam as mãos de sangue. Quem preferiria matar seu semelhante a deixá-lo viver e lhe ser útil pela persuasão?

Todavia prossegue o acusador Críitias e Alcibiades, que foram discípulos de Sócrates, causaram o maior mal ao Estado. Crítias foi o mais cúpido, violento e sanguinário dós oligarcas. Alcibiades o mais in- temperante e insolente dos democratas. Longe de mim, se estes dois homens fizeram algum mal à pátria, o propó-

sito de justificá-los. Quais foram suas

relações com Sócrates, eis o que desejo esclarecer. Eram eles, por natureza, Os mais ambiciosos de todos os atenien- ses. Queriam tudo feito por eles, que seu nome não tivesse par. Sabiam Só- crates contente de pouco, senhor abso- luto de todas as suas paixões e capaz de acaudilhar a seu talante o espírito daqueles com que falava. Sabedores disso e com o caráter que lhes perfi- lei, crerá alguém fosse pelo desejo de imitar a vida de Sócrates e sua tempe-

XENOFONTE

rança que lhe solicitavam a conversa- ção, ou na esperança de, frequentan- do-o, tornarem-se bons oradores e nábeis políticos? A mim me quer pare- cer que se um deus lhes houvesse dado a escolher entre o viver a vida inteira como viam viver Sócrates ou morrer, teriam preferido a morte. Desembu- çou-os seu procedimento. Assim se jul- garam superiores aos companheiros, abandonaram Sócrates para abraçar a política, móvel de sua ligação com ele. Objetar-me-ão, talvez, que Sócrates não deveria ter ensinado política aos que com ele privavam antes de ensi- nar-lhes a sabedoria. Não o nego. Vejo, porém, que todos aquejes que

ensinam praticam o que ensinam afim. . de edificar pelo exemplo os que apren+ -

dem, a passo igual que os estimulam pela palavra. Sei que Sócrates era para seus discípulos modelo vivo de virtuo- sidade e que lhes administrava as mais belas lições acerca da virtude e o mais que ao homem concerne. Sei que Cr- tias e Alcibiades se portaram prudente- mente enquanto conviverám com Sé- crates. Não que temessem ser por ele

castigados ou batidos, mas por crerem.

então ser a tudo preferível o hábito de virtude. Quiçã sustentem muitos de nossos pretensos filósofos que o homem justo jamais se torna injusto nem o sábio insolente. Que urna vez de posse de

uma ciência nunca mais se esquece o:

que se aprendeu. De minha parte, estou longe de pensar como eles. Vejo, em efeito, que se não se exercita o corpo a gente se torna inapto para os trabalhos corporais, e que, igualmente, se não se exercita o espirito se torna incapaz dos trabalhos espirituais, não se podendo fazer o que se deve nem se abster do que se deve evitar. Eis por que os pais, seja qual for a sabedoria de seus filhos, os afastam dos homens perversos, con- victos de que o comércio dos bons

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MEMORÁVEIS-I 45

alenta a virtude, e cresta-a o dos maus. Testemunham-no os versos do poeta:

Os homens de bem te ensinarão

boas coisas.

Os maus te farão perder a prt

ria razão.

irestoutro:

Às vezes o sábio é bom, às vezes

mau.

A esses testemunhos ajunto o meu. Pois vejo que, se pela falta de exercício se eBquecem os versos, não obstante o recufso da medida, da mesma forma se esquece a palavra do mestre, por causa da negligência. Ora, quando se esque- cem estas exortações, se esquecem também as impressões que induzem a alma a desejar a sabedoria. E olvida- das tais impressões, não admira que se

2 olvide a própria sabedoria. Noto ainda

que aqueles que se entregam ao vinho e capitulam dos prazeres dos sentidos são. menos capazes de fazer o que dever e de resguardar-se do que cum- pre evitar. Muitos que antes de

“amar sabiam administrar seus bens.

Amando, não o sabem. E perdidos

seus haveres, não se esguardam de

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ganhos de que se mantinham castos por considerá-los vergonhosos. Impli-

- Cará tontradição, pois, que o sábio de

ontem não o seja hoje, que o justo se tenha feito injusto? Por mim periso que todas as virtudes requerem a prática, notadamente a temperança. Inatas na alma com o corpc, as paixões incitam a pôr de lado a sabedoria e a satisfazer

“O mais presto os apetites sensuais.

Enquanto conviveram com Sócra- tes, puderam, graças ao seu auxílio, sopear as más paixões. Uma vez longe dele, Crítias, refugiado na Tessália, viveu em companhia de homens mais afeitos à ilegalidade que à justiça. Perseguido,

- por causa de sua beleza, por uma mul-

tidãao de mulheres da mais alta catego- ria, corrompido por causa do crédito

tanto Crítias como Alcibiades '

de que gozava assim na república como nas cidades aliadas, por um enxame de hábeis aduladores, honrado pelo povo, alcançando sem esforço o primado do poder, Alcibíades relaxou-se tal esses atletas que, triunfando facilmente em todas as lutas, descuidam de todo exer- cício. Depois, orgulhosos de seu nasci- mento, soberbos de sua riqueza, ébrios do próprio poder, amolentados por uma turba de indulgentes, corrompidos de tantos lados ao mesmo tempo, ad- mira que sua insolência haja trans- posto todos os limites? E a Sócrates é que acha o acusador de imputar as fal- tas que cometeram?! Entretanto, quando eram jovens, numa idade em que mais que nunca deveriam ter sido desregrados e intemperantes, Sócrates conteve-os na moderação: o que o acu- sador não acha digno do menor lou- vor. Não é esta a praxe do julgador. Onde-o flautista, o citarista ou o mes- tre qualquer a quem se reproche o fato de seus discípulos, uma vez formados, se tornarem maus sob outros mestres? Onde o pai cujo filho, prudente en- quanto manteve relações com um amigo, se haja pervertido na sociedade de outro, que se lembre de acusar o pri- meiro amigo? Pelo contrário, não o elogiará tanto mais quanto míais vicio- so se tenha tornado seu filho com o segundo? Os próprios pais não são responsáveis, ainda que a seu pé, seus filhos enveredem pela senda do mal, uma vez que lhés dêem bons exem- plos. Eis como se devia julgar Sócra- tes. Cometeu ele próprio algum mal? Merece ser tratado como perverso. Porém, se jamais deixou de ser homem de bem, será justo acusá-lo de uma depravação que não lhe cabe? Se, em- bora abstêmio do mal, houvesse assis- tido sem desaprová-los aos atos vergo- nhosos dos outros, estaria no direito de censurá-lo. Mas, tendo per- cebido que Critias, enamorado de Euti-

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demo, queria gozá-lo à maneira dos que abusam do próprio corpo para satisfazer seus desejos amorosos, for- cejou por demovê-lo de semelhante intento, dizendo-lhe indigno de homem livre e indecente a amigo da virtude ir como mendicante solicitar algo do ob- jeto amado, junto ao qual cumpre sobretudo fazer-se valer, e ainda mais solicitar coisa oprobriosa. Crítias fazia ouvidos de mercador e não dava de si. Então se pretende haver Sócrates dito ante numerosa assistência e em pre- sença de FEutidemo que Crítias lhe parecia ter tal ou qual semelhança com um porco, pois queria esfregar-se em Eutidemo como se esfregam os porcos nas pedras. Desde então Crítias se tor- nou inimigo jurado de Sócrates. No- meado um dos Trinta e monoteta com. Cáricles, guardou-lhe rancor e proibiu por lei o ensino da oratória. Assim ata- cava Sócrates. Não tendo de que acu- sá-lo; carregava-o com a censura que de comum se insimula aos filósofos e caluniava-o junto à opinião pública. Porque de mim nunca ouvi Sócrates dizer o que quer que fosse que autori- zasse semelhante acusação nem sei de ninguém que diga tê-lo ouvido. Que a lei de Crítias era petardo endereçado contra Sócrates, de sobejo o provaram os acontecimentos. Haviam os Trinta feito morrer grande número de cida- daãos dos mais ilustres e desgarrado ou- tros tantos da trilha da justiça. Disse Sócrates, de uma feita, que muito estranharia que o guarda de um reba- nho que fizesse seus bois diminuírem de número e emagrecerem, não se reco- nhecesse mau pastor. Mas que mais estranharia ainda se um homem colo- cado à testa de um Estado e cujos cida- dãos tornasse menos numerosos e pio- res não se envergonhasse de seus atos e não conviesse ser mau magistrado. Indo estas palavras ter aos ouvidos de Crítias e Cáricles, estes chamaram Só-

crates a sua presença, mostraram-lhe a lei e proibiram-lhe toda palestra com os jovens. Perguntou-lhes Sócrates se lhe era permitido interrogá-los sobre o que nessa proibição se lhe afigurava obscuro, e à sua resposta afirmativa: Estou pronto disse a obe- decer às leis. Mas. para que não me aconteça infringi-las por ignorância,

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eis o que claramente desejo saber de -

vós. Que entendeis, quando lhe proibis a prática, por arte da palavra? O mal ou o bem falar? Porque se vos referis à E arte de bem falar, evidente é dever abs- ter-se de bem falar. Mas se tendes em vista a oratória, claro é dever esfor- çar-se por bem falar.

De vez que és tão bronco, ó Só- crates repostou Caricles Rolanco: anterdizemos-te expressamente, O que é mais claro, o conversar com Os moços.

Para evitar volveu Sócrates

que por equívoco não observe o que -

me é defeso, dizei-me até que idade deve ter-se os homens por moços.

Enquanto não tiverem acesso ao senado respondeu Cáricles, à min- gua de razão suficiente. Não fales, pois, com os jovens de menos de trinta anos.

Então se quiser comprar alguma coisa de homem de menos de trinta anos não poderei perguntar-lhe: Quan- to custa isso?

Sim, isso se te permite assen- tiu Cáricles. Mas tens a mania, Só- crates, de viver fazendo perguntas sobre coisas que sabes, e isso é que te proibimos. |

Quer dizer que não poderei res- ponder a um jovem que me perguntar: Onde mora Cáricles? Onde estã Cri- tias?

Ainda isso se te permite disse Cáricles.

Sim, Sócrates interferiu Cri- tias é preciso deixar em paz os

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MEMORÁVEIS-I 47

sapateiros, carpinteiros e ferreiros. Eles estão fartos das tuas parolagens. Como! exclamou Sócrates devo, pois, renunciar às conclusões de justiça, piedade, etc., que deles

tirava? Sim, por Júpiter! respondeu Cáricles. —- E 'renuncia também aos

teus vaqueiros. De outra forma arris- cas. diminuir por tua vez o número dos bois.

Estas palavras denotam claramente que haviam sido inteirados do propó- sito sobre os bois e estavam abespi- nhados com Sócrates.

Vimos, pois, quais eram as relações entre Crítias e Sócrates e suas disposi- ções mútuas. Eu não hesito em dizer impossível aprender com mestre que não nos agrade. Ora, Crítias e Alci- biades frequentavam Sócrates, não porque este lhes agradasse, mas por abrigarem a esperança de governar o Estado. Enquanto se mantiveram a seu lado, procuraram aproximar-se sobre- tudo dos que se achavam ligados aos negócios políticos. Assim, diz-se que Alcibiades, antes dos vinte anos de idade, teve com Péricles seu tutor e pri- meiro cidadão de Atenas, esta con- versa em torno das leis:

Diz-me, Péricles, nar-me o que é uma lei?

Naturalmente respondeu Pé- ricles.

Ensina-me então, em nome dos deuses tornou Alcibíades. Pois ouço elogiarem certos homens por seu respeito às leis e me parece que sem

podes ensi-

saber o que seja uma lei jamais se

poderia merecer tal encômio.

Se é isso o que desejas saber, facil é satisfazer-te, Alcibíiades disse Péricles —: Chama-se lei toda deliberação em virtude da qual o povo reunido decreta o que se deve fazer ou não.

E que ordena ele que se faça, o bem ou o mal?

O bem, nunca o mal.

E quando, em lugar do povo, é, como numa oligarquia, uma reunião de algumas pessoas que decreta o que se deva fazer, como se chama isso?

Tudo o que após deliberação or- dena o poder que dirige um Estado se chama lei.

Mas se um tirano que governa um Estado ordena aos cidadãos fazer tal ou qual coisa, trata-se ainda de lei?

Sim, tudo o que ordena um tira- no que detém o poder se chama lei.

Que é então, Péricles, a violên- cia e a ilegalidade? Não é o ato pelo qual o mais forte, em vez de persuadir o mais fraco, constrange-o a fazer o que lhe apraz?

Essa a minha opinião con- veio Péricles.

Portanto, toda vez que, em lugar de usar da persuasão, um tirano força os cidadãos por um decreto, será legalidade?

Ássim o creio. Errei, pois, dizen- do sejam leis as ordens de um tirano que não emprega a persuasão.

E quando a minoria não usa da persuasão junto à multidão, mas abusa de seu poder para forjar decretos, cha- maremos a isso violência ou não?

Tudo o que se exige de alguém sem empregar a persuasão, trate-se ou não de um decreto, pila me antes violência que lei.

E tudo o que, exercendo o poder, impuser a multidão aos ricos sem o emprego da persuasão será ainda antes violência que lei?

Bravos! Alcibiades! excla- mou Péricles. Nós também, na tua idade, éramos hábeis em semelhantes matérias. Tomávamo-las por tema de declarações argumentações, tal como presentemente fazes comigo.

rapaz, por Júpiter! e

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Lamento, Péricles, não ter podi- do palestrar contigo nessa época em que ganhavas a mão a ti mesmo! rematou Alcibiades.

Apenas se julgaram mais hábeis que os administradores da cidade, Criítias e Alcibiades deixaram a companhia de Sócrates, com quem nunca simpati- zaram e que os feria fazendo-lhes sen- tir as próprias faltas, e abraçaram a política, motivo de sua ligação com ele. Criton, Querefonte, Querécra- tes, Hermócrates, Símias, Cebes, Fédon e tantos outros de seus discí- pulos dele se acercaram, não para se formarem na elogiúência da ágora ou do tribunal, mas para se tornarem ho- mens virtuosos e conhecerem seus deveres para com sua família, seus parentes, servidores, amigos, pátria, concidadãos: e jamais nenhum deles, nem na juventude nem em idade mais avançada, praticou o mal nem disso foi acusado.

Mas Sócrates diz seu acusador destruía nas criançás o respeito filial, convencendo seus discípulos de que os tornava mais hábeis que seus pais, dizendo-lhes que a lei permite encarcerar o pai convicto de loucura, para provar o que dizia que ao homem instruído assiste o direito de encadear o ignorante. Longe disso, achava Só- crates que o indivíduo que sob capa de ignorância acorrentasse outro, merecia ser acorrentado a seu turno pelo pri- meiro que soubesse mais que ele. Eis

por que examinava de cotio em que di-

fere a ignorância da loucura, parecen- dolhe não se proceder erradamente encarcerando os loucos em seu pró- prio interesse e de seus amigos ao passo que os ignorantes devem apren- der o de que necessitam da boca dos que sabem.

Não aos pais prossegue o acu- sador «mas também aos outros parentes ensinava Sócrates seus disci- pulos a desrespeitarem, dizendo que

quando se está doente ou empenhado num processo de nada valem os paren- tes e sim os médicos ou os advogados. Do mesmo modo, falando dos amigos, dizia que de nada nos serve sua benevolência, se não nos aproveita. Que merecem nossa estima os que sabem o que é preciso saber e no-lo podem ensinar. E como persuadia os Jovens de que era muito sábio e muito hábil em tornar os outros sábios, convencia-os, em proveito próprio, a não agasalharem a menor estima a seus semelhantes. Não ignoro usasse Sócrates dessa linguagem ao falar dos pais, parentes «e amigos: aventava que após a deserção da alma devemos apressar-nos em fazer desaparecer o corpo do ente inda o mais querido, pois unicamente naquela reside a inte- ligência. Enquanto vivo dizia o homem corta com as próprias mãos ou faz cortar por outrem o que em seu corpo, objeto de sua mais viva afeição, lhe parece inútil e supérfluo. Assim os homens cortam de vontade própria as unhas, os cabelos, as calosidades. Entregam-se aos médicos para que os cortem e queimem, com dores e sofri- mentos indizíveis e ainda se crêem na obrigação de recompensá-los. Afinal cospem a saliva o mais longe possível da boca, porque de nada lhes serve o guardá-la, sendo até prejudicial. Assim falando, não exortava a enterrar o pai vivo nem cortar-se a si mesmo em pedaços, mostrando que o que é inútil deve ser desprezado, instava seus disci- pulos a envidarem todos os esforços por tornar-se o mais sóbrios €e úteis possível, a fim de que, se desejassem granjear a estima dos pais, irmãos ou não importa quem, não se fiassem ape- nas nos liames parentescos, mas pro- curassem ser úteis âqueles cuja estima ambicionassem.

Pretende o acusador que Sócrates escolhesse os trechos mais perigosos

dos grandes poetas e os utilizasse

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MEMORÁVEIS-I 49

como argumentos para formar seus discípulos no crime e na violência. Assim, quando citava este verso de Hesíodo: Não a ação, mas a inação é que-é vergonhosa, seria para mostrar o poeta animando a não deixar passar nenhuma oportunidade, justa ou injus- ta, e de tudo aproveitar-se. Longe disso a verdade. Reconhecendo ser a ação útil e honrosa ao homem e a inação

» prejudicial e vergonhosa, uma um bem “ty PESE

ie a outra um mal, dizia que aqueles “que praticam o bem agem e agem

como deve agir-se, enquanto chamava ociosos os que jogam dados ou se dedi-

cam a outras ocupações condenáveis e .

funestas. Assim compreendido, nada mais verdadeiro que o verso: Não a ação, mas a inação é que é vergonhosa. Acrescenta ainda o acusador que Só- crates citava frequentemente estés ver- sos de Homero, onde se diz de Ulisses que Quando via um rei, um herói de escol, detinha-o com palavras de lison- ja: “Filho dos deuses, não fujas como um covarde, senta-te e faze sentar tua grosseira falange”. Mas se topava com um reles soldado a vociferar, batia-lhe com o cetro e rude e altivamente lhe dizia: “Senta-te! mísero, ouve a pala- vra de quem vale mais que tu, raça inú- til e frívola, covarde no combate, zero no conselho!” Tais versos explicá-los- ia Sócrates como se o poeta tivesse aprovado que se maltratasse aos ple- beus e aos pobres. A verdade, porém, é que Sócrates nunca disse semelhante coisa, do contrário teria crido se deves- se maltratá-lo a ele próprio: dizia que os homens que nada valem tanto no conselho como na ação, incapazes, quando necessário, de prestar seu con- curso ao exército, ao Estado, à nação e, não obstante, prenhes de atrevi- mento, devem ser reprimidos por todos os meios, inda que ricos. Muito pelo contrário, Sócrátes mostrava-se aber- tamente amigo do povo e filantropo. De feito, cercado de numerosos discí-

pulos, atenienses e estrangeiros, jamais auferiu proveito algum desse comércio, transmitindo a todos e sem reserva o que sabia. Alguns deles venderam caríssimo a outros o que dele haviam recebido gratuitamente e não foram como ele amigos do povo, atento have- rem recusado suas lições aos que não lhas podiam pagar. Assim, muito mais exaltou Sócrates a nossa República que Licas a dos lacedemônios. Licas tinha sua mesa aberta aos forasteiros que as gimnopédias atraíam à Lacede- mônia. Sócrates, espargindo seu tesou- ro durante todo o curso de sua vida, prestou o maior dos serviços a todos os que dele quiseram quinhoar, devol- vendo melhores os que o procuravam. Senhor de tal caráter, minha convic- ção é que Sócrates merecia de nossa ci- dade não a morte, porém, honras. Jul- gai o fato à luz das leis e haveis de concordar comigo. Passível da pena de morte, segundo as leis, é quem for surpreendido roubando, furtando rou- pas, cortando bolsas, arrombando pa- redes, vendendo seus semelhantes, pi- lhando templos: todos crimes de que mais que ninguém se absteve Sócrates. Excitou sedições ou ocasionou derro- tas? Maculou-se em alguma traição ou outro crime qualquer? Esbulhou al- guém de seus haveres? Lançou alguém na desgraça? Não, jamais foi acusado de nenhum destes crimes. Como, então, poderia ser submetido a julga- mento, ele que, longe de pretender a

inexistência dos deuses, como o incri-

mina o auto de acusação, mais que

“ninguém foi respeitoso da divindade?

Longe de corromper os jovens, como lhe censura a acusação, extirpava. aos olhos de todos as paixões de seus discí- pulos e trabalhava por inspirar-lhes o amor à virtude, essa deidade tão bela e tão sublime que fez florescerem as cidades e os lares. Assim procedendo, como não mereceu as maiores honras de sua pátria?

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CaríTruLO II

Como Sócrates me parecia ser útil a seus discípulos, pelo procedimento, pela palavra, eis o que passo a rela- tar, alinhavando o melhor que possa minhas recordações. No que se refere aos deuses, havia-se e falava de confor- midade com as respostas que a Pítia aos que interrogam sobre como se deve proceder em relação aos sacrifícios, às honras que é vezo render aos antepas- sados, etc. Declara a Piítia, por um orá- culo, que quem quer que sobre esse ponto proceda conformemente às leis da pátria procede piedosamente. Ora, assim procedia e instigava Sócrates os outros a que procedessem, tendo todos aqueles que se portassem diferente- mente na conta de indivíduos excên- tricos e insensatos. Pedia aos deuses simplesmente que lhe concedessem os bens, convicto de que melhor que nós sabe a divindade quais são eles: pedir- lhes ouro, dinheiro, poder e o mais que por segue, seria o mesmo, dizia, que indagar-lhes o resultado de um lanço de dados, de um combate ou coisas incertas que tais. Modesto em suas ofe- rendas, modestos como eram seus haveres, nem por isso julgava ficar abaixo dos ricos que, senhores de lar- gas posses, ofertam vítimas de avanta- jado tamanho e em grande número. Indigno dos deuses, dizia, seria aceita- rem as grandes benesses com maior

prazer que as pequenas, pois assim mui frequentemente as dádivas dos maus lhes seriam mais gratas que as dos bons. Por sua vez, o homem esti- maria a vida bem pouca coisa, se os dons das pessoas virtuosas fossem menos agradáveis aos deuses que os dos maus. Ao contrário, achava: ele serem as oferendas das pessoas mais piedosas as que melhor sabem à divin- dade. Por isso louvava este verso:

Ofertai aos deuses imortais segundo vossas posses. E pretendia ser este um excelente preceito quê observar para com os amigos, os hóspedes e em todas as circunstâncias da vida: “.. .ofertai segundo vossas posses”. Se lhe parecia receber algum aviso dos deuses, seria mais fácil decidi-lo a tomar por guia um cego ignorante do caminho em vez de um homem clarividente e conhece- dor do itinerário que fazê-lo proceder contrariamente a esse aviso. Loucos chamava aos que, para pôr-se ao abri- go-da opinião dos homens, vão de encontro aos avisos dos deuses, os quais tinha em muito maior conta que tudo o que parte do homem. Afizera o corpo a regime tal que, tirante o caso de intervenção do Alto, quem o se- guisse viveria completamente isento de inquietudes e perigos, tendo sempre com que ocorrer a suas modestas necessidades. Era tão frugal que não

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52 XENOFONTE

sei de pessoa que não pudesse traba- lhar o bastante para ganhar o que con- tentava Sócrates. Não comia senão enquanto tivesse prazer, fazendo-o com disposição tal que o apetite lhe servia de condimento. Toda bebida lhe sabia agradavelmente, porque jamais bebia sem ter sede. Se, convidado, ia a um banquete, facilimo lhe era observar o que à maior parte dos homens se antolha tão penoso, o não entregar-se a excessos. Aos que não eram capazes de fazer outro tanto, aconselhava não comer sem apetite nem beber sem sede. Sao tais demasias aditava que fazem mal ao estômago, cabeça e espi- rito. E ajuntava, brincando, que Circe* empregava a abundância de iguarias para transformar os homens em por- cos, e que aos conselhos de Mercúrio, à sua natural temperança e à absti- nência dos excessos da mesa devera Ulisses o haver-se furtado à metamor- fose. Assim casava o chistoso ao sério.

No tocante ao amor, aconselhava a fugir resolutamente a sociedade das pessoas belas. Não é fácil dizia manter-se prudente em seu comércio. Vindo a saber, certa vez, que Critobu- lo, filho de Criton, roubara um beijo ao filho de Alcibíades, mancebo de rara formosura, teve com Xenofonte, em presença de Critobulo, esta entrefa-

la: -— Dize-me, Xenofonte, não tinhas

Critobulo na conta de jovem sábio antes que de amoroso indiscreto, homem prudente antes que insensato e temerário?

Certamente conveio Xeno- fonte.

Pois bem, considera-o, dora- vante como o mais impulsivo e arro- jado dos homens, capaz de desafiar o ferro e afrontar o fogo.

Que o viste fazer indagou

3 Cf. a narração de Homero na Odisséia, canto X. (N. do E.)

Xenofonte para acusá-lo dessa maneira?

Pois não teve a temeridade de furtar um beijo ao filho de Alcibiades, jovem de tamanha beleza e frescor?

Ora, isso é ato de temerário! retrucou Xenofonte. Estou que eu próprio bem poderia cometer seme- lhante temeridade.

Desgraçado! exclamou Só- cratêés. Imaginas o que te sucederia se beijasses uma pessoa jovem e bela?

Ignoras que de livre, num momento te tornarias escravo? Que pagarias caro prazeres perigosos? Que não terias ânimo de perquirir o que é o belo e o bem? Que haverias de dar cabeçadas como um louco?

Por Hércules! retrucou Xe- nofonte que terrível poder empres- tas a um beijo!

Admira-te? perguntou Sócra- tes. Não sabes que as tarântulas, que não são maiores que u'a moeda de meio óbolo 4, com o tocar os lábios causam ao homem dores tremendas e privam-no da razão?

Por Júpiter! bem o sei: repli-

cou Xenofonte mas é que ao picar a carne as tarântulas insinuaram-lhe um não sei quê.

Insensato! bradou Sócrates não desconfias haver no beijo de uma pessoa jovem e bela algo que teus olhos não vêem? Ignoras que esse monstro que se chama uma pessoa louçã e formosa é tanto mais temível

que a tarântula, quanto esta fere tocan- do ao passo que a outra, sem tocar, mas, pelo aspecto, lança à distância um não sei quê que põe em delírio? Talvez até seja porque os jovens belos firam de longe que se o nome de archeiros aos amores. Aconselho-te,

* Moeda ateniense com o valor de 1/6 da dracma, pesando 72 centigramas. (N. do E.)

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MEMORÁVEIS-I 53

pois, Xenofonte, que quando vires uma pessoa bela, fujas, sem sequer te volta- res. E a ti, Critobulo, receito-te viajar um ano inteiro: todo este tempo mal dará para curar tua picada.

Era pois de parecer, em amor, que aqueles que não pudessem reprimir seu ardor o mitigassem como a tudo a que o espírito atende em caso de impe- riosa necessidade do corpo, necessi- dade cuja satisfação não deve, todavia, impor à alma o menor constrangi-

mento. Quanto a ele, estava tão bem armado contra tais delírios, que se afastava das pessoas jovens e bonitas com mais facilidade que outros das pessoas feias e disformes.

Eis como se portava em face do

beber; do comer e dos prazeres dos

sentidos. E além de expor-se muito menos aos sofrimentos, cria experi- mentar tanto prazer em satisfazer-se como os que compram o gozo ao preço de mil tormentos.

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CarpíTuULO IV

Se, coma por conjetura muitos es- crevem e dizem, crê alguém possuisse Sócrates o maior talento para convidar os homens a ingressarem na senda da virtude, porém fosse incapaz de os fazer trilhá-la, que examine não as questões por que confundia, à guisa de correção, os que pretendiam tudo saber, como também as práticas que diariamente entretinha com seus disci- pulos, e então, julgue se era ou não capaz de tornar melhores os que com ele tratavam. Referirei, de começo, a conversa que lhe ouvi acerca da divin- dade com Aristodemo, por alcunha o Pequeno. Soubera ele que Aristodemo não oferecia aos deuses sacrifícios nem preces, que não se socorria da adivi- nhação e até chufeava dos que obser- vam tais práticas.

|. Dize-me, Aristodemo inter- pelou-o haverã homens que admires pelo talento?

Por certo.

Nomeia-os.

Na poesia épica admiro sobre- tudo Homero, no ditirambo Melanípe- des, na tragédia Sófocles, na estatuária Policleto, na pintura Zêuxis.

Quais são, a teus olhos, mais dignos de admiração, os artistas que fazem imagens sem razão e sem movi- mento ou os artistas que criam seres inteligentes e animados?

Por Júpiter! os que criam seres animados, desde que tais seres não sejam obra do acaso, mas uma inteli- gência.

Das obras sem destinação mani- festa e daquelas cuja utilidade é incon- testável, quais consideras como produ- to do acaso ou de uma inteligência?

Justo é perfilhar a uma inteli- gência as obras que tenham fim de utilidade.

Não te parece então que aquele que, desde que o mundo é mundo, criou os homens lhes haja dado, para que lhes fossem úteis, cada um dos ór- gãos por intermédio dos quais experi- mentam sensações, olhos para ver O que é visível e ouvidos para ouvir os sons? De que nos serviriam os olores se não tivéssemos narículas? Que idéia teriamos do doce, do amargo, de tudo o quê agrada ao paladar, se não exis- tisse a língua para os discernir? Ao demais, não achas dever olhar-se como ato de previdência que sendo a vista um órgão frágil, seja munida de pálpe- bras, que se abrem quando preciso e se fecham durante o sono; que para pro- teger a vista contra o vento, estas pál- pebras sejam providas de um crivo de cílios; que os supercílios formem uma goteira por cima dos olhos, de sorte que o suor que escorra da testa não lhes possa fazer mal; que o ouvido re-

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56 | XENOFONTE

ceba todos os sons sem jamais encher- se; que em todos os animais os dentes da frente sejam cortantes e os molares aptos a triturar os alimentos que daqueles recebem; que a boca, desti- nada a receber o que excita o apetite, esteja localizada perto dos olhos e das narículas, de passo que as dejeções, que nos repugnam, têm seus canais afastados o mais possível dos órgãos dos sentidos? Trepidas em atribuir a uma inteligência ou ao acaso todas essas obras de tão alta previdência?

Não, por Júpiter! respondeu Aristodemo parece, sem dúvida, tratar-se da obra de algum artífice sábio e amigo dos seres que respiram.

E o desejo inspirado às criaturas de se reproduzirem, e o desejo inspi- rado às mães de alimentarem o próprio fruto, e neste fruto o maior amor à vida e o mais profundo temor da morte?

Evidentemente tudo isso são obras de um ente que decidira existis- sem animais.

Crês-te um ser dotado de certa inteligência e negas existir algo inteli- gente fora de ti, quando sabes não teres em teu corpo senão uma parcela da vasta extensão da terra, uma gota da massa das águas, e que tão-somente uma parte ínfima da imensa quanti- dade dos elementos, entra na organiza- ção do teu corpo? Pensas haver açam- barcado uma inteligência que conseguintemente inexistiria em qual- quer outra parte, e que esses seres infi- nitos em relação a ti em número e grandeza sejam mantidos em ordem por força ininteligente?

Sim, por Júpiter! pois não lhes vejo os autores como vejo os artífices das nossas obras.

Tampouco vês tua alma, senho- ra de teu corpo: de sorte que poderias dizer nada fazeres com inteligência, mas tudo fazeres ao acaso.

Aristodemo: Claro, Sócrates,

que não desprezo a divindade. Mas

creio-a muito grande para ter necessi-:

dade de meu culto.

Contudo retorquiu Sócrates quanto maior for o ente que se digna de tomar-te sob sua tutela tanto mais lhe deves homenagens.

Pois olha, se achasse que os deu- ses se ocupam dos homens, não os negligenciaria.

Como! Julgá-lo que não, se, antes de mais nada, ao homem, den- tre todos os animais, concederam a faculdade de se manter de pé, postura

que lhe permite ver mais longe, con-.

templar os objetos que lhe ficam acima e melhor guardar-se dos perigos! Na cabeça colocaram-lhe os olhos, os ouvidos, a boca. E enquanto aos ou- tros animais davam pés que lhes permitem mudar de lugar, ao homem presentearam também com mãos, com o auxílio das quais realizamos a maior parte dos atos que nos tornam mais felizes que os brutos. Todos os animais têm língua: a do homem é a única que, tocando as diversas partes da boca, articula sons e comunica aos outros tudo o que queremos exprimir. Deverei falar dos prazeres do amor, cuja facul- dade,-restrita para todos os outros ani- mais a uma estação do ano, para nós se estende ininterruptamente até a velhice? Nem se satisfez a divindade em ocupar-se do corpo do homem, mas, o que é o principal, deu-lhe a mais perfeita alma. Efetivamente, qual o outro animal cuja alma seja capaz de reconhecer a existência dos deuses, autores deste conjunto de corpos imen- sos e esplêndidos? Que outra espécie além da humana rende culto à divinda- de? Qual o animal capaz tanto quanto o homem .de premunir-se contra a fome, a sede, o frio, O calor, curar as

doenças, desenvolver as próprias for-

ças pelo exercício, trabalhar por adqui- rir a ciência, recordar-se do que viu,

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MEMORÁVEIS-I 57

ouviu ou aprendeu? Não te parece evi- dente que os homens vivem como deu- ses entre os outros animais, superiores pela natureza do corpo como da alma? Com o corpo de um boi e a inteligência de um homem não se estaria em me- lhor condição que os seres apercebidos de mãos mas desprovidos de inteli-

gência. Tu, que reúnes essas duas van-

tagens tão preciosas, não crês que os deuses se carpem de ti? Que será preci- so então que façam para convencer-te?

Que me enviem, como dizes que te enviam, avisos sobre que deva ou não fazer.

Quando faiam aos atenienses que os interrogam por meio da adivi- nhação, julgas que não falam a ti tam- bém? Da mesma forma, quando por prodígios manifestam sua vontade aos gregos, a todos os homens, serás tu o

único esquecido? Pensas que se não.

tivessem poder para tanto, os deuses teriam incutido nos homens a crença de poderem distribuir o bem e o mal, e que os homens, por eles enganados tantos séculos ainda não o teriam per- cebido? Não vês que as instituições humanas mais antigas e mais sábias estados e nações são também as mais religiosas, que as épocas mais lú- cidas são também as de maior pieda- de? Saiba, meu caro, que tua alma aposentada em teu corpo, governa-o

como lhe apraz. Mister é acreditar, portanto, tudo dispor a seu grado a inteligência que habita o universo. Quê! tua vista pode abranger um raio de vários estádios e os olhos da divin- dade não poderiam tudo abarcar ao mesmo tempo! Teu espírito pode ocu- par-se simultaneamente do que se passa aqui, no Egito, na Sicília, e a inteligência da deidade não seria capaz de em tudo pensar a um tempo! Certo, se obsequiando os homens, aprendes a conhecer os que também são suscetíveis de obsequiar-te; se

prestando-lhes serviços, vês os que por seu turno estão dispostos a retribuir-te; se deliberando com eles, distingues os que são dotados de prudência: assim também, rendendo homenagem aos

deuses, verás até que ponto estão dis- postos a esclarecer os homens sobre o que nos ocultaram, conhecerás a natu- reza e a grandeza dessa divindade que

tudo pode ver e ouvir contemporanea- mente, estar presente em toda parte e de tudo ocupar-se ao mesmo tempo.

Tenho para mim que, assim falando, Sócrates ensinava seus discípulos a se absterem de toda a ação ímpia, injusta e reprovável, não somente em presença dos homens como também na soleda- de, visto convencê-los de que nada do que fizessem escaparia aos deuses.

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CAPÍTULO V

Se a temperança é para o homem uma bela e útil aquisição, vejamos se a ela não exortava Sócrates quando dizia: “Cidadãos, se nos sobreviesse uma guerra quiséssemos escolher um homem capaz antes de tudo de salvar- nos e subjugar o inimigo, escolhe- riamos alguém que soubéssemos escra- vo do próprio estômago, do vinho, dos prazeres do amor, da moleza e do sono? Como poderíamos esperar que semelhante homem nos salvasse e triunfasse do inimigo? Se ao termo da existência desejássemos confiar a al- guém a educação de nossos filhos, a honra de nossas filhas, a adminis- tração de nossos bens, veriamos o intemperante digno de tal confiança? Entregariamos a um escravo intempe- rante a guarda de nossos rebanhos, de nossos celeiros, a gerência de nossos trabalhos? Aceita-lo-iamos ainda que gratuitamente como intendente e pro- vedor? E se não quereriamos nem se- quer um escravo intemperante, como não temermos parecer com ele? De fato não se pode dizer que, da mesma forma que esbulhando os outros de seus bens crê o avaro enriquecer, seja o intemperante prejudicial aos outros

mas útil a si próprio: ao contrário, se faz mal aos outros mais ainda o faz a si mesmo, pois o que é mais pernicioso que arruinar, ao mesmo tempo que sua casa, o corpo e a alma? No comércio da vida, quem gostaria de um homem que a seus amigos prefere o vinho e a boa mesa, a seus companheiros as

mulheres prostituídas? Não é um dever, para todo aquele que saiba ser a temperança o cimento da virtude, o encastoá-la antes de tudo na própria alma? Sem ela, como discernir o bem e

praticá-lo dignamente? O escravo das próprias paixões não degrada vergo- nhosamente o corpo €e o espírito? Pare- ce-me, por Juno!, que todo homem livre deve pedir aos deuses não venha a ter um escravo tal, e todo escravo das próprias paixões encontre bons senho- res;-do contrário estará perdido”. Eis o que dizia, e suas ações mais que suas palavras testemunhavam sua tempe- rança: sobranceiro não somente aos prazeres dos sentidos como também ao que busca a riqueza, achava que rece- ber dinheiro do primeiro que aparece é comprar um senhor e sujeitar-se à mais ignominiosa servidão.

CarpíruLo VI

Convém não calar a conversação que teve com o sofista Antifão. Certo dia Antifão, que queria tomar a Sócra- tes seus discípulos, interpelou-o e dis- se-lhe na presença deles:

Eu pensava, Sócrates, que os que professam a filosofia, fossem mais felizes. Muito outro, porém, parece ser o fruto que colhes da filosofia. Vives de tal guisa que não escravo que de- seje viver sob tal senhor. Alimentas-te das viandas mais grosseiras, bebes as mais vis beberagens. Cobre-te um manto chamboado, que te serve no verão como no inverno. Não tens cal- çado nem túnica. Sem embargo, não aceitas nenhum oferecimento de di- nheiro, por agradável que seja recebê- lo e muito embora proporcione vida mais independente e aprazível. Se, pois, como todos os mestres formas os teus discípulos à tua semelhança, podes considerar-te um professor de miséria.

Ao que Sócrates respondeu Fazes, creio, Antifão, tão triste idéia de minha existência, que preferirias morrer a viver como eu. Ora bem, exa- minemos por que achas minha vida tão penosa. Será porque, ao contrário dos que, exigindo salário, são obrigados a fazer o que lho rende, eu que nada re- cebo não sou forçado a falar com quem não queira? Achas minha vida

miserável por que minha alimentação seja menos ou menos nutritiva que a tua? Porque meus alimentos sejam É difíceis de obter que os teus, os quais são mais raros e mais delicados? Porque os mranjares que preparas te saibam melhor ao paladar que os meus a mim? Não sabes que quem come com apetite não tem necessidade de condimento, que a quem bebe com pra- zer, fácil é prescindir da bebida que não tem? Quanto às vestes, sabes que quem as muda não o faz senão por causa do frio e do calor; que se se cal- çam sapatos, é para que os pés não sejam impedidos no andar pelo que os possa ferir. Viste-me alguma vez ento- cado em casa por causa do frio? dispu- tar, no verão, a sombra a alguém, ou impossibilitado de ir aonde quisesse por ter os pés feridos? Ignoras que gra- ças a certos exercícios pessoas fracas de corpo se tornam mais fortes e os suportam mais facilmente do que aque- las que, nascidas mais fortes, foram descuidadas? Não crês que eu, que avezei meu corpo a resistir a todas as influências, não sofra melhor que tu, que não te exercitaste? Se não sou escravo do ventre, do sono, da volúpia, é porque conheço prazeres mais doces que não deleitam apenas no momento, mas fazem esperar vantagens conti- nuas. Sabes que sem a esperança do

62 XENOFONTE

sucesso nenhum prazer experimen-

tamos, de passo que, se se pensa lograr '

bom êxito, seja na agricultura, seja na navegação, seja em outra profissão qualquer, a ela nos dedicamos com tanto júbilo como se houvéssemos triunfado. Pois bem, julgas que esta felicidade iguale a que nos a espe- rança de nos tornarmos melhores a nós próprios e aos nossos amigos? Tal e: contudo, a opinião em que persisto ! Se for preciso servir aos amigos, ou à pá- tria, quem para tanto terá mais lazer, aquele que vive como eu ou aquele que esposa o gênero -de vida de que te

vanglorias? Quem fará a guerra mais a seu grado, aquele que não pode dispen- sar u'a mesa suntuosa ou aquele que se contenta com o que tenha à mão?

Quem capitulará mais depressa, aquele.

que tem necessidade de iguarias difi- ceis de obter ou aquele que se contenta com os alimentos mais triviais? Pare- ces, Antifão, colocar a felicidade nas delícias e na magnificência. De mim, penso que de nada necessita a divinda- de. Que quanto menos necessidades se tenha, mais nos aproximamos dela. E como a divindade é a própria perfei- ção, quem mais se avizinhar da divin-

“dade, mais próximo estará da perfei-

ção.

De outra feita, disse Antifão a Sócrates.

Sócrates, creio-te justo, mas não de todo sábio. Aliás parece-me comun- gares comigo nesta opinião. Não acei- tas dinheiro por tuas lições. Entre- tanto, a ninguém darias nem venderias por preço inferior ao que valem teu manto, tua casa nem nada do que pos- suis e que reputas de algum valor. Claro é que, se estimasses igualmente tuas lições, far-te-jas pagar o que valem. És, portanto, honesto, de vez

que não enganas por cupidez, porém

não sábio, que nada sabes que valha

o que quer que seja. |

Ao que Sócrates respondeu

Antifão, não é coisa corrente entre nós poder fazer-se tanto da bele- za quanto da sabedoria emprego honesto ou vergonhoso? Quem chatina com a beleza com quem lha queira pagar se chama um prostituido. Mas aquele que, conhecendo um homem amante da virtude, procura fazer-se seu amigo, consideram-no sensato. O mesmo su- cede em relação à sabedoria: os que com ela traficam com quem lha queira pagar se chamam sofistas ou prosti- tuídos. Aquele, porém, que reconhe- cendo em outrem um bom caráter lhe ensina tudo o que sabe de bem e se faz seu amigo, reputam-no fiel aos deveres do bom cidadão. Assim, Antifão, ao passo que outros gostam de possuir um bom cavalo, um cão, um pássaro, gosto eu e muito mais, de ter bons ami- gos. Ensino-lhes tudo o que sei do bem, aditando tudo o que os possa ajudar a se fazerem virtuosos. Os tesouros que nos legaram os antigos sábios em seus livros, percorro-os de conversa com meus amigos. Se encontramos alguma coisa boa, recolhemo-la e regozijamo- nos de ser úteis uns aos outros.

Ouvindo estas palavras, eu via em Sócrates um homem feliz que virtuosos fazia OS que o escutavam.

De outra vez, perguntando-lhe Anti- fão por que razão, se se gloriava de tornar os outros hábeis na política, não se ocupava ele próprio desta ciência, que pretendia conhecer:

“Que será preferível, Antifão, res- pondeu Sócrates, consagrar tão-so- mente a minha pessoa à política ou dedicar meus cuidados a tórnar grande número de indivíduos capazes de a ela vacarem??”

CarpíruLo VII

Vejamos ainda se, ao desviar seus discípulos da fatuidade, Sócrates os le- vava à prática da virtude. Pois costu-

mava dizer que-não mais belo cami- nho para a glória que um homem de bem ser o que realmente deseja pare- cer. Assim provava a verdade de sua asserção:

Imaginemos dizia um indivi- duo que quisesse passar por bom toca- dor de flauta sem o ser de fato. Que

faria? Não deveria macaquear os bons flautistas em tudo o que forma o exte- ror da sua arte? Primeiro, como os bons artistas possuem belos instrumen- tos, e cercam-se de numerosos acólitos, ele faria o mesmo. Depois, como numerosos encomiadores lhes cele- bram os talentos, procurar-sé-ja gran- de número de encomiadores. Que nunca, porém, se metesse a tocar flau- ta, do contrário pronto se cobriria de ridiculo e todos se capacitariam ser não somente mau artista como impos- tor. E se despendesse muito, nada

ganhasse e de inhapa ainda perdesse a reputação, não viveria vida miserável, inútil e ridícula? Da mesma forma, se

um homem quisesse passar por hábil piloto e bom general sem o ser real- mente, vejamos o que lhe aconteceria. Querendo passar por homem capaz de preencher tais funções e.não conse- guindo convencer ninguém, não seria infeliz? E convencendo, não o seria mais anda? Com efeito, encarregado do comando de um navio ou posto à cabeça de um exército, perderia aque- les mesmos que quisera salvar e se reti- raria coberto de vergonha e desprezo.

Demonstrava Sócrates igualmente nada haver mais perigoso para um homem que dar-se por mais rico, mais forte, mais corajoso do que realmente é. Se lhe confiam encargos que desbor- dam de suas forças, não podendo exe- cutar o de que parecia ser capaz não fará jus à menor indulgência. Insigne embusteiro chamava aquele que se apodera do dinheiro ou o que quer que lhe tenham confiado, mas embusteiro maior anda o homem sem valor que empreende convencer os outros de ser capaz de dirigir o Estado. Excelente para afastar seus discípulos do charla- tanismo se me afigurava a linguagem de Sócrates.

LIVRO II

1

CAPÍTULO I

Antolhava-se-me, ademais, que com semelhantes discursos Sócrates afazia seus discípulos à abstinência em face da boa carne, do vinho, da lubricidade, do sono, e à resistência ao frio, ao calor, à fadiga. Sabedor de que um deles.se entregava a rédeas soltas a todos esses excessos.

Dize-me, Aristipo interpe- lou-o se te cometessem a educação de dois jovens, um para se tornar apto a governar, outro para ser simples cidadão, como formarias um e outro? Queres que comecemos nosso exame pela alimentação, isto é, pelos primei- ros elementos?

Naturalmente respondeu Aristipo porquanto a alimentação me parece ser o princípio da educação; sem alimento, impossível viver.

Provavelmente, então à hora das refeições ambos pediriam de comer?

Não resta a menor dúvida.

Qual habituariamos, pois, a ocu- par-se de um negócio urgente antes de satisfazer o apetite?

Por Júpiter! o destinado a go- vernar, a fim de que os negócios do. Es- tado não -se paralisassem durante sua gestão.

E quando quisessem beber, não seria ainda a esse que acostumaríamos a resistir à sede?

Seguramente.

E se fosse preciso vencer o sono, ser capaz de deitar tarde, levantar cedo e velar, a qual dos dois o ensina- riamos?

Ainda ao mesmo.

Pois bem, a quem ensinariamos a abster-se dos prazeres do amor, para que não o impedissem de agir no momento necessário?

Sempre ao mesmo.

Qual afariamos a não fugir ao trabalho, mas enfrentá-lo com gosto?

O educado para governar, evi- dentemente.

Ora, vejamos, se uma ciência que ensine a triunfar dos adversários, a quem conviria ensiná-la?

Por Júpiter !. ao que se destinasse a mandar. Porque sem tal ciência de nada lhe valeriam as outras.

Não te parece então que um homem assim educado estaria muito menos «exposto a se deixar prender pelos inimigos do que o estão os ani- mais? Efetivamente, uns, engodados pela gulodice, atraídos, a despeito de sua desconfiança, pelo desejo e pelo cevo, lançam-se sobre a isca e são pre- sos. Outros: encontram armadilhas na água onde vão beber.

-—— De fato conveio Aristipo.

Outros, vítimas de seu calor amoroso, como as codornizes e as per- dizes, aliciados à voz da fêmea pelo de-

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sejo e a esperança do prazer, perdem e caem nos laços.

Ainda é verdade.

Não te parece uma vergonha rebaixar-se o homem à condição dos mais estúpidos animais? Por exemplo, os adúlteros, que penetram em aposen- tos fechados, muito embora saibam expor-se o delinquente à ameaça da lei, a embarrancar-se em uma armadilha, a ver-se cobrir de infâmia. A despeito destes males e deste opróbrio reser- vado ao adultério, a despeito de todos os meios por que podem mitigar sem risco seus apetites amorosos, atiram- se, cabeça baixa, ao perigo. Não é pro- ceder como verdadeiro doido?

Ássim penso.

De vez que a maior parte das ocupações obrigatórias do homem se exercem ao ar livre, como a guerra, a agricultura e outras igualmente impor- tantes, não achas desmarcada negli- gência o não se endurecerem muitos homens contra o frio e o calor.

Certamente.

Quer dizer que quem queira mandar deve afazer-se a suportar sem pena um e outro? Indubitavelmente. Então, se alinhamos entre os homens capazes para mandar os que sofrem com constância todas essas incomodi- dades, não devemos classificar as pes- soas incapazes de fazê-lo entre as inap- tas para o mando?

De acordo.

Pois bem, que conheces o lugar que merece cada uma dessas duas classes de homens, examinaste em qual delas te colocarias?

Quanto a mim disse Aris- tipo estou longe de formar entre os que aspiram ao mando. Quando é tão penoso provermos a nossas pró- prias necessidades, parece-me redonda insensatez o não nos contentarmos com isso e ainda nos impormos o fardo de prover às de nossos concidadãos.

Recusar-se a si mesmo tantas coisas que se desejam e por-se à cabeça do Estado para depois ser chamado à barra do tribunal por não se fazer tudo o que quer a cidade, não é o cúmulo da loucura? Porque, ao cabo de tudo, pre- tendem as cidades servir-se de seus governantes comio eu de meus escra- vos. Quero que meus escravos me pre- parem com abundância tudo o que me é necessário, mas que ém nada toquem. Acham as cidades deverem os gover- nantes procurar-lhes toda sorte de bens, de que eles próprios se absterão. Aqueles, pois, que querem dar-se a um mundo de serviços e oferecê-los aos outros, formá-los-ei como dissemos e os alinharei entre as pessoas aptas a mandar. Quanto a mim, formo com aqueles cujo desejo é levar a vida mais doce e agradável.

Então Sócrates:

Queres, pois, examinemos quem leva vida mais agradável, governantes ou governados?

Com todo o gosto respondeu Aristipo.

Primeiramente, dentre os povos que conhecemos, na Ásia os persas mandam, OS sírios, frígios e lídios obe- decem. Na Europa mandam os citas, os meotos lhes estão sujeitos. Na Líbia governam os carfagineses, os líbios são governados. Desses povos, quais julgas vivam mais agradavelmente? E dentre Os gregos, entre os quais te encontras, quais parecem levar vida mais agradá- vel, os que mandam ou os que obede- cem?

Mas disse Aristipo tam pouco entendo reduzir-me à escravi- dão. Parece-me existir um caminho intermédio, que forcejo por trilhar, entre o poder e a servidão: a liberdade, que mais seguramente conduz à felici- dade.

Muito bem disse Sócrates. Se esse caminho que não passa entre o

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poder e a servidão tampouco passasse através dos homens, talvez tivesse algum valor o que dizes. Mas se, viven- do entre os homens, não quiseres nem mandar, nem obedecer, nem servir de bom grado os que mandam, penso não ignorares que os mais fortes sabem fazer gemerem os mais fracos, seja em massa, seja um a um, escravizá-los. Não vês os que colhem as searas que outros semearam, cortam as árvores que outros plantaram, infligem toda espécie de violência aos fracos e aos que recusam servir, até fazê-los prefe- rir a escravidão à luta com mais for- tes? E entre os particulares, não sabes que os corajosos e os fortes avassalam a seu proveito os poltrões e os impo- tentes?

Para não passar por isso não me fixo em nenhuma cidade, mas em toda parte sou estrangeiro.

Então Sócrates:

Propoões-me, certo, um artifício maravilhoso. Porque desde que Sinis, Cirão e Procusto morreram, os foras- teiros não são maltratados por nin- guém. Mas hoje os governantes dão leis a sua pátria para se porem ao abri- go da injustiça. Criam, além do que se chamam os laços naturais, amigos que lhes servem de auxiliares. Cintam as cidades de muralhas, reúnem exércitos para repelir as agressões injustas e até cuidam de alianças no exterior: não obstante nem todas estas precauções os preservam do insulto. E tu que nada disso tens, que passas quase todo o tempo nos longos caminhos onde se comete o maior número de assaltos, tu que em qualquer cidade a que chegues és mais pequeno que o último dos cida- dãos, tu que enfim te encontras numa situação em que mais que em outra qualquer a gente está exposto à injusti- ça, imaginas a ela subtrair-te graças a tua qualidade de forasteiro? Será por- que as cidades te assegurem publica-

mente o direito de entrar e sair que acalentas essa confiança? Ou crês que a nenhum senhor seria útil um escravo de tua espécie? Quem quereria, com efeito, ter em casa um homem que nada quer fazer e se compraz com a vida mais suntuosa? Vejamos, a pro- pósito, como procedem os senhores em relação a tais servidores. Não lhes cor- rigem a gulodice pela fome? Não os impedem de furtar pondo sob chave tudo o que poderiam surrupiar? De fugir, carregando-os de cadeias? A preguiça não a reduzem ao trabalho a chicotadas? Que fazes tu mesmo quan- do percebes ter um doméstico dessa laia?

Inflijo-lhe todas as correções até constrangê-lo a servir-me. Mas Sócra- tes, os que são educados para o ofício de rei, que pareces considerar a felici- dade, em que diferem dos que padecem por necessidade, se voluntariamente se condenam a suportar a fome, a sede, o frio, as vigílias e outras fadigas? Por mim não vejo que diferença entre ter eu a pele rasgada por um vergalho a bem ou a mal de meu grado, e que meu corpo, queira-o eu ou não, padeça toda espécie de violências. Não é ser além de louco fazer voluntariamente cabeça baixa a estes sofrimentos?

Com que então, Aristipo —, vol- veu Sócrates não vês esta diferença entre os males voluntários e os que não o são, que aquele que consente em pas- sar fome desde que o queira pode comer, que quem se condena à sede desde que o queira pode beber, e assim para o mais que segue, de passo que O homem que padece por necessidade, poderá ele, quando o quiser, cessar de sofrer? Demais, quem sofre voluntaria- mente se consola de seus males com uma doce esperança, como vemos os caçadores suportarem bizarramente as fadigas pela esperança de uma captura. Semelhante recompensa é bem pouca

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coisa para suas penas. Mas os que tra- balham para ter bons amigos ou para triunfar dos inimigos, para robustecer o corpo e a alma e assim bem gerir sua casa, fazer bem aos amigos, prestar serviços à pátria, como não crer que com tais alvos diante dos olhos supor- tem com prazer todas as fadigas e vivam felizes, contentes de si próprios, louvados e invejados dos outros ho- mens? Mais: os hábitos de indolência e os prazeres fáceis não podem, no dizer dos ginastas,:dar boa compleição ao corpo nem fazer penetrar no espirito nenhum conhecimento apreciável. Ao invés, OS exercícios que querem cons- tância nos conduzem à prática de belas e boas ações, como dizem os grandes homens. Disse algures Hesiodo*: O vício é sedutor e fácil, seu caminho lhano e breve. Antes da virtude, porém, colocaram os deuses o suor, e a vereda que leva ao cimo é áspera, fragosa e árdua: ganhando-se o alto, todavia, aplaina-se o caminho.

O mesmo testemunho presta Epi- carmo neste verso: 4 felicidade é um bem que nos vendem os deuses. Diz ainda alhures: Malvado, foge à indo- lência ou teme a dor.

As mesmas idéias exprime o sábio Pródico sobre a virtude em sua obra sobre Hércules, de que fez diversas lei-

turas públicas. Eis, ao que me lembra, pouco mais ou menos o que diz. Conta que Hércules, apenas dobrara a infân- cia, nessa idade em que os jovens, senhores de si, deixam ver se entrarão na vida pelo caminho da virtude ou do vício, retirou-se para a solidão e sen- tiu-se incerto quanto à via a escolher. Duas mulheres de avantajada estatura apresentaram-se-lhe ao olhar: uma de-

* Poeta dos meados do século VIII a. C.; com sua poesia didática de inspiração religiosa (Teogonia) e moral (Trabalhos e Dias) exerceu profunda in- fluência no mundo grego dos séculos seguintes.

XENOFONTE

cente e nobre, o corpo ornado de sua natural pureza, os olhos grávidos de pudor, o exterior modesto, as vestes brancas; a outra toda nediez e moleza, a pele caiada a fim de aparentar cores mais brancas e mais vermelhas, procu- rando, na postura, parecer mais esbelta do que naturalmente o era, os olhos escancelados; um adereço estudado pára realçar seus encantos, mirando-se sem cessar, observando se a contem- plavam e a todo momento voltando a cabeça para admirar a própria sombra. Aproximando-se de Hércules, en- quanto a primeira conservava o mesmo andar, a segunda, querendo antecedê-la, correu para 'o jovem herói e disse-lhe:

“Vejo-te, Hércules, incerto do cami- nho a seguir na vida. Se me quiseres tomar por amiga, conduzir-te-ei pela estrada mais agradável e fácil, prova- rás todos os prazeres e viverás livre de pena. Primeiro não te ocuparás de guerras nem negócios, mas não cessa- rás de examinar que iguarias e que bebidas melhor te sabem ao paladar, os objetos que possam deleitar-te os olhos e os ouvidos, acariciar-te o olfa- to ou o tato, que afeição terá mais encantos para ti, como dormirás mais docemente, como poderás procurar todos estes prazeres com o menor esforço. Se receias venha a faltar-te o necessário para te dares tais doçuras, não temas que eu te obrigue a traba- lhar e a penar de corpo e espirito para os adquirires; aproveitarás do trabalho alheio e não te absterás do que quer que possa proporcionar-te ganho: por- que dou aos que. me seguem a facul- dade de em toda parte obter vanta- gens”. Hércules, após ouvir estas palavras, indagou-lhe:

“Mulher, qual é teu nome?”

“Meus amigos respondeu ela chamam-me a Felicidade, e meus

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MEMORÁVEISTI n

inimigos, para dar-me nome odioso, chamam-me a Perversidade”.

Ai a outra mulher, adiantando-se, disse-lhe:

“Eu também venho a ti, Hércules; conheço os que te deram à luz e desde tua infância penetrei-te o caráter. Assim espero que se tomares o cami- nho que traz a mim, serás um dia autor ilustre de belos e gloriosos feitos e eu própria me verei mais honrada e consi- derada dos homens virtuosos. Não te

“iludirei com promessas de prazeres:

expor-te-ei o que existe com verdade e tal qual o dispuseram os deuses. Do que realmente honesto e belo, nada concedem os deuses aos homens sem sacrifício e diligência. Queres que os deuses te sejam propícios? Preiteia-os. Ambicionas a estima de teus amigos? Beneficia-os. Desejas que uma nação te honre? Serve-a. Queres que a Grécia inteira admire teu valor? Procura ser- lhe útil. Desejas que a terra te prodiga- lize seus frutos? Cultiva-a. Preferes enriquecer com rebanhos? Apascenta- os. Aspiras a fazer-te grande pela guer- ra? queres tornar livres teus amigos e triunfar de teus inimigos? Aprende a arte da guerra com aqueles que a conhecem, exercita-te em pór-lhes em prática as lições. Desejas adquirir força fisica? Habitua o corpo ao impé- rio da inteligência e tempera-o no tra- balho e no suor”.

a Perversidade retomando, no dizer de Pródico:

“Compreendes, Hércules disse- lhe quão penoso e longo é o cami- nho da felicidade que te propõe essa mulher? Enquanto eu, é por estrada fácil e breve que te conduzirei à ventu- ras Então a Virtude:

“Miísera! exclamou que bens possuis? Que prazeres podes conhecer, tu que nada queres fazer para comprá- los? Sequer deixas nascer o desejo:

farta de tudo antes de ter desejado coisa alguma, comes antes da fome, bebes antes da sede. Para comer com prazer, vives à caça de cozinheiros. Para beber com prazer, procuras beber vinhos caríssimos e no verão corres a toda parte em busca de neve. Para dor- mir agradavelmente, procuras cobertas macias e leitos flexíveis. Porque não é o cansaço e sim a ociosidade que te faz desejar o sono. Em amor, provocas a necessidade antes de senti-la, usas de mil artifícios e te serves tanto de ho- mens como de mulheres. Assim é, em verdade, que formas teus amigos. À noite os degradas e de dia os adorme- ces durante os instantes mais precio- sos. Imortal, foste rechaçada pelos deuses e os homens de bem te despre- zam. Nunca te acariciou os ouvidos o mais adulador dos sons, o de um lou- vor, nem jamais contemplaste uma boa ação praticada por ti. Quem daria a tuas palavras? Quem te socorreria na precisão? Qual o homem de bom senso que ousaria misturar-se a teu bulhento cortejo? Os que te seguem, se jovens, são impotentes de corpo; velhos, têm a alma embrutecida. Nédios na juventu- de, por via da ociosidade, emagrecem ao peso de trabalhosa velhice. Enver- gonhados do que fizeram, atormen- tados do que têm de fazer, borbole- tearam na primavera da vida de prazer em prazer e diferiram as penas para o outono da existência. Eu, ao contrário, estou com os deuses, estou com os ho- mens de bem: entre os deuses como entre os mortais nenhuma bela ação se faz sem mim. Mais que ninguém, rece- bo eu dos deuses e dos homens legiíti- mas honras, companheira querida que sou do trabalho do artesão, guardiã fiel da casa do senhor, protetora benévola do servidor, gentil associada nos traba- lhos da paz, aliada constante nas labu- tas da guerra, intermediária devotada da amizade. Meus amigos saboreiam

3!

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pe XENOFONTE

com prazer e sem confeição alimentos e bebidas, porque esperam o desejo para comer e beber. O sono lhes é mais agradável que aos ociosos; interrom- pem-no sem pesar e não lhe sacrificam seus negócios. Jovens, sentem-se feli- zes dos elogios dos anciãos. Velhos, recebem ditosos os respeitos da juven- tude. Recordam com deleite as ações pretéritas e realizam prazerosos o que lhes resta fazer. Por virtude minha, são amados dos deuses, caros aos amigos, honrados da pátria. Ao soar a hora fatal, não dormem em olvido sem

honra, mas sua memória esplende cele-

- brada de evo em evo. Ai está, Hércu-

les, filho de pais virtuosos, como, trabalhando, podes alcançar a suma felicidade”.

Eis pouco mais ou menos como narra Pródico a lição dada a Hércules

pela Virtude, conquanto ornasse seus pensamentos de expressões mais no-

bres que as por mim usadas neste momento. Reflete, Aristipo, e trabalha

por gizar a conduta que observarás para o resto da existência.

34

CaPpÍíTULO II

Tendo percebido que Lâmprocles, o mais velho de seus filhos, andava às testilhas com a mãe:

Dize-me, filho perguntou-lhe -— sabes existirem certos homens a que se chama ingratos?

Sei respondeu o jovem.

Sabes também por que recebem este nome?

Sim. Chamam-se ingratos aque- les que receberam benefícios e que, podendo-o não testemunham reconhe- cimento.

Não sabes que se classificam os ingratos entre os homens injustos?

Sei-o.

Por ventura te perguntaste a ti mesmo, se assim como é injusto escra- vizar Os amigos e justo avassalar os inimigos, será injusto ser ingrato para com os amigos e justo sê-lo aos inimigos?

Naturalmente. E tenho por in- justo quem não se esforça por dar prova de reconhecimento a um benfei- tor, seja amigo ou inimigo.

Pois bem! se assim é, então a ingratidão é pura injustiça.

Lâmprocies conveio.

E não será um homem tanto mais injusto quanto mais ingrato se mostrar ao receber mais benefícios?

Ainda uma vez Lâmprocles concor- dou.

Pois bem! quem mais cumulado de benefícios que os filhos o são dos pais? São os pais que os fazem transi- tar do nada ao ser, ao espetáculo de tantas maravilhas, à fruição de tantos bens com que nos presentearam os deuses: bens que se nos figuram tão preciosos que nosso maior temor é perdê-los. Por isso estatuíram as cida- des a pena de morte contra os maiores crimes, como o castigo mais tremendo para suster a injustiça. Sem dúvida não crerás ser unicamente pelos prazeres do amor que os homens procuram ter filhos, pois as ruas e as casas regurgi- tam de meios de se satisfazerem. Longe disso, vêem-nos considerar quais as mulheres que nos darão os mais belos filhos, e é a elas que nos unimos para realizar nossa esperança. Então o esposo tem de sua mão aquela que o ajuda a tornar-se pai; acumula previa- mente para os futuros filhos tudo o que crê lhes seja útil na vida, fazendo a mais ampla provisão possível. A mu- lher recebe e carrega esse fardo que a faz pesada e lhe põe os dias em perigo; ao filho parte da própria substân- cia; depois, ao cabo de gestação e de parto cheio de dores, cria-o e desvela- se, sem nenhuma tenção, sobre um filho que não sabe de quem lhe vêm tais cuidados que sequer pode dar a entender o de que necessita, de passo

74 XENOFONTE

que a mãe procura adivinhar o que lhe convém, o que pode agradá-lo, e que ela fomenta dia e noite, ao preço.de mil fadigas e sem saber qual será a paga de seus sofrimentos. E não é o alimen- to: Logo que os julgam em idade de aprender alguma coisa, comunicam- lhes os pais todos os conhecimentos - úteis que possam ou os confiam aos cuidados de alguém que creiam mais capazes de ensiná-los, não poupando despesas nem cuidados para que seus filhos se tornem os melhores possíveis.

Ao que retorquiu o jovem:

Sim, certo ela fez tudo isso e atê mil vezes mais. Porém não quem lhe suporte o mau humor.

Volveu Sócrates:

Não achas o humor selvagem de uma besta mais insuportável que o de u'a mãe?

Não, pelo menos de mãe qual a minha.

Terá te mordido ou dado algu- ma patada, como soem fazer as bes- tas?

Mas, por Júpiter ! diz coisas que nem ao preço da vida se quereriam ouvir.

A SE Eh disse Sócrates quantos dissabores insuportáveis não lhe causaste desde a infância, com palavras, com atos, ora de dia, ora de noite? Quantas aflições não lhe deram tuas doenças?

Pelo menos nunca lhe disse nem fiz nada de que ela tivesse de corar.

Quê! ser-te-á mais penoso ouvir o que ela diz do que aos comediantes ouvir as injúrias que mutuamente se prodigalizam nas tragédias?

Mas, penso, como não julgam que aquele que os ofende o faça por mal, nem que aquele que os ameaça os ameace seriamente, facilmente supor- tam o que lhe dizem.

E tu, que sabes muito bem que tua mãe, diga-te o que te disser, não o

diz por mal, mas quereria ver-te feliz como ninguém, te irritas contra ela? Pensas então seja tua mãe para ti uma inimigá?

Claro que não.

Sócrates:

Então, esta mãe que te ama, que quando enfermas te dispensa todos ós cuidados para devolver-te à saúde, que se desvela para que nada te falte, que pede aos deuses te prodigalizem seus benefícios e cumpre os votos que por ti fez, queixas-te de seu mau humor? Quero crer que se não suportas seme- lhante mãe o próprio bem te é insupor- tável. Mas dize-rne, achas que se deva ter atenções para com todos ou não procurar comprazer a ninguém, a nin- guém obedecer, nem a um estratego nem a não importa que magistrado?

Por Júpiter ! obedecer.

Pois bem disse Sócrates sem dúvida quererás agradar teu vizi-

nho para que, em caso de necessidade,

te acenda o fogo, te faça bons ofícios, em caso de acidente, acuda de bom grado em teu socorro?

Está visto.

Será indiferente termos por ami- gos ou inimigos um companheiro de viagem, de navegação ou qualquer que seja? Ou achas que nos devamos dar ao trabalho de ganhar-lhe as graças?

Claro que sim.

Como! estás pronto a ter aten- ções para com todos esses estranhos e não crês devê-las à tua mãe, que te quer mais que a ninguém! Ignoras que o Estado faz vista grossa a todas as outras ingratidões, não as persegue e deixa impunes os obrigados mal agra- decidos, porém castiga aquele que não respeita os pais, o degrada e exclui das magistraturas, persuadido de que se- melhante indivíduo jamais seria capaz de oferecer com santidade os sacrifi- cios públicos nem praticar boa e hon- rada ação? E, por Júpiter ! se um cida-

MEMORÁVEISAII 75

dão não honrou o túmulo dos pais mortos, pede-lhe contas o Estado nos inquéritos abertos sobre os futuros magistrados. Se, pois, és prudente, filho meu, temeroso que as deidades te olhem como ingrato e te recusem seus favores, rogar-lhes-ás te perdoem as ofensas à tua mãe. Quanto aos ho-

mens, cuidarás em que, sabedores de

tua falta de respeito para com teus

pais, não te desprezem todos e te dei- xem sem amigos. Porque se suspei- tassem foras ingrato para com teus pais, quem te creria capaz de reconhe- cer um benefício? ;

to

CaríruLO III

Querefonte e Querécrates, dois ir- mãos, conhecidos seus, não iam muito um com o outro. Tendo-o nota- do e topando certo dia com Querécra- tes, interrogou-o:

Dize-me, Querécrates, acaso não serias desses homens que reputam as riquezas mais estimáveis que os irmãos, muito embora às riquezas fale- ça razão, enquanto um irmão é ser razoável; elas precisam ser defendidas, ao passo que ele pode defender-nos; elas são em número infinito e ele único? Coisa não menos estranha é crer-se alguém esbulhado por não pos- suir cs bens dos irmãos, quando nin- guém considera dano as riquezas dos concidadãos, por não possui-las. Prefe- re-se viver cercado de amigos e gozar, sem temor, de recursos suficientes do que viver e fruir na insegurança as posses de todos os concidadãos:: a tanto, ao tratar-se de irmãos, desco- nhece-se esta verdade. De outra parte, os que o podem compram escravos para ajudar-se de seus trabalhos, bus-

"cam amigos para ter apoio, porém

negligenciam os irmãos, como se fosse possível encontrar amigos entre patrí- cios e não o fosse entre os irmãos. Sem embargo, que melhor título para a ami- zade que haver nascido juntos, se até os animais têm uma espécie de ternura

para os que se alimentaram do mesmo ,

leite? Quando por mais não fosse, os homens respeitam mais e mais receiam ofender aqueles que têm irmãos do que os que não os têm..

Ripostou Querécrates:

Certo, Sócrates, se a desinteli- gência fosse pequena, seria justo su- portar o irmão e dele não se afastar por motivos insignificantes: porque como dizes, grande bem é um irmão, quando tal qual deve ser; mas quando falta a todos os deveres, quando se mostra de todo em todo o contrário do que é de esperar, como tentar o impossível?

Vejamos, Querécrates tornou Sócrates —, Querefonte desagrada a toda gente como a ti ou pessoas a quem compraza?

Precisamente por isso, Sócrates, tenho razão de odiá-lo: sabe agradar os outros ao passo que a mim em vez de me ser útil sabe desgostar-me com atos e palavras.

Não será prosseguiu Sócra- tes que tal o corcel que derruba o cavaleiro inábil que tenta montá-lo, re- fuga um irmão ao irmão sem tato que dele intenta servir-se?

Como replicou Querécrates não saberia eu lidar com meu irmão, se a boas palavras sei responder com boas palavras, a bons ofícios com bons oficios? Todavia, se alguém toma

78 XENOFONTE

a assinatura contra mim não sei dizer- lhe-palavra de agrado nem prestar-lhe um benefício, e sequer o tento.

Ao que respondeu Sócrates:

Estranho tuas palavras, Queré- crates. Se tivesses um cb, guarda fiel de teus rebanhos, que festejasse teus pastores mas rosnasse à tua aproxima- ção, em lugar de te pores colérico procurarias amansá-lo com bons tra- tos; e teu irmão, que reconheces gran- de bem desde que bem disposto para contigo, tu que campas de reto no falar e obrar não procuras concitar-lhe a

afeição? Receio, Sócrates disse Que- récrates não ser suficientemente

hábil para bem animá-lo em relação a mim.

Entretanto volveu Sócrates -— parece-me não haver necessidade de empregares artifícios numerosos e extraordinários. Os que conheces serão bastante para ganhar-lhe a estima.

Possuirei eu, sem o BaDeTo algum filtro para isso?

Dize-me, que farias se quisesses que alguém de teu conhecimento, ofe- recendo um sacrifício, te convidasse para jantar?

Evidentemente começaria eu próprio por convidá-lo, quando sacrifi-

* casse.

E se quisesses levar um de teus amigos a gerir teus negócios quando viajasses, que farias?

Quando se ausentasse, seria o primeiro a encarregar-me dos seus.

E que farias, se quisesses dispor um estrangeiro a receber-te quando fosses a sua cidade?

Obviamente seria o primeiro a dar-lhe acolhida quando viesse a Ate- nas; e se quisesse que me auxiliasse a despachar os negócios para que fora a sua terra, evidentemente seria o pri- meiro a fazer-lhe outro tanto.

Como? conheces todos os filtros

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de que dispõem os homens e deles fazes mistério tanto tempo! Será que crerias descnrar-te, prevenindo teu irmão com bons tratos? Entretanto, olha-se como homem digno de todos os elogios o que sabe ser o primeiro em

estorvar os inimigos e servir os ami-

gos. Julgasse eu Querefonte mais apto que tu a dar o exemplo destas boas disposições, e tê-lo-ia induzido a dar os primeiros passos para conquistar tua amizade; tenho-te, porém, por mais capaz de encetar esta obra.

Retorquiu Querécrates:

Francamente; Sócrates, teus conselhos me admiram. Dizes coisas indignas de ti: queres que eu, o mais Jovem, tome a iniciativa. No entanto, entre todos os povos o contrário é que voga. Em tudo tem o mais velho o pri- meiro passo, seja para a ação, seja para a palavra.

Quê! exclamou Sócrates consoante o uso universalmente esta- belecido não é o mais jovem que deve ceder o caminho ao mais velho, levan- tar-se se sentado, dar-lhe a honra de um leito mais macio e deixá-lo falar primeiro? Não tergiverses, meu caro. Trata de adoçar teu irmão, que pronto se renderáã. Não vês como ele é nobre e generoso? As almas tacanhas com- pram-se com presentes. As almas gene- rosas conquistam-se com mostras de amizade.

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E se apesar disso ele não se tor- nar melhor para comigo?

Que arriscas com isso? reto- mou Sócrates se não mostras que és um espírito nobre e bom irmão en- quanto ele é vil e indigno de afeto? Mas não creio que nada disso aconte- ça.. Apenas se sinta provocado a esta luta ele forcejará por vencer-te em generosidade. De feito, ora estás como estariam as duas mãos, feitas pelos deuses para se ajudarem reciproca-

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MEMORÁVEISAI 79

mente, se esquecessem esta destinação para se atrapalharem uma a outra, ou como estariam os dois pés, pela provi- dência feitos para trabalhar de concer- to, se ao revés deste fim procurassem entravar-se mutuamente. Não seria o cúmulo da ignorância e demência mudar em detrimento nosso o que se fez para nossa utilidade? Parece-me que os deuses, em criando dois irmãos, tiveram em vista sua utilidade reci- proca mais ainda que a das mãos, dos pés, dos olhos e do mais de que deram aos homens a parelha fraternal. As

mãos não poderiam pegar ao mesmo tempo duas coisas distantes mais de uma toesa, uma da outra, nem os pés separar-se um do outro mais de uma toesa*. Os próprios olhos, que se nos afiguram alcance muito mais exten- so, não podem ver simultaneamente de frente e de trás os objetos mais próxi- mos. Porém dois irmãos que se amem, seja qual for a distância que os separe, podem obrar de mão comum e servir- se mutuamente.

ê Antiga medida de 6 pés, ou seja 1,98 m. (N. do E.) SP

)

CapíTULO IV

De outra feita falando Sócrates da amizade, ouvi-lhe dizer coisas utilís- simas para aprender a adquirir amigos e com eles tratar. Dizia ouvir muita gente estribilhar ser um amigo seguro e virtuoso o mais precioso de todos os bens, mas de tudo se ocuparem menos da aquisição de amigos. Via, dizia, toda gente empenhar-se em adquirir casas, campos, escravos, rebanhos, móveis e esforçar-se por conservar o que possui. Mas um amigo, que se diz o mais precioso de todos os bens, não via ninguém cuidar de adquirilo e, uma vez adquirido, de conservá-lo. Adoecesse um escravo, via, dizia, man- darem buscar médicos e tudo fazerem para volvê-lo à saúde. Enfermasse um amigo, não moviam-uma palha. Mor- resse um escravo, choravam-no e olha- vam-lhe a morte como uma perda. Morresse um amigo e nada creriam ter perdido. Não descuram nenhum de seus bens, porém negligenciam os ami- gos que necessitam de seus cuidados. Agregava a isto que a maior parte dos homens conhece muito bem, por exten- so que seja, o rol de tudo o que pos- suem; quanto aos amigos, por poucos que sejam, não lhes ignoram o nú- mero, mas quando se lhes pergunta

quantos têm, embaraçam-se na enume- ração, tanto se importam com os ami- gos! No entanto, qual o bem compa-

rável a um amigo sincero? Qual o cavalo, qual a parelha tão útil como um bom amigo? Qual o escravo tão devotado, tão fiel? Qual o bem tão proveitoso? Um bom amigo está sem- pre pronto a substituir-se ao amigo em tudo o que preciso for, seja na gestão

de seus negócios particulares, seja nos assuntos do Estado; queira este prestar um serviço a alguém, ele lhe vem em

auxílio; possua-o algum temor, acode em seu socorro, contribuindo para suas despesas e com ele laborando, de concerto com ele empregando a per- suasão ou a violência, deleitando-o no abatimento. Os serviços que a cada um de nós nos prestam as mãos, o que são os olhos para o ver, os ouvidos para O ouvir, os pés para o andar, não sobe- jam ao que faz um amigo delicado. E muita vez o que nós mesmos não fize- mos, não vimos, não ouvimos, fá-lo um amigo por nós. Homens há, não obstante, que por causa do fruto se consagram de corpo e alma à cultura de árvores, sobreolhando, indolentes, o mais frutuoso dos bens o amigo.

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| CAPÍTULO V

Outro dia, ouvi-o usar de linguagem . “capaz de fazer o ouvinte entrar em si

mesmo e considerar qual o grau de es- tima que merecia de seus amigos. Sabedor de que um de seus discípulos abandonava um amigo na indigência, dirigiu-se a Antístenes em presença desse amigo indigno e de muitas outras

pessoas: k : Dize-me, Antistenes, haverá

preço para os amigos como o para

os escravos? Entre os escravos um vale duas minas”, outro nem meia; esta

vale cinco, aquele seis. Diz-se até que Nícias, filho de Nicerato pagou um talento? pelo intendente de suas minas de prata. Vejamos, pois, se assim como existe preço para os escravos, existe para os amigos.

Claro que sim disse Antiste-

7 Mina: moeda de 100 dracmas; 10 minas de-prata fazem 1 mina de ouro; 60 minas de prata, 1 talento. (N. do E.)

s Cf. nota 7. (N. do E.)

nes. tal homem cuja amizade eu preferiria a duas minas, outro por quem não daria meia mina, outro por quem daria até dez minas, outro por quem daria todas as minhas riquezas e rendas.

Assim sendo respondeu Só- crates —, bem seria que cada um exa- minasse a que preço deve ser estimado pelos amigos e se esforçasse por valer: o mais possível, a fim de correr menos o risco de ser abandonado. A todo ins- tante ouço dizer a um que o amigo o traiu, a outro que por uma mina se viu desprezado pelo homem que julgava amigo. À vista de tudo isso, pergunto- me a mim mesmo se, da mesma forma que se vende um mau escravo pelo preço que se encontra, não se deve pôr à venda e vender um mau amigo desde que ofereçam mais do que vale. Vejo, porém, que nunca se vendem os bons escravos e jamais se abandonam os bons amigos.

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CaríruLo VI

Plenos de bom senso me pareciam também os conselhos que dava acerca dos predicados que se devem procurar nos amigos, quando dizia:

Dize-me, Critobulo, se precisás- semos de um bom amigo, o que deve- riamos considerar em primeiro lugar? Antes de tudo, não deveríamos procu- rar um homem que soubesse dominar o próprio ventre, o desejo da bebida, da lubricidade, do sono, da indolência? Porque aquele que obedece a todos estes pendores nada faz de útil nem a si mesmo nem a um amigo.

Por Júpiter ! seria incapaz.

Não achas, pois, que se deva fugir de homem escravizado por tais paixões?

Acho.

O perdulário incapaz de bastar- se a si mesmo, sempre necessitado dos outros, que pede emprestado e não paga, que se ofende se não lhe empres- tam, não te parece também amigo muito incômodo?

Certamente.

Deveriamos, pois, afastar-nos igualmente de tal homem?

Deveriamos.

E aquele que sabe aumentar seus haveres, mas desejoso de' entesourar grande riqueza e por isso mesmo difícil de tratar nos negócios, mais amigo de receber que de devolver?

Parece-me pior ainda que o anterior disse Critobulo.

E o aurissedento cuja única preocupação é excogitar meios de ganho?

Acho que também deve ser evi- tado, pois seria inútil a um amigo.

E o rixoso pronto a criar para os amigos uma legião de inimigos?

E homem de fugir, por Júpiter !

E o homem que, sem ter nenhum desses defeitos, deixa que lhe façam o bem sem lembrar-se de retribuir?

Também seria inútil. Mas então, Sócrates, quem devemos procurar para amigo?

Aquele, penso, que tenha as qua- lidades contrárias: senhor dos apetites sensuais, fiel a seus juramentos, con- descendente nos negócios, que não fique atrás dos que o beneficiem, pron- to a servir quem o sirva.

Mas como, Sócrates, nele reco- nhecer tais qualidades antes de pô-lo a prova?

Para julgar os estatuários disse não vamos atrás de suas pala- vras: fiamo-nos em quem haja execu- tado belas estátuas, certos de que ou- tras fará igualmente belas.

Queres dizer que se um homem proceder bem com os amigos que teve, de certo procederá da mesma forma com os que vier a ter?

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86 XENOFONTE

Sim. Um picador que eu visse montar bem alguns cavalos, cré-lo-ia capaz de com outros fazer outro tanto.

Seja. Mas tendo um homem nos parecido digno de nossa amizade, como fazé-lo amigo?

Antes de mais nada disse Só- crates mister consultarmos os deuses e ver se nos aconselham a fazê- lo nosso amigo.

Pois bem prosseguiu Crito- bulo uma vez -confirmada nossa escolha pelo consentimento dos deu- ses, poderás dizer-me como caçaremos nosso amigo?

Por Júpiter! não será nem cor- rendo-lhe no encalço, como à lebre, nem com reclamo, como aos pássaros, nem de força, como aos inimigos: árdua tarefa seria conquistar um amigo contra sua vontade. Nem que o encadeássemos qual escravo, logra- riamos retê-lo. Semelhante tratamento criar-nos-ia antes inimigos que amigos.

Como, então, conseguir amigos?

Dizem existir. certas palavras mágicas, que, sabidas e pronunciadas, fazem amigos nossos quem quer que queiramos, filtros cujo conhecimento serve para fazer-se amar de quem se queira. g

Qnde aprender essas receitas?

Disse-te Homero as palavras mágicas que a Ulisses disseram as sereias. Principiam mais ou menos assim: Aproxima-te, ilustre Ulisses, honra dos aqueus.

Mas, Sócrates, não é o canto com que as sereias retinham os outros homens e os impediam de fugir-lhes às seduções?

Não. Este canto o endere- çavam aos amigos da virtude.

Pareces-me dizer dever-se en- cantar os homens com palavras tais que não lhes pareça mofa os louvores que ouçam. De outra forma .ganha- ramos um inimigo e seríamos repeli-

dos, se, para louvá-lo, fôssemos dizer a um homem que se saiba pequeno, feio e fraco, que é belo, grande e robusto. Mas não conheces outros amavios?

Não. Ouvi dizer, porém, que Pé- ricles conhecia muitos, que usava para fazer-se amado de seus concidadãos.

'— E Temistocles, como fez para conquistar-lhes a amizade?

Por Júpiter ! não foi com feitiços mas cumulando-os de benefícios.

Sem dúvida, Sócrates, queres dizer que, se quisermos adquirir um bom amigo, devemos ser igualmente honestos de palavras e atos?

Pensavas então disse Sócra- tes pudesse homem improbo procu- rar amigos virtuosos?

É que vi disse Critobulo maus retóricos amigos de oradores dis- tintos, homens sem conhecimentos mi- litares intimamente ligados aos mais hábeis generais.

Mas, voltando ao nosso propó- sito, conheces homens inúteis que te- nham sido capazes de granjear amigos úteis?

Não, à.verdade. Todavia, se ao perverso é impossível travar amizade com pessoas honestas, gostaria de saber se será fácil, sendo a gente honesto, encontrar amigos entre os ho- mens virtuosos.

O que te embaraça, Critobulo, é veres muitas vezes pessoas que prati- cam o bem e se abstêm do mal, longe de amigos, atacarem-se umas às outras e tratarem-se rnais indignamente que os últimos dos homens.

E não são os particulares disse Critobulo que assim proce- dem. As cidades, até as que mais amam tudo o que é belo e mais abomi- nam tudo o que é vergonhoso, freguen- temente estão em guerra umas com as outras. Quando penso nisso, desespero completamente de poder adquirir ami- gos. Vejo que os maus não podem

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MEMORÁVEISAI 87

amar-se uns aos outros: efetivamente, como poderiam seres ingratos, negli- gentes, cúpidos, sem e sem freio tor- nar-se amigos? Os maus foram feitos antes para odiar-se mutuamente que para amar-se. De mais a mais, como tu próprio o dizes, impossível formarem os maus concerto amistoso com os bons, pois qual a amizade possível entre os que fazem o mal e os-que o detestam? E se até os homens que pra- ticam a virtude se dividem para os pri- meiros postos das cidades, se a mútuo ódio os arrasta a inveja, onde encon- trar amigos? em quem a benevolência e a fidelidade?

em tudo isso, Critobulo contestou Sócrates diversas manei- ras de encarar os fatos. Os homens têm naturalmente o sentimento da amizade. Necessitam uns dos outros, capitulam à piedade, socorrem-se mutuamente, compreendem-se e se mostram gratos. Mas têm também o sentimento da ini- mizade. Quando suas idéias sobre os bens e os prazeres são as mesmas, lutam por alcançá-los. Quando dividi- dos pelas opiniões, combatem-se uns aos outros: a guerra nasce da disputa e da cólera; a malevolência, dos desejos ambiciosos; o ódio, da inveja. Porém a amizade vence todos os obstáculos para unir os corações virtuosos: é que, graças à virtude, preferem os homens possuir em paz haveres moderados a tudo dominar pela guerra. Com fome ou sede, cordialmente dividem os ali- mentos e a bebida. Cobiçosos de um belo objeto, sabem resistir a si próprios para não afligir aqueles que devem res- peitar. Não tomam das riquezas senão sua parte legítima, sem nenhuma idéia de cupidez, e demais auxiliam-se uns aos outros. Sabem resolver suas diver- gências não somente sem prejudicar- se, mas ainda com mútua vantagem, e impedir a cólera de ir até o rompi- mento. Enfim, repartindo suas riquezas

com os amigos e olhando os bens dos outros como os seus próprios, dirimem todo pretexto de inveja. Não é, pois, natural que, galgando os cargos do Estado, longe de se prejudicarem, se sirvam mutuamente os homens virtuo- sos? Os que desejam as honras e a autoridade em sua pátria, a fim de pi- lhar livremente os fundos públicos, violentar os cidadãos e viver na indo- lência, são corações injustos, perver- sos, incapazes de qualquer afeição. Mas o homem que busca as dignidades para pór-se ao abrigo de toda injustiça e prestar legitimo apoio aos amigos; que, feito magistrado, se esforça por ser útil à pátria, então este homem será incapaz de entender-se com outro cida- dão virtuoso como ele? Cercado de ho- mens virtuosos, ser-lhe-ã menos fácil servir. aos amigos? Apoiado pelos cidadãos honestos, será menos pode- roso para fazer bem à pátria? Evidente é que, se nos combates gimnicos fosse permitido aos mais fortes reunir-se contra os mais fracos, sairiam vence- dores em todas as lutas e obteriam todos os prêmios. Ora, isso não se per- mite. Mas se nas lutas políticas, em que os virtuosos levam a palma, não se impede um cidadão de unir seus esfor- ços aos de outro para o bem da pátria, como não ser vantajoso, quando se tem parte no governo, cercar-se de excelentes amigos e em tudo tê-los antes por associados e colaboradores que por antagonistas? Não menos evi- dente é que se lutas mister alia- dos, e tantos mais quanto se tenha de combater contra homens de mérito e virtude. Ora, necessário é fazer bem aos que queiram tornar-se nossos alia- dos, a fim de dar-lhes coragem; e antes beneficiar poucos homens virtuosos que um exército de maus, desde que os maus saem muito mais caros que as pessoas de bem. Fica trangúilo, Crito- bulo; procura fazer-te bom e, uma vez

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88 XENOFONTE

bom, põe-te à caça dos corações vir- tuosos. Quem sabe possa eu auxiliar-te um pouco nessa perseguição, sendo como sou um coração aberto ao amor. Não imaginas, quando cóbiço a amiza- de de alguém, como me empenho em inspirar-lhe a mesma afeição que por ele sinto, em fazê-lo comungar comigo em meu desejo, em fazê-lo amar aque- les que amo. Sei que quando desejares travar alguma relação também terás necessidade dessa ciência; não me ocultes, pois, os que quiseras ter por amigos: a diligência com que procuro agradar quem me agrada, deu-me, creio, certa experiência da caça dos homens.

Então Critobulo:

E, Sócrates, ciência que muito tempo anseio por conhecer, sobretudo se me servir igualmente em relação às pessoas belas de alma e às belas de corpo.

Mas Critobulo retorquiu Só- crates minha ciência não vai a ponto de bastar estender a mão para cativar a beleza. Estou persuadido que os homens fugiam Cila porque usava de força, ao passo que as sereias, ja- mais lançando mão de violência, en- cantavam toda gente, detinham, diz-se, e seduziam quem quer que as ouvisse.

Pois bem! disse Critobulo não usarei de coação com ninguém; se, pois, tens algo a dizer-me sobre como conquistar amigos, fala.

-— Jamais disse Sócrates porás boca contra boca.

Tranqúiliza-te. Não mais com- primirei os lábios aos lábios de nin- guém, a menos que belo.

Eis-te logo de saída, Critobulo, fazendo o contrário do que se deve. Os que são belos não suportam de bom grado essas liberdades, conquanto os tolerem os feios, convencidos de que os acham belos de alma.

Então Critobulo:

Pois bem, meus beijos, endere- çando-se aos que são belos, elegerão os que forem bons. Tranquiliza-te, pois, e dize-me a arte de caçar amigos.

Então Sócrates:

Quando quiseres ligar-te a al- guém, permitirás que eu te denuncie a ele, que lhe diga que o admiras e dese- jarias ser seu amigo.

Denuncia-me disse Critobu- lo. Sei que ninguém aborrece o louvor.

E, se além disso acusar-te de, atenta tua admiração, estares benevo- lamente disposto para com ele, não crerás que te calunie?

De forma alguma, pois eu mesmo sinto inclinação para quem me pareça senti-la em relação a mim.

Então poderei dizer tudo isso aqueles cuja amizade ambicionares; e se me autorizares a dizer ainda seres zeloso de teus amigos, que tua maior felicidade é tê-los virtuosos, que te ufa- nas de suas boas ações como se fossem tuas, que te regozijas de sua prosperi- dade como da tua própria, que a ne- nhum sacrifício te poupas para assegu- rar-lhes o bem, que tens por máxima consistir a virtude em vencer os ami- gos em benefícios e os inimigos em

ultrajes, creio muito poder auxi- lhar-te na caça aos bons amigos. Por que, então replicou Cri-

tobulo falar-me assim, como se não pudesses dizer de mim tudo o que quisesses?

Não, por Júpiter! não o posso, pois ouvi dizer um dia Aspásia que as boas casamenteiras, não falando senão verdade, são felizes no casar os ho- mens, ao passo que de nada serviriam louvores descabidos, pois os esposos enganados se detestam mutuamente e maldizem quem os uniu. Ora, estou convencido que tinha razão e creio não poder, ao falar de ti, presentear-te com encômios imerecidos.

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MEMORÁVEISJI 89

Quer dizer, Sócrates, que se eu os merecer continuou Critobulo assaz me queres para ajudar-me a encontrar amigos, mas que do contrá- rio nada imaginarias, nada dirias em meu interesse?

Pensas então, Critobulo, que melhor te serviria fazendo-te elogios insinceros que instando-te a trabalhar por ser homem de bem? Se isso não te é evidente, julga-o pelo que te vou dizer: suponhamos eu fazer de ti um falso elogio a um piloto de quem deseje ver-te amigo, lhe diga seres bom timo- neiro, que, confiante em mim, esse pi- loto entregue seus navios em tuas mãos, que jamais governaram um leme: terias alguma esperança de não perder-te ao mesmo tempo que o navio? Se da mesma forma, por força de mentiras persuadisse coletivamente toda a cidade a entregar-se a ti como a bom general, sábio jurisconsulto, hábil

político, a que males, pensas, não te exporias a ti e ao Estado? Se, enfim,

convencesse insuladamente alguns ci- dadãos a te confiarem a gestão de seus bens, após haver-lhes dito falsamente seres administrador econômico e zelo- so, uma vez posto a prova não te patentearias a um tempo desastrado e ridículo? Pois bem! Critobulo, tudo

fazer por sê-lo eis o caminho mais curto, mais seguro, mais digno, se que- res ter fama de probo. Tudo o que os homens chamam virtude conven- cer-te-á a reflexão aumenta pelo es- tudo e exercício. De minha parte, Cri- tobulo, penso ser por este lado que mister dirigir nossa caçada. Se és de outra opinião, dize-mo.

Respondeu Critobulo:

Corariã, Sócrates, de fazer-te qualquer objeção. Nada diria bem nem verdadeiro.

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CarpíruLo VII

Quando, por ignorância, seus ami- gos se encontravam em apuros, procu- rava desempeçã-los por meio de conse- lhos; quando, por pobreza, ensinava-os a auxiliarem-se mutuamente. Referirei também o que dele sei a tal propósito.

Vendo um dia Aristarco imerso em tristeza: a Pareces-me, Aristarco disse-

lhe ter qualquer coisa que te pesa; é preciso repartir o fardo com os amigos; quem sabe possamos aliviar-te.

Palavra de honra, Sócrates respondeu Aristarco estou em maus lençóis. Desde que a cidade se insurgiu e inúmeros cidadãos se retiraram para o Pireu, minhas irmãs, sobrinhas, pri- mas, abandonadas, refugiaram-se em minha casa, de modo que somos cator- ze pessoas de condição livre. Nada retiramos da terra, em poder dos inimi- gos, nem de nossas casas, pois a cidade está quase deserta. Ninguém compra móveis, não quem empreste dinhei- ro; será mais fácil achar dinheiro na rua que alguém que o forneça. É muito triste, Sócrates, ver em torno de si os parentes na miséria; impossível, em semelhantes circunstâncias, sustentar tanta gente.

Ao que Sócrates retorquiu:

-— Como é que Ceramão, também com um mundo de gente para manter, não encontra o bastante para sie os

seus como ainda põe dinheiro de lado e enriquece, de passo que tu, tendo mui- tas pessoas que sustentar temes que morram todos à falta do necessário?

Caramba! ele mantém escravos, eu pessoas livres.

Quem reputas mais dignas de estima, as pessoas livres que tens em casa ou os escravos de Ceramão?

Claro, as pessoas livres que tenho em casa.

Então é uma vergonha viver Ceramão na abundância com homens de cacaracá, enquanto tu, com pessoas muito mais dignas de estima, estejas na miséria?

Não, por Júpiter! pois ele ali- menta artesãos e eu pessoas de educa- ção liberal.

Artesãos não são os que apren- deram a fazer alguma coisa útil?

Sem dúvida.

A farinha não é coisa útil?

Certamente.

Eo pão?

-— Também.

E as roupas de homens e mulhe: res, as túnicas, as clâmides, as exômi- des??

S Túnica, lit. quitãozinho: túnica curta, sem man- gas, de uso diário; clâmide: espécie de capa; exômi- de: espécie de túnica, com mangas, usada pelos escravos e povo simples. (N. do E.)

92 XENOFONTE

Tudo isso é muito útil.

E nada disso saberão fazer as pessoas que tens em casa?

Pelo contrário, presumo.

Então, não sabes que exercendo uma destas indústrias, fabricando fari- nha, Nausícides, não se sustenta a si e as seus escravos como ainda de comer a grande cópia de porcos e bois, além de amealhar boas economias com que a miúdo provê às prestanças públi- cas? Fazendo pão sustenta Cirebo toda a sua casa e vive à larga. Deméias de Cólito fazendo clâmides, Menaão, clâmides, a maior parte dos megarinos, exômides, obtêm o com que viver.

Convenho; mas todos eles com- " pram escravos bárbaros que jungem ao trabalho a sua discrição, ao passo que eu trato com pessoas livres, minhas parentas.

Como? Por serem livres e paren- tas tuas, achas que nada devam fazer senão comer e dormir? Julgas tenham melhor existência as outras pessoas li- vres que vivem em semelhante vciosi- dade? Senão mais felizes que as que se ocupam das coisas úteis que sabem? Pensas que a preguiça e a ociosidade ajudem os homens a aprenderem o que precisam saber, a recordar-se do que aprenderam, a dar ao corpo saúdé e vigor, a adquirir e conservar tudo o que à vida é necessário, ao passo que de nada valham o trabalho e o exerci- cio? Aprenderam tuas parentas o que dizes saberem como coisas inúteis à vida e de que não teriam o que fazer; ou, pelo contrário, para delas ocupar- se um dia e auferir proveitos? Quais os homens mais sábios, os que modorram na ociosidade ou os que se ocupam das coisas úteis? Quais os mais justos, os que trabalham ou os que sem nada fazerem, sonham com os meios de sub- sistir? Neste momento, estou certo, não podes amar tuas parentas nem elas

a ti: tu porque as olhas como peso; elas porque vêem que te pesam. É de recear que a frieza se converta em ódio e se entibie o reconhecimento do pas- sado. Se porém, lhes impuseres uma tarefa, tu as amarás, vendo que te são úteis, elas te amarão por sua vez perce- bendo que te contentam. Mais agradá- vel vos será a lembrança do passado,

"subirá de ponto vosso reconhecimento

e assim vos tornareis melhores amigos e melhores parentes. Se se tratasse de ação vergonhosa para elas, antes a morte. Mas ao que dizes, tuas parentas possuem talentos honrosíssimos, os que melhor convêm à mulher. Ora, o que se sabe faz-se com facilidade, prontidão e prazer. Não hesites, pois, em propor-lhes partido que te será tão vantajoso quanto a elas, e que sem dú- vida aceitarão prazerosas.

-—— Em nome dos deuses, Sócrates volveu Aristarçco teu conselho parece-me excelente. Não ousava pedir emprestado, sabendo que após gastar o que recebesse não teria com que resti- tuir. Agora, para começar os trabalhos creio poder decidir-me a fazê-lo.

Dito e feito. Procuraram-se fundos, comprou-se lã. As mulheres jantavam trabalhando, ceavam após o trabalho e a alegria sucedera à tristeza: em vez de se olharem à esconsa, viam-se com prazer; elas amavam Aristarco como

protetor. Aristarco queria-lhes por seus serviços. Por fim, este veio contar alegremente a aventura a Sócrates, dizendo-lhe que suas parentas o censu- ravam por ser o único da casa que comia sem fazer nada.

Eh! disse Sócrates por que não lhes contas a fábula do cão? E fama que, no tempo em que os animais falavam, disse a ovelha para o dono:

“Estranho que a nós que te fornece- mos lã, cordeiros, queijo, nada nos dês

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MEMORÁVEIS-I 93

que não sejamos obrigadas a arrancar à terra ao passo que com teu cão, que nada te dá, com ele repartes teu pró- prio alimento”.

Retrucou-lhe o cão, que a ouvia:

“Por Júpiter! ele tem razão, pois sou eu que vos guardo e impeço de ser- des roubadas dos homens ou arreba- tadas dos lobos: não velasse eu por vós

e o medo de morrer não vos deixaria pastar”.

Acrescenta-se que consentiram as ovelhas lhes fosse o cão preferido. Vai, pois, dizer também a tuas parentas que as guardas e vigias qual o cão da fábu- la; que graças a ti de ninguém são insultadas e podem trabalhar jocundas e em segurança.

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CarpíruLo VIII

Um dia, após longa separação, topou com outro velho camarada.

De onde vens, Eutério? im- quiriu-lhe.

Ao fim da guerra, Sócrates, regressei de uma viagem e agora eis- me aqui. Perdi o que possuía ao de das fronteiras; nada me deixou meu pai na Ática e hoje, de volta, vejo-me forçado a trabalhar para viver. Antes isso que pedir a quem quer que seja, tanto mais que nada tenho para dar em penhor.

E quanto tempo calculas poder trabalhar pelo pão de cada dia?

Não muito, está se vendo.

Entretanto, velho, é evidente que terás despesas, e ninguém quererá pagar-te por teus serviços manuais.

Dizes verdade.

Então não seria melhor te ocu- pares desde de trabalhos que possam sustentar-te na velhice, dirigires-te a alguém que possua grandes proprie- dades e precise de quem as administre, feitore os trabalhos, o ajude a fazer en- trar as colheitas, a conservar seu patri- mônio, prestando-lhe serviço por servi- ço?

Seria duro, Sócrates, suportar a escravidão.

—— Sem embargo, nem por isso os que governam as cidades e dirigem os negócios públicos são considerados mais escravos que os outros homens; pelo contrário, são tidos por mais livres.

Afinal, Sócrates, de forma algu- ma quero expor-me a censuras.

Certo Eutério, não é fácil encon- trar trabalho que não exponha a repro- ches. O que quer que se empreenda, é difícil não incorrer em faltas, e ainda que não se cometam, raro é não encon- trar juízes ineptos. E muito me admira que no que dizes hoje fazer fosse fácil pór-se a forro de exprobrações. Impor- ta-te, pois, evitar os indivíduos biliosos e procurar os de espírito bem formado, encarregares-te de quanto puderes fazer, não te meteres no que não soube- res e executares o melhor possível e de boa vontade tudo o que empreenderes: creio que assim procedendo, muito pouco te exporás a censuras, te aperce- berás contra a miséria e deliciarás tranquilo, folgado e galhardo o sol-pôr da existência.

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CaPíTULO IX

Certo dia, eu presente, ouvi Criton queixar-se ser a vida difícil em Atenas para quem quisesse ocupar-se tranqui- lamente de seus negócios.

Diariamente dizia inten- tam-me processos. Não que eu atente contra os direitos de ninguém, mas por imaginarem que prefira dar dinheiro a ver-me metido em querelas.

Replicou Sócrates:

Dize-me, Criton, alimentas cães para que afastem os lobos de tuas ovelhas?

Certamente, e acho-o prudente.

Não consentirias, então, em manter também um homem que qui- sesse e pudesse conservar à distância os que procurarem prejudicar-te?

De boa vontade, se não temesse que ele próprio se voltasse contra mim.

Quê! não vês ser mais agradável e vantajoso servir um homem como tu que dele fazer-se inimigo? Sabes que aqui não faltam homens ambiciosos de tua amizade.

Em seguida a esta conversa encon- traram Arquidemo, cidadão capaz mas pobre. Longe de ser um aproveitador, amava o bem e possuia a alma demasiadamente sobranceira para dei- xar-se corromper pelo dinheiro dos sicofantas. Desde logo, sempre que Críton recebia trigo, azeite, vinho,

ou qualquer provisão das coisas neces- sárias que fornece o campo, dava parte a Arquidemo. Quando oferecia um sacrifício convidava-o e não o esquecia em nenhuma destas ocasiões. Arquide- mo, que via na casa de Criton um refú- gio seguro, a ele prendeu-se inteira- mente. Bem depressa descobriu serem

“os sicofantas que perseguiam Criton

indivíduos cobertos de crimes e terem numerosos inimigos. Citou um em Juízo perante o povo para que fosse condenado a castigo corporal ou multa. Consciente das próprias malfei- torias, tudo fez o acusado para desem- baraçar-se de Arquidemo, porém este não o largou enquanto o extorsor não deixou Criton em paz e não lhe deu algum dinheiro. Da mesma sorte pro- cedeu Arquidemo em diversas circuns- tancias semelhantes. Então, assim como tendo um pastor um bom ca- chorro se apressam os outros em pôr- lhe perto seus rebanhos, para que fi- quem sob a mesma guarda, assim pediram os amigos de Criton os puses- se também sob a custódia de Arquide- mo. Este de bom grado comprazia a Criton, e não Criton como todos os seus amigos viviam em paz. E quando os inimigos de Arquidemo lhe expro- bravam o ter-se feito, por interesse, adulador de Criton:

Qnde a vergonha respondia

98. XENOFONTE

Arquidemo em entreter com ho- mens virtuosos comércio de serviços reciprocos, fazê-los amigos e opor-se aos maus, ou em tudo fazer por preju- dicar as pessoas de bem e assim atrair-lhes a inimizade, mancomunar-

; | se, ao revés, com os maus, procurar-

lhes a amizade e preferir seu trato ao das pessoas honestas?

Desde então foi Arquidemo sempre. estimado dos amigos de Criton, que de sua parte o incluiu em o número deles.

CAPÍTULO X

Sei também que teve esta conversa com Diodoro, um de seus amigos:

Dize-me, Diodoro, se um de teus escravos fugisse procurarias reavé-lo?

Por Júpiter! e pór-lhe-ia os ou- tros na pegada, anunciando uma re- compensa a quem o capturasse.

Se um de teus escravos caísse doente não tratarias dele, não chama- rias médicos para-salvar-lhe a vida?

Sem dúvida.

E se um homem de teu'conheci- mento, muito mais útil que teus escra- vos corresse o risco de morrer à miín- gua, não achas seria de teu dever socorrê-lo? Ora, sabes que Hermó- genes não é ingrato, que coraria de receber serviços de ti sem por sua vez retribuir-te. E um homem que te servi- ria de bom grado, com devotamento e constância, sempre pronto não a

obedecer-te às ordens como a agir de iniciativa própria, a prevenir e prever este homem, creio, valeria uma legião de escravos. Recomendam os bons ecônomos que quando uma mer- cadoria preciosa está a baixo preço se aproveite a ocasião para comprá-la: ora, nos tempos que correm, por pouco custo podem adquirir-se bons amigos.

Respondeu Diodoro:

Tens razão, Sócrates. Dize a Hermógenes que venha ver-me.

Não, essa é boa! nada farei. Penso que em vez de chamá-lo, melhor farás indo procurá-lo, que com isto ele não ganhará mais que tu próprio.

Apressou-se Diodoro em ir ter com

Hermógenes e sem grande custo houve

um amigo que tinha por dever nada falar nem fazer que não para servi-lo e comprazer-lhe.

“LIVRO!

to

CAPÍTULO I

Como os que aspiram às dignidades, encontraram em Sócrates guia valioso para o fim a que visavam, eis o que ora referirei. Tendo um dia ouvido dizer que certo Dionisodoro, recém-chegado a Atenas, se anunciava professor de estratégia, disse Sócrates a um de seus

discípulos, que sabia anelar as honras

de general da pátria:

Vergonhoso para alguém que quisesse ser estratego em sua terra, ó Jovem, não seria deixar fugir ocasião de aprender a arte militar? Não deve- ria ser punido ainda mais severamente que alguém que se metesse a fazer está- tuas sem ter aprendido a estatuária? Que nos perigos da guerra a cidade inteira confia no estratego; daí resulta- rem seus sucessos em grandes vanta- gens e em grandes males, seus revezes. Como, pois, não seria justo punir um homem que após sobreolhar o aprendi- zado da arte militar tudo fizesse por ser eleito?

Com estes conselhos Sócrates apres- sou o jovem a estudar com Dioniso- doro. Estudado, voltou o discípulo para junto do mestre, que exclamou jocoso:

-— Cidadãos, não achais que assim como a Agamenão titulava Homero venerável, depois das lições de estra- tégia não parece este jovem ainda mais respeitável? Pois se, ainda que não

toque, chama-se citarista a quem aprendeu a tocar citara; se, ainda que não exerça, chama-se médico a quem aprendeu medicina, muito embora nin- guém o eleja, não deixa este jovem de ser desde estratego; e, em'que pesas- se aos: votos de todos os homens, nem estratego nem médico seria quem nada soubesse. Mas, prosseguiu, a fim de que, se algum dia um de nós vier a ser oficial sob tuas ordens, esteja melhor instruído rras coisas da guerra, dize- nos por onde começou Dionisodoro a ensinar-te a estratégia.

Respondeu o jovem:

—— Começou por onde terminou. Ensinou-me a tática e nada mais.

Entanto observou Sócrates isso é parte mínima da arte do gene- ral. Cumpre-lhe ainda prover a todo o material da guerra e de tudo fornecer o soldado. Ser fecundo de expedientes, empreendedor, cuidadoso, paciente, sagaz, indulgente e severo, franco e astuto, capaz de defender-se e de surpreender, liberal e rapace, generoso e cúpido, prudente e audaz. Enfim deve ter, para ser bom estratego, todas as demais qualidades que dão a natureza e a ciência. Glorioso é também conhe- cer a arte de ordenar as tropas; vai grande diferença entre um exército bem alinhado e tropas juntas à gan- daia. Pedras, tijolos, traves, telhas lan-

104 XENOFONTE

çadas a monte aqui e ali para nada ser- vem; se, porém, nos fundamentos e nas sumidades se dispõem os materiais imputrecíveis e inalteráveis, como as pedras e as telhas, se de permeio se ajustam os tijolos €e as traves, ao modo de edifício, então se tem algo precioso, uma casa.

O que acabas de dizer, Sócrates respondeu o jovem —, é exata- mente o mesmo que se pratica na guer- ra: lá, com efeito, deve colocar-se nas primeiras e últimas filas os melhores soldados e no meio os piores, a fim de serem arrastados e. impedidos pelos outros.

Muito bem obtemperou Só-

crates -—, se te ensinaram a discernir os bons dos maus soldados. Se não, de que te serviriam teus conhecimentos? Houvesse teu mestre te ensinado a dis- por o dinheiro colocando por cima e por baixo as melhores peças e no meio as piores, de nada te valeria isso se não te tivesse ensinado a distinguir a moeda boa da mã.

Pois olha, não mo ensinou. A nós compete distinguir os bons dos maus soldados.

Bem, mas o que nos impede de

examinar como poderemos não nos enganar?

De acordo assentiu o jovem.

Fosse, então, o caso de pilhar dinheiro, não faríiamos bem colocando na frente os soldados mais cúpidos?

Ássim penso.

E se se tratasse de correr peri- gos, não poríamos na primeira linha os que mais prezam a glória?

Sem dúvida, pois, de olho na honra, querem expor-se. Esses não são difíceis de descobrir: sempre em vista, em toda parte estão à mão.

Ensinou-te ele apenas a dispor um exército em ordem de batalha, ou também te ensinou onde e como importa usar as diversas maneiras de ordená-lo?

Quê, ensinou o quê!

Entretanto, mil circuns- tâncias em que não se deve formar nem conduzir as tropas do mesmo modo.

Por Júpiter! não me ensinou nada disso.

Pois bem, volta e interroga-o: se souber seu mister e não for impudente, corará de haver recebido teu dinheiro e ter-te despedido sem instruir-te.

Ep!

CapítruLO II

Topando de uma feita com um

homem que acabara de ser e feito

estratego, perguntou-lhe:

Por que, a teu ver, cnama:Ho- mero a Agamenão pastor dos povos? Não será porque, semelhante ao pas- tor que vela pela conservação das ove- lhas e a tudo provê que lhes seja neces- sário, deve o general zelar por que seus soldados gozem boá saúde, tenham tudo o de que precisem e estejam em condiçoes de realizar seu escopo? Ora, o escopo dos soldados é triunfar do ini- migo para viverem mais felizes. Aliás, quando Homero louva Agamenão, di- zendo: Era a um tempo bom príncipe e bom guerreiro, não é porque era bom guerreiro batendo-se com valor contra os inimigos e comunicando sua bravu-

ra a todo o exército, e bom principe não procurando exclusivamente para si os bens da vida, senão assegurando a felicidade daqueles sobre que reinava? De feito, o rei é eleito para zelar não por seu exclusivo bem-estar pessoal, mas pela prosperidade dos que o ele- gem. Todos os que se fazem soldados querem viver felizes, e se escolhem generais é para terem quem os conduza a essa meta. Ao general, pois, cumpre procurar o bem-estar dos que o elege- ram. E que mais glorioso que o cum- prir e que mais infamante que o olvidar este dever?

Assim é que, indagando qual deve ser o mérito do bom general, Sócrates de tudo o mais prescindia e outro fim não lhe deputava que felizes fazer seus comandados.

Ê,

oo

ro

CAPÍTULO HI

Não me esqueceu a conversa que com um cidadão recém-nomeado hi- parco!'º teve Sócrates.

Jovem interpelou-o pode- rias dizer-me por que ambicionaste ser hiparco? Sem dúvida não seria para marchar à testa dos ginetes: esta honra pertence aos arqueiros montados, que precedem aos próprios hiparcos.

Tens razão.

Tão pouco seria para te fazeres conhecer: os próprios louros são muito conhecidos.

Também é verdade.

Não seria porque esperas melho- rar a cavalaria da República e, quando necessários os préstimos dos cavalei- ros, à sua frente servir o Estado?

De fato.

está, por Júpiter! disse Sócrates um alvo glorioso, se fores capaz de atingi-lo. Enfim te elegeram para comandar cavalos e.cavaleiros?

Justamente.

Ora bem, antes de tudo dize-nos o que pretendes fazer para melhorar os cavalos. |

Mas isso não é coisa que me incumba. Cada. cavaleiro que trate de seu cavalo.

Entanto, se uns te trouxerem cavalos fracos dos pés ou das pernas, senão completamente faltos de forças;

Hiparco: comandante de cavalaria. (N. do E.)

outros, animais tão mal nutridos que nem possam andar; estes, cavalga- duras tão fogosas que não haja mantê- las quietas; aqueles, alimárias tão res- pingas que sequer possas dispó-las em fila, de que te servirá tua cavalaria? Como, à frente de semelhante corpo, poderás servir a República?

Tens razão, olharei o mais que puder pelos cavalos. |.

Quê! não te esforçarás também para melhorar os cavaleiros?

Está claro que sim.

Não principiarás por habituá- los a montarem mais lestamente a cavalo?

Naturalmente. Assim quando algum cair terá mais ensanchas de salvar-se.

Na hora do combate ordenarás aos inimigos que venham à planície onde estás acostumado a manobrar, ou procurarás exercitar teus cavaleiros em toda espécie de terreno onde se possa encontrar o inimigo?

Em verdade será melhor exerci- tá-los em todos os terrenos.

Não os afarás, outrossim, a lan- çarem o dardo a-cavalo?

Também será conveniente.

—— pensaste em estimular a cora- gem dos cavaleiros, incitá-los contra o inimigo, e assim aumentar-lhes a força?

108

Se ainda não o fiz, hei de fazê-lo.

Sabes como te fazeres obedecer dos cavaleiros? Que, sem isso, cavalos e cavaleiros, excelentes e vigorosos nada te adiantarão.

Dizes verdade. Mas qual, Sócra- tes, o melhor meio de submetê-los à obediência?

Notaste, sem dúvida, que em todas as ocasiões os homens consen- tem em sujeitar-se aos que reputam superigres. Numa doença, de bom grado se submetem ao médico que jul- gam mais hábil, numa travessia, escu- tam os que navegam aquele que consi- deram melhor piloto. Em agricultura, o que se tiver por agricultor mais experi- mentado.

É justo.

Pois bem, da mesma forma, na cavalaria obedecem os cavaleiros a quem lhes pareça melhor saber o que é preciso.

Então será suficiente, Sócrates, mostrar-me o melhor dentre eles para fazer-me obedecer?

Sim, de vez que lhes ensines também que da obediência depende sua glória e conservação.

Como ensinar-lho?

Muito mais facilmente, por Júpi- ter ! que se houvesse de ensinar-lhes ser o mal preferível ao bem. s

Decerto queres dizer que, além das outras qualidades essenciais, deve o comandante de cavalaria possuir o talento da palavra”

XENOFONTE

Então pensavas comandar a ca- valaria em silêncio? Não refletiste que os mais belos conhecimentos, os que nos prescrevem as leis, os que nos ditam os princípios que devem pautar- nos a vida e todas às outras ciências dignas de nota rios foram comunicados pela palavra? Que os melhores mestres são também os que melhor se servem da palavra, os que melhor conhecem as coisas mais úteis são os que delas me- lhor sabem falar? Não observaste igualmente que quando em Atenas se reúne um coro, qual o enviado a Delos, nenhum outro se forma alhures que com o nosso se agermane, cidade algu- ma é capaz de juntar tão belos ho- mens?

É verdade.

-— Contudo, os atenienses não so- brelevam os outros povos tanto pela

“beleza da voz, corpatura e vigor quan-

to pelo amor da glória, que mais que tudo excita às coisas belas e honrosas.

Também ê verdade.

Não achas, pois, que se se cui- dasse igualmente de nossa cavalaria, muito sobrepujaria ela a todas as outras, assim pela disposição e boa ordem das armas e cavalos que pela intrepidez nos perigos, se louvores e glória assim esperasse reportar?

É bem possível.

Então o que esperas? Faze por incutir em teus homens hábitos que em teu próprio bem reverterão e, por ti, ao dos outros cidadãos.

Por Júpiter ! hei de tentá-lo!

CapíTULO IV

Vendo um dia Nicomáquides, que voltava do congresso popular, inqui- riu-lhe:

Quais são, Nicomáquides, os estrategos eleitos?

Ah, Sócrates respondeu o interpelado não achas que os ate- nienses foram injustos? Em lugar de eleger-me a mim, que encaneci no ser- viço da milícia, fui lócago!! e taxiar- ca!2, recebi tantos ferimentos dos ini- migos (e ao mesmo tempo descobria e mostrava as cicatrizes), escolheram um Antístenes que jamais serviu. como hoplita, nunca se distinguiu na cavala- ria e sabe amontoar dinheiro.

Mas retorquiu Sócrates não é qualidade excelente, se lhe serve para obter o necessário aos soldados?

Os comerciantes disse Nico- máquides também são bons amea- lhadores, o que não quer dizer que pos- sam comandar um exército.

Tornou Sócrates:

Mas Antiístenes é também apai- xonado da glória, qualidade necessária ao general. Não viste que todas as vezes que foi corego a todos os demais levou a palma?

Por Júpiter ! Uma coisa é estar à

1 Lócago: entre os gregos, o comandante de com- panhia de cem homens. (N. do E.)

12 Taxiarca: comandante de uma divisão de infan- taria. (N. do E.)

testa de um coro e outra à frente de um exército.

No entanto, muito embora não saiba cantar nem instruir coros, teve Antistenes o talento de escolher os melhores artistas.

Encontrará também no exército quem por ele ponha as tropas em ordem de batalha e combata em seu lugar?

Se souber respondeu Sócra- tes encontrar e escolher os melhores em questões bélicas como o fez com os coristas, bem poderá levar também a palma guerreira. E com certeza terá mais prazer em gastar para vencer na guerra com toda a República do que nos coros tão-somente com sua tribo.

Então, Sócrates, dizes poder o mesmo homem ser a um tempo bom corego e bom estratego?

Digo que o homem que, na dire- ção seja do que for, souber fazer e